EM DELFOS
ROB MACGREGOR
Publicações Europa-américa
Digitalização e Arranjo
Agostinho Costa
Um antigo oráculo, uma mulher tentadora e calculista, um
jovem e promissor arqueólogo chamado Indiana Jones. Ao longo
de dezasseis séculos a Ordem da Pítia aguardou o
reaparecimento de um antigo oráculo do conhecimento sagrado de
Delfos. Um tremor de terra que rasgou as entranhas da terra
sobre as ruínas anunciou agora o seu regresso.
Dorian Belecamus, uma bela feiticeira, professora de
arqueologia, descobre os meios de o fazer mais do que
desenterrar relíquias do passado. É a sua oportunidade de se
apoderar do futuro do seu país, de se tornar no oráculo de
Delfos. Dorian encontrou o homem que a poderá ajudar a
consumar o seu esquema. É um jovem arrojado e destemido, e
sucumbe aos seus encantos. Chama-se Indiana Jones.
Nesta Colecção
Indiana Jones e o Templo Perdido
Indiana Jones e a Grande Cruzada
Era já lusco-fusco quando eles desceram dos montes para os
arrabaldes da capital. As luzes de Atenas piscavam lá em
baixo. Indy estava cansado, sequioso e esfomeado, mas mais do
que tudo isso, ansioso por chegar ao palácio. Era o único
sítio, sabia-o, que lhes restava para ficarem a salvo. Isso,
se conseguissem passar o portão de entrada. Conrad
interrompeu-lhe os pensamentos:
- Olhe o que está ali à frente! - disse.
Indy fez uma careta.
- Bonito. Uma barragem na estrada... Nikos inclinou-se para
a frente:
- Aposto que é aqui que isto começa a ser perigoso...
Indy franziu a testa, olhando para o impetuoso jovem.
- É, pelo menos, um dos sítios...
- Esperem - disse Conrad. - Vamos falar com eles.
Explicamos-lhes que temos informações importantes para o
rei...
Não tiveram tempo para discutir. Ainda estavam a cinquenta
metros da barragem na estrada quando um dos soldados apontou.
Vários outros ergueram as armas. Dispararam e o para-brisas
estilhaçou-se.
- Acho que eles não estão para conversas... - disse Indy.
Título original:
Indiana Jones and Peril at Delphi
Tradução de Paes Salvação
Indiana Jones e os
Perigos em Delfos
Rob MacGregor
Tradução portuguesa (R) de P. E. A. - 1991
Direitos reservados por
Publicações Europa-América
Apartado 8
2726 MEM MARTINS CODEX
PORTUGAL
Agradecimento Especial a Lucy Autrey Wilson da Lucasfilm,
que se recusou a desistir quando a linha da vida de Indy se
começou a desfiar...
"Os mais valentes são indubitavelmente aqueles que têm a mais
clara visão daquilo que têm na sua frente e no entanto, apesar
disso, avançam ao seu encontro."
Tucídides
Índice
Capítulo i - Brincadeiras de colégio ....... 12/00
Capítulo II - Heróis Enforcados ............ 21/00
Capítulo III - Lady Gelo ................... 30/01
Capítulo IV - Dada e Jazz .................. 38/01
Capítulo V - Encontros ..................... 46/02
Capítulo VI - Sobre os Carris .............. 53/02
Capítulo VII - Intriga em Atenas ........... 60/02
Capítulo VIII - Jornada para Delfos ........ 68/03
Capítulo IX - O Regresso ................... 76/03
10 - Ascensão da Divina Linfa .............. 80/03
Capítulo XI - Intriga de Taberna ........... 88/04
Capítulo XII - Na Neblina .................. 98/04
Capítulo XIII - Leituras .................. 106/05
Capítulo XIV - O último Apoio ............. 116/05
Capítulo XV - Manobras .................... 126/06
Capítulo XVI - Recepção Real .............. 135/06
Capítulo XVII - À Volta da Fogueira ....... 146/07
Capítulo XVIII - Com Guarda à Vista ....... 155/07
Capítulo XIX - Histórias de Encantar ...... 163/08
Capítulo XX - Nova Subida ................. 174/08
Capítulo XXI - Parceiros Parisienses ...... 181/09
Capítulo XXII - O Onfalo .................. 190/09
Capítulo XXIII - A Fuga de Delfos ......... 199/10
Capítulo XXIV - No Palácio ................ 209/10
prólogo
Delfos, Grécia - 1922
Indy estava suspenso na escuridão como uma lua em quarto
minguante, suspenso por uma corda que Lhe queimava já o peito
e os sovacos. Ouviu gritos acima de si, mas não conseguiu
perceber as palavras. Quando inclinou a cabeça para trás, a
abertura lá em cima não dava mais luz do que uma estrelinha a
brilhar.
- Dorian! - gritou. - Manda-me outro archote!
A sua voz ecoou para cá e para lá de encontro às paredes
rochosas da fenda; ficou sem saber se ela o teria ouvido ou
não.
Esfregou a cara de encontro ao ombro e espreitou para baixo.
O negrume estava em toda a parte, como um véu de tinta opaca
que o desorientava e estonteava. Sentiu-se invadir por uma
náusea.
Apertou com força os olhos e desviou as mãos um nadinha
para cima, na corda, com o descontrolado receio de que no
segundo logo a seguir ela se fosse partir e ele fosse como o
anterior archote por aquela escuridão sem fundo.
Não havia espaço, e não havia tempo. Havia apenas a força da
gravidade, a sucção do vazio. Não devia ter ficado a balançar
por mais de alguns minutos, mas parecia-lhe que estava ali
pendurado havia horas, à espera da luz que o viesse salvar.
- Jones! - gritou Dorian.
O seu nome reboou no abismo. Olhou para cima e viu uma luz
oscilante que vinha a dançar para ele. Acorda que a segurava
enrolava-se e desenrolava-se como uma serpente com a língua a
soprar fogo.
Indy encolheu-se quando o archote lhe passou junto à cabeça
e depois deitou a mão à corda, apanhando a ponta do archote.
Agarrou-o com força, com a respiração a saltar-lhe do peito
como que aos soluços. Espreitou para a parede na sua frente,
já sem ter a certeza que fosse aquela. Talvez ele estivesse
muito abaixo. Deu dois esticões na corda e Doumas, o ajudante
de Dorian, baixou mais meio metro. Nessa altura ficou mesmo em
frente da placa. Estava saliente na parede como uma lápide
tumular num cemitério, e ligeiramente inclinada para baixo.
Tirou da mochila um grampo de quatro pontas e cravou-o com
um martelo na parede.
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Ia a colocar o archote nele quando qualquer coisa lhe saltou
à vista. Ergueu o archote diante da placa e inclinou-se para
diante para ver melhor.
Tinham-lhe dito que a inscrição devia estar completamente
empastada de porcaria e que teria de ser cuidadosamente limpa
logo que fosse trazida para a superfície. Mas aquilo que tinha
na sua frente eram linhas paralelas de hieróglifos que eram
não só claramente reconhecíveis como também eram escritos em
grego antigo, uma língua que ele sabia ler.
Os olhos saltitaram-lhe pelas palavras, a devorá-las. Sentiu
uma excitação que quase lhe fazia um nó nas tripas. Tornou a
pôr o archote no seu suporte da parede e tirou um bloco de
apontamentos de um bolso lateral do saco. Rapidamente rabiscou
a tradução.
Não podia crer. Aqueles loucos filhos da mãe sabiam do que é
que estavam a falar...
Teve vontade de gritar lá para cima, mas decidiu conservar
as suas energias. Tornou a meter o bloco de apontamentos no
saco, tirou a rede e cobriu cuidadosamente com ela a placa,
antes de amarrar as pontas a um gancho na ponta da corda.
Ia começar a martelar na parede para soltar a placa, quando
subitamente a corda teve um esticão contra o seu peito. Caiu
uns centímetros; a corda apertou mais debaixo dos braços.
- Hei! Que diabo é que se passa aí?
A sua voz reboou de encontro às paredes da fenda. Agora ele
tinha ficado mesmo por baixo da placa e viu marcas de escopro
mesmo por baixo da sua orla inferior. Alguém já ali tinha
estado e tinha não só limpo a inscrição como tentado arrancar
a placa.
Mas quem?
A corda tornou a esticar. Um sinistro estalido encheu a
fenda e Indy reconheceu o que era: a corda estava a
desfiar-se. Tirou o archote do suporte na parede e levantou-o
tentando descortinar qualquer coisa. Oh, Cristo!
"Calma!" pensou. Colocou o archote na boca e deitou as mãos
à corda, mais acima do sítio em que se estava a desfiar. Ouviu
um estalido, um som seco, terrível, que ecoou na fenda. Os
seus dedos como garras cravaram-se na corda.
Ficou pendurado por uma mão, com a ponta desfiada da corda a
roçar-lhe pelo pulso. O archote chamuscou-lhe os pêlos do
braço.
Tinha o rosto contraído numa careta, a tentar esticar a
outra mão acima da cabeça. A testa cobriu-se-Lhe de suor que
lhe escorria para os olhos.
Sentiu um forte esticão vindo lá de cima, e a corda
escapou-se-lhe de entre os dedos. Tentou desesperadamente
agarrá-la com a outra mão, mas o seu punho desesperado
fechou-se na escuridão do ar. Caiu.
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CAPÍTULO I
BRINCADEIRAS DE COLÉGIO
Chicago - dois anos antes
Era noite fechada e tudo estava em silêncio quando os
dois homens desceram o estreito carreiro, com corpos inertes
às costas. A água da chuva de um aguaceiro de Primavera
juntara-se em poças retidas em covas escondidas, ocultas na
sombra dos altos prédios de um e de outro lado. Iam a
aproximar-se de uma esquina e para lá dela ficava o terreno
relvado que era o seu destino.
Um dos homens era alto e espadaúdo, e gingava ao andar, como
se estivesse constantemente a reajustar o peso do corpo que
transportava. O outro era baixo e musculoso. Tinha rolos de
corda pendurados em ambos os lados do cinto, e deslocava-se
com a facilidade de um escalador de montanhas. Subitamente
tropeçou numa raiz e desequilibrou-se para o lado, quase a
cair desamparado. Ágil, sim, mas também atacado por ocasionais
espasmos de falta de jeito.
- Raios partam! - explodiu quando se conseguiu equilibrar.
Aquilo estava prestes a acabar e ele estava a ficar nervoso.
- Estás bem? - perguntou o mais alto.
- Fino! Vamos parar um minuto. Estou com maus
pressentimentos a respeito disto...
O mais alto deixou cair sem cerimónia o corpo dos ombros, e
tirou do bolso do casaco um frasco. Ofereceu com um gesto do
braço, mas o seu companheiro abanou a cabeça.
- Não? - O mais alto encolheu os ombros e bebeu um largo
trago.
- Vai devagar com isso! - sibilou o homem da corda.
- É para acalmar...
- Mais um quarto de hora e acaba-se isto... - disse o homem
da corda. Abraçou as sombras dos prédios, avançando
deliberadamente, sempre com o corpo atravessado aos ombros...
Quando chegou à esquina olhou para um lado e para o outro.
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Apesar da sua preocupação, estava disposto a concluir a sua
missão e queria que todos os pormenores fossem perfeitos.
Voltou-se a fazer sinal ao seu companheiro, mas o homem
estava já a seu lado, com o outro corpo atirado sobre os
ombros. Desceram um passeio molhado pela chuva, com o reflexo
dos candeeiros a brilhar no chão húmido. Pararam quando
chegaram ao primeiro candeeiro e deixaram cair os corpos no
chão relvado. Quase invisíveisjunto a uma cerca de arbustos
ali perto estavam dois outros corpos que ali tinham deixado
meia hora antes.
- Toca lá a tua música! - disse o mais alto.
- Prepara o Paine. Quero-o primeiro a ele. E vê lá se fica
com o chapéu direito...
Soltou uma das cordas que trazia no cinto. A corda tinha na
ponta um nó de enforcado, e com um gesto airoso do braço,
atirou-a por cima do candeeiro. O laço ficou a dançar sob a
pálida luz.
- Óptimo. Passa-lho pelo pescoço e toma cuidado que o
letreiro com o nome não caia...
O mais alto ergueu o corpo e passou-lhe o laço pela cabeça.
Quando este ficou justo tirou o colete de Paine e um chapéu de
três bicos e colocou-Lho firmemente na cabeça. O outro homem,
entretanto, tinha trepado ao candeeiro e agora estava a içar o
corpo para o seu lugar. Atou rapidamente a corda e saltou para
o chão.
- Ena, ficou óptimo! Agora só faltam mais três...
O mais alto levou outra vez o frasco à boca. E mais outra
vez fez um gesto a oferecer ao companheiro.
- Agora a seguir fazemos o Georgie... - disse o outro em
resposta. - Jesus, nem quero pensar qual vai ser a reacção
amanhã de manhã...
Um vulto sem cabeça rastejou debaixo de uma capa escura como
um mágico a lutar para se libertar de correntes e de cadeados.
Depois apareceram o alto de uma cabeça, os sobrolhos e um
rosto a sair daquele negro casulo. Endireitou a toga a cobrir
as pernas nuas, e mirou-se num espelho de corpo inteiro.
Passou a mão pela densa cabeleira que estava apartada ao meio,
e depois colocou sobre a cabeça o tradicional barrete
universitário de topo quadrado com a borlinha pendurada.
Aelaborada e litográfica inscrição do seu diploma dizia que
ele era Henry Jones Júnior. Mas aqueles que o conheciam
chamavam-lhe Indy (abreviatura de Indiana) nome que usara
desde a adolescência. Isso do «Henry Júnior» estava reservado
para documentos oficiais, e para seu pai que lhe continuava a
chamar Júnior.
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Na realidade, a única marca visível da sua infância era uma
cicatríz no queixo que tinha ganho numa zaragata com uns
ladrões com que deparara numa caverna quando descobrira uma
relíquia da conquista espanhola.
Mas até mesmo o seu pai, se ali estivesse, veria que ele já
não era uma criança. Era simpático, embora com um aspecto um
pouco rude, com olhos claros e determinados, cor de avelã,
ombros largos e músculos de um jogador de rugby. Não que ele
jogasse rugby; senhor de uma admirável coordenação de
reflexos, preferia a equitação e o
esqui a desportos como o
futebol ou o basebaal.
Era também perito com um chicote, uma velha habilidade de
que raramente falava. Não que isso de momento tivesse qualquer
interesse.
"Formado. Diplomado pela Universidade...", disse para
consigo e sorriu à imagem que aquelas palavras evocavam, mas o
seu sorriso mostrava mais alguma coisa que uma sugestão de
ironia.
Formara-se apesar de tudo. Tinha faltado a tantas aulas no
Outono passado; as suas notas tinham descido na vertical e
quase que tinha sido expulso. É que durante várias semanas ele
tinha simplesmente perdido o interesse pela sua educação
formal ao mesmo tempo que andara a arranjar outro tipo bem
diferente nas ruas.
Ele e o seu companheiro de quarto, Jack Shannon tinham
passado noites a fio em tabernas de piano da pipa na Margem
Sul, a ouvir músicos com nomes como Smith Pinheirinho, o coro
Clarence Lofton, o Pinta Vermelha e Davenport Vaca Brava
martelarem as teclas de pianos em ruínas.
Chamavam àquilo «ano da pipa», porque os pequenos bares onde
havia música dessa serviam bebidas tiradas directamente das
pipas. Ou, pelo menos, era o que faziam até ter começado a Lei
Seca, havia alguns meses.
A maior parte dos músicos de jazz tinham vindo de Nova
Orleães - a pátria do jazz, nos últimos cinco anos - e cada
semana chegavam mais.
As condições de vida para os negros eram melhores em
Chicago, havia empregos em clubes onde podiam ganhar cinquenta
dólares por semana comparados com o dólar por noite que
ganhavam em Nova Orleães. E em Chicago havia estúdios de
gravação que faziam discos de jazz.
Quando osbares fechavam, Indy e Shannon iam para reuniões de
roda livre em casas alugadas, onde a música continuava até de
madrugada. Shannon trazia a sua trompete e tocava com tipos
como Johnny Dunn e Jabbo Smith.
Shannon era não só um dos poucos brancos que Indy já vira a
tocar jazz como era sem sombra de dúvida o único aluno de
Economia que se dedicava à música. A maior parte dos músicos
de jazz das tabernas de piano da pipa pouca, ou nenhuma,
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instrução tinham: não sabiam ler música, não seguiam quaisquer
regras, nem as conheciam, nem se ralavam com isso. Nem sequer
sabiam que a sua música era fora do vulgar, e tudo isso
contribuía para a sua força e para a sua integridade.
- Ei! Estás pronto? Disseste que querias estar lá cedo, não
foi?
Ergueu os olhos, despertando daquele sonhar acordado. Os
cabelos ruivos de Shannon estavam mais despenteados do que
nunca. Tinha a toga dobrada no braço e vestia um casaco e
gravata. O casaco estava muito curto nas mangas, mas Shannon
não se ralava muito com isso. Tinha o costume de balançar a
cabeça para a frente e para trás quando estava nervoso, e era
precisamente isso que estava naquele momento a fazer. E isso
não era nada de estranho: Shannon parecia estar sempre em
pulgas, como se não estivesse verdadeiramente preparado para
este mundo. As únicas alturas em que parecia estar
perfeitamente à vontade era quando estava a tocar trompete.
Nessas alturas todo o seu corpo desengonçado parecia fluir com
a música e mal se reparava nos seus enormes pés ou no seu
comprido pescoço onde avultava uma enorme maçã de Adão.
Indy tornou a dar uma vista de olhos a si próprio e depois
tirou o barrete. Estavam a meia dúzia de quarteirões do enorme
relvado onde iria ter lugar a cerimónia; daía poucos minutos
estariam lá.
- Tá bem, deixa-me vestir. Ainda não pus as calças...
- Desafio-te a ires assim mesmo receberes o diploma de
formatura sem calças, pá!
- Não, obrigado, não vejo qualquer razão para isso... -
olhou para Shannon pelo espelho, sabendo já que ele lhe ia
fazer uma proposta.
- Digo-te isto: compro-te uma garrafa da rija. Apanhamos uma
tosga.
Indy encolheu os ombros. C'os diabos; com a toga vestida
ninguém daria por nada...
- Tá bem. - Na verdade ele não estava muito ansioso com a
cerimónia; o que queria era ver aquilo acabado. E não ter as
calças vestidas até era capaz de tornar a coisa gira.
- Parece que já estou a ouvir o Mulhouse... - disse quando
iam a sair de casa. - Vós sois uma nova geração: uma geração
de esperança... - perorava com uma voz profunda, autoritária,
a imitar o director da universidade. - "... A guerra acabou:
ide para o mundo e mostrai aos outros, que são menos
afortunados, que ajuventude da América é feita de indivíduos
dedicados ao trabalho, produtivos, que conseguem sempre
concluir a sua obra, qualquer que essa obra seja..."
"Sim, seria qualquer coisa assim", pensou. Mas não: a
cerimónia não era a única razão porque Indy queria estar lá
cedo.
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- Como é que é isso sem calças? - perguntou Shannon quando
eles iam a descer a alameda bordada de carvalhos.
- É fresco e arejado. Devias experimentar...
Indy esperava que ele se risse e dissesse qualquer piada,
mas Shannon ficou com um ar pensativo.
- O teu pai vai lá estar?
Indy abanou a cabeça:
- Está muito ocupado. Raios, nem sequer deu qualquer
desculpa...
- Verdade?
- Pois! Sabes como é: o meu pai, o notável perito nas lendas
do Santo Graal, é uma pessoa com muito pouco tempo para seja
lá o que for que não pertença às suas investigações
escolásticas...
- E foi sempre assim?
- Só depois da morte da minha mãe, quando eu era miúdo.
Desde então começou a ficar longe de mim, fosse o que fosse
que eu fizesse. Acho que me licenciei em linguística só para
ver se lhe despertava a atenção...
Shannon olhou para ele.
- Mas como é que a linguística lhe podia chamar a atenção?
- Porque desde que me conheço que o ouço dizer que á língua
é a chave para o conhecimento da Humanidade. E depois Como é
que ele espera que eu compreenda a Humanidade quando eu nem a
ele consigo compreender?
- Olha, o que eu queria era que a minha família ficasse em
casa. Raios, eu nem sequer me queria formar...
- Que disparate é que estás para aía dizer, Jack. Ficas com
um emprego e a fazer bom dinheiro...
Shannon tinha sido contratado como contabilista por uma
firma de transportes de Chicago, com o ordenado de duzentos e
cinquenta dólares por mês, uma quantia que parecia
astronomicamente grande. Quando Indy lhe perguntara como é que
tinha arranjado aquilo, a única resposta de Shannon fora "...
relações de família".
- E ainda ficas com tempo para tocar nos clubes - continuou
Indy. - Olha lá. lembras-te daquela noite em que fomos ao
Royal Gardens ver o King Oliver? Autênticojazz crioulo de Nova
Orleães.
E está tudo a mudar-se agora para cá, mesmo aqui para as
nossas traseiras. O que é que mais queres?
Shannon não deu qualquer resposta quando atravessaram a rua.
- Tu vais tocar, não vais? - perguntou Indy, olhando para um
carro Tin Lizzie novo que ia a passar.
- Fiz um acordo.
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Indy reparou na expressão sombria do seu rosto.
- Que espécie de acordo?
- Tenho de deixar de tocar jazz. Foi o preço do emprego...
- Mas isso é uma loucura! Porquê?
- Não é música respeitável, Indy.
Indy sabia que o jazz era difícil de aceitar. E muitos
brancos pensavam que o ritmo sincopado, as notas acentuadas
quando menos se esperava e o estilo de improvisação era...
música selvagem.
É uma coisa "... leva o ouvinte a mover-se de forma estranha
e sugestiva...", ouvira ele um comentador de rádio dizer um
dia.
- Isso é uma safardanice, Jack, porque eu acho que tu podes
ser tão bom como o Earl Hines ou o Johnny Dodds. Vais ver: as
coisas vão mudar assim que a música pegar...
- Não sei se isso alguma vez acontecerá... - Shannon
balançou o corpo para um lado e para o outro, com os braços
compridos a marcarem o seu próprio ritmo. - Sabes, eles estão
a pôr as culpas no jazz por causa daquelas zaragatas na Margem
Sul. Consegues acreditar nisso?
- As zaragatas não têm nada a ver com o jazz...
No entanto as manifestações raciais eram um ponto nevrálgico
num país que se estava a sentir feliz com a vitória dos
Aliados. Faziam um triste contraste com as grandes paradas que
desciam triunfantes a Quinta Avenida a celebrar o papel da
América no triunfo.
- É que não é música de marchas, Indy. Percebes o que eu
quero dizer. Ninguém se sente um grande herói ao ouvi-la. E é
nisso que reside o problema. Vem de um sítio diferente; tal
como eu...
Indy deu uma risada:
- Podes sempre ir comigo para a Europa, e começar uma vida
nova...
- Não penses que eu não tenha pensado nisso. Tenho uma
inveja dos diabos. E vais adorar...
Paris, Indy tinha a certeza, devia ser fascinante, mas não
tinha a certeza de vir a tornar-se um perito em línguas
mortas.
- Imagino que sim. Mas estudar velhos manuscritos em
bibliotecas não me parece que seja a minha ideia de uma vida
de excitação...
- estás sempre a dizer isso. Por que é que o fazes?
- Porque era uma oportunidade, e não a quis perder; é
tudo...
Simples como isso!
Shannon virou de repente para uma azinhaga e fez um gesto a
Indy para o seguir.
- Onde é que vais?
- Anda! - disse com voz abafada. - Eu disse que te comprava
uma garrafa. Vamos arranjar uma para levarmos. Há aqui um gajo
que a arranja.
- Não sei, Jack... - A Lei Seca era uma fraca piada mas Indy
estava ansioso por chegar à faculdade.
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- É só um minuto. Anda?
Encolheu os ombros e seguiu-o. Embora os dois se dessem bem,
tinham opiniões muito diferentes quanto ao consumo e à atitude
a respeito do álcool.
Shannon bebia imenso desde os 17 anos, e a Lei Seca não lhe
tinha diminuído os hábitos. Indy, por outro lado, aguentava
mal o álcool e não tinha grande interesse pela bebida.
A meio da azinhaga Shannon abriu uma cancela e foi pelo
carreiro até uma porta nas traseiras. Bateu na porta com os
nós dos dedos o código universal a dizer "sou eu":
Toc-toc-toc-toc. Um cão respondeu de dentro de casa, a latir.
Shannon olhou para trás, para Indy como que para se certificar
que ele ainda ali estava.
Momentos depois um homem baixote de ar mal disposto, abriu a
porta. A cara apresent ava um a barba de dois dias e o cabelo
branco estava desgrenhado como se tivesse estado a dormir. Deu
um grito ao cão para o calar e perguntou o que é que queriam.
- Uma garrafa de pinga, Elmo; o que é que havia de ser? -
disse Shannon com uma careta.
O homem fez-lhes um gesto para entrarem. Indy cheirou-lhe
o
uísque no hálito assim que entraram no caos da cozinha.
Um cão rafeiro de pêlo áspero rosnava atrás do dono. A tinta
verde das paredes estava a cair em vários sítios, deixando à
mostra o velho papel que a forrara em melhores tempos. Uma das
portas do arm ário estava caída no ch ão, onde parecia ter
caído há muito tempo, e a casa tresandava a jornais ensopados
em urina a um canto.
- Só uma garrafa, depressa, Elmo. Estamos atrasados...
- É bem feito... - olhou para trás de Shannon e enrugou a
testa ao ver a toga negra de Indy.
- Quem é esse gajo, um juiz?
- Tu não conheces um homem que vai ser doutor? Vamos agora
para a cerimónia do grande dia...
- Ai é? Aquele professor que às vezes me visita diz que eu
devia ter um diploma honorário; que tal? - Elmo riu-se,
deixando ver os dentes alinhados que pareciam uma cerca que o
sol tornara amarela.
- Diploma de quê, de uísque marado? - perguntou Shannon.
- Não, senhor; de química!
Indy riu-se, mas sentia-se pouco à vontade. E bem desejaria
que não tivessem ido ali.
- Tens ou não, Elmo? Não podemos ficar aqui o dia todo...
- Cinquenta cêntimos.
- Cinquenta? - Shannon ergueu os braços, indignado pelo
preço. - Que tal um desconto para os novos doutores? Vamos lá,
Elmo!
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- Cinquenta cêntimos! - respondeu Elmo, cruzando os braços
sobre o peito.
- Pronto, pronto! - Shannon voltou-se para Indy:
- Tens aí25 cêntimos?
- E a nossa aposta?
- Eu pago-te depois, não tenhas medo!
Indy rebuscou nos bolsos. Ganhava algum dinheiro para gastos
dando lições de latim e de francês aos putos do liceu, mas
nunca era lá grande coisa. Deu de má vontade a Shannon os 25
cêntimos. Elmo meteu as moedas no bolso, atravessou a cozinha
e desceu à adega. Indy olhou para o relógio.
- Espero que ele não se perca lá em baixo...
Shannon fez um gesto impaciente com a mão, a minimizar a
preocupação de Indy.
- Descansa, daqui a nada estamos lá...
Indy reparou que o cão tornara a arreganhar os dentes e
recomeçara a rosnar.
- Que é que se passa? - resmungou Indy.
Shannon estendeu um braço para o cão.
- Calado, rafeiro!
O cão, contudo, desatou a correr, passando por eles com um
salto, direito à porta onde alguém começou a bater com força!
Shan non olhou para a entrada dacave, encolheu os ombros e
perguntou:
- Quem é?
- A tua mãe! Abre lá, quero falar com o Elmo!
- Quem está aí? - perguntou o velho contrabandista a sair da
cave. Entregou a garrafa a Indy, e o diplomado em perspectiva
enfiou-a no barrete.
A porta abriu-se e no limiar surgiu um homem com um casacão
preto, gravata e chapéu. O rosto era todo ele uma máscara dura
e ameaçadora, e na mão tinha uma pistola.
"Oh, diabo!", pela espinha de Indy perpassou um arrepio.
Elmo deitou um só olhar ao novo visitante e correu para a
porta dafrente. O homem gritou-Lhe que parasse mas Elmo
continuou a correr. O homem pôs-se também a correr,
atravessando a casa, com o cão a latir-lhe aos calcanhares.
Indy e Shannon trocaram um olhar e correram para a porta da
cozinha. Ao fundo dos degraus Indy tropeçou na beca e caiu de
joelhos. Pôs-se atarantadamente em pé e correu atrás de
Shannon que já acelerava a atravessar o pátio.
Indy teve vontade de rir; tinham conseguido fugir, escapando
ao perigo, e até tinham conseguido o uísque. Mas nesse momento
Shannon parou de repente e Indy foi chocar com ele. Junto à
cancela estavam dois polícias prontos a agarrá-los.
- Eh! Vocês dois aí!
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- Merda!
Shannon deu meia volta, atravessou o pátio a correr e meteu-
-se entre os dois prédios. Indy não esperou por indicações:
foi atrás, arregaçando a toga. Passou por Shannon ainda iam a
meio da rua. correram, atravessando a fugir uma porção de
pátios e intervalos entre as casas. Tinha quase a certeza que
tinham escapado quando percebeu que tinham entrado para um
pátio rodeado por uma cerca de madeira de dois metros e meio
de altura.
- Raio! - sibilou.
- Cuidado! - gritou Shannon atrás dele.
Indy voltou a cabeça de um sacão, à espera de ver os
polícias. Em vez disso eram dois doberman de fila que corriam
para eles.
- Jesus! - deixou ele escapar. Deitou fora a garrafa, enfiou
o barrete na cabeça e marinhou pela vedação acima. Quando
estava mesmo a passar uma perna para o outro lado, sentiu-se
puxado para baixo. Um dos doberman tinha-lhe filado a toga. O
cão rosnava e abanava a cabeça para um lado e para o outro, ao
mesmo tempo que Indy lutava para se libertar. Baixou-se um
bocado e deu um esticão para cima, arrancando a toga da boca
do cão. Saltou para o outro lado da vedação, deixando-se cair
no chão onde Shannon já estava à espera dele. Atravessaram
outro pátio, esgueirando-se por detrás de uma garagem e depois
pararam de repente: os dois polícias estavam ali parados na
azinhaga com as pistolas apontadas.
- Bem tentado, rapazes. Parados! Aí mesmo! - disse o polícia
mais baixo.
Indy sentiu-se gelar. Agora estavam mesmo metidos num
sarilho, e o sarilho nem sequer era seu.
- Billy? - disse Shannon, inclinando-se para a frente nos
calcanhares. - És tu?
- Jesus... - murmurou o polícia. - Jack Shannon! O que é que
andas aqui a fazer?
- Eu podia perguntar-te o mesmo!
- Fomos ali buscar uma garrafa. Vamos para a nossa festa da
formatura...
- Diabo, Shannon! - Olhou para o companheiro -, É o irmão do
Harry... - Fez um aceno de cabeça para o lado:
- Cavem já daqui para fora, e vejam lá com quem é que fazem
negócios daqui em diante!
- Obrigadinho, Billy!
- Não me agradeças, Jack. O Harry vai ficar a saber disto,
podes ter a certeza...
Indy não fazia a mínima ideia do que é que o irmão de
Shannon teria a ver com o polícia. Ao dirigirem-se
apressadamente para a Universidade, a toga rasgada de Indy
drapejava ao vento como uma bandeira.
- O teu irmão não é polícia, pois não, Jack?
O rosto de Shannon sombreou-se:
19
- Não, mas tem amigos. Este Billy Flannery é vizinho nosso.
- Mas o que é que eles andavam a fazer?
- A acabar com o negócio de um concorrente de meia tigela, o
Harry tem um território a conservar...
- Os polícias trabalham para o teu irmão?
- Acorda, Indy! Todos eles trabalham para a organização.
Harry é membro honorário. É de família...
20
CAPÍTULO II
HERÓIS ENFORCADOS
A parte detrás da toga de Indy estava feita em tiras, e
manteve-a mais ou menos direita com uma das mãos quando
passaram os portões da universidade. Mas isso pouco ou nada o
preocupava. Sentia-se feliz por se ter libertado dos polícias,
dos bandidos e dos cães. Ia realizar a sua formatura e isso
era a única coisa que contava.
Olhou para a enorme bandeira que tremulava ao vento. Dizia:
«CELEBRAI O DIA DOS PAIS FUNDADORES - 23 de Maio». À vista
daquilo o estômago deu-lhe uma volta e aquela sensação de
alívio esvaiu-se. Com tudo o que acabara de acontecer tinha-se
esquecido completamente da noite anterior. E aquilo que antes
lhe parecera uma forma notável de acabar a sua carreira
universitária já não parecia tão tentadora.
Quando chegaram ao fim da alameda que ia ter ao enorme
relvado, pararam. Uma pequena multidão de estudantes de togas
pretas e suas famílias estava parada junto ao passeio. Acima
deles, balançavam uns corpos na ponta de cordas amarradas aos
candeeiros. Do sítio onde estavam, os manequins enforcados
pareciam autênticos cadáveres humanos vestidos ao estilo dos
antigos revolucionários americanos, trajes completos de
camisas e coletes, calÇas justas e chapéus de três bicos.
- Ena, olha para isto! - disse Shannon com um sorriso de
malícia -, O George, os dois Tom e o Benji...
Indy olhou absorto para o quadro. O entusiasmo tinha mesmo
desaparecido.
- Não sei. À luz do dia parece grotesco. Acho que nunca me
convenci de que ainda aqui estariam...
Se fosse um dia de semana, com certeza que os trabalhadores
do serviço de conservação da universidade já os teriam tirado
para baixo e levado dali para fora. Mas era sábado, era manhã
cedo e era dia da formatura, e assim toda a gente ali parava e
ficava a olhar.
- Olha, cá por mim acho bestial! - disse Shannon a rir,
dando-lhe uma palmada nas costas. - Conseguimos! - Não havia
na sua voz nem sombras de preocupação.
- Bom... ainda bem.
21
- Olha a imprensa está ali. É a nossa oportunidade de lhes
di zer tudo...
E fora de facto essa a sua intenção original. Agora,
contudo, já não estava lá muito seguro de querer receber os
créditos pelo feito e muito menos de se gabar disso. Talvez
não tivesse sido assim tão boa ideia transferir aquela partida
da noite anterior ao Dia dos Pais Fundadores para a véspera da
formatura. Talvez ninguém chegasse a compreender isso...
Shannon deu-lhe uma palmadinha num ombro:
- Ali estão os meus pais. Atéjá!
Indy viu-o desaparecer na multidão e depois dirigiu-se para
o local onde os fotógrafos estavam a tirar fotografias a Tom
Jefferson. Várias pessoas falavam todas ao mesmo tempo, e as
suas pa lavras eram como socos que Lhe estivessem a dar na
barriga.
- Quem é que poderia ter feito isto? - ouviu um perguntar, -
E com que finalidade?
- Não tem finalidade nenhuma!
- É horrível!
- Deve ter sido um bolchevista. Ouvi dizer que há cá muitos.
- Talvez fosse um realista. Tenho a certeza que deviam odiar
o Franklin...
- Um inglês louco!
Ninguém parecia achar graça nenhuma àquilo, nem sequer
abarcar o seu significado. Agora já quase se não podia conter.
Teve ganas de lhes gritar que aquilo era precisamente a sua
interpretação do Dia dos Pais Fundadores e perguntar-lhes se
eles não percebiam o que é que aqueles homens significavam...
- uma vergonha para a universidade! - trovejou uma voz
autoritária debaixo do outro candeeiro. - Um ultraje da pior
qualidade!
Mallery Mulhouse, o director da universidade estava rodeado
de repórteres, estudantes e pais. Tinha um rosto mais severo
do que costume e a testa perlada de suor.
O Dia dos Pais fundadores era uma ideia sua. Era um dia
repleto de discursos e manifestações patrióticas e embora
ninguén fosse obrigado a participar era considerado grosseria
se os alunos lhe não dessem importância.
Durante os dois primeiros anos quando Indy ainda dormia numa
camarata, o chefe do andar tinha tido a responsabilidade de
levar todos a fazer qualquer coisa ou qualquer projecto para a
festa como balões, grinaldas e coisas semelhantes.
No ano anterior, quando já se mudara para um apartamento na
faculdade, tinha sempre evitado o Dia dos Pais Fundadores. Mas
naquele ano Mulhouse tinha exigido que todos os alunos de
história ou de inglês escrevessem um trabalho sobre os Pais
Fundadores, sob pena de chumbarem se não o fizessem.
22
Indy tinha-se submetido de má vontade; mas à sua maneira.
- Quem quer que seja que tenha enforcado as efígies dos
fundadores da nossa pátria nos candeeiros da nossa academia,
numa academia de estudos superiores, é, sem sombra de dúvida,
um criminoso desequilibrado e perigoso! - continuou Mulhouse.
- Eu considero isto um acto de verdadeira sedição, uma afronta
a tudo que a nossa pátria representa!
Começou a formar-se uma ruga na testa de Indy à medida que
se ia aproximando de Mulhouse. Na verdade, tinha esperado que
houvesse uma controvérsia; e até desejara que a houvesse; mas
nunca pensara que Mulhouse considerasse aquilo uma espécie de
crime de lesa-pátria.
- Não acha que pode ter sido uma partida de estudantes -
perguntou um dos jornalistas.
O rosto de Mulhouse cobriu-se de indignação, ficando ainda
mais vermelho do que já estava. Respondeu:
- Se foi uma brincadeira, é de extremo mau gosto. Quem quer
que tenha estado por detrás disto será descoberto, e sofrerá o
devido castigo!
- O senhor quer dizer que enforcar esses bonecos se pode
considerar um acto criminoso? - perguntou outro jornalista.
- A polícia da universidade já foi notificada, e os nossos
advogados estão neste preciso momento a estudar as implicações
legais que isto possa ter. Neste momento não ponho de parte
nenhuma hipótese...
- Dr. Mulhouse, isto que estamos aqui a ver não será apenas
uma exemplificação da liberdade de expressão que tão
professada foi pelos nossos Pais Fundadores? - perguntou um
aluno que Indy reconheceu como editor dojornal escolar.
Mulhouse apontou para o George atrás dele, que um dos seus
assistentes estava agora a tirar da corda pendurada no
candeeiro:
- Jovem, enforcar a efígie do primeiro presidente da nossa
pátria num candeeiro de uma universidade não é um exemplo de
liberdade de expressão. Pelo contrário, é uma ameaça a essa
mesma liberdade!
Raios! A coisa não ia nada bem. Indy olhou para baixo, para
o barrete da formatura que tinha na mão e ficou a pensar se
afinal lhe iriam recusar o diploma. E depois? Azar o seu era o
que era. Devia ter pensado nisso na noite passada.
- Que é que achas disto, Jones?
Voltou-se e viu Ted Conrad, o seu professor de história.
Andava pelos 30 anos, e tinha um enorme bigode de guias, à
antiga; era o instrutor de quem Indy mais gostava.
23
Indy encolheu os ombros e deu um a olh ada ao boneco mais
próximo:
- Deram-se a um trabalho e tanto...
- A mim parece-me o primeiro tiro contra o Dia dos Pais
Fundadores...
Nos lábios de Indy desenhou-se um meio sorriso:
- Acho que pode muito bem ser...
Gostava daquele professor pela sua atitude franca e também
pelas suas ideias arrojadas. Conrad tinha muitas vezes dito
nas aulas que se deviam bater por aquilo em que acreditassem,
sem receio de questionar a autoridade. Liberdade de expressão,
dissera, significava que a pessoa se pudesse expressar da
forma que entendesse e desde que não prejudicasse ninguém. Era
isso o significado da democracia. Tinha também troçado
ligeiramente a respeito do exagero das celebrações do Dia dos
Pais Fundadores, e quando fora notificado para tratar do tal
trabalho da aula tinha-os espicaçado, dizendo: "Tenham em
mente, quando fizerem esse trabalho, que vocês estão numa
universidade, não numa igreja!"
E Indy tinha feito precisamente isso, e agora o Conrad
suspeitava dele, tinha a certeza.
- Aquilo que eu estou aqui a ver, Jones - disse ele,
sorrindo, ao mesmo tempo que se aproximava das figuras
penduradas -, parece-se muito com aquilo que tu sugerias no
teu trabalho...
Indy teve subitamente a consciência de que para Conrad, ele
era transparente como água. Disse:
- Eu não disse que eles deviam ter sido enforcados; a minha
opinião era que se os ingleses tivessem vencido, os nossos
grandiosos Pais Fundadores teriam sido considerados traidores
e provavelmente enforcados...
- Oh, eu compreendo o teu ponto de vista; e gostei do teu
trabalho. Até lhe dei a nota mais alta...
Óptimo. Ele, pelo menos, tinha compreendido.
- Então pode compreender o que eu fiz aqui... - exclamou
Indy. - Este é o meu projecto de despedida do Dia dos Pais
Fundadores. Democracia na prática.
Conrad assentiu. Comentou:
- Apenas uma semana mais tarde, mas mesmo assim
admiravelmente ajustado para coincidir com a tua formatura.
Admiro o teu arrojo, Jones. Mas a verdade é que vais ter ainda
de enfrentar as consequências, sabes...
Olhou para a parte de baixo da toga de Indy, toda rasgada,
deixando à vista as pernas cabeludas.
- A propósito, esse conjunto fica-te bem...
24
Indy sentiu-se como um insecto apanhado num papel matacas,
ainda vivo mas prestes a ser esmagado. Estava de pé ao fundo
de uma enorme mesa de conferências, numa sala ricamente
apainelada do quarto andar do edifício da administração.
Ficava bem no centro do frio e cinzento coração da
universidade, um sítio onde raramente alguns alunos se
atreviam a ir.
Sentados em torno da mesa estavam o reitor dos estudantes, o
residente do departamento de história, um membro do corpo de
estudantes da universidade, dois advogados da universidade e
Ted Conrad.
À excepção de Conrad, que o tinha denunciado, todos os
outros eram severos homens de idade, vestidos de cinzento.
Subitamente, abriu-se a porta e o presidente Mulhouse entrou
majestosamente na sala de conferências. Cumprimentou todos os
que estavam em torno da mesa e depois olhou para Indy:
- Sente-se, Sr. Jones. - Mulhouse apontou para uma cadeira
no topo oposto da mesa.
Indy tinha sido acordado na manhã do dia anterior por dois
agentes da polícia da universidade, e interrogado no gabinete
deles. Tinha confessado tudo, excepto a participação de
Shannon. Tinha estado presente o reitor Williams e depois da
polícia ter acabado, este tinha interrogado durante mais de
meia hora sobre a sua vida pessoal. O reitor, um senhor muito
distinto de cabelos brancos, já fora professor de filosofia, e
as suas perguntas mostravam bem isso. Por fim tinha recebido
ordem para se apresentar ali naquela sala, às 10 horas em
ponto.
- A Natureza dos Patriotas e traidores Americanos"... - leu
; Mulhouse, batendo ao de leve com o dedo no trabalho de Indy
acerca do Dia dos Pais Fundadores. - Bom, pelo menos é melhor
do que Heróis Enforcados, como os jornais chamam a este
episódio...
Olhou por cima do aro dos óculos, presos no nariz para o
recém-formado, e começou a dar pancadinhas no queixo, um
daqueles gestos académicos estudados em que era excelente.
- O senhor realmente pensou que se conseguia safar desta,
Sr. Jones?
- Eu... ah... - Indy tossiu a aclarar a garganta tentando
dominar o seu nervosismo. Começou:
- Eu não estou a tentar safar-me de nada. O meu trabalho é
acerca da estreita linha divisória entre os heróis populares e
os traiçoeiros vilões. Se os ingleses tivessem vencido...
- Mas os ingleses não venceram, Sr. Jones! - interrompeu o
director do departamento de história. - E quando o senhor
enforcou as efígies dos nossos heróis nacionais, os nossos
Pais Fundadores, naqueles candeeiros, foi o senhor que agiu
como um traidor.
E é isso precisamente o que a maior parte das pessoas vê
nisso...
25
- Eu penso que teremos de considerar algumas circunstâncias
atenuantes, nojulgamento do Sr. Jones! - disse o reitor
Williams - Eu tive ontem de manhã uma longa conversa com ele,
e creio que ele é um jovem bastante perturbado. Em minha
opinião, o seu acto não é tanto um ataque dos nossos Pais
Fundadores; é mais contra o seu próprio pai, o seu único
parente vivo, o célebre investigador da época medieval, o Dr.
Henry Jones.
Tal como eu me apercebo, o Dr. Jones é uma pessoa
extremamente ocupada e infelizmente não teve tempo para vir de
Nova Iorque assistir à formatura do seu filho. E aí, ao que
parece, houve da parte de seu filho um certo ressentimento
pela importância demonstrada pelo pai a esse facto; e o que se
passou nessa noite, na véspera da festa da formatura, foi uma
manifestação desse sentimento...
Era uma coisa que incomodava Indy, o facto de estarem a dis
cutir os seus motivos, como se ele ali não estivesse. E o que
é que aquele estava a dizer? Claro, ele estava ressentido
contra o seu pai,, mas não fora por isso que enforcara os Pais
Fundadores. Ia dizer isso mesmo quando Ted Conrad falou:
- Isso é uma análise interessante, reitor Williams, mas eu
tenho a certeza que não tem grande coisa a ver com os actos do
Sr.
Jones. Os seus motivos foram, obviamente, relacionados com o
seu trabalho sobre o Dia dos Pais Fundadores. Esse trabalho
foi mui to bem pensado. escrever sobre a História é, na melhor
das hipóteses, fazer um a especulação, mas os factos que ele
descreve estão bem interpretados...
A boca de Mulhouse cerrou-se por momentos a mostrar
reprovação. Respondeu:
- O senhor está a concordar com as acções que ele praticou,
Prof. Conrad?
Indy inclinou-se para diante:
- Desculpe-me, mas...
- Não, senhor; não estou a concordar com o que ele fez! -
interveio Conrad, ignorando Indy. - Ele foi consideravelmente
mais longe do que era pedido ou até mesmo permitido em tal
projecto.
Estou simplesmente a explicar o que penso que o tenha
motivado...
Era evidente que Mulhouse não estava a aceitar nada daquilo.
- É evidente que se pode olhar para isto psicologicamente ou
academicamente. Mas a verdade dos factos é que o Sr. Jones
demonstrou a suafalta de respeito pelos fun dadores da nossa
pátria, e a sua desaprovação pelo dia dos Pais Fundadores que
é uma instituição desta universidade!
Falaram ainda alguns minutos sobre as razões, e todos
concordaram que fossem elas quais fossem, ele tinha procedido
mal. Depois disso pediram a Indy que saísse da sala.
26
- Posso dizer uma coisa, por favor? - disse ao levantar-se.
Mulhouse olhou-o de testa franzida:
- Diga, jovem. Mas seja breve!
- Tudo o que tenho a dizer é que o meu pai não tem nada a
ver com aquilo que eu fiz. Nem por sombras me passou pela
ideia que o estava a enforcar simbolicamente...
E com isso voltou-se e saiu da sala, indo sentar-se no amplo
vestíbulo cá fora. Suspirou profundamente. Imaginou-os a
continuarem a conversar, falando sobre alternativas, decidindo
o seu futuro, e a tentarem ao mesmo tempo dissecarem a sua
própria personalidade. Pelo menos ele tinha a certeza de que
Mulhouse estava firmemente decidido a retirar-Lhe o diploma.
E o que é que ele faria sem um diploma? Já não iria para
Paris; isso era certo. Teria de arranjar um emprego. Mas que
espécie de emprego? Sem diploma nem sequer poderia ensinar
francês ou latim. Nem queria pensar no que é que poderia fazer
até porque nem o sabia.
Alguns minutos depois, a porta abriu-se e o reitor Williams
fez-lhe um gesto para ele tornar a entrar na sala das
conferências.
Quando Indy se sentou, o olhar de Mulhouse dardejou
intensamente sobre ele. Disse:
- Ora, Sr. Jones, o senhor tem a sorte de eu ser um a pessoa
que ouve atentamente aquilo que os outros têm a dizer.
Primeiro de tudo, os nossos advogados e eu discutimos a
possibilidade de apresentar queixa-crime por causa disto. E
foi nossa opinião consensual que não resultaria nenhum
benefício para esta instituição se levássemos o assunto mais
por diante, pelo menos pelas vias legais. Preferimos esquecer
o caso.
"Anda, acaba lá com isso. Di-lo; di-lojá. Diz que me retiras
o diploma"...
- A forma mais simples de tratar do assunto seria pura e
simplesmente a de o expulsar. Mas o senhor já se formou: sorte
sua.
Abriu um sorriso frio e duro.
-Sabemos, no entanto, que estava a planear ir para a
Sorbonne no próximo Outono. Podemos facilmente recusar-nos a
enviar os seus registos, e nesse caso é muito duvidoso que o
senhor possa ser considerado um estudante legítimo.
Fez uma pausa deliberada, para deixar bem vincado o sentido
das palavras que dizia.
"... mas vamos dar-lhe a oportunidade de se redimir.
Mulhouse olhou em roda para os outros e eles anuíram com uma
aprovação silenciosa.
- Gostaria que o senhor apresentasse as suas desculpas a
todos aqui presentes pelo que fez, e depois escrevesse uma
carta de desculpas que o meu gabinete depois apresentará aos
jornais.
Todos os olhos na sala se voltaram para ele, como se todos
esperassem que ele respondesse. Mas ele não tinha nada para
dizer.
27
Por que é que ele tinha que pedir desculpa por qualquer
coisa de que se não arrependia de ter feito? E então aquilo de
afirmar claramente as coisas em que acreditava? E a
democracia?
Conrad olhava-o intensamente e a mensagem que lhe intentava
passar era implícita: "aceita o que te estão a oferecer!" Indy
afastou dele os olhos, irritado por Conrad, que o tinha
traído, e que nem aos seus próprios princípios era fiel, estar
agora a presumir de lhe poder dar conselhos. No entanto, se
ele não pedisse desculpa, sabia perfeitamente que Mulhouse
levaria por diante a sua ameaça de lhe recusar os registos.
"Era o menor de dois males", pensou. E disse:
- Óptimo. Assim farei.
Mulhouse aprovou com um leve baixar de cabeça e teve um leve
sorriso:
- Estamos a aguardar. Vamos lá a ouvir...
Indy olhou para o tampo da mesa:
- Apresento as minhas desculpas a todos vós. Lamento...
lamento ter feito o que fiz. O seu gabinete receberá amanhã a
minha carta de pedidos de desculpa.
Depois afastou-se da mesa, pôs-se em pé e saiu rapidamente
da sala. Desceu as escadas a duas e duas até chegar ao
primeiro andar, e depois dirigiu-se para o relvado. Nem sabia
para onde ia; e nem interessava. Estava literalmente a ver
tudo vermelho.
- Jones, aguenta aí, está bem?
Era Conrad. Indy continuou a andar.
- Jones!
Parou e voltou-se.
- O que é que quer?
- Quero falar contigo.
Indy reparou que estava a cerca de um metro do candeeiro em
que ele e Shannon tinham enforcado o primeiro manequim.
- Acho que o senhor gostaria que eu subisse ali acima e me
enforcasse! - disse ele, apontando um dedo ao candeeiro. - Ou
então quer que eu lhe apresente as minhas desculpas a si
pessoalmente, não é?
- Calma, Jones. Portaste-te muito bem lá em cima. Mesmo
muito bem...
- Claro. Fui bestial.
- Ouve o que te digo.
marcaste a tua posição; acredita que
o fi zeste. Eu falei com Mulhouse em casa dele, ontem durante
mais de uma hora, e ele acabou por concordar que tinha reagido
exageradamente.
- Bom, não o ouvi pedir quaisquer desculpas por isso...
- Não. Mas também não te viste preso. Aqueles advogados
podiam ter engendrado uma dúzia de queixas desde vandalismo a
traição. Não estás a ver? Tu ganhaste! Raios, se a bebida não
estivesse ilegalizada, pagava-te um copo!
28
- Eu venci, e tenho que pedir desculpas? Que espécie de
vitória é essa?
- Repara, o Mulhouse tem de manter o seu manto de
credibilidade. Se tu Lho rasgasses, recusando-te a pedir
desculpas, ele não tinha outra alternativa senão a de
arruinar-te as esperanças na Sorbonne...
Indy sabia que o professor tinha razão.
- Então a desculpa que eu tenho de apresentar por escrito?
- É a tua oportunidade de explicares a toda a gente o que é
que estavas a fazer. Não te vanglories disso: diz que
reconheces que foi um erro...
- Talvez; acho que sim...
Conrad deu-lhe uma palmadinha no ombro:
- É assim mesmo. Boa sorte em Paris. Invejo-te, sabes? Tenho
a certeza que vais ter sucesso lá e vais encontrar aquilo que
procuras...
E quando Conrad se afastou, Indy ficou a pensar naquilo que
o professor dissera. De que é que ele estava à procura? Não
sabia; mas tinha a impressão que o reconheceria quando o
visse...
29
CAPÍTULO III
LADY GELO
Paris - Outubro 1922
Era uma manhã fresca de Outono, e Indy apertou o casaco
de cabedal no pescoço ao palmilhar pelo Boulevard de St.
Michel. ao contrário da maioria dos franceses com que se
cruzava, não usava cachecol. Madelaine tinhalhe oferecido um
no Natal passado mas havia várias semanas que não a via e o
facto de o usar fazia-o lembrar-se dela.
Inclinou-se para a frente, puxou o chapéu para a testa e
acelerou o passo. Era não só para fugir ao frio, mas também
porque estava ansioso por assistir à aula dessa manhã do curso
de arqueologia grega. O tema era o Oráculo de Delfos e ele
estava com curiosidade de saber como seria a abordagem que a
Prof.a Belecamus fazia desse assunto.
Atravessou o terreiro da escola, dirigindo-se directamente
para o edifício das aulas. Após dois anos a estudar na
Sorbonne, orgulhava-se de conhecer a cidade tão bem como
qualquer parisiense nato. É claro, no entanto, que ali seria
sempre um estrangeiro, e por estranho que parecesse, gostava
de sentir isso. Era como que um intruso a viver lá dentro.
Estava no seu terceiro ano de um curso superior sobre as
antigas línguas escritas, e era por isso que estava a tirar o
segundo curso de arqueologiaclássica. Dava bem com os seus
estudos do antigo grego, mas havia além disso qualquer coisa
mais naquele curso que o cativava: a professora.
Tudo nela, desde os vestidos ao perfume que usava, a maneira
como falava e como andava, tudo era marcadamente feminino.
E, apesar disso, por debaixo desse verniz, Indy pressentia
uma força e uma autoconfiança que o intrigavam.
A dicotomia sugeria naquela mulher qualquer coisa de
mistério, e marcava também os limites da aura pessoal que a
rodeava.
"Chegaste perto de mais, e estás em perigo", era o que
aquilo segredava.
30
Até agora não tinha havido problema. Estava a meio do seu
segundo curso com ela e era brilhante nele. Os seus
conhecimentos do antigo grego, a par da sua vasta compreensão
da mitologia grega colocavam-no em posição bastante destacada
entre os seus iguais, mas ela agia como se ele não existisse.
Alguns dias antes ele tinha-se aproximado dela depois da
aula e feito algumas perguntas acerca da exposição que ela
fizera. A professora respondera-lhe de uma forma ríspida que
era igual à fria indiferença dos seus olhos. Indy recusara-se
a ficar intimidado e dissera-Lhe como tinha apreciado a sua
exposição.
- Ainda bem! - respondera ela. E com uma breve desculpa
seguira o seu caminho, deixando-o ali parado.
Dorian Belecamus era a Lady Gelo. Era o que ele pensava
dela. E, no entanto, também se pode derreter, e em qualquer
lado, lá bem no fundo dessa muralha de protecção tem de
existir uma mulher quente e amigável a ansiar por um pouco de
intimidade.
Ou pelo menos assim ele fantasiava.
Perdido nos seus pensamentos chocou com outra pessoa ao
entrar para a aula e só nesse momento percebeu quem era. Que
era ela. Deixou-se cair sobre um joelho para apanhar o livro
de apontamentos que escorregara das mãos de Belecamus. Os
olhos fugiram-lhe para as esculturais pernas da mulher, agora
apenas a poucos centímetros da sua cabeça.
Na maior parte dos dias ela vestia uma saia comprida e uma
blusa branca por cima da qual usava um colete de veludo sem
mangas. Hoje, porém, trazia um vestido mais curto, plissado,
de aluna de liceu, que lhe fazia parecer mais uma das alunas
do que a professora.
Ela baixou-se e apanhou um papel que tinha caído do seu
livro de apontamentos. Ergueram-se ao mesmo tempo e os seus
olhares cruzaram-se: os olhos dela adoráveis, enormes e
escuros, quase pretos.
- Desculpe, Dr.a Belecamus; não a vi...
- Obrigado, Jones... - Passou uma das mãos pela abundante
cabeleira. Estava atada atrás com um laço, a fazer sobressair
os seus atraentes olhos, malares salientes e lábios carnudos.
Olhou ao dizer:
- Engraçado encontrá-lo aqui. Venha falar comigo depois da
aula. Tenho uma coisa para falar consigo...
Inopinadamente voltou-se e dirigiu-se para o estrado. Indy
ficou de olhos abertos a olhar para ela, espantado pelo facto
de ela ter mesmo sorrido para ele. Olhou em redor à espera de
ver olhares de inveja de todos os outros homens e olhares
cúmplices das mulheres. No entanto, ninguém parecia ter dado
por nada. Tinha partido - ou pelo menos feito uma brecha - na
carapaça de gelo que rodeava Dorian Belecamus, e ninguém se
importava com isso! Que se passava com aqueles fulanos?
31
As suas expressões eram tão inescrutáveis como as fussas dos
esqueletos que os olhavam das estantes que forravam as paredes
da sala. Os franceses têm a fama de serem grandes amantes, mas
nenhum destes parecia pensar que aquela professora tinha
qualquer coisa de especial.
Sentou-se numa carteira da coxia e abriu o caderno de
apontamentos, tentando pensar nos motivos que ela teria para
querer falar com ele. Não chegou a nenhuma conclusão.
Uma rapariga de asPecto banal e que pouco ou nada devia à
beleza, de cabelos castanhos escorridos inclinou-se para ele,
da carteira ao lado:
- Jesus, viste como ela vem vestida hoje? - murmurou. - Como
se se julgasse uma de nós...
"Nem por sombras!", pensou Indy. "Mundos aparte; e mundos
muito melhorados..."
- Mas não é; nem nada que se pareça! - respondeu em tom de
comiseração. Voltou a olhar como que atentamente para o seu
livro de apontamentos, a cortar a conversa.
- O tema hoje é um com o qual eu estou intimamente
familiarizada... - começou a Belecamus. "Irónico..." pensou
Indy. "Intimidades com uma cidade morta."
- Quando eu era criança, visitei as ruínas de Delfos nos
primeiros anos da sua moderna restauração, que começou em
1892...
Dardejou um olhar para a porta quando um aluno a chegar
mais tarde se esgueirou sob a sua gélida mirada à procura de
um lugar vago.
- Quando era aluna do liceu, e mais tarde, da faculdade,
passei as minhas férias de Verão a trabalhar, primeiro como
voluntária e depois como assistente contratada para o local.
Delfos tornou-se o objectivo da minha tese de formatura.
Antes de vir para aqui dar aulas passei cinco anos como
arqueólogachefe das ruínas, em associação com a Universidade
de Atenas...
Baixou por momentos os olhos e sorriu como que para si:
- Um dos meus assistentes cometeu uma vez um erro de se
referir jocosamente a mim, chamando-me Pítia. Como todos
sabemos, Pítia era o nome da sucessão de mulheres que serviam
de Oráculos de Apolo, ou Oráculos de Delfos. E para vir a ser
Pítia uma mulher tinha de pertencer a uma família pobre de
gente do campo, ter mais de 50 anos e não ser particularmente
inteligente...
Os seus olhos percorreram a sala:
- Espero que compreendam porque é que eu não fiquei muito
encantada com tal comentário.
32
A frase provocou uma gargalhada colectiva na aula. Belecamus
não se ajustava nem pela idade, nem pelo quociente de
inteligência. E também, pensou Indy, não lhe parecia que
tivesse vindo de uma família de camponeses pobres.
- Pítia fazia as suas profecias do altar do Templo de Apolo,
onde ela se sentava num tripé de cobre e ouro, colocado sobre
uma fenda na terra. Supunha-se que por essa abertura subiam
vapores intoxicantes que punham a mulher num transe de
frenesim...
Sorriu outra vez como que para qualquer coisa divertida só
dela conhecida e depois os seus olhos detiveram-se em Indy.
Continuou:
- Uma testemunha do século I descreveu a transformação de
Pítia da forma seguinte: "Os olhos brilhavam-lhe, deitava
espuma pela boca e os cabelos ficavam-lhe de pé. Depois ela
respondia à pergunta que lhe tivesse sido feita."
In dy subitamente teve a sen sação de que ela estava a falar
apenas com ele; que o resto da aula lhe não interessava.
Sentiu uma onda de calor na nuca. Os seus olhos ficaram fixos
nela, apanhando de caminho a luz que se reflectia nos seus
cabelos negros e brilhava nos olhos da mesma cor.
- A resposta dela era sempre uma algaraviada incoerente
feita de palavras e de frases soltas. Incoerente para todos,
quero dizer, excepto para os sacerdotes do templo, que as
interpretavam para os suplicantes.
Belecamus olhou para os seus alunos. Disse:
- A propósito, alguém sabe o que significa a palavra Delfos?
Sr. Jones, o nosso estudioso de grego; que tal?
Claro, ela tinha estado a olhar para ele; e sabia dos seus
estudos de grego antigo.
- Significa «o lugar do golfinho».
A professora acenou afirmativamente:
- Muito bem. Mas diga-me; porque é que tinha esse nome?
Indy tinha aprendido a história mitológica de Delfos em
criança, muito tempo antes de saber que a Grécia era um país.
- Apolo chegou ao santuário sob a forma de um golfinho...
- E o que é que ele lá encontrou?
Sentiu-se subitamente como quando tinha 12 anos, e o pai o
obrigava a repetir os mitos que lhe tinha dado para estudar.
Mas Dorian Belecamus não se parecia nada com o seu pai...
- Um dragão chamado Pitão. Era a serpente - filho de Gaea, a
deusa da terra e de Poséidon, o que sacudia a terra. Pitão
morava numa caverna da montanha e anunciava as suas profecias
através das sacerdotisas Pítias.
- E o que foi que sucedeu?
- Apolo matou o dragão e atirou-o para uma fenda da terra.
- Muito obrigado, Sr. Jones...
O seu olhar desviou-se dele e percorreu a sala. Continuou:
33
- Agora deixemos os aspectos mitológicos e tomemos o nosso
conhecimento histórico de Delfos.
Explicou que por mais de um milénio, desde 700 a.C. até 362
d. C. o retiro da montanha fora o local de um oráculo. Saiu do
estrado ao mesmo tempo que falava. Era evidente que não
necessitava de quaisquer apontamentos.
- No auge da sua influência, Delfos era a sede do poder no
Mediterrâneo, virtualmente ditando a história política da
região. Rara era qualquer acção importante que fosse tomada
pelos que ali mandavam, sem que tivesse sido consultado o
oráculo. Até mesmo filósofos cépticos como Platão e Sócrates,
tinham em grande consideração o oráculo. ao longo dos anos,
Delfos foi acumulando um vasto tesouro em ouro e estátuas de
mármore, Quadros e jóias, tudo oferendas dos suplicantes.
- E as profecias eram certas? - perguntou um aluno.
- Era disso que ia agora falar. As profecias eram a maior
parte das vezes apresentadas em frases ambíguas, abertas a
várias interpretações... - disse. - No entanto, uma dessas
possibílidades era geralmente exacta. Vejamos alguns exemplos:
- Quando lhe perguntaram como é que os gregos se portariam
perante um ataque dos persas no ano de 480 a. C., o Oráculo
disse-Lhes para confiarem nas muralhas de madeira. Muito
embora o significado de paredes fosse altamente discutido os
gregos conseguiram sucesso na sua defesa com a sua frota de
barcos, de madeira; mesmo depois de cercados. Por isso,
aqueles que interpretaram «paredes de madeira» como «barcos de
madeira» tiveram razão... - concluiu a professora.
"Quando o imperador romano Nero foi avisado de cuidado co os
setenta e três", decidiu interpretar esse aviso como uma
profecia de que morreria aos 73 anos. Em vez disso, foi
derrubado quando tinha 31 anos por Galba, que, esse sim, tinha
73 anos. Algumas profecias eram exactas - muito embora num
sentido ambíguo ou até mesmo cínico - continuou ela. - Por
exemplo uma profecia que foi feita a Creso, afirmava que se
ele invadisse a vizinha Cyros, destruiria um poderoso império.
E assim sucedeu: destruiu o seu próprio império...
"Patacoadas...", pensou Indy. Duvidava seriamente que Platão
ou Sócrates dessem qualquer importância ao Oráculo. Faziam-lhe
vénias porque era a religião daquele tempo; e desafiar a
autoridade podia custar-Lhes muito caro.
Indy sabia por aquilo que tinha estudado que eram os
poderosos sacerdotes que interpretavam as algaraviadas de
Pítia que estavam no centro da Liga Anfectiónica, uma
coligação de cidades-estados Gregos, e estavam, portanto, bem
informados sobre todas as actividades importantes da região.
34
Serviam-se simplesmente do Oráculo para dar um cunho de
verdade às suas proclamações. Na realidade, aquela velha
chamada Pítia não passava de um veículo ritualista sem
qualquer importância.
Também sabia que o seu pai o desancaria se ele se atrevesse
a dizer-lhe semelhante coisa. Reduzir o Oráculo de Apolo a uma
forma de corrupção política sem qualquer realidade mística era
pura heresia. Mas ao longo de toda a sua infância, Indy tinha
visto o seu pai se tornar cada vez mais obcecado em fantasias
míticas que Lhe tinham absorvido a vida e que virtualmente lhe
tinham arruinado a sua.
Levantou o braço.
- Que eram exactamente esses vapores que a Pítia respirava
quando fazia as suas profecias?
Belecamus pareceu achar graça à pergunta:
- Ah, os lendários gases mefíticos, como lhe chamavam! Quem
sabe? A lenda dizia que eram as emanações da apodrecida carne
de Pitão...
- Felizmente os cientistas não aceitam as lendas e os mitos
como factos - respondeu Indy. - É nisso que a religião e a
ciência diferem...
Belecamus parou na sua frente. O olhar de Indy foi atraído
para as pernas fortes e morenas, nuas quase até ao joelho. A
professora olhou para ele:
- Então o que é que pensa que eram esses vapores, Sr. Jones?
Desviou o olhar das pernas dela; por momentos nada disse. A
presença dela tão perto de si perturbava-o. Aclarou a voz a
reunir os pensamentos. Ela estava a desafiá-lo e tinha de a
enfrentar. Disse:
- Muito provavelmente tratava-se de uma mistura de incenso
queimado, juntamente com folhas de louro. A Pítia inalava essa
mistura e provavelmente mastigava folhas narcóticas de louro
para entrar em transe. Esses tais vapores eram apenas uma
outra forma dos sacerdotes mistificarem e ritualizarem as suas
actividades...
Belecamus cruzou os braços:
- O senhor é muito racionalista, Sr. Jones; e isso é bom.
Mas muitas vezes temos a necessidade de espicaçar a nossa
imaginação, em arqueologia. Os mitos são muitas vezes o
trampolim para a verdade e para a compreensão...
- Mas também podem sugestionar e levar ao engano; e muitas
das vezes são tomados como a própria verdade! - respondeu. -
Até por pessoas inteligentes... "O seu pai, por exemplo...",
pensou.
Belecamus sorriu e voltou a encaminhar-se para o estrado.
- Muito bem posto. Espero que todos aqui compreendam a dupla
natureza dos mitos...
35
Como a hora estava a chegar ao fim, Belecamus disse que
queria fazer uma declaração. E depois de uma curta pausa
disse:
- Esta conferência sobre Delfos, como sabem, estava marcada
desde há duas semanas. Mas, bastante curiosamente ela coincide
com um assunto muito urgente em Delfos. Há apenas dois dias
atrás houve naquela zona um pequeno abalo de terra...
- E houve grandes danos? - perguntou alguém.
- O tremor de terra sacudiu e deformou o solo e abriu um a
fenda no templo de Apolo. Mas sob um aspecto feliz parece que
disso resultou uma nova descoberta: uma placa de pedra foi
descoberta, saída de dentro das terras abaladas...
- E que é que ela tinha?
- Ainda não sabemos. Eu vou sair de Paris brevemente, para
inspeccionar o local. Isso significa que o meu instrutor
assistente me irá substituir aqui no curso até ao fim do
período.
Indy sentiu um súbito vazio no peito, uma espécie de
ausência dos órgãos vitais como se o coração Lhe tivesse sido
sugado. Ela concluiu:
- Desejo a todos as melhores felicidades no curso. Os
senhores foram um grupo muito atento; vou sentir a vossa
falta...
Todos aplaudiram. Umafila de estudantes passou por ela a
desejar-lhe boa sorte, mas Indy deixou-se ficar na sua
carteira.
Quando os últimos alunos saíram, levantou-se e aproximou-se
do estrado.
- Sr. Jones, espero não o estar a privar de qualquer coisa.
Outra aula? Ou talvez alguma namorada que o espera no átrio?
- Não, não, absolutamente nada...
- Óptimo. Eu pedi-lhe para esperar porque quero dizer-lhe
mais alguma coisa acerca dos meus planos imediatos.
- Ah, quer?
Os olhos dela fixaram-se nos seus. Era um olhar penetrante e
íntimo como um abraço e com uma intensidade que o espantou.
- Estaria interessado em acompanhar-me a Delfos como meu
assistente?
- Eu...
- O senhor. Na realidade o senhor é o meu melhor aluno e eu
preciso da ajuda de alguém que esteja associado à Universidade
de Atenas. Política, sabe o que eu quero dizer...
- Bom... eu não sei... não sei se posso sair já... -
gaguejou. - Assim, no meio do período e tudo...
Ela fez um gesto com a mão:
- Não se preocupe; eu trato de tudo com a universidade. A
minha dispensa urgente já foi autorizada, e ao senhor o tempo
é-lhe contado como trabalho de campo. As suas despesas básicas
serão cobertas pelo meu orçamento de investigação. O que me
diz?
36
Indy não sabia o que responder; por outro lado estava
extasiado. Por outro lado o facto de ela partir do princípio
assente que ele pura e simplesmente largaria tudo, irritava-o.
E, além disso, a arqueologia nem sequer era o seu campo de
estudo.
- É uma coisa assim tão repentina...
Ela deu um passo a aproximar-se dele e sorriu:
- Vai valer a pena, Henry...
Ainda quis corrigi-la; dizer-lhe para lhe chamar Indy, que
Henry era o seu pai. Mas o simples facto de ela se lhe ter
dirigido chamando pelo nome próprio, era uma enorme abertura.
Era como se qualquer barreira invisível entre professora e
aluno tivesse sido derrubada.
Tratá-lo assim familiarmente era como dizer que eram iguais,
e ela tinha tornado bem claro, desde o primeiro dia de aulas,
que não era sua igual. Não só ela tinha estudado arqueologia
grega desde a adolescência, como também ela era de cultura
grega; estava-lhe no sangue. No seu curso ela era uma
autoridade, uma fonte viva de conhecimento; e eles não
passavam de esponjas que ali estavam para absorver um pouco da
sua sabedoria imensa.
E agora ela estava a dar-lhe aquilo que bem poderia
considerar-se a oportunidade de uma vida. Vai valer a pena. É
claro, ela queria referir-se à oportunidade de trabalhar em
Delfos; mas não seria aquilo uma encoberta sugestão a mais
qualquer coisa? Ou era ele que já estava a imaginar isso?
- Gostaria de pensar nisso... - disse-, mas parece-me....
interessante...
Interessante: que palavra fraca! Mas é que nada mais lhe
tinha ocorrido.
- Não demore muito, Henry... - a voz dela era grave e
quente. - Oportunidades como esta não aparecem todos os
dias...
37
cAPÍTULO Iv
DADA E JAZZ
Indy abriu a porta do Jungle, uma boite de Montparnasse.
Era ainda cedo e sentiu-se aliviado ao ver que as mesas que a
malta do Dada geralmente preferia, perto da porta, ainda
estavam livres.
Não estava com disposição nenhuma para lhes ouvir o
falatório.
Na sua maior parte eram arrogantes e cínicos que gostavam
praticamente de passar a vida a insultar quem quer que
entrasse pela porta dentro.
Olhou em roda tentando adaptar a vista àquela semi-
obscuridade. O tecto estava pintado a cobre e as paredes
forradas a madeira; o pequeno bar estava também orlado de
cobre. Suspensos lá do alto havia diversos candelabros
vitorianos que davam uma luz fraca, e a sala tinha a toda a
volta uma espécie de galeria com mais mesas. A um dos topos do
clube sob uma abertura dessa galeria erguia-se um pequeno
estrado de madeira; tinha por cima uma única lâmpada vermelha
que espalhava o seu difuso clarão sobre um piano vertical e
uma bateria.
Só três ou quatro mesas estavam ocupadas e numa delas perto
do bar, Indy descobriu o vulto solitário debruçado em
concentração, a escrever qualquer coisa numa folha de papel.
Um vago clarão de luz de uma vela acesa no gargalo de uma
garrafa vazia iluminava os cabelos ruivos do homem. Indy
dirigiu-se para lá e puxou uma cadeira.
- Olá, Jack...
- Indy! - disse Shannon sem levantar os olhos do papel. - A
modos que vens cedo...
- Eu sei.
Sentou-se na cadeira e reparou que uma madeixa do
despenteado cabelo de Shannon estava perigosamente perto da
cham a da vela.
O seu antigo companheiro de quarto vivia em Paris desde o
ano passado, depois de ter largado o emprego na companhia de
transportes em Chicago. E muito embora tivesse mantido o seu
acordo com a família, e não tivesse tocado em nenhum clube,
38
todos os dias praticava no seu apartamento, coleccionava
dúzias de novos discos de jazz e durante todo esse tempo
economizara o seu dinheiro e planeara a sua escapada para
Paris.
- Queria falar contigo sobre uma coisa...
- Dispara! - Shannon ergueu os olhos pela primeira vez. - Em
que é que estás a pensar?
Contou a Shannon a oferta de Belecamus. E acrescentou:
- Só hoje soube isto, e ainda estou a tentar analisar a
coisa...
Shannon poisou o lápis na mesa:
- Deixa-me oferecer-te uma bebida. Parece que precisas
disso...
Levantou o braço a chamar a atenção do empregado do balcão,
e mandou vir dois Pernods.
- Diz-me mais coisas dessa mulher; essa professora tua...
- Na verdade não há muito a dizer. Não a conheço muito
bem... - teve um leve sorriso -, pelo menos... ainda não.
Shannon não pareceu achar muita graça:
- Se fosse a ti, perguntava por aí, antes de desandar com
ela por aí fora. Havia de saber o que é que ela é...
Shannon, o analísta.
- Ora, deixa-te disso! Então tu pensas que ela teria
engendrado tudo isto para regressar à Grécia no meio do
período e me levar com ela?
- Não sei. Dá-me a impressão que ela está a fazer de ti um
anjinho...
- Shannon, por amor de Deus! Nós não estamos precisamente na
Margem Sul a arranjar um assalto de gangsteres...
Shannon olhou friamente para ele, e Indy percebeu que não
devia ter dito aquilo.
- Desculpa. É que se tu assistisses a uma das suas aulas
perceberias que ela não é desse tipo. É séria, e
inteligente...
- E bonita! - acrescentou Shannom. - Certo?
- Também.
- Toma cuidado. A mim parece-me suspeito.
- Porquê?
- Repara: se tu fosses um aluno de arqueologia, eu não
pensava duas vezes nisso. Mas não és.
Indy encolheu os ombros à observação:
- Repara, é uma oportunidade; uma boa oportunidade, e eu
estou disposto a perdê-la por causa de umas vagas suspeitas...
Shannon levantou os braços:
- Ei! Eu não estou a argumentar contigo; estou apenas a
dizer o que eu penso...
- Bem sabes como eu me tenho sentido ambivalente acerca da
vida de um estudioso. Talvez isto seja aquilo de que tenho
andado à procura: uma carreira com um bocadinho de aventura...
- Quanto à carreira não sei, mas o que tenho a certeza é que
a tua professora é que vai ser a aventura.
39
Raios, não sei. Talvez seja mesmo disso que tu precisas...
Quando chegaram as bebidas Indy olhou em volta e ficou
espantado com o número de mesas que já estavam ocupadas. Era
como se uma multidão de pessoas tivesse ali chegado passando
através das paredes.
- À Grécia! - brindou Shannon. - Oxalá resulte!
Indy beberricou o seu Pernod e depois fez um gesto de cabeça
para o papel em frente de Shannon:
- Que é que estavas a escrever?
- Só uma música... Uma canção.
- Uma canção? Para a orquestra?
- Claro!
- E quem é que vai cantar?
A «orquestra», era Shannon na trompete, um pianista de
Brooklyn cuja experiência profissional se limitava a exibições
em algumas festas de nar mitzvahs e um baterista parisiense
que nunca tinha tocado jazz antes de ter ouvido os discos de
Shannon. Tanto quanto Indy sabia, nenhum deles cantava.
Shannon agitou o papel à luz da vela.
- Ando à procura de intérprete. Uma mulher. Tem de ser bem
quente, com uma voz grave. Nada de sopranos. Se estivéssemos
em Chicago podia ir até aos Jardins de Dreamland e tinha lá
muitas para escolher...
- Calculo que sim; mas não há assim muitas delas de visita a
Paris...
- Ah, mas hão-de vir, Indy! - Inclinou-se para a frente com
os olhos brilhantes de súbita excitação. - Repara na multidão
que aqui se junta só com esta orquestra a fingir - as pessoas
estão famintas de jazz nesta cidade. As orquestras não
tardarão a aparecer por aí. Montes delas. Ouve lá e dá-me a
tua opinião. Isto chama-se Cá no Bairro...
Shannon olhou para o papel de testa franzida. E recitou:
Foi em fins de vinte e um
Que Chicago quis deixar;
E vim solitária e triste
Por cima do imenso mar...
Sem ver o sol nem a lua
Cheguei só, com minha pena,
E fiquei por cá no bairro
Na margem esquerda do Sena...
Mas encontrei tanta gente,
Lá da terra, junto a mim
Que às vezes até parece
Que afinal ainda não vim...
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Cá no bairro
Cá no bairro...
Vem ter comigo, esta noite",
Cá no bairro!
Shannon encolheu os ombros:
- Foi até onde consegui chegar, até agora.
- Por que é que não dizes "... Que às vezes até parece que
ainda não estou em mim...."?
- Porque não é verdade. Além disso o número de batidas fica
errado.
Indy concordou com um gesto. E acrescentou:
- Eu gosto. Não sabia que escrevias canções...
- Bom, por enquanto são apenas algumas palavras num papel,
mas acho que tenho cá dentro algumas canções de amor
boazinhas. Mas tenho de arranjar a tal cantora...
Indy riu-se:
- Ah, ah! O que me parece é que tu andas à procura de alguma
coisa mais do que uma cantora...
Os dois voltaram-se rapidamente ao ouvirem uma barulheira ao
pé da porta. Algumas cadeiras caíram ao chão; as pessoas
gritavam. Indy espreitou por cima do ombro:
- Que é que se passa?
- Parece que estão a discutir por causa da mesa...
- A malta do Dada. Já devia calcular... - disse Indy
secamente.
Tinham ocupado duas mesas de cada lado da porta e agora um
dos homens batia na mesa e entoava uma cantilena que soava
mais ou menos como "czar... czar... czar..." e um outro
acrescentava: "arf... arf... arf..."
- Que é que eles estão a dizer?
- Tzara e Arp. Tristan Tzara é um poeta; Arp é um artista.
Ouvi dizer que vinham cá os dois esta noite...
- Então vais ver uma daquelas noites Dada... - disse Indy
pouco entusiasmado.
Shannon engoliu o resto da sua bebida:
- Na realidade não é malta muito má. Só às vezes um bocado
cáusticos para aqueles que eles consideram muito
tradicionalistas...
- Para toda a gente que entre por aquela porta! - corrigiu
Indy. - A mim não me agradam nada...
- Eles estão a abrir uma fenda, Indy... Precisamos de gente
como esta para nos acordar, às vezes...
- Concordo; mas eles afinal estão tão dependentes das
tradições como quaisquer outros. Talvez mais ainda...
- Como é que podes dizer uma coisa dessas?
41
- Pois onde é que eles estariam sem tradições, Jack? Se não
houvesse tradições não havia qualquer base para a arte não
tradicional...
Shannon riu-se e abanou a cabeça:
- É, acho que deve ser isso. Mas como eu disse, precisamos
de gente que nos aponte a forma de quebrarmos os velhos
moldes. Se não fizermos qualquer coisa diferente muito
depressa, vamos estoirar numa outra guerra!
- Estás a abrir uma brecha, Jack; e não acredito que andes
para aí a cuspir em padres e em freiras. E como é que essa
forma de conduta nos vai impedir de fazer guerras?
- Indy, eles cuspiram nos seus próprios amigos. Foi um
acontecimento, como sabes: estavam só vestidos de freiras e
padres...
Shannon pôs-sE de pé.
- Então ficas por aqui?
- Só para a primeira parte.
- Ouve: estavas a falar a sério a respeito daquilo da
Grécia?
- Não sei, Jack. Tenho de pensar nisso...
Deu uma palmada no ombro de Indy:
- Tenho a impressão de que vais...
O clube estava apinhado quando a orquestra ia a meio da
primeira parte. Indy esvaziou o seu segundo copo de Pernod
mesmo na altura em que Shannon estava a acabar o solo. A
bebida verde e licorosa começava a produzir os seus efeitos e
apeteceu-lhe andar. Deteve-se um momento a decidir se iria até
ao bar buscar mais uma bebida ou devia sair já.
Vestiu o casaco de cabedal e procurou o chapéu. Espreitou
por debaixo da mesa e nas outras cadeiras. Por fim levantou-se
e levou a mão à cabeça, reparando que afinal já o tinha posto.
Estava na altura de sair. Pôs-se em pé e olhou para o estrado.
Shannon estava a palrar qualquer coisa sobre a canção
seguinte.
- A primeira vez que ouvi esta melodia foi num sítio chamado
Dreamland, na Cidade do Vento - disse quando Indy ia a abrir
caminho por entre as mesas. - É uma música da orquestra de
Feddie Keppard; mas o Kep não grava esta música: diz que tem
medo que lhe roubem as melodias. E tinha razão, porque eu
lembrei-me desta. É mais ou menos assim...
Quando começou a canção e Indy se dirigia para a porta, os
dadaístas miraram-no de alto a baixo.
- Ei! Onde é que arranjaste esse casaco? - perguntou um
deles. - Vais para alguma missão de bombardeamento?
Todos os que estavam nas duas mesas começaram a cantarolar:
"Arp, Arp. p, p..."
"parecia um bando de focas", penzou Indy. "Um grupo
catita..."
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- Tu tens alguma coisa contra os nossos irmãos alemães? -
gritou outro direito à cara de Indy.
- Guarda lá isso para uma velhinha ou para uma freira! -
ripustou ele, continuando a andar. Quando já ia a chegar,
bateu-lhe qualquer coisa nas costas; Sentiu álcoól a
molhar-Lhe o pescoço. Parou e voltou-se.
- Essa foi para a mãe do barão Vermelho, rapaz! - gritou um
fulano de óculos na mesa à sua esquerda.
- Tzara, Tzara, Tzara, Tzara! - gritou a multidão em
cadência.
Indy dirigiu-se ao homem, tirou-lhe a cadeira de baixo e
depois pegou na borda da mesa e pô-la em pé sobre um dos
lados. As bebidas caíram ao chão; a garrafa de vinho com a
vela em cima, estilhaçou-se. A chama tremeluziu por momentos e
apagou-se.
Subitamente a música parou e toda a gente no clube se virou
para ver o que se passava. Por momentos ninguém se moveu ou
disse uma palavra, e então uma poderosa voz ressoou vinda do
estrado:
- Aquele é o meu amigo Indiana Jones, que veio de Chicago!
- disse Shannon. - Uma noite ele também voltou uma mesa
na Margem Sul, mas isso era a sua própria mesa: acho que
estava à procura do chapéu...
- Que parvalhão! - disse alguém.
- Ei! Faz isso à nossa mesa, pá.
Indy começou a recuar para a porta, mas Shannon não tinha
ainda acabado:
- E noutra altura - e esta história é verdadeira! - ele
enforcou George Washington, o primeiro presidente dos Estados
Unidos, e três dos seus amigos em candeeiros da Universidade
de Chicago, imaginem só! Um gajo verdadeiramente tradicional!
Bom, ele lá tinha as suas razões. Mas tenham cuidado com ele
no próximo aniversário da tomada da Bastilha...
Indy sorriu, levou dois dedos ao chapéu em direcção ao
estrado e saiu da Jungle.
Enquanto ia descendo a rua sentiu que a humidade no pescoço
e no cabelo lhe causava arrepios, mas ignorou-o. Fora
unicamente culpa sua. Porque é que tinha deixado que aqueles
filhos da mãe tirassem partido dele? Podia muito bem tê-los
sim plesmente ignorado e saído. Em vez disso tinha entrado
nojogo deles, e eles tinham conseguido precisamente aquilo que
queriam: uma reacção...
Vagueou sem destino pelo Bairro Latino com os seus
pensamentos a saltitarem dos dadaístas para a decisão que
tinha de tomar.
Talvez fosse de facto a altura para deixar Paris. Precisava
de uma mudança. Na realidade, precisava fosse do que fosse.
Passou por um teatro con um terraço envidraçado a anunciar
várias aventuras de «Os Perigos de Paulina». Afrouxou o pásso,
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e olhou para o cartaz na montra principal que mostrava uma
loura suspensa de um precipício pelas pontas dos dedos.
Sorriu. Crescera lá na terra a ver aqueles filmes. A Pauline
nunca falhava; metia-se sempre nos piores sarilhos. Quando não
estava pendurada num avião ou amarrada adiante de uma
locomotiva a avançar a toda a velocidade, ficava numa
armadilha de um fosso de víboras, ou a afundar-se em areias
movediças. Ou amarrada por correntes numa masmorra.
Olhou para as outras montras que anunciavam as próximas
atracções: O Raio da Morte, O Quarto Envenenado e os Cristais
de Sangue. Quando aqueles filmes chegassem já ele teria
partido.
Continuou a andar; agora já sabia que se ia embora.
Andou assim à deriva por mais de uma hora e por fim voltou a
encontrar-se em Montparnasse, à porta de um salão de dança
vizinho. Sabia que tinha parado ali, porque aquele era o bal
musette favorito de Madelaine, e um dos primeiros a mudar-se
do bairro do Luxemburgo. Daí a pouco tempo, sem sombra de
dúvida todos eles estariam no Bairro Latino. Os hábitos
populares, parecia, seguiam sempre os artistas alguns anos
depois, e a malta boémia estava bem arraigada ali, tal como os
impressionistas do século passado se tinham fixado no bairro
de Montparnasse.
Lá dentro os dançarinos martelavam o fox-trot ao som de um
acordeão e de um violino. A frequência era jovem e bem
comportada em comparação com a da Jungle ou de qualquer das
outras boites. Quando estavam na pista de dança, os homens
nunca falavam sequer com as mulheres a quem pediam para
dançar; era considerado incorrecto. Sob certos aspectos as
coisas não pareciam ter mudado muito desde os tempos do
minueto.
- Indy, há anos que não te vejo! Como estás? - disse
Madelaine na sua voz fina e esganiçada. Ele voltou-se e ela
plantou-lhe um ligeiro beijo na cara. Estava vibrante e de
olhos brilhantes como sempre. O seu cabelo curto e
encaracolado emoldurava-lhe o rosto marcadamente escultural,
dando-Lhe um toque de suavidade.
- Eu estou bem. E tu? - Amaldiçoou-se intimamente pelo facto
de não a ter visto primeiro. Na realidade não a esperava ver e
não tinha qualquer interesse em falar com ela; mas agora já
não podia evitá-lo.
- Estou maravilhosa, e está uma noite adorável! - inclinou a
cabeça a ouvir melhor a música nova que agora começava. -
Queres dançar? Podemos fazer desta uma java!
Passou a mão por debaixo do braço dele e agarrou-lhe os
dedos.
Deu um par de passos e todo o seu corpo ondulou à frente
dele.
- Não, obrigado; hoje não estou inclinado para dançar...
Madelaine era da mesma exuberância de sempre, a rainha da
festa e agia como se nada tivesse sucedido entre eles.
44
- Tu não tens graça nenhuma, Indy! - amuou ela.
- Vou para a Grécia! - deixou ele escapar, como se a sua
iminente viagem o tornasse mais atraente para ela, mais digno
da sua atenção.
- O quê? Grécia? Que esplêndido! Não me levas contigo?
Gostava imenso de conhecer a Grécia!
"Que curta memória..." pensou ele. E em voz alta:
- Parece-me que me recordo de teres dito que não me querias
tornar a ver porque achavas que estávamos a ficar muito
sérios; querias estar livre, parece-me que foi como tu
disseste...
- E foi; e estou livre! Não precisamos de nos casar para ir
à Grécia, pois não?
- É uma expedição arqueológica a Delfos. Vou trabalhar e não
posso levar ninguém comigo...
- Ah, então tu precisas de estar livre!
Indy sorriu:
- Isso mesmo...
- Ah, Madelaine, estás aqui! - exclamou um homem,
aproximando-se deles. Olhou para Indy:
- Jones, que surpresa! Abandonaste as línguas mortas esta
noite? - e olhando para Madelaine outra vez:
- Vamos dançar, amor?
Indy conhecia o simpático e jovem inglês; era Brent, um dos
conhecidos de Madelaine. Tal como ela, também ele parecia não
fazer mais nada senão de salão de baile em salão de baile, de
café em café, sempre com o mesmo grupo. E havia sempre mais
como eles no Bairro Latino em cada dia que passava. Se tivesse
que escolher entre passar uma noite com Brent e os do seu
grupo ou ser insultado e irritado pelos dadaístas, Indy teria
bastante dificuldade em escolher.
- Brent, imagina! Indy vai para a Grécia, para um sítio
chamado Delfos, e não me leva com ele!
A sua voz ainda se esganiçara mais.
Brent encolheu os ombros:
- Eu levo-te à Grécia em qualquer altura que tu quiseres,
querida! Paris está a ficar horrivelmente maçador. Mas agora
vamos dançar. Tenho as pernas a saltar sozinhas...
E Madelaine foi arrastada para a pista de dança. Ainda se
voltou uma vez, disse adeus com um sorriso e desapareceu na
multidão.
Indy sentiu-se abatido. Por que é que não tinha deixado o
passado em paz? Agora, mais do que nunca, estava ansioso por
avançar para o futuro.
- Adeus, Madelaine! - disse sem pena nem desgosto.
Voltou-se e foi-se embora.
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CAPÍTULO V
ENCONTROS
Era quase meio-dia quando Indy enfiou os téniz e o casaco.
Habitualmente aos sábados agarrava num livro e ia até à
esquina para almoçar nos Deux Magots. Hoje, contudo, ia dar um
passeio até ao Le Dôme, o café onde Dorian Belecamus tinha
sugerido que se encontrassem. Ela iria responder-lhe a todas
as perguntas e ele iria tomar a sua decisão. Parecia tudo
muito simples; mas fosse lá porque fosse, Indy tinha a
sensação de que aquilo não iria ser assim tão simples como
parecia.
Pegou no chapéu que estava num cabide da parede. Debaixo
dele estava um chicote enrolado, a única coisa mais ou menos
decorativa no seu «cortiço» de duas divisões.
O apartamento ficava por cima de uma padaria na Rua
Bonaparte, a poucos quarteirões da Sorbonne. Uma das divisões
era uma minicozinha com uma geladeira, um fogão de gás e um
armário. Na outra havia um colchão com uma caixa de molas no
chão, uma mesa de madeira com duas cadeiras e uma estante
baixa pejada de livros por todos os lados. Havia dois anos que
vivia naquele apartamento e aquilo tinha ainda o mesmo aspecto
que tinha quando ele ali chegara.
Encheu o peito de ar ao descer as escadas, mas o tentador
cheiro do pão fresco da padaria mal se notava. Normalmente,
quando saía para as aulas o cheiro era tão intenso que acabava
por se deter aí: por momentos a comer um ou dois croissants.
Naquela manhã, contudo, tinha ficado a dormir até tarde,
depois de ter ficado acordado até perto das três, a acabar uma
recente novela chamada Ulysses.
Quando finalmente fechara o livro, que tinha setecentas e
trinta páginas, e acabara por adormecer, sonhara com a
Madelaine e com a Belecamus, mas tanto uma como a outra
estavam em Dublin e, o que não era para admirar, tinham as
mesmas artimanhas e as mesmas preocupações da Molly Bloom de
James Joyce.
Enquanto se dirigia para Montparnasse, os seus pensamentos
tornaram a voltar-se para a decisão que teria de tomar nas
próximas horas. A noite passada julgava que já se tinha
decidido, mas agora, à luz do dia, já não estava tão certo
disso.
46
Claro que a Grécia era uma oportunidade. Mas seria uma coisa
prática? É que muito embora Lhe fosse creditado o tempo para o
curso de arqueologia, ainda teria de voltar a completar os
seus outros cursos. De certo modo iria ficar prejudicado...
Além disso, qual era a finalidade daquilo? Teria ele
realmente intEresse em seguir uma carreira de arqueologia? Ou
estaria apenas interessado em Dorian Belecamus? A verdade é
que ele estava interessado nas duas coisas, mas a falar
verdade, duvidava que a longo prazo, uma e outra fossem
verdadeiramente a sua meta.
Tinhajá feito dois anos de formatura em linguística. Quantos
mais seriam precisos para se diplomar como arqueólogo? Na
realidade não fazia sentido.
Quando chegou ao Le Dôme passou os olhos pela esplanada.
Apesar do tempo bastante fresco de Outono, algumas das mesas
estavam ocupadas, provavelmente por turistas que tinham ouvido
dizer que os franceses comiam sempre nas esplanadas. E para os
satisfazer havia brilhantes carvões a arder num enorme
braseiro a aquecer o ar, pelo menos num dos cantos. Para si os
cafés ao ar livre eram muito bons mas era quando o tempo
estava agradável.
Entrou no café e olhou para as mesas. Tinha chegado uns
minutos mais cedo, e ao que parecia, chegara antes da
Belecamus. Os olhos fixaram-se num homem com casaca aos
quadrados que estava sentado sozinho a uma mesa. Tinha a seu
lado um livro, e na mão um lápis, sobre um bloco de papel.
Pareceu-lhe de certo modo familiar, e a verdade é que agora o
homem olhava intensamente para Indy.
Cruzou o olhar para ele, desviou a vista e depois voltou a
olhar para lá. O homem tinha-se levantado da mesa e dirigia-se
a ele, abrindo caminho por entre as mesas cheias de gente.
Quem seria? Algum escritor que ele tinha conhEcido? Ou
talvez alguém simplesmente à espera de um papalvo que lhe
pagasse uma bebida. Se assim era vinha bater a má porta.
- Henry Jones, meu Deus! Como estás?
Indy olhou para o homem por momentos, até que o rosto se lhe
encaixou na memória:
- Prof. Conrad! O que é que está aqui a fazer?
Conrad riu-se:
- Anda daí, vamos sentar-nos. É uma longa história...
Indy tornou a dar uma vista de olhos à procura da Belecamus
e depois acompanhou Conrad até à mesa:
- Vim aqui para me encontrar com uma pessoa para almoçar,
mas ela ainda não chegou...
- Espera aqui até que ela chegue. Ou melhor: porque é que
vocês dois não me fazem companhia?
47
Quando se sentaram o empregado apareceu e mandaram vir café
com leite. O seu antigo professor de história não tinha mudado
muito em dois anos. O cabelo cor de areia tinha o mesmo
penteado, os olhos azuis continuavam vivos e brilhantes e
ainda tinha o mesmo bigode a cair aos cantos dos lábios.
Parecia agora, no entanto, menos formal; mais solto e
relaxado, como se tivesse encontrado em Paris qualquer coisa
que nos Estados Unidos Lhe faltara.
- Que bom que é encontrá-lo! - disse Indy. - Foi uma
surpresa...
- Sabes... Tenho pensado muitas vezes em ti, depois da tua
formatura...
Considerada a situação na última vez que ele se encontrara
com Conrad, Indy ficou sem saber se aquilo seria um
cumprimento ou não. Disse:
- Então por que é que não está a dar aulas?
- O Mulhouse recusou-me a entrada no quadro, e no Verão
passado não me renovaram o contrato.
- Mas porquê? O senhor é um óptimo professor; talvez o
melhor que eu tive na faculdade...
- Obrigado, Jones... - passou os dedos pelo cabelo. -
Mulhouse nunca me deu qualquer justificação...
Encolheu os ombros e continuou:
- Não tinha qualquer obrigação de o fazer. Mas o cerne da
questão era que queria ver-me fora dali desde aquele fiasco do
Dia dos Pais Fundadores.
Não era de admirar que o homem tivesse muitas vezes pensado
nele. Disse:
- Desculpe! Ao que parece a minha estúpida garotice teve
mais repercussões do que eu tinha imaginado...
- Não foi culpa tua. - Sorriu e inclinou-se para diante: -
Desde essa altura semprefiz questão de mencionar aquela tua
maneira muito especial de celebrar o Dia, nas minhas aulas.
Contei sempre a história de forma jocosa, e ao que parece o
Mulhouse teve conhecimento disso...
- Então e há quanto tempo está por aqui?
- Apenas há alguns dias. Estou a escrever uma novela que se
passa em Paris no tempo da Revolução.
- Sim, aqui é a cidade dos novelistas. Parece que sempre há,
pelo menos, um ou dois em cada café...
- Eu sei. Ainda outro dia vi o Booth Tarkington. Falámos um
bocado. - Bateu ao de leve com o dedo no livro que estava
sobre a mesa: - Depois disso tive de ir à procura de um dos
seus livros.
Seventeen. Já o leste?
- Há alguns anos... - Era sobre um rapaz americano em
confronto com a adolescência; era tudo o que se lembrava,
48
além do facto do rapaz ter uma irmã mais nova que comia pão
com molho de maçã. Acrescentou: - Também vi cá o James Joyce.
- Ah, viste? - Conrad olhou em redor como se esperasse ver
logo ali o autor irlandês. Depois o seu olhar foi atraído por
alguém que se aproximava da mesa.
- Henry Jones: cá estás...
Indy voltou-se e viu Dorian Belecamus a dirigir-se para a
mesa. Trazia um vestido azul e um turbante branco. Tal como
Conrad, parecia ter saído do seu normal aspecto professoral.
Os dois homens levantaram-se e Indy apresentou os dois
professores. Acrescentou:
- E vocês os dois podem chamar-me Indy, em vez de Henry;
Henry é o nome do meu pai...
Belecamus pareceu aborrecida. Olhou em torno de si como que
a procurar outra mesa.
- Parece que isto está cheio! - disse Conrad com uma certa
frieza, a reagir àquela espécie de evidente falta de à
vontade. - Gostaria que me fizesse companhia a almoçar...
- Oh, eu não queria incomodar... - respondeu ela.
- Não incomoda nada.
Vendo que não havia outra alternativa, ela anuiu e
sentou-se. Indy tomou a iniciativa da conversa a falar do
curso de história de Conrad, e dos motivos pelos quais tinha
ficado sem emprego. A princípio Belecamus parecia indiferente,
mas quando Conrad começou a pormenorizar o episódio do
enforcamento dos heróis, o seu interesse aumentou. Olhou por
diversas vezes para Indy e fez uma porção de perguntas
definitivamente objectivas acerca das reacções na
universidade, e da forma como ele reagira a elas.
Quando o empregado se aproximou da mesa, tanto Indy como
Belecamus mandaram vir ostras frescas com pommes frites e
Conrad mandou vir outro café com leite.
- Na Grécia, nem sequer haveria discussão sobre o assunto...
- disse Belecamus quando o empregado se afastou. - Se
enforcasse a efígie de qualquer dos líderes, iria
imediatamente para a cadeia. Não lhe passaram pela cabeça
quaisquer possíveis repercussões?
- Quando estava a fazer aquilo, não. Só depois...
Ela abanou a cabeça:
- Então por que é que o fez?
- Acho que queria marcar uma atitude...
- Mas também sentiu com isso um certo frémito, não foi?
Ele encolheu os ombros:
- Acho que sim... - Na realidade nunca tinha verdadeiramente
posto isso naqueles termos, mas era exactamente o que tinha
acontecido.
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Ela riu-se. Era uma gargalhada cheia, profunda, deliciosa.
Concluiu:
- O senhor tem um traço de irrequietação em si. Uma espécie
de rebeldia...
Encostou-se para trás na cadeira.
- Indy... - disse ela. A palavra pareceu desenrolar-se-lhe
da boca como uma expressão de música. - Indy... Nunca ouvi tal
nome; mas... gosto dele. E... pode chamar-me Dorian!
A mão dela tocou na sua quando se inclinou de novo para a
frente; um toque breve e deliberado que ele sentiu em todo o
seu corpo como um suave choque eléctrico. Não foi só o toque
em si. Foi a revelação de que a Lady Gelo não era afinal tão
impenetrável como ele tinha pensado...
Conrad olhava com curiosidade para os dois, mas não fez
qualquer comentário. Indy nada lhe tinha dito acerca da
iminente viagem à Grécia, e Conrad estava sem dúvida espantado
sem compreender o relacionamento que poderia haver entre eles.
Falou-lhe por isso na oferta que ela lhe fizera.
- Delfos. Parece fascinante... - disse, pensativamente. - E
vais aceitar a oferta da professora?
- Na realidade ainda não me decidi...
- Por que não? - perguntou Belecamus.
- A minha especialidade é linguística; não a arqueologia.
Vou perder um semestre; mas... não sei. Não tenho bem a
certeza do que quero fazer...
Ela desviou o olhar e ficou a olhar para a porta, como se
desejasse não estar já ali.
- Vocês, americanos! - disse com um suspiro. - São aqui uma
espécie de colónia. Escritores, artistas, estudantes. Têm
muita sorte. Podem estar a viver num país estrangeiro, e ao
mesmo tempo sentirem-se perfeitamente como se estivessem em
casa, entre compatriotas. E apesar disso o que fazem, a maior
parte de vocês..., é queixarem-se. São... são um grupo de
infelizes, perdidos num mar de cultura...
Não havia rancor na sua voz; estava apenas a mencionar as
coisas, tal como elas se lhe afiguravam.
Indy ia começar a discordar daquela opinião, mas nessa
altura chegou o empregado com a comida. Comeram em silêncio
durante algum tempo. Um silêncio que não era totalmente
confortável.
Por fim Belecamus meteu uma ostra na boca e apontando o
garfo a Indy disse:
- Afinal disse-me que estava interessado em arqueologia, e o
tinha sempre estado desde quase a sua infância. Então por que
é que está a estudar linguística?
- O meu pai ensinou-me línguas muito cedo. Línguas e mitos.
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Havia semanas em que só me falava em francês; outras semanas
era só em espanhol ou em alemão. Estudei latim uma hora por
dia, depois da escola, quando tinha 9 anos. Quando tinha 10
anos já conhecia a mitologia grega. Ele sempre me disse que
estava a preparar a minha carreira de estudioso; de estudioso
em linguística.
Ela suspirou e abanou a cabeça. Perguntou:
- Pronto, isso foi o seu pai. E o senhor? O que é que tinha
interesse em fazer?
A maneira como ela pôs aquilo aborreceu-o, mas apenas por
ser um reflexo dos seus próprios sentimentos.
- Qualquer coisa de excitante. Acho que não me agrada lá
muito a ideia de passar o resto da minha vida em bibliotecas a
embrenhar-me em manuscritos de línguas mortas...
- Então por que é que não mudas para a arqueologia? -
perguntou Conrad. - Ficavas com mais variedades...
- Também não me agrada ficar a ser um estudante a vida
inteira!
Belecamus afastou o prato para o lado:
- Olhe, In dy: se a placa que foi descoberta em Delfos for
importante, e eu tenho uma sensação que diz que é, vai poder
servir-se dela como base para a sua tese de doutoramento. Com
o seu currículo eu diria que pode facilmente chegar ao
doutoramento em dois anos. Um dia de estudo intensivo, e
depois a sua tese, e pronto: chega a arqueólogo. E, se não
resultar, pode voltar para a linguística...
Esta última parte não lhe agradava lá muito. Se se decidisse
pela arqueologia, seria por aí que ficava; não haveria
regressos.
- E se a placa não for o qe pensa?
- Nesse caso escolhe outra coisa qualquer para servir como
tese! - respondeu ela com um certo laivo de secura.
- Não te preocupes, Indy! - disse Conrad. - Se realmente o
quiseres, encontras com certeza aquilo de que precisas...
Decidiu-se:
- Muito bem: Vamos nisso!
Aí estava. Rápido. Simples.
Belecamus sorriu.
- Óptimo. Logo calculei que aceitaria. Saímos para Atenas
amanhã à tarde. esteja no meu gabinete pela uma hora da tarde.
Agora tenho de me ir embora...
Estendeu a mão a Conrad:
- Prazer em o conhecer. E boa sorte com a sua escrita...
Momentos depois a porta do café fechou-se sobre ela. Indy
olhou para Conrad:
- Que é que acha?
- Acho que a arqueologia é uma coisa de que vais gostar; e
vais sair-te disso muito bem...
- E sobre a Prof.a Belecamus?
51
Conrad cruzou e descruzou os dedos. A resposta foi lenta e
calculada:
- Não sei o que é que há nela Indy, mas eu teria muito
cuidado. Tenho a impressão acerca dela que... bom: está a
dizer uma coisa e a pensar outra...
- Acha que eu deva recusar a oferta dela?
- Não foi isso que eu disse. É simplesmente que me parece
haver aí qualquer coisa mais do que aquilo que ela diz...
52
CAPÍTULO VI
SOBRE OS CARRIS
O comboio ia mastigando quilómetros, a rolar pelos campos
abertos do Sul de Itália. Dorian Belecamus olhava pela janela
para as colinas sombreadas que se recortavam no horizonte
arroxeado. Os últimos raios de luz davam-Lhe um toque de
dourado, criando-lhes uma espécie de mágica. "Mas não era a
magia da Grécia", pensou ela. A sua terra natal era uma
paisagem de dramáticos contrastes: casas caiadas de
intensobranco a pontilhar as margens de um mar tão azul que
quase fazia doer a alma; montanhas da cor de uvas maduras e
céus queimados pelo sol.
"Em breve", pensou. O exílio que a si própria impusera,
estava quase a acabar. De manhã chegariam a Brindisi, onde
tomariam o barco para o porto de Pireu. Daí seguiriam por
terra até Atenas, e ela estaria em casa.
Afastou o olhar dajanela, levantou-se, e ligou a lâmpada de
leitura do seu lado do compartimento particular. No outro lado
Jones estava meio recostado sobre o seu lado esquerdo, com o
chapéu descaído sobre os olhos.
Ela sorriu ao olhar para ele. "Não havia qualquer dúvida",
pensou. Ia-lhe ser muito útil. Era precisamente aquilo de que
eles precisavam; rápido e inteligente, mas não tão rápido nem
tão inteligente que representasse perigo para eles. O sismo
era a desculpa perfeita. Ela e Jones trabalhariam nas ruínas
até se poderem concluir os arranjos, e preparar a armadilha.
Ouviu qualquer coisa, uma espécie de estalido: a porta
movera-se. Ela não a tinha fechado completamente e pensou que
aquilo pudesse ter sido causado pela deslocação de ar no
corredor à passagem de alguém. Viu, no entanto, como que o
delinear de uma sombra pela greta da porta e percebeu que
estava alguém do lado de fora.
Aguardou à espera que batessem e que a voz do condutor a
dizer-lhe que o jantar ia ser servido. Como o não ouvisse,
perguntou:
- Quem está aí?
Deu dois passos para a porta e abriu-a: não estava ali
ninguém. Espreitou ao longo do corredor e viu um homem vestido
de preto a atravessar a porta para a outra carruagem. Olhou
para dentro, para Jones que ainda estava a dormir,
53
e logo a seguir correu atrás do homem de negro.
A carruagem seguinte era de segunda classe: filas e filas de
passageiros ou liam ou dormiam. Não havia ninguém no corredor.
O homem devia ter-se sentado. Avançou olhando para todos os
passageiros, um a um. Viu um homem vestido de preto a falar
baixinho a uma rapariga. Tinha um jornal aberto nos joelhos e
parecia pouco provável que tivesse acabado de se sentar.
Duas filas mais adiante viu outro homem vestido de preto.
Estava a dormir. Ou estaria a fingir que dormia? Era um
homem de idade: a sua respiração era profunda e regular; tinha
a boca um pouco aberta e no lábio inferior brilhava uma gota
de saliva.
Continuou pelo corredor e contou quatro homens vestidos de
preto. Era inútil; que poderia dizer se interrogasse cada um
deles?
Podia perguntar por que é que tinham estado a espreitar-lhe
o compartimento, eles negariam e pronto: seria tudo.
Nesse momento viu a parte de cima da cabeça de um homem
louro, com o rosto enterrado atrás de um exemplar do Punch.
Tinha camisa branca e gravata. Era Farnsworth, claro. Devia
ter calculado. De via ter despido o sobretudo preto, mas o
estúpido desm ascarara-se com a revista inglesa.
Voltou-se rapidamente e afastou-se da carruagem.
Farnsworth tinha andado a segui-la na Universidade durante
todo o mês anterior. Depois de ter reparado nisso, e ter tido
a certeza de que ele a andava a vigiar, contratara um
investigador para descobrir quem ele era.
Quando soube o seu nome, não precisou de saber mais nada.
Em silêncio tornou a entrar no seu compartimento. Depois de
se certificar que Jones continuava a dormir, tornou a
instalar-se no seu lugar e abriu um livro no colo. Olhou para
ele sem o ler; os seus pensamentos fluíram de Farnsworth para
os dois homens mais importantes na sua vida, o seu pai e Alex
Mandraki.
As coisas que ela tinha feito por Alex! Não o amava, mas
sentia-se presa a ele. Sabia, contudo, que fosse o que fosse
que fizesse por ele, fazia-o por seu pai. Afinal fora ele quem
lhe apresentara Alex, e ofuturo docoronel de meia-idade estava
tão intimamente ligado ao do seu pai como o seu próprio.
Aquilo que seu pai não sabia era que ela e Alex estavam a
planear lançar-se nesse futuro. E por que não? Não fazia
qualquer sentido ficar a aguardar o inevitável...
Mas primeiro de tudo tinha de tratar de Farnsworth. Ele não
passava de um incidente trivial num esquema muito mais vasto,
mas tinha de ser tratado rápida e eficientemente. E o comboio
era o sítio ideal para isso. Afinal de contas ela já o tinha
enfrentado uma vez antes e tinha-lhe dito para a deixar em
paz. Ele, no entanto, decidira ignorar o seu aviso,
54
e ela agora já não podia suportar por mais tempo aquela
contrariedade. Se tinha que agir era agora antes de regressar
à Grécia; antes de Alex descobrir. Afinal de contas o problema
era dela, não dele.
Procurou no compartimento de bagagem por cima do seu lugar e
desatou um saco de lona de pôr ao ombro e procurou qualquer
coisa entre as espátulas, colheres de pedreiro e pincéis, as
ferramentas do seu ofício. Quando os seus dedos sentiram o
suave e frio aço do seu espigão favorito, sorriu. Sabia bem
senti-lo na mão outra vez. Tirou-o rapidamente e meteu-o na
sua bolsa.
Jones estava a mexer-se no sono, quase sem dar por isso e
ela voltou a sentar-se. Encostou o pé à barriga da perna dele,
levantou-a e depois deixou-a cair. Ele levantou a cabeça de
repente. Olhou em redor meio confuso, ainda ensonado, e depois
viu-a e sorriu-se.
- Acho que me deixei ir. Que horas são?
- Quase horas de jantar. Está a dormir há mais de uma hora.
Vamos tomar um aperitivo?
Indy pousou a mão no monte de livros a seu lado. Respondeu:
- Estava a pensar trabalhar um pouco mais antes do jantar,
mas acho que pode ficar para depois...
Tinha trazido consigo uma pequena biblioteca sobre
arqueologia grega. A sua excitação pelas perspectivas de
trabalhar em Delfos era mais ou menos travada pela sua
insegurança quanto à sua própria capacidade. E isso era uma
vantagem que ela contava utilizar para seu próprio benefício.
Quando chegaram à carruagem-restaurante, encontraram uma
mesa livre.
Jones mandou vir uma cerveja e Dorian que normalmente bebia
muito pouco pediu um francês sessenta e cinco. Ia precisar
daquilo depois.
- Que espécie de bebida é essa? - perguntou Jones.
- Champanhe e Vodka. Tem o nome de um canhão francês que foi
usado na guerra...
- Deve dar cá um coice...
Ela riu-se:
- E dá mesmo...
Ficou a rufar ao de leve com os dedos na mesa estudando-o
disfarçadamente. Ele parecia nervoso, como se tivesse qualquer
coisa para dizer, mas não tivesse ainda a certeza por onde ou
como começar.
- Dr.a Belecamus...?
Ela inclinou-se ligeiramente para diante:
- Por favor, não me chame doutora...
- Dorian!
Pronunciou o nome como se estivesse a experimentar-lhe o
som, a saborear-lhe o gosto. Mas não acrescentou mais nada.
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Ela teve a impressão que ele lhe queria perguntar por que
razão é que ela o tinha escolhido para a acompanhar, porque
ele não acreditara na explicação que ela dera, de ele ser o
seu melhor aluno. Havia muitos alunos noutros cursos com muito
mais experiência académica e de campo, e ambos o sabiam.
- Continue: o que é?
- Nada...
- Ouça, Indy, nós vamos trabalhar juntos durante bastante
tempo; talvez semanas. Por isso é muito importante que sejamos
francos um com o outro...
- Francos. Isso... - Repetiu as palavras com a lenta e
medida cadência de quem não conhece bem a língua. Aventurou-
se:
- Eu acho que estava a pensar o que é que, exactamente, quer
que eu faça em Delfos...
Dorian sorriu e estendendo o braço sobre a mesa, tocou-lhe
na mão:
- Vai haver muito a fazer; não se preocupe com isso. Vai
trabalhar e vai aprender. Vai ser uma valiosa experiência...
Indy anuiu. Mas mesmo assim continuava pouco à vontade.
Aquele seu gesto, claro, tinha surpreendido, como ela
soubera que surpreenderia. "Ele ia sem sombra de dúvida ser
muito fácil", pensou ela. "Sem qualquer dificuldade." Submisso
como um gatinho. Tinha feito uma excelente escolha.
- Que eu queria dizer é que eu sei que não tenho
experiência, mas também não quero só fazer serviços de
servente... - continuou ele. - Quero dizer: gostaria de ter a
oportunidade de fazer qualquer coisa de relevo...
Aí estava. Ele queria estar no centro das coisas.
Dorian passou lentamente os dedos pelas costas da mão dele.
Indy engoliu em seco e mudou de posição na cadeira. Sentiu
na face um leve rubor. Ficou a olhar para a mão dela. Ouviu-a
dizer:
- Terás a tua oportunidade... de mais maneiras do que
pensas.
Afastou os dedos da mão dele. E continuou:
- Na realidade, quero que seja o primeiro a examinar a
inscrição na placa quando a retirarmos lá de baixo, da fenda.
Pode pôr a funcionar os seus conhecimentos do grego antigo...
- Suponha que não seja grego antigo, mas sim Linear B...
Dorian riu-se e abanou a cabeça. Linear B era a designação
das inscrições nas placas encontradas durante as escavações em
Knossos, Creta, em 1899. Ninguém fora ainda capaz de decifrar
esse código.
- Indy, tem andado a ler muito! As possibilidades de se
encontrar uma placa escrita em Linear B em Delfos, são
muitíssimo remotas. Não se preocupe com isso...
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Acabou a sua bebida num a série de tragos, e ficou a olhar a
surpresa que se estampava no rosto de Jones. Riu-se
suavemente:
- Que é que há de mal? Pensava que eu não bebia, que nunca
relaxava nem me divertia?
Jones beberricou um pouco de cerveja:
- Às vezes não tenho bem a certeza do que penso a seu
respeito...
Ela sorriu-Lhe em resposta e olhou-o nos olhos:
- Pois bem, eu vou dizer-lhe o que penso a seu respeito. O
senhor tem não só inteligência e potencial, como é também um
homem muito interessante. Tenho de admitir que se você fosse
um feio brutamontes nunca Lhe teria pedido para vir comigo...
A perplexidade que se espelhou no rosto dele, divertiu-a.
"Provavelmente nunca ouviu falar assim tão cruamente", pensou.
- Então o que pensa de mim?
Descalçou um sapato e tocou com o dedo do pé na perna de
Indy.
- E seja franco!
Ele parecia assombrado. Tartamudeou:
- Na realidade nunca... encontrei uma mulher assim. Acho que
deves fazer parte da revolução das novas mulheres...
- Não. Sou uma excepção a elas...
Indy parecia mais perplexo do que nunca. Esperava com
certeza que ela concordasse com ele e dissesse que agora
estavam já nos anos vinte. As mulheres estavam a mudar e já
não estavam dispostas a viver espartilhadas, tanto em vestidos
como em ideias. Mas ela tinha as suas próprias ideias sobre a
revolução.
- As mulheres estão a revoltar-se, Indy, mas apenas em
coisas superficiais: fumar cigarros em público e cortar os
cabelos. E isso não é nenhuma revolução...
- Bom, pelo menos é um começo!
- O mal de muitas mulheres, principalmente as da sua idade,
é o de se recusarem a tratar com os homens de uma maneira
aberta, e intelectualmente. Em vez disso preferem o
subterfúgio, a intriga e o sexo.
- Acho que na realidade nunca pensei nisso dessa forma...
- Pois bem, eu pensei, e compreendo. Muitos homens não estão
preparados para tratar com as mulheres em pé de igualdade. Os
homens não precisam de se servir de subterfúgios ou de
intrigas para conseguirem o que querem das mulheres...
Inclinou-se para diante e tocou-lhe com um dedo no peito:
- Fazem-no clara e abertamente...
- Muitas mulheres estão mesmo a pedir isso. Provocam os
homens...
Ela desatou a rir:
- Vê o que eu disse? As mulheres estão a pedir por isso,
portanto..., vale tudo. As mulheres são consideradas o sexo
fraco, mas deixe-me dizer-lhe uma coisa:
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secretamente a maior parte dos homens receia e odeia as
mulheres...
Ele abanou a cabeça e sorriu:
- Eu não. Não tenho medo de mulheres e definitivamente, não
as odeio. E aí é que está o problema: eu adoro mulheres...
Quando ojantar chegou, Indy estava cheio de esperanças.
Apesar dos seus depreciadores comentários a respeito dos
homens, tinha a certeza de que Dorian o convidaria nessa noite
a ir para a cama dela e não podia deixar de imaginar como
seria com ela.
Pensou em si a passar as mãos pelos seus longos cabelos
negros, tocar-lhe o rosto, os ombros, ler todo aquele
maravilhoso corpo como um cego a ler braille. Nunca encontrara
ninguém como ela; nunca...
- Quer alguma coisa para sobremesa? - perguntou ela, quando
acabaram de comer.
- Talvez um gelado italiano...
- Spumoni, claro! Eu vou procurar o empregado. O serviço é
horrivelmente demorado!
- Não, deixe, Dorian! - disse ele, mas a mulher já se tinha
levantado e seguia pelo corredor.
Voltou-se a olhar para ela e viu-a deter-se e inclinar-se
para uma mesa onde estava sentado um homem sozinho. Os seus
olhares cruzaram-se por um momento, e qualquer coisa brilhou
neles; qualquer coisa que Indy não conseguiu decifrar. O homem
depois olhou para o lado, os olhos a saltitar como insectos e
os ombros a tremer nervosamente.
Teria cerca de 30 anos, cabelos louros e ligeiramente gordo
demais. Quando Dorian desapareceu para a carruagem seguinte, o
estrangeiro levantou-se e seguiu-a.
O olhar de Indy seguiu-o, a ele. Que diabo se passava?
Estava tentado a levantar-se e ir atrás deles, mas decidiu não
o fazer; não era da sua conta.
Poucos minutos depois chegaram dois pratos de gelado. Indy
olhou para o conjunto de coloridas bolas no prato que tinha
diante de si. Esperou imenso tempo até que as orlas do gelado
começassem a derreter. Abriu com a colher e provou.
"Por que é que ela se demora tanto? O que é que estarão a
fazer?"
Olhou por cima do ombro e depois voltou a sua atenção para o
prato. Lentamente, colher atrás de colher, acabou de o comer.
Quando terminou pousou a colher ao lado.
Era a altura de dar uma vista de olhos.
levantou-se da cadeira e seguiu rapidamente pelo corredor da
carruagem-restaurante.
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A carruagem seguinte, que era a última do comboio, era um
bar. Estava cheio, mas Dorian não estava à vista. Nem
tão-pouco o homem que a tinha seguido.
Descreveu Dorian ao empregado do bar e perguntou-Lhe se a
tinha visto.
- Não! - disse o jovem, abanando a cabeça. - Lamento...
- Mas eu via-a entrar para aqui; há uns minutos apenas; e
não saiu...
- Talvez tenha ido lá para fora...
Lá para fora? Passou através da multidão de pessoas que ali
estavam e abriu a porta. O ar suave do fim da tarde envolveu-
o, num perfume de campo e de céus de púrpura. Deu uns passos
no varandim de ferro e viu Dorian encostada à grade, a fumar
um cigarro. Por um ou dois momentos ela pareceu não dar pela
sua presença. Estava imóvel e tão adorável como uma estátua de
perfil, com o vento a soprar-lhe o cabelo afastando-o do
rosto, um braço cruzado na cintura e apoiada no outro com o
cigarro na mão.
Nesse momento voltou-se, viu-o e sorriu:
- Comeu o seu gelado?
"Calma e controlada" pensou ele. E por momentos o gelado
trouxe-lhe à memória a Rainha do Gelo. Fez um aceno afirmativo
com a cabeça e apontou-Lhe para o cigarro:
- Não sabia que fumava...
Ela atirou fora o cigarro por cima do gradeamento e pôs as
mãos na cintura:
- Provavelmente eu faço uma porção de coisas que não sabe...
Indy tocou-Lhe o rosto - lentamente beijou-a; um beijo
hesítante,lento.
A sua boca tinha o sabor de um fruto doce e exótico, de
exótico vinho, de tudo exótico.
Passou-lhe a mão pelos cabelos soltos, adorando a sua
densidade e a sua suavidade e nesse momento ela afastou-se
dele, deixando ainda a boca na sua. Murmurou:
- O meu gelado está a derreter-se...
- Aposto que sim...
Seguiu-a através do bar para o salão-restaurante e nessa
altura lembrou-se que não tinha tornado a ver o homem louro, e
agora a mesa onde ele tinha estado sentado estava vazia. Um
acto de desaparecimento, como nas mágicas.
Talvez ele tivesse imaginado tudo aquilo. Talvez Dorian se
tivesse detido a puxar uma meia e o homem tivesse ficado
embaraçado por ter sido apanhado a olhar para ela. Não a tinha
seguido: tinha ido à casa de banho. Nesta altura já estaria no
seu lugar, na carruagem de passageiros. Claro. Tinha de ser
isso.
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CAPÍTULO VII
INTRIGA EM ATENAS
O sol descia já no horizonte quando chegaram à Acrópole,
e a cidade parecia banhada numa névoa acobreada. Do sítio onde
estavam, bem acima de Atenas, os raios oblíquos do sol
bronzeavam as magnificentes colunas dóricas do Parténon, e
Indy deteve-se deslumbrante a olhá-las.
- Desde criança que sempre pensei que a Grécia era uma
lenda...
Dorian riu-se:
- Parece-me que estou a ouvir os ecos da voz do teu pai...
- É. As suas histórias para adormecer eram sobre os feitos
de Zeus, Heracles, Poséidon, Hermes e todos os outros: Madusa,
as Górgonas, Jasão e os Argonautas. Ouvi tudo a respeito
deles...
- Na realidade isso dá a ideia de uma infância maravilhosa -
disse ela, enfiando o braço no dele.
"Pois, formidável...", - pensou ele; mas não expressou a sua
discordância. Pelo menos, nesta altura não. Inspirou fundo,
como se o mágico ar que rodeava aquele bastião pudesse de
certo modo reter aquele momento.
- Qual é a mais maravilhosa coisa que achas da Acrópole? -
perguntou ela.
Indy ficou por momentos a lembrar-se de tudo quanto lera,
mas nada lhe ocorreu e abanou a cabeça. Ela disse:
- Para mim, é que ainda exista alguma coisa dela! - E
explicou: - Os turcos armazenaram munições num edifício
chamado Propileia, e um dia, em 1645, tudo aquilo explodiu.
Quarenta e dois anos depois, os venezianos fizeram explodir o
Partenon. O único motivo por que ele ainda lá está foi porque
no século xix, os arqueólogos o restauraram conforme aquilo
que acreditavam ter sido o seu aspecto no século v d.C...
- Agora pareces outra vez uma professora... - comentou ele a
sorrir, só para lhe mostrar que o não dizia em tom de crítica.
- Isto afinal deve ser para ti um lugar de especial...
- Na verdade é, mas na realidade o meu lugar favorito em
Atenas é a Torre dos Ventos, na Agora Romana, especialmente de
madrugada...
60
- Qualquer dia tenho de ir vê-la. - Indy ficou a olhar para
a cidade lá em baixo, sob a luz que ia esmorecendo. Disse:
- Lugar maravilhoso para se ser arqueólogo: as melhores
ruínas logo ali mesmo, no quintal atrás da casa...
Esperava que ela se risse, mas ela não o fez. Em vez disso
respondeu:
- A arqueologia cresceu em torno deste país tal como o fez a
civilização europeia...
Deixaram as imponentes colunas do Partenon e dirigiram-se
para o Erecteu, o único edifício que sobrevivera. Indy olhou
para ela:
- Então por que é que ensinas em Paris? Calculo que
gostasses mais de estar aqui...
- É uma coisa bastante complicada. Tens de compreender que
nós, os arqueólogos gregos, somos inclinados a favorecer os
aspectos estéticos da ciência. Em vez de nos andarmos a
enlamear pelas galerias à procura de fragmentos de vasos, a
maioria de nós prefere estudar as grandes obras da antiga
escultura. Com efeito, o director de arqueologia das nossas
principais universidades é na realidade também presidente da
história da escultura...
- Sim? E porquê?
- É uma forma de compensação, pelo facto de estarmos
económica e socialmente atrás dos países que ficaram com a
nossa herança. Nós só nos tornámos independentes há noventa
anos, como sabes, após quatro séculos de domínio estrangeiro.
Assim , centrando-nos nos aspectos estéticos da arqueologia,
conseguimos mesmo muito ao de leve elevar a nossa actual
cultura.
- E tu concordas com essa forma de abordagem?
- Não; mas compreendo-a. E ensino em Paris, porque assim é
mais fácil uma mais vasta abordagem do campo.
Detiveram-se diante do Erecteu e ficaram a olhar para as
Cariátides, uma série de virgens de pedra que serviam de
pilares à varanda do lado sul do edifício.
Os últimos raios de sol dançavam nos rostos das deusas de
pedra; atrás delas, riscos de luz e de sombra perpassavam
através de péjunto à base de uma das estátuas.
- Tu fazes-me lembrar vagamente um outro estudante... -
disse ela em voz tão baixa que Indy quase julgou que ela
estava a falar consigo mesma. - Era de Inglaterra. Quando veio
para aqui, não tinha a mais leve ideia da nossa história
recente. Sabia que Lord Byron tinha morrido em Missolongui; e
era tudo...
Calou-se por momentos e Indy ficou à espera que ela
continuasse. Por fim disse:
- Temos de ir andando...
As primeiras luzes começavam a piscar entre os crepúsculos
de sombra sobre a cidade.
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Indy concordou com um aceno, mas a sua atenção foi de novo
atraída para o Erecteu. Afirmou a vista, tanto quanto podia,
nos recessos interiores da varanda. A luz tinha mudado, o
reflexo tinha desaparecido e agora já se via claramente toda a
varanda. E estava ali alguém. Não: duas pessoas. Dois homens,
e estavam a espreitá-los.
- É estranho...
- O quê? - perguntou Dorian.
- Estão ali dois fulanos ao pé das Cariátides a
observar-nos...
Dorian voltou-se subitamente como se ele a tivesse
apunhalado nas costas.
- Não vejo ninguém...
- Agora recuaram.
Ela pegou-lhe no braço:
- Vamos!
Indy não sabia porque era a pressa, mas seguiu-a, de
regresso ao Partenon. Logo abaixo dele havia um carreiro que
levava à estrada onde os cavalos e os carrinhos esperavam.
Em Atenas havia um misto de carruagens e de automóveis, ao
passo que em Paris o predomínio era dos automóveis, e os
cavalos eram coisa rara. Era como se Atenas não se conseguisse
ainda decidir se havia ou não de entrar no século xx.
Dorian apertou-Lhe outra vez o braço:
- Indy, eles vêm atrás de nós...
Ele olhou para trás. Os dois homens dirigiam-se para o
Partenon, um deles alguns metros adiante do outro.
- Por que é que pensas que vêm atrás de nós? Provavelmente
trata-se de um par de turistas...
- Torna a olhar!
Os homens tinham-se aproximado. Não vinham propriamente a
correr, mas não se preocupavam sequer em disfarçar o facto de
estarem com muita pressa.
- Vamos esperar. O mais provável é que nem sequer estejam
preocupados connosco...
Dorian pegou-lhe no braço:
- Não sejas doido. Corre!
Começaram a correr, saltando por cima da escarpa rochosa.
Indy sentia-se um pouco ridículo; continuava a duvidar que
os homens os viessem a perseguir. Tropeçou e quase arrastou
Dorian a cair por cima dele. Sentiu uma dor lancinante no
tornozelo.
- Raios!
- Depressa! - sibilou Dorian. Ele fez uma careta de dor ao
levantar-se e coxear atrás dela.
As sombras tinham mudado para um tom escuro de púrpura,
dificultando ainda mais a vista. Arranharam os braços da
densidade agreste dos arbustos ao descerem o carreiro,
62
e o tornozelo de Indy latejava como um surdo grito a cada
queda que ele dava. Olhou várias vezes para trás, mas não viu
ninguém a persegui-los.
As ruínas estavam quase vazias e uma única carruagem
esperava ao fundo do carreiro por algum retardatário. Dorian
correu para ela, agitando os braços para o cocheiro. O homem
calmamente abriu-lhe a porta; Indy atravessou a estrada a
correr, mesmo a coxear.
- O senhor está bem? - perguntou o cocheiro.
- Óptimo. Vamos!
Quando a carruagem arrancou, Indy olhou pela janela para o
escuro da noite que caía. Ainda viu os homens no momento em
que chegavam à estrada. Pararam e ficaram a olhar para a
carruagem que se afastava.
- Provavelmente vinham a ver se ainda conseguiam apanhar o
último trem, e não a nós... - disse.
Ela não respondeu.
Acasa de Dorian ficava numa colina de um bairro velho
chamado Monastiraki, de onde a qualquer hora do dia se podia
olhar e ver a Acrópole a pairar nos céus como um templo de
deuses.
A casa era de aspecto esquisito com pilastras aos cantos, um
tecto de telhas debruado com deusas de terra-cota, e um
pequeno pátio protegido da rua por um gradeamento de ferro
fundido e cheio de vegetação.
"Nada mal...", pensou Indy Quando entraram em casa e lhe
cheirou ao jantar que estava a fazer. Ela chegara a casa ao
fim de dois anos e era como se nunca de lá tivesse saído.
Tinha ali outra vida, e era como se nunca a tivesse
abandonado. Não só ojantar estava a ser feito pela governanta,
como também a aguardava um banho de espuma. Enquanto tomava
banho, Indy sentou-se na cama a banhar o tornozelo inchado num
balde de água fria.
- Olá, Indy! - gritou Dorian.
Ele olhou para a porta da casa de banho:
- Sim?
- Traz o balde de água para aqui, para podermos conversar!
"Boa ideia...", pensou ele. Na verdade queria falar-lhe,
e... porque não quando ela estava no banho? Teve um sorriso
atrevido a encrespar-Lhe os lábios ao tirar o pé do balde.
"Como é que eu não pensei nisso antes?"
Pousou o balde ao lado da banheira e sentou-se numa cadeira
por cima de uma toalha. No chão, ao lado da banheira estavam
uma garrafa e um copo de vinho. Dorian tinha na mão um copo
meio cheio.
- Serve-te de retsina! - disse ela quando ele enfiou outra
vez o pé no balde.
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- Obrigado. O que é isso?
- Um vinho feito de seiva de pinheiro.
- Seiva de pinheiro? - despejou vinho no copo, provou-o e
fez uma careta.
Dorian riu-se:
- Vais acostumar-te, pateta. É muito popular; há quem diga
que é popular de mais. É preciso ter-se muito cuidado para se
não abusar...
Bebeu outro pequeno trago; os olhos desviaram-se do rosto
dela. Avisão do seu corpo envolto naquele monte de espuma com
uma perna languidamente esticada sobre um dos lados da
banheira, trouxe-lhe à memória o seu recente encontro íntimo.
Viu-se a ele e a ela enlaçados no beliche dela do comboio, com
os movimentos sincronizados com o matraquear dos carris lá em
baixo. Aquele encontro amoroso quase lhe parecia agora irreal;
nada que se parecesse com uma recordação. Ainda lhe custava a
crer como a Dama de Gelo de Paris se tinha tão depressa
derretido nos seus braços. E, no entanto, ali estava ele
agora, tranquilamente a vê-la tomar o seu banho.
Tudo desde então Lhe parecia qualquer coisa como uma cena
desfocada. Tinham saído do comboio ontem de manhã, e passado a
maior parte do dia no ferry-boat. Ao chegarem ao porto de
Pireu, tinham tomado um táxi para Atenas. Tinham chegado
perfeitamente exaustos, e tinham dormido doze horas.
Hoje, enquanto Dorian se ocupara dos pormenores para a
viagem até Delfos, Indy tinha ido explorar a cidade sozinho.
Primeiro tinha devidamente ocupado a manhã no museu
arqueológico; depois tinha simplesmente andado a vaguear e a
ver as vistas.
- Então que pensas de Atenas? - Murmurou ela.
- Gosto, mas não se pode comparar a Paris...
- E a que conclusão chegaste? - Ela estendeu uma das pernas
com os dedos dos pés a apontar para o tecto.
Indy pensou por momentos. "Na realidade, a textura de vida
aqui é diferente", concluiu. A beleza de Paris era vista
através das subtis mudanças da qualidade da luz. Aqui a luz é
mais crua, mais brilhante, em contraste com a rudeza da
paisagem...
- A Grécia é indiscutivelmente fértil; a França é mais...
intelectual; mais refinada...
- De acordo.
Ambas as cidades estão ligadas ao passado, mas o passado
afectava cada uma delas de diferente maneira. Paris brilhava
como centro de cultura artística, como a resultante criativa
de passados triunfos artísticos. Aqui, muito embora o passado
estivesse em toda a parte, a cultura que florira, estava agora
adormecida. Paris era uma escultura ainda a definir-se;
64
Atenas era um monumento,
e a sua gente só podia ficar a
olhá-lo e a assistir à sua lenta deterioração.
E, no entanto, apesar de viverem à sombra dos seus
antepassados, os gregos ainda pareciam brilhar em espírito.
Via-os como um povo gregário, falador, que expressava livre e
abertamente as suas emoções fossem elas de alegria, de ira ou
de tristeza. A maioria dos homens era morena, de cabelos
encaracolados e belos.
Fumavam tabaco escuro e bebiam intermináveis chávenas de
café enquanto desfiavam com ar ausente rosários de contas de
âmbar ou de prata. As mulheres, contudo, pareciam resignadas
às suas tarefas domésticas e muitas delas vestiam de preto
como se viessem em permanente luto.
Tentou exprimir o possível dos seus pensamentos, mas Dorian
não parecia já interessada. Interrompeu:
- Indy, quero dizer-te por que é que eu pensei que aqueles
homens nas ruínas vinham atrás de nós.
- Óptimo. Tenho muito interesse em ouvir!
- Primeiro tenho de te dizer um bocadinho a respeito da
minha família... - disse ela, inclinando as costas para lavar
a base do pescoço, e fazendo os mamilos rosados do seio
aflorar acima das largas e coloridas bolhas de espuma.
- A tua família? - Era difícil concentrar a atenção no que
ela dizia.
- Sim, a minha família. É que, sabes, as raparigas gregas do
campo não se tornam por encanto em arqueólogas. O meu pai era
um construtor de barcos, e possuía bastantes terras. Possuímos
até um par de ilhas...
- Ilhas? Ilhas mesmo inteiras?
Ela riu-se:
- Sim, mas não são muito grandes...
- E ele vive em Atenas?
- Tem uma propriedade aqui, e casas em Roma e em Londres.
Actualmente está a viver em Roma e não pode vir a casa...
- Por que não?
- Política!
Cuspiu a palavra como se fosse uma praga.
- Depois da Grécia ter alcançado a independência, deixou de
haver nobreza, por isso as famílias que se envolveram na
política foram as que enriqueceram.
- Isso parece bastante típico...
- Sej a como for, quando o rei decidiu invadir a Turquia, no
ano passado, o meu pai excusou-se. Sabia que aquilo ia acabar
num desastre. E por ter dito as verdades... foi exilado.
O amargo da sua voz reflectia-se na dureza das feições.
ConCluiu:
- E continua exilado.
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Indy sabia que os resultados da guerra com a Turquia tinham
sido exactamente como ela dissera. Tal como ele tinha
entendido, a Grécia tinha invadido o país vizinho, na
esperança de libertar os gregos que viviam fora da Grécia.
Agora a cidade estava pejada de refugiados que tinham sido
forçados a abandonar as suas casas durante o conflito, e a
perda de vidas tinha sido elevadíssima.
- Calculo que a invasão não resolveu nada... - disse.
- Tudo o que sucedeu foi um erro tremendo e horrível.
Enviámos para lá cem mil homens e ainda estão a ser
massacrados...
Indy assentiu, sem saber ao certo o que dizer. Beberricou um
pouco do seu retsina e olhou para ela.
- Seria de pensar que tivéssemos aprendido alguma coisa com
a Grande Guerra. Sofremos tremendamente com o nosso apoio à
Inglaterra e a França. O povo grego está cansado de lutas e
agora estamos novamente a lutar...
- Mas o que é que isso tudo tem a ver com os dois homens na
Acrópole?
Dorian girou a aresta do copo entre os dedos, a coligir os
pensamentos. Lentamente disse:
- O meu pai avisou-me para não voltar até que as coisas aqui
assentassem. Disse-me que seria muito perigoso se o fizesse...
- Pensas então que eles trabalham para o rei?
- É possível.
- E por que é que eles não te proíbem pura e simplesmente de
trabalhar nas ruínas? - perguntou.
- O rei com certeza que podia impedir-me de regressar a
Delfos, mas não é parvo. Delfos é um tesouro nacional e
ficava-lhe mal se me proibisse de regressar, principalmente
depois daquele tremor de terra...
- Pensas então que eles te andam a vigiar às escondidas,
para verem o que é que andas a fazer?
Ela deu o copo vazio a Indy, pedindo-lhe com um gesto para
lho tornar a encher. Respondeu:
- Se eles me andassem apenas a vigiar, não me importava, Mas
estou convencida que a gente do rei, se não o próprio rei,
gostaria muito de ferir o meu pai. E se eu fosse morta, seria
uma vi tória para eles.
- E o que é que vais fazer?
- Nada. Vamos para Delfos amanhã de manhã, tal como tínhamos
planeado. Recuso-me a ser intimidada...
Indy inclinou a garrafa, a encher o copo de Dorian e depois
o seu. Decidiu que a retsina, afinal de contas, não era má de
todo, estendeu-lhe o copo e ficou a vê-la ensaboar uma anca
com uma esponja redonda.
- Pousa os copos... - disse ela, passando-Lhe a mão pelo
pescoço.
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- Que é que estás a fazer?
Ela puxava-o para si para dentro da banheira e a retsina
entornou-se no chão.
- Acho que estás a precisar de um banho...
A voz tinha inflexões roucas e macias, entrelaçadas com
reminiscências de risos. Ela enlaçou os braços molhados nas
suas costas e ele caiu de lado, espadanando água e colando o
seu corpo ao de Dorian que lho enlaçou com as macias pernas.
- E a criada?
- Não te preocupes.
- E ojantar?
- Depois...
Ele tartamudeou a passar o braço molhado pela cara enquanto
ela Lhe tirava as roupas encharcadas:
- E eu é que devia ser o agressivo... se demoras muito. Além
disso estás a precisar de umas lições.
- Pronto, senhora professora...
Tirou a camisa que estava numa sopa.
- Parece que afinal ainda sou o seu aluno...
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CAPÍTULO VIII
JORNADA PARA DELFOS
O quarto estava escuro quando Dorian se levantou da cama.
Empurrou para o lado a cortina e a fraca luz acinzentada da
madrugada varreu o quarto. Passava das 5 horas; tinha de se
apressar.
Atravessou silenciosamente o quarto, olhou de relance o
vulto coberto na cama e depois enfiou rapidamente uma saia
plissada, uma blusa e um colete de lã.
Ia já a sair do quarto quando Jones se mexeu. Ela
imobilizou-se, olhando para ele, fazendo mentalmente força
para que não acordasse. Quando se certificou de que ele a não
tinha ouvido, voltou-se e saiu.
Cá fora, ao lado da casa, pegou na bicicleta e trouxe-a para
fora do pátio. Abriu a cancela de ferro, fez uma careta quando
a ouviu chiar e depois montou na bicicleta e começou a
pedalar.
A uns três quarteirões da casa, Dorian virou à esquerda e
começou a descer a colina. O ar da manhã estava fresco e
sentiu-se satisfeita por ter vestido o colete. Lá adiante
começava a alargar-se vagamente nos ares uma claridade de um
rosa demasiado a desafiar o carrancudo cinzento do horizonte
ocidental.
Começou a travar quando chegou ao fundo da colina, virou à
direita e atravessou a Platia Monastikariou.
A praça, normalmente pejada de vendedores de nozes, lugares
de fruta e vendedores ambulantes, estava àquela hora ainda
silenciosa. A igreja, mosteiro do século x, no centro dela
tinha um ar desolado e cinzento, como relíquia solitária do
tempo em que a vida era simples.
Passou as paredes em ruína da Biblioteca de Adriano, e
seguiu pela Rua Eolou até chegar às portas de Athena
Archegetis, a entrada para o Forum Romano.
Gravado na base da pilastra em frente à Acrópole via-se um
edicto de Adriano a anunciar as regras e as taxas para a venda
de azeite. Dorian pensou distraidamente: "Se Adriano pudesse
ver hoje isto!"
Levou a bicicleta à mão para passar o portal e entrar nas
ruínas, passando ao lado de barracas improvisadas sobre as
ruínas das antigas latrinas públicas.
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Pelas frinchas das portas de algumas das barracas escapavam-se
delgadas volutas de fumo, os primeiros sinais do dia que
começava. Por toda a extensão das ruínas da praça do vetusto
mercado, havia barracas improvisadas construídas pelos
refugiados que tinham invadido a cidade. Mais uma catástrofe
nacional.
Continuou a avançar até chegar a uma torre octogonal, ao
lado da qual encostou a bicicleta.
Não sabia bem ao certo porquê, mas a Torre dos Ventos
fascinava-a. Fora assim designada no século I d.C. por um
astrónomo sírio chamado Andronico de Cirra, e servia de
bússula, relógio de sol, catavento e relógio de água accionado
por um riacho. Se o relógio ainda estivesse a funcionar,
poderia indicar que eram 5 horas e 30 minutos, pela leitura do
nível da água no cilindro do interior.
Ergueu os olhos para a torre. Cada uma das suas faces estava
ornamentada com a escultura em relevo de uma entidade mítica a
personificar cada um dos oito ventos. Mesmo acima do sítio
onde ela estava havia um relevo de Skiron, a segurar um
recipiente de carvão. A seu lado Boreas, o Vento Norte,
soprava numa trombeta feita duma concha.
- Recebi o teu recado... - disse uma voz atrás de si, ao
mesmo tempo que uma mão lhe poisava no ombro.
- Chegaste cedo... - ela baixou os olhos e voltou-se.
À pálida luz da manhã, Alex Mandraki era um vulto escuro e
carrancudo, tão misterioso como os seres míticos no alto da
torre.
- A zelar pelos meus interesses...
Passou a mão ao de leve pelo rosto dela, muito suavemente,
como se não tivesse bem a certeza de ter o direito de o fazer.
Disse:
- És uma admirável estratega, Dorian; darias um homem
formidável, melhor do que muitos. Deve ser por isso que eu
gosto de ti.
Ela passou-lhe a mão pelo rosto, a pele tinha um toque
áspero, mesmo com a barba feita há pouco tempo.
-Só gostar? Pensei que me amavas,..
Ele pegou-lhe na mão. As suas feições suavizaram-se tanto
quanto podia ser numa pessoa de quem apenas um olhar bastava
para fazer tremer os seus homens.
- Claro que te amo; e tive saudades tuas...
Puxou-a para si e beijou-a com uma súbita intensidade.
- Também senti a tua falta... - murmurou, afastando-se dele.
- Foi muito horrível?
- Uma matança. Mais do que quaisquer palavras possam dizer.
E nada se podia fazer para o evitar...
- Tanto mais razão para aquilo que temos de fazer.
Ele observou-a por momentos, talvez a tentar ler-Lhe o
pensamento através da sinceridade e da intensidade do seu
olhar, da sua expressão.
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- Sei que te aproximaste do americano, mas espero que não
tomes a tua tarefa muito a sério...
Ela sorriu-lhe pela primeira vez:
- Estás com ciúmes, Alex?
- Não... - passou os dedos pelos cabelos curtos e
encaracolados. - Ainda... ainda não. - Tornou a pegar-lhe na
mão. Começaram a andar. O nariz dele, adunco, numa silhueta a
contrastar com a luz ainda pálida parecia um bico aguçado e
mortífero de uma ave de rapina.
- O ciúme é como o ódio: é uma emoção que consome
energias...
- Pode dizer-se o mesmo da guerra...
- Na presente situação - disse ele, referindo-se à invasão
da Turquia - concordo por absoluto. Mas não podemos em caso
algum eliminar o nosso exército; passaríamos a ser um povo
fraco, incapaz. Os gregos nunca mais poderão ficar subjugados!
- Não precisas de me catequizar, Alex. Principalmente a esta
hora da manhã...
- Há qualquer coisa que te preocupa. O que é?
Ela contou-lhe o aborrecimento que tinha tido no comboio.
Ele assentiu com a cabeça e depois disse em voz firme e
marcada:
- Fizeste o que devias fazer. Mas eu tinha-te avisado que
Farnsworth podia dar trabalhos; devia ter posto alguém no
comboio contigo...
Ela sorriu:
- Eu sei dar bem conta de mim...
- Assim parece. Então não há problema.
- Ainda não acabei. Parece-me que há dois outros a trabalhar
com o Farnsworth... - e contou-Lhe dos dois homens que os
tinham perseguido na Acrópole.
Pelos seus olhos perpassou uma profunda sombra. Abanou a
cabeça:
- Dá a impressão de se tratar de amadores...
- Graças a Deus. Eu estava vulnerável; não consegui vê-los
bem, mas o Jones conseguiu... - descreveu o melhor que podia
os dois homens.
- Vou ver o que posso fazer, e mandar pôr um guarda ao teu
carro.
- Não é preciso!
- Por favor, deixa-me decidir a mim o que é que é preciso
para te proteger...
Sorriu e pegou-Lhe na mão:
- Agora quero que me digas o que é que estás a pensar para
Delfos!
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Quando ela fez deslizar a bicicleta para a rua, minutos
depois, havia já pinceladas de rosa e amarelo no céu. A
tranquilidade da madrugada acabara e o velho Forum começava a
despertar, com as pessoas a saírem em grupos das barracas.
"Vai ser um dia muito longo...", pensou.
Indy corria pela Acrópole com os braços a balançar aos lados
e as pernas quase numa mancha informe sob si, e a respiração a
arfar em jactos contínuos e agudos. Atrás de si ouviu os
homens, com os sapatos a bater na calçada e os gritos a
cortarem o ar. Aproximavam-se cada vez mais; voltou
rapidamente a cabeça; não conseguia correr mais depressa,
porque as pernas não o ajudavam. Sentiu o pânico apertar-lhe a
garganta.
Um dos homens subitamente passou à frente do outro e
atirou-Lhe com uma garrafa de retsina à cabeça. Sabia que lhe
devia ter doído, que uma dor aguda e lancinante lhe devia ter
atravessado o crânio; mas a única coisa que sentiu foi uma
intensa reverberação que lhe ecoou na cabeça, a soar como uma
corneta.
- Acorda, Indy!
Abriu os olhos e fechou-os logo a seguir por causa da luz,
daquela luz cruel e brilhante.
- Jesus! - gemeu. O som agudo da corneta do lado de fora da
janela continuava a bater-Lhe lá dentro, contra as paredes da
cabeça. - Que diabo é que se passa?
- É o nosso transporte para Delfos. Apressa-te a
arranjar-te. Mas primeiro bebe isto...
Sentou-se na cama, esfregou a cara en sonada e viu que
Dorian já estava vestida. Estendia-lhe uma chávena de café
denso como um xarope; a chávena pouco maior do que um dedal.
- Espero que não tenha o tal «ouzo»... - disse, Na realidade
ao jantar tinham acabado a garrafa de retsina e depois da
refeição tinham provado uma outra bebida grega; o ouzo, um
licor que pareceu a Indy qualquer coisa como o Pernod que às
vezes bebia em Paris. E a cabeça ainda lhe latejava com os
resultados daquela combinação.
- Nem uma gota, posso garantir-te...
Fez uma careta quando a buzina soou outra vez, mas poucos
minutos depois estava já vestido e pronto para sair. Estendeu
a mão para debaixo da cama à procura da mala, mas não a achou.
Baixou-se mais e descobriu a mala, e mais qualquer coisa.
Estendeu o braço, a tentear o chão e tirou cá para fora uma
bota. O par estava logo atrás dela; pareciam do tipo militar.
- Indy, vamos... - Dorian parou no limiar: - O que é que
estás a fazer?
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- Estava só a tirar a minha mala. - Deixou cair a bota e
olhou para Dorian.
- No caso de estares a pensar coisas, informo-te que são do
filho da minha governanta. Morreu na Turquia. Eu espero lá
fora...
Voltou-se e saiu.
Indy atirou com a bota para debaixo da cama e pegou na mala.
"Curioso, conservar as botas de um soldado morto...", pensou.
Quando chegou cá fora viu dois homens armados de espingarda
encostados à parte detrás do camião. Quando trepou para o
banco da frente ao lado de Dorian, perguntou-lhe quem eram.
- Guardas.
- Estás à espera de complicações?
- Só preparada para isso...
Minutos seguiam aos saltos por uma estrada de cascalho em
direcção às colinas para além da cidade. As molas do camião
estavam em péssimo estado, e cada sacão ainda mais aumentava a
dor da cabeça de Indy.
O motor rugia fazendo um enorme barulho de cada vez que
acelerava, tornando difícil a conversa.
- Esta estrada... - ouviu Indy, Dorian começar, mas depois
só lhe via os lábios a mexer, e não conseguiu distinguir as
palavras que dizia.
- O quê? - gritou.
- Esta estrada... de Édipo.
Franziu a testa e abanou a cabeça. Que relação poderia haver
entre aquela estrada e Édipo.
Dorian inclinou-se para ele e gritou-lhe ao ouvido:
- Esta estrada não mudou muito desde o tempo de Édipo!
Era de acreditar.
Dorian desistiu de conversar e Indy pôs-se a olhar para as
colinas cinzentas de pedra e para os pinheiros ao longe.
Parecia que desde o dia em que saíra de Paris a viagem assumiu
uma nova dimensão. Primeiro, o seu relacionamento com Dorian
tinha-se transformado radical e dramaticamente. Depois
descobrira que ela era persona non grata no seu próprio país.
A ideia de poder ser apanhado em maquinações políticas que nem
sequer entendia, perturbava-o. Ela dissera que deviam ser
completamente francos um para o outro, mas ao que parecia ela
só era franca quando achava isso oportuno.
Agora começava a compreender as suspeitas de Conrad acerca
de Dorian. Até Shannon, que nem sequer a tinha conhecido,
tinha razão a respeito de uma coisa: viajar com Dorian era uma
aventura, e tinha a impressão que ainda não tinha visto tudo.
Raios: pois se ainda nem tinham chegado a Delfos!
Mas a verdade é que ele procurara um desafio, e até talvez
algum perigo. E as aventuras eram assim, afinal de contas. Mas
por outro lado também queria continuar vivo; disso não havia
dúvidas...
De vez em quando olhava para trás, a certificar-se se não
estariam a ser seguidos; mas só o que via era nuvens de pó
atiradas pelas rodas do veículo.
Por fim Dorian encostou-se a ele:
- Queres deixar-te dessas preocupações? Temos dois guardas
connosco; se houver algum problema, eles tratam dele!
Ele concordou com um aceno de cabeça, deixou-se escorregar
no banco e encostou a cabeça, fechando os olhos. Em pouco
tempo o monótono barulho do motor lhe trouxe a sonolência.
Passou pelo sono, acordou sobressaltado e tornou a adormecer,
num ritmo quase tão previsível como o tic-tac de um relógio.
Ao princípio da tarde já iam a subir as faldas do Monte
Parnasso, e a sua expectativa de ansiedade aumentava com a
crescente altitude.
- Estamos quase lá! - disse Dorian, espreitando pelo
pára-brisas para o pico da montanha.
Indy tocou-lhe ao de leve na coxa; ela afastou-se dizendo:
- Temos de nos portar profissionalmente enquanto estivermos
nas ruínas. Aqui, és meu aluno; nada mais. Percebes?
Tinha uma expressão dura, quase como moldada em pedra. Indy
soltou uma pequena gargalhada nervosa:
- Ora vamos, c'os diabos! Estás com receio de algum
escândalo por eu ser mais novo do que tu?
- Isto não é brincadeira nenhuma, Jones. E a idade não tem
nada a ver com isso. Simplesmente não é próprio uma professora
dormir com um aluno...
"Não é próprio para quem?", pensou, mas não fez a pergunta.
Teve o súbito desejo de lhe dizer que nunca tinha sentido nada
que se parecesse com fazer amor com ela; era mais do que uma
simples paixão sexual: era a realização do seu desejo por uma
mulher que era diferente de todas as outras que tinha
conhecido até aí. E, no entanto, desejava mais do que nunca.
Ela era tão sedutora e tão enigmática como o próprio mistério
de Delfos, e ele precisava dela.
Mas não lhe disse nada, também. Tinha medo que ela se risse
dele, que lhe chamasse um querido aluno de amor, ou qualquer
outra coisa tão humilhante como isso.
- Além! Estás a ver? - apontou ela.
Indy inclinou-se para diante e viu o planalto de um a
montanha que parecia literalmente suspenso no espaço, no
intervalo entre dois ameaçadores picos rochosos. Parecia
pequeno e insignificante, em comparação com a montanha.
Dorian disse ao motorista para parar por um minuto. Saíram
do camião e ficaram a olhar para Delfos.
- Acho que esperava que fosse maior... - disse Indy.
72
73
- O tamanho não tem nada a ver com a sua importância! -
respondeu ela. - Pensa nisto, Indy: durante um milhar de anos,
reis e homens de Estado, chefes militares e mercadores,
subiram os contrafortes destas montanhas, para levarem
perguntas ao Oráculo...
Lembrou-se dela ter dito na aula que as profecias eram na
maior parte das vezes obscuras e ambíguas. E se assim era,
como é que isso podia ter durado tanto tempo e impressionado
tanta gente?
- Houve alguma vez alguém que verificasse a exactidão das
profecias?
- Por Que é que perguntas isso?
- Porque se eu fosse fazer depender o meu futuro nas
palavras desconexas de uma velhinha, gostaria de saber que
crédito é que elas me mereciam...
- Vocês, americanos! - riu-se Dorian. - Vocês julgam que
todo o mundo é como um dos vossos jogos de basebaal; querem
que toda a gente tenha uma determinada percentagem de batidas.
Duvido que alguém tivesse alguma vez conservado registos desse
tipo, mas é evidente que a tradição do Oráculo nunca teria
sobrevivido durante tanto tempo se as suas profecias fossem
normalmente erradas...
- Aposto que os sucessos tinham muito mais a ver com o
conhecimento dos sacerdotes do que com o Oráculo...
Dorian não Lhe deu resposta. O seu enigmático sorriso era
por si só uma resposta.
Voltaram a subir para o camião e daí a dez minutos rodavam
na última curva e chegavam a Delfos.
A mais de Quinhentos metros de altitude, o ar era um pouco
mais fresco do que em Atenas. Ele ficou a olhar para os
imponentes picos que os rodeavam e se elevavam a mais de dois
mil e quinhentos metros, e depois à abrupta queda da paisagem
até ao vale lá ao fundo.
O camião parou e eles saíram. A maior parte dos edifícios
pouco mais era do que alicerces e ruínas, o resultado de
séculos de abalos de terra e da destruição pelo próprio homem.
Mas só a vista das inclinadas colunas dóricas do templo de
Apolo, tão perto da face quase a pique da montanha, fazia
correr calafrios na espinha de Indy.
Ali estava o mais famoso santuário religioso da antiguidade,
um lugar outrora considerado o centro do mundo, um lugar de
terra e de pedra e, tinha a certeza disso, ainda cheio de
segredos ocultos.
- Em que é que estás a pensar, Jones?
74
Aborrecia-o que ela agora já raramente lhe chamasse Indy,
mas nada disse. O que interessava era que ele estava ali,
finalmente em Delfos.
- Afinal não é um mito. É um lugar real, verdadeiro. Ou pelo
menos, foi.
Mas Ainda é um lugar verdadeiro, real. Acredita; não o
esqueças.
Ia para dizer que naquele momento era muito mais real do que
a Sorbonne, quando viu um homem gordo a correr para eles.
"Melhor dizendo, a tentar correr", pensou Indy, mas a sua
corpulência fazia os seus esforços parecerem pouco mais do que
um espadanar. Quando estava a chegar perto deles era fácil ver
que o homem estava excitadíssimo.
- Dr.a Belecamus, ainda bem que finalmente chegou! - disse
ele por entre o arfar de sôfregos haustos de ar. - Estamos à
sua espera há já alguns dias...
- Eu disse-lhe que vinha assim que pudesse! - Indy
pareceu-lhe detectar um laivo de aborrecimento na voz dela e
pressentiu que existiria uma certa animosidade entre eles.
- Jones, este é Stefanos Doumas, o actual chefe de
arqueologia aqui...
Indy calculou que o homem pouco mais velho fosse do que ele.
Estendeu-lhe a mão, mas o homem limitou-se a fazer um gesto de
cabeça e continuou a falar com Dorian:
- Sucedeu uma coisa incrível! - exclamou. - Tem de vir
imediatament,e e ver com os seus próprios olhos!
- De Que é Que está a falar?
- É a fenda, no templo! - gesticulou com as mãos. - Estão a
sair de lá vapores.
Vapores... como aqueles que o Oráculo respirava.
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CAPÍTULO IX
O REGRESSO
Panos, o canteiro, ia andando pela rua principal da
aldeia a caminho da platia, o parque relvado no outro extremo
do povoado.
Ao passar pelo restaurante acenou com a cabeça aos velhotes
conhecidos sentados num banco de madeira comprido encostado à
parede meio esboroada. Se não fosse pelas contas komboloi que
Lhes deslizavam lentamente pelos dedos pareciam gatos num
«rom-rom» de satisfação ao sol da manhã.
Pouco distante do lugar onde estavam sentados, um par de
toscos barrotes de madeira estavam aplicados de encontro à
parede onde os tijolos tinham feito uma barriga e criado uma
teia de aranha de rachas a alargar pela suja caliça da parede.
"Resultados do recente abalo de terra", pensou. Mas a vida
continuava; sismos e tremores de terra eram na aldeia de
Delfos coisa tão vulgar como um a trovoada; faziam parte da
vida: o nascimento, a morte, os tremores de terra. Um dos
velhotes chamou--o e perguntou-lhe pela saúde da mãe. Era o
mais que o velho já lhe dizia: ele estava na aldeia mas já não
era dela; era mais um visitante, como as pessoas que vinham
ver as ruínas. Só os velhos o conheciam: lembravam-se do Panos
de outros tempos.
Por isso falou da saúde da mãe de forma que o
compreendessem: "... agora está muito melhor, porque o filho e
os netos estão cá outra vez...",, sorriu:
- Diz que anda para cima e para baixo...
Os velhos riram-se. Era o que toda a gente dizia em Delfos
quando se perguntava como estava: "Vamos para cima e para
baixo." Era a vida da montanha: para cima e para baixo, na
montanha.
Ver os velhos sabia-lhe sempre bem. Eram como que os
porta-bandeiras da aldeia. Parecia-lhe que sempre ali tinham
estado, ao pé do restaurante, esperando, olhando, algumas
vezes a falar.
E, no entanto, sabia que houvera um tempo em que eles tinham
estado activos; pessoas vitais, que trabalhavam e que andavam
para cima e para baixo da montanha. Carpinteiros, operários,
comerciantes ou pastores.
76
Mas isso fora antes da mudança, quando a aldeia se mudara lá
do alto das sagradas ruínas para o local onde agora estava. Os
homens agora eram como as próprias ruínas de Delfos, com os
ossos cansados a não poderem já aguentar uma existência
activa.
Continuou a andar pela estrada, deixando os velhos a
murmurar sozinhos. Talvez estivessem a falar do acidente há
tantos anos em que Estelle tinha morrido. Ou mais
provavelmente talvez estivessem a repetir uma velha história
sobre o que tinha acontecido depois. Estelle ia por um
carreiro da montanha com o seu filhinho Grigoris, quando uma
avalanche de terra os tinha soterrado aos dois. Panos, que ia
alguns metros à frente, tinha conseguido arrancar Grigoris
debaixo da enorme camada de terra; e milagrosamente não estava
ferido. Mas quando Panos conseguiu chegar até Estelle, gritou
de dor e de tristeza. Estelle, a sua jovem e linda esposa,
estava morta, com a cabeça esmagada por um pedaço de rocha.
"Isso fora no ano da mudança. Há trinta anos", pensou. No
ano em que tinham chegado os arqueólogos. O ano em que tudo
mudara.
No entanto, da morte de Estelle nascera uma nova vida - a
sua própria. Ele transformara-se, mudado pela morte dela, pela
mudança da aldeia e por Milos, o pai de Estelle. Sempre, desde
que o conhecera, Milos fora apelidado de o Louco, e depois
disso ainda mais louco se tornara. Mas Panos aprendera a ver
para lá da loucura de Milos, e a pouco e pouco começara a
perceber que ele era um vidente e um guardião do antigo saber.
Panos atravessou a platia e sentou-se no seu banco favorito.
A praça em si era pequena e banal, mas a vista do vale
compensava isso. Depois da morte de Estelle tinha passado dias
sem conta sentado naquele mesmo lugar a imaginar-se a si
próprio um corvo a sulcar os ares por sobre o vale. Fora ali,
num desses dias, que Milos viera ter com ele e lhe dissera que
era a altura de ele aprender os segredos da Ordem de Pítia.
Ali perto dois homens em fato de trabalho azul caiavam o
tronco de um velho carvalho para o proteger dos insectos.
Nunca tinha visto nenhum deles, o que era estranho visto que
praticamente conhecia toda a gente que ali vivia; mesmo tendo
morado em Atenas durante vários anos, sempre regressara por
diversas vezes a Delfos para ver a mãe e para estar perto do
local sagrado.
Observou os homens até que o que estava mais próximo olhou
na sua direcção. Panos fez-Lhe um aceno, cumprimentou e
perguntou-lhe como estava. O homem deteve-se, tirou o boné e
limpou a testa com o braço. Disse que estava bem, mas que
nunca tinha suado até então num tempo tão fresco.
- O sol está quente, mas o ar é fresco... - disse.
- Na montanha é assim; não é como em Atenas... -
77
disse panos, percebendo rapidamente pela fala do homem que era
da capital. E acrescentou:
- Há quanto tempo está cá?
- Desde ontem; foi o governo que me mandou... - encheu o
peito de ar e a voz tinha um ar de se sentir importante. Olhou
para Panos para ver se ele ficara impressionado.
Panos, no entanto, desiludiu-o. Riu-se e abanou a cabeça:
- Então o governo agora manda homens para tratar das árvores
quando há um terramoto; se calhar a seguir tornam a mudar a
aldeia!
A voz do homem assumiu um tom defensivo:
- Eu estou aqui porque o rei vem visitar Delfos na semana
que vem!
- Vem cá? - perguntou Panos incrédulo.
O homem sorriu, por ver que sabia qualquer coisa que Panos,
um homem da terra, desconhecia.
- Pois claro! Vem cá para inspeccionar os prejuízos nas
ruínas, e vai ficar cá duas noites!
Tornou a pôr o boné na cabeça e regressou ao seu trabalho.
Panos ficou a olhar para o vale, a pensar no que tinha
acabado de ouvir. Sabia que o rei tinha uma espécie de refúgio
de montanha a alguns quilómetros dali, mas que raramente lá
ia. Agora tinha a certeza de que a profecía estava certa; a
altura era perfeita.
- Papá, cá estás!
Panos olhou por cima do ombro e viu Grigoris a correr pela
praça direito a si. O filho, agora já crescido, era quase como
que um duplicado de si mesmo: musculoso, de ancas estreitas e
cabelo curto encaracolado. Com certeza também tinha ouvido
falar na visita do rei e esperava fazer surpresa disso ao pai.
- Nem vais acreditar, papá. Já está a acontecer...
Panos levantou-se do banco, pegou no braço do filho e
levou-o para mais longe dos operativos.
- Eu sei, anda daí!
- Como é que sabes? Tens estado aqui! E eu acabei de falar
com Stefanos fora do campo...
Panos deteve-se e voltou-se para Grigoris:
- Eu disse-te para te afastares das ruínas, e afinal foi a
primeira coisa que fizeste quando eu saí esta manhã.
- Eu não fui às ruínas: fiquei cá fora. Ela não me viu; nem
tãopouco o estrangeiro. Eu tive muito cuidado...
Panos abanou a cabeça; o filho ralava-lhe a paciência.
Grigoris já cometera um erro em Atenas quando deixara que o
vissem na Acrópole. E depois, antes de Panos o ter podido
impedir, ainda mais complicara as coisas ao perseguir o casal.
78
- Eu já pedi desculpa pelo que aconteceu. Quantas vezes
tenho de me desculpar? Eu já não sou nenhum a criança. Agora
tens de me ouvir. o que é que tu fazias se eles tivessem
parado e esperado por ti?
O filho rolou os olhos negros, impaciente:
- Eu já te disse que só quis assustar o estranho. Talvez lhe
dissesse para não se aproximar daqui...
Panos ficou por momen tos a olhar para Grigoris, como que
ainda a ralhar-lhe em silêncio. Por fim disse:
- Isso não é motivo para me pedires desculpa a mim. Pede-a a
ti próprio...
Estava quase a invocar uma das sagradas directivas:
"Conheço-te a ti mesmo", mas Grigoris interrompeu:
- Pai, o véu rasgou-se. Estão outra vez a subir vapores do
templo...
- O quê?
- É o que tenho estado a tentar dizer-te.
- Tens a certeza? - Havia sempre uma névoa em torno do
templo de Apolo durante as manhãs e em muitas ocasiões ele
próprio imaginara que os vapores estavam outra vez a subir e
que a profecia do Regresso se tinha cumprido...
- Eu próprio não vi, porque me disseste para não ir às
ruínas, mas deve ser verdade...
Panos sabia que Stefanos pensava que Grigoris era ingénuo,
talvez aquilo fosse uma das suas brincadeiras.
- Veremos... - disse.
- Que é que vais fazer? - perguntou o jovem ansiosamente.
- Já esperámos muitos anos. Bem podemos esperar mais algumas
horas, ou mais alguns dias...
Panos recordou a profesia. Depois da morte de Estelle, Milos
havia profetizado o Regresso e tinha dado todos os sinais. Na
altura Milos fora o último membro ainda vivo da ordem de Pítia
mas ao longo dos anos, tinha ido passando lentamente todo o
conhecimento para Panos. Por fim tinha chegado a altura de
Panos invocar a sua autoridade como o novo líder da Ordem.
Ele próprio falaria com Stefanos, mas intimamente já tinha a
convicção de que era verdade. Tudo se juntava, finalmente. Já
não havia motivo para recear Dorian Belecamus por causa do seu
poder no lugar sagrado. Agora estava claro: Ela era a tal.
Ela seria a nova Pítia; seria a intérprete e a primeira
profecia tinha a certeza, seria para o próprio rei...
79
10
ASCENSÃO DA DIVINA LINFA
Uma lanterna sobre a mesa de madeira iluminava o interior
de um a desconjuntada cabana primitiva. Ao lado da lanterna
estava um grosso volume aberto numa página cheia de escrita
grega antiga.
Era o texto de uma placa de pedra que fora salva dos
arquivos de Delfos, e o seu autor fora Plutarco que servira
como sacerdote em Delfos no século I d.C.
Durante um bocado antes, Indy tinha estado lentamente a
traduzir a inscrição para um pedaço de papel. Muito embora a
versão inglesa estivesse escrita na página seguinte do livro,
ele queria experimentar as suas capacidades. Havia apenas três
palavras de que não tinha bem a certeza, e deduzira o seu
significado pelo teor geral. Soprou o papel a secar a tinta e
pousou a caneta permanente na mesa.
- Ora muito bem: vejamos... - murmurou, aproximando o papel
da luz. Tanto quanto se apercebera o escrito era a resposta a
uma pergunta acerca das razões pelas quais as profecias do
Oráculo eram sempre dúbias e ambíguas. Leu a tradução em voz
baixa:
- ... porque não era apenas uma questão de qualquer pessoa
individualmente consultar o Oráculo sobre a compra de um
escravo ou qualquer outro assunto particular, mas a de
cidadãos muito poderosos, reis e tiranos com poderosas
ambições a procurarem o conselho dos deuses sobre importantes
assuntos. Irritar ou aborrecer tais homens com duras verdades
que contrariassem os seus desejos, teria as suas desvantagens
para os sacerdotes do oráculo...
Indy voltou a página e viu que havia ainda mais texto. Desta
vez traduziu à letra, sem escrever as palavras. Como uma
criança a aprender a ler, leu lentamente o texto emperrando
nalgumas palavras aqui e além.
- ... quanto às respostas... dadas a pessoas vulgares, era
por vezes aconselhável que elas... fossem escondidas dos seus
opressores ou... ocultas dos seus inimigos. Que também elas
fossem envoltas em... circunlóquios e... equívocos
80
para que o significado do oráculo, ainda que escondido dos
outros fosse sempre entendido por aqueles que estavam
interessados, se se dedicassem a estudá-lo."
"Parecia um político a explicar porque é que não tinha
cumprido as promessas da sua campanha", pensou Indy enquanto
voltava a página. Analisou a tradução inglesa que se seguia ao
texto e sorriu. Estava satisfeito com a sua própria precisão e
confiante de que saberia traduzir a placa que o aguardava lá
no fundo da fenda. Agora, se Dorian se deixasse de perder
tempo, ele ia meter-se a isso.
Tirou do bolso o relógio e olhou de relance. Sem excepção os
vapores subiam da fenda durante doze minutos antes de se
dissiparem, mas a duração dos períodos de acalmia ia
lentamente aumentando.
Da primeira vez que tinham feito uma medição de um
intervalo, durara três horas e cinco minutos. Da segunda vez
que os vapores tinham subido tinham passado três horas e onze
minutos.
Não demorara muito a perceber que cada intervalo aumentava
sempre seis minutos. Agora, no seu terceiro dia em Delfos,
Dorian continuava a insistir que se fizessem os cálculos.
Indy tinha estado a vigiar a fenda desde a uma hora da
tarde. Os gases tinham-se elevado às 4 horas e 16 minutos e
tinham ficado parados, agora durante quatro horas e cinco
minutos. Se se mantivesse o programa que fora estabelecido, os
vapores elevar-se-iam daí a dezoito minutos, ou seja, às 8
horas e 39 minutos da tarde.
"Irónico...", pensou. Tinha abandonado os estudos a meio do
período por aquilo que parecia ser a oportunidade de uma vida;
mas até esta altura a única coisa que tinha estado a fazer era
de cão de guarda a um buraco no chão.
Abanou a cabeça desgostoso. Bom, pelo menos, podia ansiar
pela hora dojantar. Seria rendido às 9 horas e seguiria para a
aldeia.
Estendeu as mãos por cima da braseira que aquecia a cabana.
Quando achou que já tinha apanhado o calor que podia apanhar,
puxou para o lado o pano que tapava a porta, Deitou a mão ao
chapéu que estava sobre a mesa, mas a mão foi tocar na
lanterna e virou-a. Rolou para a orla da mesa; mergulhou para
ela e conseguiu apanhá-la quando a mesma ia mesmo a cair ao
chão.
Pousou-a cuidadosamente no meio da mesa, e retirou
cuidadosamente as mãos.
-Agora fica aí quietinha...
Deu um passo para atrás e o calcanhar voltou a braseira.
Carvões incandescentes saltaram para o chão encardido e alguns
rebolaram até à parede.
Rogou uma praga e desatou aos saltos a dar pontapés em
carvão atrás de carvão, primeiro para o centro da cabana, e
depois para fora da porta.
81
Olhou em redor; farejou. Fumo...
Subitamente chamas rastejaram a querer trepar da base da
parede. Indy bateu-lhes com o casaco e por fim descobriu a
brasa e atiroua para a rua. Pisou as fagulhas e abanou o pano
da porta para fazer sair o fumo. No entanto o ar agitara-a e
reacendeu uma fagulha que tinha ficado esquecida e a parede
voltou a ser lambida pelas chamas.
- Raios! - gritou, pegando num grande jarro de água que
estava no chão e apagando o fogo. Quando teve a certeza de que
todas as faíscas estavam extintas, baixou a lanterna e
examinou os prejuízos. Um bocado da parede tinha ficado
escurecida, e toda a cabana cheirava a fumo, mas a estrutura
parecia ter ficado ilesa.
A última coisa que ele queria era acabar o seu quarto de
vigia deitando fogo à cabana.
Mas, pensando bem, talvez Dorian se não importasse.
A cabana, que era feita de ramos, penas e cera de abelhas,
era um a tentativa para recriar o primeiro templo de Delfos.
Fazia parte de um plano levado a efeito por Stefanos Doumas
para relacionar o presente com o passado e tornar as ruínas
mais acessíveis e interessantes aos visitantes não
científicos. Fora construída do lado de fora do templo por
Doumas e seus assistentes pouco tempo antes do tremor de terra
e conseguira escapar incólume a este.
Quando tinham ali chegado e Doumas os acompanhara até à
fenda, Dorian tinha parado junto à cabana, olhara para ela, e
perguntara a Doumas o que era aquilo.
Desatara a rir quando ele acabara a sua explicação, e
comentara:
- Então agora tornaste-te um promotor turístico ao mesmo
tempo que arqueólogo. Foi isso que eu te ensinei quando eras
meu aluno?
- Bom, não exactamente, mas...
- Na verdade, aquilo que eu te ensinei, Stefanos, é que os
turistas são um aborrecimento muito dispendioso. As promoções
turísticas sugam o dinheiro que deveria ser para investigação,
e se os deixarem à rédea solta, os turistas destroem o nosso
trabalho!
Doumas ficara bastante abalado com a crítica, mas depressa
se recompôs:
- Pois bem, há um turista muito importante que cá vem, Dr.a
Belecamus. Nada mais nada menos que o próprio rei, e tenho a
certeza que é de opinião que lhe devemos agradar...
Dorian afastara-se da cabana e durante alguns momentos ficou
a olhar para o templo. Indy ficou admirado pela forma como ela
conseguia ocultar bem os seus sentimentos. Devia estar a
pensar que a viagem do rei a Delfos devia estar relacionada
com a dúbia situação política da sua família e com o seu
próprio regresso ali.
82
Quando se tornou a voltar para eles, sorria e disse:
- E assim está tudo a acontecer ao mesmo tempo: os vapores
estão a subir, e o rei vem aí...
- E tu estás aqui! - acrescentou Doumas.
-
Sim, estou aqui. Agora diz-me lá mais coisas a respeito
desses vapores...
Doumas disse que os vapores tinham subido três vezes nesse
dia, com cada erupção separada da seguinte de duas horas e
meia a três horas.
- Muito bem. Vamos transformar a cabana num ponto de vigia e
cronometrar os vapores... - disse.
Quando Doumas protestou que a cabana não tinha sido
construída para ocupação, ela lembrou-lhe que ele a tinha
mandado chamar por causa dos prejuízos do abalo de terra e
tinha solicitado a sua ajuda. E concluiu:
- Já que eu vim de Paris, toda esta distância para esse fim,
deixe-me fazer o meu trabalho como eu achar melhor, Stefanos.
Ficamos entendidos?
Doum as recuara imediatamente e desse momento em diante
ficou praticamente assente que enquanto Dorian estivesse em
Delfos, era ela quem mandava.
Indy pôs o chapéu e saiu da cabana.
O luar banhava as ruínas, iluminando as colunas do templo de
Apolo e os destroços e restos das antigas paredes. Para lá do
Templo a escarpa abrupta da encosta da montanha escondia-se na
sombra deixando pairar uma sensação agoirenta.
Esfregou as mãos uma na outra, para afastar o frio e
dirigiu-se para o templo.
Pensou em tudo quanto tinha lido nos últimos dias a respeito
de Delfos, e tentou imaginar o que teria sido uma visita ali
no pico do seu maior poder.
O templo fora construído em meados do século iv a. C. depois
de um templo anterior ter sido destruído por um abalo de
terra.
Nas décadas e nos séculos que se seguiram, fora estabelecida
uma espécie de rotina regular. Os visitantes que procuravam o
conhecimento do futuro, sacrificavam primeiro uma cabra ou uma
ovelha e se a leitura das entranhas fosse propícia, eram
autorizados a entrar no templo. "Se a pessoa fosse rica, com
certeza que as entranhas eram propícias", pensou Indy.
Depois de entrarem o portal, eles começavam por ver as
paredes com inscrições de máximas de sabedoria, tais como
«conhece-te a ti próprio...» e «tudo com moderação,». Para lá
do portal havia estátuas de Poseidon, de Apolo e das três
deusas dos Fados (1).
*1 As três deusas mitológicas Clotho, Laehetis e Atropos
que, segundo a lenda, regulavam o curso da vida dos mortais.
(N. da T.)
83
Outros tesouros do interior incluíam uma estátua de Homero e
a cadeira de ferro onde Píndaro se sentava quando vinha a
Delfos cantar odes a Apolo.
Abaixo do nível do solo ficavam as câmaras centrais do
santuário. Uma gigantesca estátua de Apolo guardava a entrada
do santuário interior chamado Adito. Nesse santuário interior
estava a tumba de Dionísio e o tripé em que a Pítia se sentava
e inalava os gases mefíticos que se criavam e subiam de uma
abertura na terra.
Ali próximo ficava o Onfalo, uma pedra preta em forma de
cone considerada como o umbigo do mundo e que estava sempre
perto da Pítia quando ela falava.
Mas tudo isso tinha desaparecido; "perdido, roubado ou
destruído", pensou ele ao atravessar a Via Sagrada, um caminho
largo que serpenteava pelas ruínas.
Paroujunto a uma corda que impedia a entrada no templo. Até
se saber algo mais acerca dos vapores ninguém era autorizado a
passar para além daquele ponto.
Antes de ter sido colocada ali a corda, Indy mediu
cuidadosamente a fenda. Tinha cerca de dois metros e setenta
de largura no ponto mais largo, e cerca de nove metros de
comprimento. O terreno em ambos os lados da abertura tinha
como que inchado e sido atirado para cima, pelo que a fenda
estava rodeada por montes de lixo e de terra. Era, no entanto,
possível chegar-se perto da fenda, mas apenas pelo lado que
ficava mais próximo da entrada do templo. Do outro lado havia
como que uma trincheira de seis metros de profundidade a
orlá-la.
Uma ténue voluta de vapor começou a desenrolar-se lá no
meio. Olhou para o relógio: 8 horas e 39 minutos. Quatro horas
e vinte e três minutos depois da última subida de vapores;
precisamente à hora prevista. Dentro de poucos segundos os
vapores adensaram-se e dançaram por cima da fenda.
Como seria inalar aquele gás? O mais provável era que fosse
simplesmente água aquecida até à vaporização pela terra
ardente lá em baixo, e empurrada pela pressão para a
superfície.
Raios, estava farto de ficar ali a vigiar os vapores. Iria
experimentar o gás e provar que era inócuo. E se se sentisse
mesmo ao de leve nauseado, só tinha de dar uns passos atrás e
vir respirar ar fresco...
Olhou para as ruínas e depois fez força na corda e
passou-lhe uma perna por cima. O ar agira por cima do monte de
terra, tinha um tom violáceo. O coração bateu-lhe com mais
força quando levantou a outra perna. Talvez aquilo fosse um
erro. Talvez o gás fosse venenoso...
Acaba com isso! Anda! Vai!
- Jones, o que é que estás aí a fazer?
Baixou a perna, ficando a cavalo na corda e olhou para trás,
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vendo Dorian a sair das sombras da cabana. O luar caía sobre
ela, iluminando-lhe um dos lados da cara. Meio
desajeitadamente passou a outra perna e sorriu quando ela se
aproximou.
- Começou outra vez. Exactamente à hora...
- Estou vendo... - aproximou-se dele. - Mas não me
respondeste à pergunta: o que é que ias fazer?
Tentou inventar uma desculpa, mas não era possível. Disse:
- Ia ver mais de perto...
- Pensei que te tinha deixado ficar bem claro que não quero
que ninguém ali vá quando os fumos estão a subir. Não sabemos
nada sobre esses gases...
- Talvez sejam ichor, Dorian...
Agora via-lhe bem o rosto; e ela não tinha achado qualquer
graça na sua observação. Ichor era o fluído etéreo que corria
nas veias dos deuses.
- Não é a altura de ser petulante! - ripostou. - O estudo da
arqueologia exige pensamento racional e um processo de
trabalho feito passo a passo.
- Se queres que eu fale racionalmente, óptimo. E o facto é
que nunca saberemos nada até que alguém vá ali dentro e inale
os gases.
- E tu serias essa pessoa, suponho eu...?
- Estou disposto a tentá-lo, porque penso que estamos aqui a
perder tempo.
- Não! - disse ela com firmeza. - Não é assim que o vamos
fazer...
Nesse momento os vapores dissiparam-se; foram adelgaçando e
desapareceram. Dorian anotou a hora.
- Onde é que está a tabela? - perguntou. - Tens tomado nota
das horas?
- Deixei-a na cabana, e tenho tomado nota das horas. -
Disse-lhe as horas a que os vapores tinham subido.
Dorian abanou a cabeça e olhou-o:
- Jones, se vais ser um arqueólogo, tens de aprender a ter
paciência. A época do arqueólogo-aventureiro caçador de
tesouros acabou. A arqueologia é um processo lento e
trabalhoso. Estudamos os mais ínfimos pormenores, os
fragmentos, os resíduos, o lixo dos anos. E é assim que
conseguimos avançar no nosso conhecimento do passado.
- Tenho a certeza que sim. Mas neste caso temos de ver isto
sob o ponto de vista geológico. Quanto mais tempo esperarmos
maiores são as possibilidades de perdermos a placa por causa
de alguma réplica ou de um outro sismo.
- Tenho a consciência disso. - A voz tornara-se-lhe dura e
fria. - Amanhã de manhã vou amarrar uma cabra junto à fenda e
veremos as suas reacções.
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- Uma cabra? - riu-se. - Tem a sua propriedade.
Na lenda do original Oráculo de Delfos, fora um a cabra que
primeiro inalara os fumos vindos de carcaças apodrecidas de
Pitão, e que enlouquecera. Mais tarde alguns pastores haviam
descoberto a fissura, e muitos deles intoxicados pelo fumo
caíram pela fenda.
- Também pensei que apreciasses isso.
Indy, contudo, não desistira de a desafiar. E se ela se
zangasse com ele, pronto. Era melhor do que ser ignorado.
Desde que tinham ali chegado ela passara a tratá-lo friamente.
Não só tinha deixado de ser sua amante, mas mal se lhe
dirigia. Indy por vezes pensava se ela não teria um outro
homem, possivelmente alguém que morasse na aldeia. Afinal ela
trabalhara ali durante anos antes de ir para Paris.
- Aposto que estás à espera que os gases sejam mesmo a
sério, que faças as pessoas entrar em transe e ver o futuro...
- Jones, estás a ser insolente e além disso a
desconsiderar-me. Eu não tenho quaisquer ideias preconcebidas
a respeito dos vapores. Não estou a tentar provar nada...
- E se a cabra não reagir?
- Então continuaremos o nosso trabalho.
- Que é...
- Decidi que serias tu a descer lá abaixo, na fenda. Claro
que não és obrigado a ir, se não quiseres; isso é contigo.
Estou a dar-te a primeira oportunidade...
- Vou! - disse ele sem hesitar. - Quanto mais depressa
melhor!
- Ainda bem! Fico muito satisfeita por ouvir isso...
Os olhos negros da mulher procuraram os seus, e ele teve a
sensação que ela estava a olhar para além dele. Em voz mais
suave ela acrescentou:
- Desculpa se te tenho... ignorado. É que tenho tido muito
que fazer.
- Isso é compreensível, penso eu. Tens muitos amigos na
aldeia?
- Por que é que perguntas isso?
Ele encolheu os ombros:
- Disseste que tinhas andado muito ocupada...
- Ocupada com trabalho; não com afazeres sociais. Não sei se
já deste por isso mas a gente da aldeia distancia-se bastante
daqueles como nós que trabalhamos nas ruínas...
- E porquê?
- É uma espécie de tradição que já vem dos tempos em que a
aldeia foi transferida para nos permitir a nós, arqueólogos
fazer as escavações.
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Ela sorriu e ia a dizer qualquer coisa quando ele deu um
passo adiante e lhe quis pegar na mão. Ela recuou
imediatamente e disse-lhe em voz deliberadamente formal:
- Já podes ir jantar. A moussaka hoje está óptima. Eu fico
de vigia até de manhã...
Anda fria, pensou ele. E muito embora ela o tivesse como que
avisado da forma como trataria com ele, mesmo assim doía.
Ficou a olhar para ela a afastar-se para a cabana. Estava
prestes a ir-se embora, mas em vez disso, sem mesmo saber
porquê decidiu esperar. Sabia que ela ainda não tinha acabado
de tratar com ele naquela noite.
- Jones! - gritou ela. - Por que é que está aqui tanto fumo?
Encaminhou-se para a cabana na altura em que ela vinha a
sair e disse-lhe o que tinha sucedido.
Ela fez um aceno de cabeça, com as mãos nas ancas e avançou
alguns passos para fora da cabana. Depois chegou-se a ele:
- Devias tê-la deixado arder toda... - murmurou. Inclinou-se
para diante e beijou-o ao de leve nos lábios, e a barreira que
se erguera entre eles balançou por momentos. - É melhor
ires...
- Está bem. Deixa-me levar os livros, não vá o fogo pegar
outra vez...
Ela riu-se e ele sentiu-se mais perto dela do que nunca
desde o dia da chegada. Meteu os livros no saco de lona e
deteve-se por momentos à entrada da cabana.
- Estás ansiosa pela vinda aqui do rei?
- Ansiosa? Nem pensar! Estou deliciada!
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CAPÍTULO xI
INTRIGA DE TABERNA
Enquanto jantava, Indy ia folheando os livros, tendo
cuidado de não salpicar as páginas com o molho grosso do
guisado. Até a placa ser recuperada e limpa, queria aproveitar
todos os momentos possíveis a estudar a escrita do grego
antigo. Queria mostrar a Dorian que a escolha que fizera do
seu assistente fora válida.
Ouvia ocasionalmente fragmentos das conversas dos aldeães
que comiam à sua volta. A maior parte delas eram sobre a
visita do rei, desde há quanto tempo ele não ia ali, e quais
as possíveis razões que o teriam levado a esperar que tivesse
havido um terramoto para ali voltar. Por seu lado, os homens
deitavam de vez em quando uma olhada a Indy, mas fora isso
ignoravam-no completamente.
Quando estava a acabar de jantar, tirou do bolso um lápis e
fez umas contas.
Se os vapores continuassem a elevar-se com os mesmos
intervalos, voltariam a subir à 1 hora e 48 minutos da
madrugada, às 5 horas e 43 minutos e depois às 10 horas e 24
minutos. Ora Dorian tinha dito que submeteria a cabra aos
vapores, bem cedo na manhã seguinte, e nesse caso deveria ser
às 5 horas e 43 minutos. E ele tinha de lá estar nessa altura:
nada o impediria de assistir.
Eram quase 11 horas da noite quando Indy pegou nos livros
para sair. Apesar do adiantado da hora, ainda estavam diversas
mesas ocupadas. Da taberna do lado de lá da rua chegou-lhe aos
ouvidos o gemido de um instrumento qualquer de sopro que não
conseguiu identificar. Ainda se sentiu tentado a ir até lá
tomar uma bebida, mas resolveu não ir.
Apesar de ter passado horas praticamente sem fazer grande
coisa durante a sua vigília na cabana, estava cansado e pronto
a ir para a cama. Atirou o saco dos livros para o ombro, olhou
para o céu a espreitar as cintilantes constelações e dirigiu-
se para a estrada.
Sentia-se como um dos antigos mestres gregos a caminho do
maravilhoso Delfos. E o que é que o velho mestre poderia
aprender com o Oráculo? Que iria criar uma grande obra da
ciência, casar com a filha de um rei, vir a ser um grande e
sábio mestre? E porque é que esse inteligente estudioso
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não haveria de perceber que o oráculo era um instrumento dos
sacerdotes e que aquilo que lhe diziam não era mais do que uma
algaraviada de disparates?
Naturalmente porque o não queria saber, porque não queria
pagar o preço do conhecimento verdadeiro.
Quando Indy ia a entrar no hotel Delfos, a porta abriu-se e
saiu um rapaz delgado masjá bastante encorpado que teria cerca
de 15 anos. Tinha o cabelo curto e as clássicas feições do
clássico grego.
- Olá Nikis!
- Indy! Não me digas que te vaisjá deitar! É sábado à noite.
Vem comigo até à taberna!
- Mas tu não és ainda novo de mais para isso?
Os olhos negros do rapaz olharam em redor, abarcando tudo
ali à volta.
- Que é que queres dizer com isso?-perguntou.
Indy franziu a testa, Na sua terra até ninguém podia beber;
aqui, era um miúdo de 15 anos que ia às 11 horas da noite para
a taberna...
- Gostas de retsina?
- Eu não bebo - respondeu Nikos. - O meu pai não deixa.
Mas posso ouvir a música e dançar. Vem, anda comigo! Vais
ver que nos divertimos!
Nikos era o recepcionista do hotel que era do pai. Crescera
ali na pequena aldeia, mas como tinha estado sempre em
contacto com imensos estrangeiros, tinha aprendido a falar
inglês, alemão e francês.
Indy voltou-se a olhar para a taberna, com certa hesitação,
mas Nikos insistiu:
- Dá cá os livros: vou guardá-los atrás do balcão. E também
te podes divertir um bocado...
Ele encolheu os ombros:
- Está bem, mas apenas por pouco tempo...
Entregou o saco ao rapaz e viu-o desaparecer lá para dentro
do hotel.
Não queria que Nikos ficasse ofendido com a sua recusa. Era
uma valiosa fonte de informações, e praticamente a única
pessoa que falava com ele. Além disso, uma bebida antes de ir
para a cama era boa ideia, mas tinha de ser só uma. Queria
estar no quarto à meia-noite, o mais tardar.
Nikos falava em inglês com Indy, e fazia-lhe imensas
perguntas a respeito da América. De uma vez tinha querido
saber se era verdade que lá havia ruas pejadas de automóveis,
e se todas as casas tinham aparelhos de rádio. De outra vez
perguntara-lhe se a América era maior do que a Grécia e a
Turquiajuntas.
Indy respondia-lhe o melhor que podia e em troca Nikos dava-
lhe algumas informações sobre o que se passava na aldeia e nas
ruínas.
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Fora através de Nikos que soubera que Dorian e Doumas tinham
discutido a seu respeito. Nikos não tinha ouvido tudo, mas
contara-lhe que Doumas se queixara por ele não ter
qualificações para trabalhar nas ruínas, e que a sua presença
era uma verdadeira ofensa para arqueólogos gregos. E Doumas
tinha ficado furioso quando Dorian se mantivera na sua. Agora
Indy percebia os motivos para a ofensa de Doumas: Ela devia
ter-lhe dito que fosse Indy a ir para a fenda e retirar de lá
a placa.
- Vamos! - disse Nikos quando tornou a sair do hotel. - Esta
noite vamos divertir-nos. ias às tabernas em Atenas?
Indy abanou a cabeça:
- Não tinha tempo...
- As melhores são as da Platia Flamouson Hetairae! -
comentou Nikos a seu lado, balançando os braços.
- A praça das cortesãs que gostam de música...
- Isso mesmo. Indy, o teu grego é muito bom!
Quando se iam a aproximar da taberna Indy tornou a ouvir o
fraco mas agudo gemido que já ouvira antes.
- Que barulho é aquele?
- Aquilo não é barulho, Indy: é música! É uma askómandra,
sabes? Uma espécie de gaita de foles. Mas é feita com uma pele
de carneiro...
- Nunca ouvi. Olha lá, eles aqui tocam jazz?
- Jazz? O que é isso de jazz?
Indy riu-se:
- Não, acho que não tocam. Quando fores a Chicago levo-te à
Dreamland para veres as bandas de jazz.
- Dreamland é na América?
- Há quem pense que sim... - Indy abriu a porta e entraram
na taberna.
- Óptimo. Quero ir para a América! - gritou Nikos por cima
da barulheira.
No meio da taberna havia homens a dançar ao ritmo da música
tradicional grega e do som lamentoso da askómandra. Indy olhou
em roda, sentindo-se como que deslocado, mas quase
imediatamente a seguir um empregado de camisa branca que mais
parecia uma blusa trouxe-lhe uma bebida.
- Ouzo! - disse-lhe Nikos quando ele levantou o copo e
observou o líquido transparente.
- Pensei que seria uma cerveja...
Nikos fez um gesto com a mão, para diante e para trás, ao
mesmo tempo que abanava a cabeça:
- Cerveja aqui, não. Só ouzo, retsina, raki e aretsinoto.
- Evidente! - disse Indy, olhando a bebida de testa
franzida.
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- Em Delfos faz como os delfins...
Vários homens à sua volta olhavam curiosamente para ele.
Nikos anunciou orgulhoso!
- É americano!
Os homens assentiram e fizeram com os copos uma espécie de
muda saudação, ou talvez a ensiná-lo como se bebia.
Quando engoliu um trago da bebida que sabia a anis, dois dos
homens deram-lhe palmadas nas costas, como que a
felicitarem-no por qualquer rito de misteriosa admissão. Nikos
olhou orguLhosamente em volta.
Um dos homens,já velho e que tinha na cabeça um velhoboné de
marinheiro grego, deu um passo em frente e resmungou-Lhe
qualquer coisa. Indy abanou a cabeça, a dizer que não
conseguia
ouvir-lhe as palavras com o barulho à sua volta.
Nikos chegou-se ao ouvido de Indy e disse-lhe quase a
gritar:
- É um velho tonto! Está a falar dos antigos deuses!
- E que foi que ele disse?
Nikos abanou a cabeça. Mas o velho era persistente. Bateu
com um dedo no peito de Indy e tornou a falar. Indy olhou para
Nikos interrogativamente.
- Qualquer coisa a respeito de Pítia...
- Qualquer coisa... como?
Nikos falou ao velhote que tornou a olhar para Indy e
resmungoú mais qualquer coisa.
- Então? O que é? - insistiu Indy, vendo que Nikos nada
dizia.
- Eu já te disse que é um velho tonto. Até lhe chamam
Louco...
- Mas o que foi que ele disse?
- Diz que a Pítia te tem a ti nas garras, e...
- E o quê?
"... e que te vai devorar como a um ratinho. Foi o que ele
disse!
Indy rIu-se e inclinou-se a falar ao ouvido de Nikos:
- Diz-lhe que ainda não a encontrei; mas que quando eu
encontrar a filha de uma serpente, podes ter a certeza de que
sei o que é...
Um outro grego pôs-se à frente do louco, e agarrando num
ombro de Indy disse qualquer coisa numa voz roufenha. Nikos
explicou:
- Está a convidar-te para ires a casa dele provar a retsina
que ele mesmo lá fez...
- Obrigado! - Indy sorriu e acenou ao velho. Para Nikos
disse:
- Aquilo tem um sabor horrível...
O homem que não compreendeu uma palavra, sorriu agradecido.
Indy e Nikos desataram a rir.
- Um grupo de gente amiga... - disse Indy. Mas mal lhe
tinham saído as palavras da boca o sorriso desvaneceu-se-lhe.
91
O círculo dos dançarinos desfez-se e os homens dispersaram-
se e, de repente, ele ficou a ver completamente o outro lado
da taberna.
Sentado a uma mesa junto à parede estava Doumas, e com ele
estava um homem cujas feições Lhe pareceram familiares, de
cabelo encaracolado. Olhando para ele Indy sentiu-se pouco à
vontade, e esforçou-se por se lembrar onde é que o já tinha
visto. E de repente lembrou-se. Era um dos homens que o tinham
perseguido, a ele e a Dorian, na Acrópole. Tinha a certeza
disso.
- Nikos, quem é que está a falar com Doumas?
Nikos estendeu o pescoço: Depois disse:
- Chama-se Panos. Vive em Atenas, mas nasceu aqui; vem cá
visitar a mãe. Traz sempre o filho com ele...
- E como é que Doumas o conhece?
- O Stefanos conhece toda a gente.
Quis saber como é que o homem reagiria diante de si, e por
isso sugeriu a Nikos que fossem lá cumprimentá-los.
Nikos abanou a cabeça:
- Não acho que seja uma boa ideia...
- Porquê?
- Panos não é uma pessoa... muito amigável, especialmente
para pessoas como tu. Para estrangeiros, quero eu dizer.
- Ora... o mundo é muito grande. Isso há-de passar-lhe...
Indy foi abrindo caminho entre as pessoas mas Doumas reparou
nele e levantou-se, colocando-se entre ele e Panos.
Quando Indy chegara a terra, Doumas tinha-se esforçado por
exibir os seus conhecimentos sobre Delfos e sobre a
arqueologia em geral, fosse em que altura fosse. Depois, por
voltas do segundo dia, quando soube que Indy nem diplomado era
em arqueologia, passara pura e simplesmente a ignorá-lo.
- Boa noite, Stefanos! - disse Indy em ar de conversa. Quem
é o teu amigo? Acho que ainda não fomos apresentados...
- Mete-te na tua vida, Jones!
Indy encolheu os ombros:
- Pronto, pronto! - começou a voltar-se, mas em vez disso
deu a volta em torno do gordo arqueólogo e com um gesto súbito
levou Panos na sua frente.
- Olá aí!
O homem pareceu surpreendido. Abanou a cabeça e disse:
- Não inglês...
Indy bateu-lhe com um dedo no peito:
- Eu conheço-te! - disse no momento em que a música
recomeçara a tocar. - Andámos outro dia a jogar às escondidas
na Acrópole...
Doumas agarrou no ombro de Indy:
92
- Jones, que diabo é que estás a fazer? - gritou por cima do
barulho da música. Indy deu-lhe uma violenta cotovelada na
barriga, soltando-se da mão que o prendia.
- E estavas a perseguir-me, a mim e à minha amiga, porquê?
Falava lenta e distintamente, mas Panos apenas tornou a
abanar a cabeça e tentou libertar o braço.
- Indy, cuidado! - gritou Nikos; mas já era tarde. Indy só
viu uma sombra pelo canto do olho. Não era Doumas, mas alguém
maisjovem, mais delgado... e nesse momento o punho do recém-
chegado abateu-se violentamente no seu queixo.
Cambaleou, indo chocar com um outro grupo de dançarinos.
Alguém o agarrou pelos sovacos, e foi sendo atirado de uns
para os outros. Vozes desconexas ecoavam em grego e o
estrídulo lamento da Askómandra envolvia-o todo.
Perpassaram-lhe pela frente dos olhos fragmentos de caras a
rir-se; olhos e narizes mudavam de posição como num quadro
cubista. E depois tornou a ver o homem , uma versão mais jovem
de Panos. O estranho levou o braço atrás para outro soco, mas
desta vez Indy reagiu com mais rapidez, e esmagou com um
potente soco o nariz do adversário.
E subitamente era Nikos
que estava a seu lado, dizendo:
- Depressa, vem! Temos de sair!
Estavam quase a chegar à porta quando Indy sentiu um arrepio
na nuca ao ouvir um crescendo de gritaria atrás de si.
Voltou-se a tempo de ver o homem a quem dera o soco a correr
para ele com uma navalha erguida acima da cabeça. O homem
desferiu o golpe no mesmo momento em que Indy erguia o braço
para o deter, mas o golpe não atingiu o alvo porque Doumas
apertara com os grossos braços o tronco do assaltante.
Levantou-o em peso, rodou com ele no ar e puxou-o para trás.
Indy olhou para trás e viu que toda a gente na taberna
estava a olhar para si. Fez um fraco sorriso e disse:
- Parece que são horas de ir para a cama...
Recuou a sair pela porta e apalpou o queixo dorido.
Nikos correu para o seu lado a perguntar:
- Indy, estás bem?
- Acho que sim. Olha lá, as tabernas em Atenas também são
assim divertidas?
Atrás deles ouviu uma voz forte, profunda:
- Jones!
Voltou-se e viu Doumas de pé entre as portas da taberna.
Tinha o rosto vermelho e perlado de suor, e apontava-lhe um
dedo agressivo, acusador:
- O teu lugar não é aqui. Se queres tornar a ver alguma vez
Paris, não te metas nos assuntos dos gregos!
93
Indy meteu a chave à porta do seu quarto do hotel, abriu-a
uns centímetros apenas e pousou os livros lá dentro no chão.
Olhou por cima do ombro a certificar-se que Nikos o não tinha
seguido.
Depois, em vez de entrar, bateu com a porta e atravessou o
patamar em direcção à escada das traseiras. Já cá fora, deu a
volta ao hotel e foi até às cavalariças e montou um dos
cavalos do acampamento.
Tinha de chegar às ruínas o mais depressa possível. Delfos
era uma armadilha. Doumas devia fazer parte da conspiração
contra Dorian e seu pai e ele tinha que lho dizer. Tinham de
sair dali, e não havia tempo a perder.
Não podia ir pela estrada que atravessava a aldeia; passava
pela taberna e Doumas ou algum dos seus homens podiam vê-lo.
Guiou o cavalo pelas traseiras da cavalariça até uma
estreita vereda que atravessava o bosque. Ainda só tinha ido
por aquele caminho uma vez, e fora durante o dia, acompanhado
de Nikos. Sabia que tinha de confiar no instinto do cavalo
para achar o caminho de regresso a casa.
Enquanto ia trotando, a escuridão envolveu-o com uma imensa
venda. Pouco mais podia ver do que um metro à frente do
cavalo. A vereda subia íngreme, depois descia. A seguir tornou
a subir.
Indy encostou-se para trás na sela, puxando as rédeas,
reduzindo o andamento do cavalo a um trote curto.
- Calma, pá. Vai só pelo caminho...
De repente o trilho desceu abruptamente e o cavalo
escorregou para o lado e soltou um relincho.
- Oua, oua! - gritou Indy puxando-lhe as rédeas.
"Aquilo era um erro, um tremendo erro..." - disse a si
próprio.
Mas agora já não podia voltar atrás. Tinha de lá chegar:
fosse como fosse.
Como que em resposta aos seus pensamentos o cavalo parou de
repente.
- Que foi, pá?
In dy percebeu então que o trilho ali abri a-se em dois, e o
cavalo estava à espera de indicações.
- É pá, não sei! Vai para o acampamento. E sabes, para a
cavalariça!
O cavalo assoprou, abanou a cabeça e escavou no chão.
Mas não se moveu donde est ava parado. E nesse momento Indy
ouviu um barulho atrás de si. Virou a cabeça para ouvir
melhor.
Lá estava, outra vez. E logo a seguir o som de um cavalo que
se dirigia no trilho para onde ele estava.
"Jesus", vinham atrás dele... "Anda!"
Virou a cabeça do cavalo para a esquerda, tocou-lhe com os
calcanhares na barriga e deu-lhe rédea. O cavalo arrancou num
trote e subiu a ladeira.
94
Deviam tê-lo visto a sair do hotel, e percebido o que ele ia
fazer. E ali não era de forma alguma lugar para uma
confrontação, mas isso era precisamente aquilo que eles
queriam. Nada de testemunhas; perfeito.
"Meu rapaz, és mesmo um anjinho...", pensou ao ouvir os seus
perseguidores a aproximarem-se.
Talvez devesse desmontar do cavalo, e incitá-lo a continuar
pela vereda abaixo. Assim, eles perseguiam o cavalo e ele
podia fugir. "Boa ideia!..." disse a si próprio; mas quando ia
para desmontar as rédeas fugiram-lhe das mãos. Procurou-as às
apalpadelas no escuro, mas não as conseguiu encontrar.
- Que se lixe! - disse em voz alta e começou a tentar
desmontar mesmo com o cavalo em andamento; mas nesse momento o
carreiro voltou a subir e um tronco de uma árvore bateu-lhe em
cheio na testa, atirando-o do cavalo abaixo. Trambolhou no
escuro indo cair com um barulho surdo no chão. Abriu a boca
num profundo hausto do ar que a queda arrancara, e ouviu o
barulho de cascos de cavalo. Rolou o estômago e depois com
dificuldade pôs-se em pé. Cambaleou, um passo, depois outro, e
acabou por cair de joelhos. Tentou levantar-se de novo, mas
caiu para trás.
Lá em cima as constelações giravam loucamente em círculos
alucinados. Fechou os olhos e ao afastar-se daquilo tudo,
desmaiou. Ao longe ouviu uma voz:
- Indy! Indy! Estás bem?
Piscou os olhos antes de os abrir de todo e viu Nikos.
Disse:
- Para onde é que eles foram? Vinham atrás de mim, e...
- Era eu! Estava a ver se te alcançava; e quase que passei
por cima de ti...
- Olha, eu sinto-me como se estivesse passado mesmo...
- Consegues andar?
Sentou-se no chão e esfregou a cabeça:
- Sei lá! Acho que não parti nada...
Nikos ajudou-o a levantar-se. Perguntou:
- Por que é que estavas a voltar para as ruínas a esta hora
da noite?
- Preciso de falar com a Dr.a Belecamus. Onde é que está o
cavalo?
- Ali em baixo - disse Nikos, apontando para o carreiro. -
Mas tu meteste pelo carreiro errado; este não vai dar às
ruínas...
- Indica-me o caminho, Nikos! - disse Indy, sacudindo o fato
e dirigindo-se para o sítio onde estava o cavalo.
- Indy, eu acho que devias ter cuidado com a Dr.a
Belecamus...
- Ter cuidado com ela? Porquê?
- Por causa de ela ser quem é. Tu não sabes tudo a respeito
dela...
- Tens razão; não sei.
95
Lembrou-se do que Dorian Lhe tinha dito acerca da atitude
dos aldeães para com ela. Em voz alta acrescentou:
- Havemos de falar nisso noutra altura. Agora preciso de
chegar o mais depressa possível às ruínas...
Soltou o cavalo da árvore onde Nikos o prendera e montou.
- Ouv-me, Indy - gritou Nikos, correndo para ele. - Olha que
é perigoso para ti estares perto dela!
Indy olhou:
- De que é que tu estás a falar?
Nikos aproximou-se e pegou nas rédeas do cavalo:
- O Oráculo vai regressar; e dizem que a Dr.a Belecamus é a
Pítia...
- Quem é que diz isso?
- Aqueles homens na taberna. Panos e o filho dele, Grigoris.
E também Doumas, acho eu. Todos eles são da Ordem...
Indy abanou a cabeça, espantado:
- Da Ordem? Que Ordem?
- A Ordem de Pítia. São os detentores do antigo
conhecimento!
- E por que é que eles pensam que Belecamus é a Pítia?
- O velho que lá estava na taberna, o Louco, é o mais velho
membro da Ordem, e há muitos anos profetizou que a Pítia iria
voltar um dia. Nessa altura ele disse que isso aconteceria
depois de um tremor de terra e antes do rei chegar.
- Óptimo. Mas isso não responde à minha pergunta. Por que é
que Belecamus há-de ser a nova Pítia?
- O Louco disse que a Pítia seria uma dória.
- Uma Dória? E quantas há?
Nesse momento lembrou-se de qualquer coisa que lera ainda
não há muito tempo. Os Dórios eram uma tribo de invasores,
cujo nome era sinónimo dos Tempos Negros da Grécia, por volta
de 1000 a.C. Tinham substituído a deusa-mãe por divindades
masculinas, e a sua influência poderia ter sido a razão da
subida ao poder de Apolo em Delfos. Tinha havido imensos
dórios, e Belecamus nada tinha a ver com eles. No entanto, ela
era, sem sombra de dúvida uma dória".
Nikos continuou a explicação:
- Durante muitos anos, ninguém falou grande coisa acerca da
profecia. Mas então, depois daquele tremor de terra, Doumas
contactou a Dorian Belecamus, e foi quando ela disse que
regressaria que Panos teve a certeza de que a profecia se ia
cumprir...
- E tu acreditas nisso?
Nikos olhou espantado para ele:
- Nunca ninguém me pergunta nada a esse respeito, Indy. E
até eu sempre pensei que isso fosse conversas de gente tonta,
até ouvir dizer que o rei vinha cá. Bem vês, assim acerta
tudo...
- E como é que tu sabes tantas coisas do que se passa? -
perguntou Indy suspeitoso. Nikos sorriu e chegou-se mais para
ele:
- É o que eu faço melhor. Indy. Vejo e ouço. Há muitas
coisas para ver e para ouvir. Se não fosse assim passava uma
vida muito aborrecida...
- Ainda bem, Nikos. Mas quer a Dorian seja a Pítia ou não
seja, a verdade é que eu preciso de falar com ela. Esses
homens são uma verdadeira ameaça...
- Não, Indy; tu não percebes! Eles não estão interessados em
fazer-lhe mal; o que eles querem é protegê-la!
- Protegê-la? De quê?
- Da gente de fora. Como tu...
97
CAPÍTULO XII
NA NEBLINA
Aos primeiros alvores acinzentados da madrugada, uma
pequena e arisca cabra trepava o monte de velhos detritos.
Esticava a cabeça, sacudindo-a de um lado para o outro como se
não tivesse o controlo dos músculos do pescoço. Quando
conseguiu chegar lá acima, inclinou-se para a frente, a
esticar a peia que a prendia.
Do sítio onde Nikos e Indy estavam, na Via Sagrada a umas
dezenas de metros do monte, era difícil dizer se a cabra
queria atravessar de um salto a fenda ou saltar lá para dentro
dela. Eram 5 horas e 40 minutos da manhã e os vapores deveriam
começar a subir daí atrêsminutos. Sem dúvida o arisco animal
iria receber uma boa baforada.
Indy olhou para Dorian e Doumas que conversavam
amigavelmente, como se fossem os melhores dos amigos. Pensou
em todo o trabalho que tinha tido a noite passada só para
chegar até ela, e afinal para nada. Tinha corrido para a
cabana e tinha-lhe falado dos homens na taberna, e tudo que
tinha ficado a saber sobre a ordem de Pítia.
Dorian tinha ouvido em silêncio até ele terminar o seu
relato e depois limitara-se a dizer-lhe que ainda bem que se
tinha resolvido o mistério dos dois homens; que assimjá podia
ficar descansada. E que agora podiam tratar dos seus assuntos.
Indy ficara assombrado com aquela atitude. Ela não ficara
nada preocupada com a organização e tinha até achado graça ao
facto de eles pensarem que ela era a Pítia. Sabia desse grupo
já desde há muitos anos, dissera. Era simplesmente uma coisa
que fazia parte do folclore e da cultura da aldeia, e os
homens eram Inofensivos. E também sabia que Doumas tinha tido
um certo interesse na Ordem; na realidade era uma coisa que
ele até tinha encorajado, porque proporcionava um elo de
ligação entre a aldeia e os cientistas.
Indy regressara ao hotel sentindo-se como um balão que
alguém tivesse furado. Estava um bocado confuso, mas
reconhecendo que provavelmente Nikos tinha razão; que a Ordem
estaria mais preocupada com ele, um estranho, do que com
Dorian, a suposta Pítia.
98
Como a demonstrar a sua preocupação, Nikos tinha-lhe pedido
para o deixar ir com ele na manhã seguinte. Embora relutante,
Indy tinha transmitido o pedido a Dorian, e ela tinha
autorizado, mas depois de estipular que ele ficaria
responsável pelo rapaz.
Subitamente, Doumas soltou um grito e apontou para a fenda.
Indy olhou para lá, à espera de ver os vapores, e por momentos
não conseguiu compreender porque motivo Doumas estava tão
excitado. Depois viu que a cabra tinha conseguido partir a
estaca a que estava presa e que ia saltitando precariamente à
beira do abismo.
- Eu apanho-a! - gritou Nikos, saltando por cima da corda
que bloqueava a entrada.
- Não, deixa lá! - gritou Indy. - Sai daí!
Mas Nikos já se tinha atirado para a base do monte de
detritos.
- Raios te partam, Nikos! - Indy correu atrás dele, mas
deteve-se a alguns passos do monte. Nikos estava agachado a
pouco menos de um metro da corda.
- Calma, menina, calma... - dizia suavemente Nikos,
aproximando-se lentamente do animal que estava como
hipnotizado a olhar para o abismo. O rapaz ia quase a agarrar
a corda quando se ouviu um surdo rugido de uma espécie de
silvo sinistro e agoirento.
"Jesus, outro tremor de terra...", pensou Indy. E depois
lembrou-se que já ouvira um som semelhante, embora mais fraco,
na noite em que tinha visto subir os vapores.
A cabra tropeçou; escorregou para a beira do abismo. Nikos
mergulhou e agarrou a ponta da corda e puxou. O súbito esticão
desequilibrou o animal, mas instantes depois estava de novo em
pé e a trepar para o topo do monte. Para lá da cabra,
começaram a elevar-se nos ares as primeiras volutas dos fumos.
Indy correu para junto de Nikos e tirou-lhe a corda da mão.
- Deita-te! - ordenou.
Estava prestes a puxar o animal para baixo, quando se
recordou do que tinham planeado fazer. Deixou-se ficar rente
ao chão, cobrindo o nariz e a boca. Olhou uma vez para cima e
viu a cabra imóvel, envolta numa névoa densa e branca. Tinha a
cabeça baixa, a oscilar lentamente de um lado para o outro.
Depois, sem qualquer espécie de aviso, a cabra deu um
esticão e a corda escapou-se das mãos de Indy.
Viu-a
esgueirare e levantou a cabeça para a ver melhor. A cabra
estava a executar uma estranha dança, rodando em círculos
apertados, a contorcer o corpo em posições esquisitas,
invulgares. Bateu com os cascos no chão, primeiro os da frente
e depois os de trás. A seguir deixou-se cair de joelhos e
ficou a bater com os cornos no chão.
Nikos subitamente atirou-se para o monte atrás da corda.
- Volta aqui! - gritou Indy; mas era demasiado tarde.
99
Os vapores tinham-se adensado e Nikos desapareceu no meio da
névoa juntamente com a cabra.
A névoa pairava sobre os detritos e dirigia-se para ele. Era
quase como se aqueles vapores tivessem consciência e se
tivessem apercebido da sua posição. Indy ficou sem saber se ir
procurar Nikos ou recuar. Depois, tão depressa como
desaparecera, Nikos saiu da névoa e ambos fugiram do templo.
- Vocês estão bem? - perguntou Dorian, olhando
alternadamente para Indy e para Nikos.
- Onde é que está a cabra? - perguntou Doumas.
- A cabra estava a dançar! - disse Nikos. - Quase que Lhe
conseguia agarrar a corda, mas ela saltou mesmo para o
buraco...
- Tens a certeza? Talvez tivesse saltado para o outro
lado... - disse Doumas.
- Por que é que o deixaste ir lá acima? - perguntou Dorian
acusadoramente a Indy.
- Fui eu que fui sozinho! - disse Nikos. - Foi só culpa
minha.
Eu queria mostrar-te que era capaz de salvar a cabra...
A névoa finalmente dissipou-se, mas a cabra não estava à
vista. Subiram o monte e Indy seguiu Nikos de volta até ao
outro lado, para espreitarem pela estreita abertura. Estava
vazia. E então ficaram com a certeza: a cabra ficara perdida.
Dorian pousou a mão no ombro de Nikos quando atravessaram
para o outro lado. Disse-lhe:
- Pronto, deixa lá. respiraste aqueles vapores?
Ele abanou a cabeça:
- Acho que não. Sustive a respiração...
- Bom... - Dorian ficou por momentos a olhar para o fundo do
abismo. - Seja como for, foi pena, isso da cabra. Agora
ficamos sem saber se a sua reacção era um medo temporário ou
se era mesmo por defeito dos vapores...
- Penso que era apenas medo - disse Indy. - Puxar-lhe a
corda como Nikos fez era o suficiente para o animal reagir
daquela maneira...
- Talvez... - disse Dorian. - Mas não podemos ter a certeza.
A dúvida na sua voz era evidente. Parecia-lhe que Dorian
estava a tentar convencer-se a si mesma que os vapores
produziam um qualquer efeito.
- A única maneira de se ficar a saber com certeza que os
vapores são inofensivos é um de nós respirar um pouco deles -
disse Indy.
Dorian assentiu:
- De acordo. Da próxima vez que os vapores subirem vou eu
mesma fazê-lo.
100
- Vais? - Indy que ainda na véspera estava disposto a inalar
aqueles vapores, agora já não estava seguro de que isso fosse
uma grande ideia.
- É tempo de acabarmos com as especulações. Além disso, eu
nunca o faria se pensasse que era realmente prejudicial...
Voltou-se e desceu o monte, afastando-se do templo.
Indy olhou para Doumas, à espera que ele protestasse. Mas o
homem limitou-se a ficar a olhar para ela. Daí a quatro horas
e meia saberiam.
A expressão de Panos era de uma rígida determinação quando
seguia pela estrada de terra batida e orlada de árvores com
Grigoris a seu lado. A confrontação com o estrangeiro Jones
tinha-o enervado e ao mesmo tempo levara-o a tomar uma
decisão.
Sabia que chegara a altura: Dorian Belecamus tinha de ser
enfrentada. Devia dizer-se-lhe, e ela tinha de compreender.
Semicerrou os olhos por causa do sol que se erguera por cima
do pico da montanha.
Passaram a curva para a cavalariça e a oficina, e seguiram
em frente mais um bocado até chegarem a um trilho onde uma
antiga muralha tinha outrora rodeado Delfos.
O trilho levara-os acima do «recinto sagrado» e iriam
aproximar-se pelo lado dos degraus do anfiteatro sobranceiro
ao Templo de Apolo. Era um percurso mais longo, mas pelo menos
por ali ninguém os veria chegar.
- Ela não te vai ouvir, pai! - disse Grigoris, andando mais
depressa para acompanhar a passada de Panos. -Ela é uma
intelectual: vai-se rir de ti. Vai pensar que não passas de um
camponês ignorante, cheio de ideias e de superstição...
- E tu, é também isso que pensas?
Panos estava confiante de que o filho era profundamente
dedicado à Ordem, mas mesmo assim de tempos a tempos, gostava
de o pôr à prova.
Grigoris hesitou antes de responder. Acabou por dizer:
- Se eu tivesse crescido em Atenas, e tivesse andado lá
nalgum colégio, com certeza que era isso que pensava...
Panos olhou-o com marcada expressão desaprovadora; tinha
ensinado o filho a responder clara e directamente às
perguntas, não a fazer comentários obscuros. Grigoris
acrescentou logo a seguir:
- Mas a verdade é que eu sei muito mais: não tenho as vistas
curtas como os intelectuais. Estou aberto para aceitar aquilo
que eles consideram superiormente como inacreditável...
Panos abulhiu a sua concordância. Era a resposta que
esperava Grigoris lhe desse; sentia-se orgulhoso. Um dia havia
de vir.
101
que seu filho seria o líder da Ordem de Pítia. E como Sumo
Sacerdote de Delfos, e emissário de Apolo, viria a ser um
homem determinado; disciplinado. Mas primeiro precisava de
aprender a
compreender as suas mais negras emoções. Se o não
conseguisse fazer, Panos sabia que todos aqueles anos que
levara a preparar o seu filho para aquele papel, teriam sido
anos perdidos.
Sempre que se sentia preocupado com o temperamento de
Grigoris, pensava nos deuses do Olimpo. É que eles também
muitas vezes se comportavam tão mal como o seu filho.
Eles eram afinal um autêntico bando tempestuoso que
conseguira o poder após uma luta brutal com os seus
antecessores, os tãs. Apolo, em essencial, mostrava o mesmo
tipo de agressividade de Grigoris. Sempre que em Delfos Apolo
era consultado acerca da viabilidade de se travar uma guerra,
a maior parte das vezes ele aconselhava que se invadisse
imediatamente o inimigo.
O trilho fez uma curva e os dois homens saíram mesmo acima
da curva de bancos de pedra que formavam o velho anfiteatro.
Lá em baixo o templo tinha a cobri-lo um manto de névoa, como
estava sempre ao princípio da manhã. Panos ficou por momentos
a olhar para baixo. Mas conseguia distinguir as colunas: mas
aquele não era um nevoeiro vulgar: a manhã já ia alta para
isso. Eram os gases mefíticos, ichor, a linfa dos deuses, a
dar-lhe as boas vindas.
Fosse porque motivo fosse, parecia-lhe que sempre soubera
que os vapores se elevariam nos ares quando ele ali chegasse.
Era mais um sinal de que chegara a hora.
Olhou por momentos a desconjuntada cabana cá fora do templo,
entre a Via Sagrada e o sítio onde em tempos ficara o
santuário de Poseidon.
Doumas tinha-lhe dito que a cabana fora construída de
maneira a poder ser levada por alguns homens para a orla da
fissura onde ele e Pítia instituiriam a corte para o rei e
para outros que solicitassem os seus serviços. Mais tarde,
quando o renascimento de Delfos fosse mais largamente
conhecido, haveria dinheiro suficiente para a construção de um
novo templo. Na opinião de Panos as ruínas dos velhos
edifícios bem podiam ser arrasadas para dar lugar a outros
novos.
Acima de tudo, Panos estava ansioso por ouvir a Pítia falar.
Sa bia que perceberia imediatamente aquilo que para os outros
não passava de um linguajar incompreensível. A críptica
linguage dos deuses era um legado da Ordem; não se aprendia
como uma vulgar língua: aprendia-se a um nível muito mais
profundo.
Ao longo de seiscentos anos, geração após geração, e século
após século, a Ordem tinha servido de curadora do conhecimento
sagrado dos seus segredos. Por vezes a Ordem tinha perdido um
ou dois membros, mas o conhecimento e os segredos tinham
sempre sobrevivido.
102
Os Panos não tinham quaisquer dúvidas de que os deuses
haviam protegido a Ordem, haviam guiado os seus membros,
instilando sempre neles a convicção de que o Oráculo um dia
regressaria ao mundo. Afinal, os deuses e o destino eram uma
só entidade, e o regresso de Pítia era inextricável. E agora,
finalmente, após longos séculos de espera, ia começar a nova
época...
Nesse momento viu Dorian Belecamus, a Pítia, a sair da
cabana. Deteve-se e viu-a entrar no templo e desaparecer na
névoa. Quase lhe apeteceu gritar de pura alegria. Tinha-se
cansado de pensar, tentando descobrir um processo de a levar
até aos vapores para lhe provar que ela é verdadeiramente
Pítia: e afinal ela fazia-o de motu próprio. Isso ainda mais
lhe arraigou a certeza de que tudo se estava a realizar como
estava determinado.
Desceu quase a correr os degraus de pedra com Grigoris só um
passo atrás dele, e quando se aproximaram da base do
anfiteatro surgiram mais dois vultos, que foram atrás de
Pítia.
- Vão para dentro do templo! - gritou Grigoris.
E então, antes de Panos ter tido tempo para lhe dizer que
olhasse e que esperasse, Grigoris deu um grito a chamar
Doumas. Este e Indy pararam e voltaram-se para o teatro.
- Não tens o mínimo sentido de prudência! - ralhou Panos,
sentindo ao mesmo tempo que o dizia, que afinal Grigoris
estava certo: era a altura de agir, não a de vigiar e espiar.
- Panos! - gritou Doumas. Agitou freneticamente as mãos.
Grigoris desatou a correr e Panos apressou-se a seguir o
filho. Quando chegaram ao pé dele, Doumas explicou-Lhes aquilo
que eles já sabiam. Belecamus estava na névoa e nãohavia
sinais dela.
Jones ficara uns passos atrás deles e olhava-os com
curiosidade. Se o incidente na taberna o assustara, não
mostrava sinais disso.
Grigoris interpôs-se entre Jones e o templo. E disse:
- Eu tomo conta dele, pai.
- Que é que se passa? - perguntou Jones.
- Nada da tua conta! - ripostou Doumas. - Não esqueças
aquilo que ontem te disse...
Grigoris deu um passo em frente como que para reafirmar que
fora ele quem o atacara.
Panos voltou de novo a atenção para o templo, e perguntou a
Doumas o local exacto da fissura. O rotundo arqueólogo, mais
parecendo um pato a andar, deu alguns passos em frente e
apontou. E nesse preciso momento um guincho arrepiante cortou
os ares vindo do den so véu de névoa. Aquele som arrepiante
fez correr calafrios pela espinha de Panos.
- Fiquem aqui e esperem por mim! - disse, correndo para o
templo. Saltou por cima de uma corda e dos restos da parede,
103
e trepou o monte de detritos que estava parcialmente coberto
pela névoa. Sabia que os vapores só afectavam aqueles que eram
susceptíveis de entrar em estado de transe, e que ele, como
sacerdote da Ordem, estava protegido. Mesmo assim inspirou
profundamente e susteve a respiração enquanto subia o monte.
Chegou lá em cima e olhou em roda. Nem sinais dela. Soltou a
respiração e cautelosamente farejou o ar. A névoa não cheirava
a nada, nem causava efeitos imediatos que desse por isso.
Deu um passo em frente e olhou lá para baixo, para a hiante
boca do abismo. Sentiu um aperto no coração ao lembrar-se de
que o grito que tinham ouvido talvez tivesse sido o derradeiro
apelo de Pítia antes de tombar no vazio. Não haveria regresso:
pelo menos nos dias da sua vida. Belecamus era mesmo a tal:
ninguém a poderia agora substituir. Como é que ele tinha
podido errar daquela maneira?
De repente sentiu-se estonteado, assim como costumava ficar
depois de ter bebido alguns copos de retsina. Estonteado, mas
com a mente clara. Sentia-se extraordinariamente vivo, a
pressentir que ia acontecer qualquer coisa. Cuidadosamente deu
um passo atrás a afastar-se do abismo: e uma mão agarrou-lhe
no cotovelo. Voltou-se sobressaltado e sacudiu o braço para o
soltar.
Era Belecamus e tinha as mãos erguidas como se se estivesse
a preparar para o lançar para o buraco.
Nesse momento viu-lhe o rosto: os olhos pareciam rolar-lhe
numa fuga para cima, tinha a boca muito aberta e a língua
pendente para o lado.
Abriu a boca de espanto, e só conseguiu perguntar:
- ... sabes quem és?
Moveu os lábios e a cabeça oscilou-lhe para a frente e para
trás, mas não pronunciou uma só palavra.
- Tu és Pítia. Tens de o compreender. O Oráculo regressou, e
tu és Pítia!
Ela deu um passo inseguro para diante e abanou a cabeça para
um lado e para o outro. O maxilar movia-se para cima e para
baixo, sem que da boca lhe saísse qualquer som. Depois, num
súbito assomo de energia, girou sobre si mesm a agitando os
braços e aproximou-se da orla da fenda. Preparava-se para se
lançar no abismo.
Panos agarrou-a firmemente pela cintura e puxou-a para trás.
Murmurou-lhe ao ouvido:
- Aceita! Tens de o aceitar...
Ela ficou a balouçar lentamente nos seus braços, de um lado
para o outro. Depois, bem lá do fundo do seu corpo soltou-se
um gemido, um ronco de incontrolável dor, cada vez mais forte,
como o de uma mãe ao dar à luz. Teve um tremor violento e
desmaiou.
Panos ergueu-a, e ao fazê-lo reparou que o ar estava a
clarear. Levoua dali, sabendo que a transformação se tinha
completado. Dorian Belecamus era Pítia, e da próxima vez que
os vapores se levantassem ela seria de novo atraída para a
névoa, e ele estaria lá também.
O seu guia; o seu intérprete. A sua voz para o mundo
inteiro.
104
105
CAPÍTULO XIII
LEITURAS
Dorian estava junto a um banco da platia a olhar para o
vale.
Tinha um vestido de algodão campestre em vez das calças
largas que semprevestira desde que chegara. Tinha as mãos
assentes nas ancas. Quando Indy atravessou o parque para se
aproximar dela, pareceu-lhe estar a ver uma estátua grega.
Parou a alguma distância dela e aclarou a voz. Perguntou:
- Como te sentes hoje?
- Muito melhor... - respondeu, sem desviar o olhar do vale.
A intensidade do seu olhar fez-lhe pensar que ela estaria a
ver qualquer coisa em especial; mas a única coisa que ali
havia para ver era a paisagem no seu todo. Uma bela paisagem,
sem mais nada que fizesse qualquer pessoa olhar tão
intensamente como ela o fazia.
- O que é que estás a ver lá em baixo? - perguntou.
Ela não hesitou:
- História... cultura... o passado! - a voz era suave,
calma.
Distante.
Indy voltou a olhar para o vale. Tinha passado dois dias
desde que Panos a trouxera em braços do templo. Ela tinha
dormido profundamente durante onzehoras, e depois de ter
acordado tinha sido observada por um médico, que Lhe não
descobrira nada de mal.
Dissera que ela estaria provavelmente a sofrer de stress e
de sobrecarga de trabalho e aconselhou um descanso.
Apesar disso, pelo meio dia do dia seguinte ela tinha ido
para a oficina que ficava perto das ruínas e lá ficara até às
9 horas da noite.
Parecia como que alheada; como se só parte dela estivesse
ali presente.
Seria cansaço? Ou teriam sido os vapores?
Indy pensara imenso nisso, e acabara por decidir que
deveriam ter sido as duas coisas juntas.
Ela tinha andado a lutar contra a exaustão durante muitos
dias, e os vapores, ou pelo menos as suspeitas que ela tinha
tido acerca deles, teriam desencadeado o colapso; um
naturalíssimo colapso nervoso.
106
- Muito bem, Jones! - disse ela, afastando o olhar do vale -
, Não podemos passar toda a manhã aqui no parque. Temos
trabaLho a fazer...
- Tens a certeza que estás capaz para isso?
Ela endireitou-se:
- Estou bem. Melhor, estou óptima. Sinto-me óptima!
A súbita mudança do seu estado de espírito, aquela sua nova
energia, surpreenderam-no. Era como se ela tivesse acabado de
despertar de um sonho.
- Que é que vamos fazer?
Ela olhou para ele como se pensasse que ele tinha
endoidecido. Perguntou:
- Então não sabes que temos de retirar a placa lá da fenda o
mais depressa possível? Já perdemos demasiado tempo! Quero a
placa limpa e em exposição quando o rei chegar, depois de
amanhã!
- Não estás a levar as coisas depressa de mais? Pensava que
a arqueologia era um trabalho lento e pormenorizado...
Ela sorriu-lhe:
- E é. Mas isto é uma emergência. Cada hora que aquela placa
continua lá dentro da fenda, mais aumenta o perigo dela se
perder...
Agora ela parecia tão ansiosa como ele tinha estado, antes
de ter penetrado na névoa.
- Por que é que a queres mostrar ao rei? - perguntou. - Não
achas que a sua vinda aqui pode ser uma forma de te perseguir
por teres regressado?
Ela riu-se:
- Ora! Deixa-te disso...
- Onde é que está a graça?
- É que o rei pode ser impertinente e mesquinho, mas não
anda a cozinhar e alterar planos e fazer viagens de
emergência, só por causa de uma pessoa como eu. Duvido até que
ele saiba que eu estou cá...
- E não pensas que haja algum perigo agora por parte dos
inimigos da tua família?
Ela abanou a cabeça:
- Não. Principalmente aqui em Delfos... Não te preocupes.
Estamos em segurança, e quando o rei vir o novo achado, vai
ver que até os tremores de terra têm o seu lado bom...
Indy encolheu os ombros ainda perplexo por aquela súbita
urgência em tirar a placa e pela sua súbita e benigna atitude
a respeito do rei. Acabou por perguntar:
- Então o que é que queres que eu faça?
- Está tudo a ser preparado. Vais fazer a descida
precisamente ao meio-dia.
- E os vapores? - perguntou.
107
Dorian afastou um pouco os cabelos para trás dos ombros.
- Tive isso em consideração. Esta manhã subiram às 9 horas e
3 minutos, cinco horas e trinta e cinco minutos depois da
última subida: um acréscimo de seis minutos ao intervalo. O
mesmo ritmo de sempre.
In dy tirou o relógio do bolso e começou a calcular a hora
da próxima subida. Ela olhou por momentos e disse:
- Às 2 horas e 44 minutos. Vais ter tempo suficiente. Tudo o
que tens a fazer é colocar a rede em posição por cima da
placa, e picar a terra na base dela.
- E se os vapores vierem mais cedo?
A pergunta fora ditada pela sua curiosidade em saber qual a
sua reacção, porque ela pouco tinha dito sobre a sua própria
experiência.
- Não temos qualquer motivo para pensar que eles não sigam a
mesma cadência de sempre... - disse ela, evadindo a intenção
da pergunta.
Indy tornou a olhar para o relógio e depois guardou-o. Eram
10 horas e 35 minutos. Ficou a pensar no que iriam fazer até
ao meio-dia. Disse:
- Acho que eu podia ir descansar um bocado antes do meio
dia. Voltas para o hotel?
Se ela percebeu a sua oculta intenção, não o mostrou:
- Eu disse que tínhamos trabalho a fazer, Jones. Vamos para
a oficina: quero vistoriar contigo as ferramentas...
Dirigiu-se a passos rápidos para o hotel, junto do qual
estavam amarrados os cavalos.
- Vens, Jones? - perguntou por cima do ombro.
Indy enterrou o chapéu na cabeça e seguiu-a. Quando iam a
montar os cavalos, ainda perguntou:
- Olha lá: E o Doumas?
Ela franziu a testa:
- O que é que tem?
- Ouvi dizer que ele era contra a ideia de ser eu a ir lá
buscar a placa...
Fez um gesto de negligência com a mão, e respondeu:
- Ah, já lhe passou. Era só um caso de orgulho ofendido...
Indy assentiu em silêncio, mas não deixou de pensar nas
relações de Doumas com a Ordem de Pítia. Quando já iam
cavalgando fora da terra, passou-lhe pela ideia a dúvida se o
arqueólogo estaria tão interessado como Panos e o filho em
proteger Dorian das pessoas de fora. Se assim era, entrar na
fenda com ele em qualquer parte das imediações podia ser coisa
perigosa. Por outro lado Doumas também estava interessado na
placa, raciocinou. E por esse motivo, o mais certo era não
fazer nada que pusesse em perigo a sua recuperação.
108
Iam já quase a meio caminho da oficina quando Indy avistou
um vulto solitário parado à beira da estrada. Quando se
aproximaram dele verificou que era o velho do boné de
marinheiro grego que lhe tinha falado na taberna. O Louco. Com
tudo o que tinha acontecido desde essa noite, quase o tinha
esquecido. Tentou recordar-se do que o homem lhe dissera:
Qualquer coisa a respeito de Pítia. "Que ela o devoraria..."
sim, era isso. E agora parecia-lhe que fazia muito mais
sentido do que quando ele o dissera. Mesmo assim... se calhar
não passava de baboseiras de um velhote de taberna.
O velho ficou a olhá-los, quando passaram. Indy perguntou a
Dorian:
- Conhece-lo?
Ela sorriu, e era evidente que conhecia:
- Não é pessoa com quem nos preocupemos...
- Ouvi dizer que é membro da Ordem de Pítia, e que tem feito
profecias...
Em resposta ela riu-se e abanou a cabeça:
- Talvez seja então por isso que na aldeia lhe chamam o
Louco; ninguém o toma a sério...
Como que a indicar-Lhe que não queria falar mais do velho,
tocou com os calcanhares os lados do cavalo que começou a
galopar distanciando-se do seu.
Indy foi em sua perseguição durante todo o caminho até
chegarem às cavalariças onde deixaram os cavalos e depois
foram a pé até à oficina ali perto.
Era uma construção construída em madeira que do lado de
dentro mais parecia o interior de uma biblioteca poeirenta e
mal iluminada. Só que em vez de livros, as filas de
prateleiras continham artefactos. Tanto quanto se podia dizer
de uma primeira observação nenhum deles era do tipo de antigo
artesanato que pudesse interessar os caçadores de tesouros.
Nem ouro, nem prata nem pedras preciosas ou valiosas. Nem
sinais do vasto tesouro que Creus tinha oferecido por uma só
leitura: cento e dezassete pedaços de metais preciosos, um
leão de ouro que pesava trezentos quilos, uma estátua do seu
mestre pasteleiro com mais de um metro e meio de altura e uma
imensidade de outros tesouros.
Toda essa fortunajá de há muito se dissipara, levada por
reis, imperadores e por muitos outros. Só Nero, por si só,
havia roubado de Delfos quinhentas estátuas de ouro.
Muitas das prateleiras estavam atulhadas com filas e filas
de placas do tamanho de uma mão onde estavam inscritas velhas
leituras. Perto de uma dúzia delas estavam pousadas sobre a
comprida mesa onde Dorian costumava fazer o seu trabalho.
- Tens estado a pôr as leituras em dia? - perguntou Indy,
passando ao de leve os dedos por uma das inscrições. - Ontem
li umas centenas delas - disse.
109
- Porquê?
- Há anos que eu não lia nenhuma; e é bom que refresque de
tempos a tempos o teor destas leituras...
Indy pegou numa das placas e traduziu o grego antigo. Era
uma leitura banal a respeito dos planos de um mercador quanto
a vender seiscentos fardos de lã a um novo cliente. O Oráculo
dissera-lhe para se manter firme no seu preço, e depois para
baixar um pouco antes de concluir o negócio e sssim firmaria
um longo e proveitoso relacionamento com o cliente, que
duraria muitos anos.
Pousou a placa, ficando a pensar o que é que Dorian lucraria
com a leitura daquele material. Talvez fosse apenas um a forma
de relaxar, depois do seu colapso nervoso. Estava muito
interessado em ouvi-la falar da sua experiência, mas da única
vez que tinha abordado o assunto, ela nada dissera que pudesse
revelar o que pensava sobre o assunto.
Ficou a olhar para ela, a vê-la tirar uma mochila de um
armário e levá-la para cima da mesa. Espalhou no tampo seis
espigões com os ferros de tamanhos diferentes, e explicou que,
originalmente, todos eles tinham tido o mesmo comprimento, mas
que tinham sido desgastados pelo uso.
- Muitos arqueólogos - disse -, preferem servir-se de
colheres de pedreiro, porque provocam menos prejuízos nos
artefactos.
Mas eu cheguei à conclusão que, se se tiver cuidado, o
espigão é uma ferramenta muito mais manejável. Anda lá:
escolhe um.
Indy passou a ponta do que escolhera pela palma da mão.
- Tens a certeza de que não vou estragar a placa?
- Só se batesses nela. Demora o tempo que precisares e
trabalha em torno da base. Da parte que está visível, eu diria
que quinze a vinte centímetros dela estão enterrados. Não
precisas de chegar muito ao fundo...
- Por que é que umas vezes se serviam de placas grandes e
outras vezes pequenas? - perguntou.
- A maior parte das leituras ficava registada em placas
pequenas; mas as leituras importantes, que não eram para uso
individual mas para toda a gente, eram muitas vezes escritas
em placas grandes, como essa que tu vais recuperar.
Indy apontou para uma série de pincéis que tinham ficado
dentro da mochila e perguntou se precisaria de algum. Dorian
respondeu:
- Não. A placa vai ser limpa depois de ser tirada do buraco.
- Meteu a mão no saco e tirou um pincel de cerdas rijas:
- Em todo o caso leva este, para a eventualidade de surgir
alguma coisa inesperada. E, antes que esqueça, aqui tens um
suporte de lanterna e um maço para o cravar na parede.
110
Enquanto Indy colocava as ferramentas na sua própria
mochila, olhou em torno de si, como se lhe faltasse qualquer
coisa.
- Stefanos deve já ter levado as cordas e a rede. Uma das
cordas é para tu ires preso e a outra é para a placa. Cobre a
placa com a rede assim que lá chegares, e depois prende os
ganchos na abertura do laço na ponta da corda.
- Acho que posso dar conta disso!
A forma como ela o estava a tratar era irritante. É certo
que talvez ele não tivesse muita experiência, mas não era um
completo imbecil e sabia muito bem prender ganchos na ponta de
uma corda...
- Alguma pergunta?
- Acho que não.
Ela cerrou os lábios e ele nada leu na sua expressão. Depois
de uma curta pausa disse-lhe:
- Tudo isto te pode parecer muito elementar, mas aquilo que
te tenho estado a dizer pode representar a diferença, o
sucesso e o falhanço. Não quero que chegues lá abaixo e não
saibas o que tens a fazer, ou, pior do que isso, que faças
alguma coisa errada.
- Quanto tempo pensas que demorará?
- não vais poder trabalhar confortavelmente, pendurado na
ponta de uma corda, durante muito tempo. Nós vamos puxar-te
para cima ao fim de quinze minutos. Depois, se estiveres em
condições para isso, tornamos-te a descer outra vez, após um
descanso de quinze minutos.
- Talvez acabe logo na primeira descida.
Ela sorriu:
- Não contes com isso. Trabalhar naquela posição não vai ser
fácil. Se não acabares mesmo depois do segundo período, espera
até os vapores se dissiparem e tentamos outra vez pelas 3
horas.
- Então os vapores são perigosos?
Dorian correu o fecho da mochila, a fechá-la. Disse apenas:
- Seria difícil trabalhar no meio dos vapores, não achas?
"Continuava a esquivar-se", pensou ele. Respondeu:
- Claro, principalmente se forem perigosos...
Ela levou a mochila para o cacifo do armário e guardou-a.
Era altura de a apertar:
- De que é que tu te recordas?
Ela voltou-se e parou em frente dele:
- Como?
- Nos vapores. O que foi que sucedeu?
Dorian desviou o olhar para o monte de placas que estava sob
a mesa. Depois de uma curta hesitação, disse:
111
- Não tenho a certeza, Indy. - A voz tornou-se-lhe
subitamente trémula. - Acho... acho que tenho andado a tentar
não pensar muito nisso...
Era a primeira vez que ela lhe chamava Indy, depois de terem
chegado a Delfos. Ele insistiu:
- Talvez fosse boa ideia tentares recordar-te...
Ela fez um gesto de assentimento e voltou-se de frente para
ele:
- Lembro-me de entrar na névoa, de a inalar e de pensar que
não tinha nada de mefítico. Que era inofensivo. Na verdade,
agora que penso nisso, acho que me senti bem; que me senti
melhor do que há muito tempo não me sentia...
- Mas desmaiaste...
- Não me lembro de mais nada.
- Talvez estivesses a reagir ao facto dos vapores serem
inofensivos... - sugeriu ele. - Estavas cansada, tinhas
trabalhado demais, e foi apenas isso...
- É possível,julgo eu; mas a verdade é que eu não sou muito
dada a desmaios. A outra explicação, evidentemente, é que esse
desmaio tenha sido provocado pelos vapores...
Indy fez uma careta. Mais do que nunca, suspeitava que
Dorian fosse atreita ao mesmo tipo de fascinação que consumira
o seu próprio pai, e que desde pequeno conhecera. Disse-lhe:
- Pensa bem nisto, Dorian. Se os vapores fossem perigosos
então o homem que te trouxe cá para fora, o Panos, também
teria sofrido a mesma reacção. Tenho a certeza de que ele não
conseguiu suster a respiração, como fez o Nikos; esteve lá
dentro tempo de mais para o poder ter feito...
Atrás deles soou o estalido de uma tábua do chão, e eles
voltaram-se ao mesmo tempo.
Doumas estava à entrada da porta.
- É quase meio-dia, Dr.a Belecamus!
Dorian endireitou-se e fez um gesto de cabeça:
- Pois é. Acho que estamos prontos.
Dorian viu a copa do chapéu de Jones desaparecer na fenda
enquanto Doumas e os seus dois assistentes iam lentamente
fazendo passar a corda pelas mãos. Em breve teriam a placa.
Talvez tivesse interesse, mas provavelmente não era nada de
importância. As escavações em Delfos, para todos os efeitos
práticos, estavam terminadas. Alguma coisa mais que se
encontrasse, já só serviria para confirmar o que já era
sabido. Claro que ela não tinha dito isso a Jones, e ele, na
sua ingenuidade, tinha-a seguido a pensar que iria ficar
ligado a qualquer grande descoberta. Mas a verdade é que Jones
iria desempenhar um importante papel, e muito em breve. Nem
ele sabia como era importante...
112
O aliado de Alex no gabinete do rei cumprira perfeitamente a
sua missão. Tudo tinha funcionado admiravelmente. O rei fora
persuadido. Quando muito ela só tinha era que se admirar com a
rapidez de decisão.
E, no entanto, ela estava a ter uma certa dificuldade em se
concentrar na missão de Alex. Que era precisamente isso,
pensou. ErA missão de Alex, não a sua. Não propriamente a sua.
Os vapores tinham mudado tudo. No momento em que ela tinha
penetrado nos vapores o mistério do Oráculo dominara-lhe
completamente os pensamentos. E isso, só por sijá era
estranho.
Ela nunca pensara em boa verdade no Oráculo como sendo um
mistério. Era um fenómeno dos antigos tempos; de uma era
pré-científica. E, no entanto, agora ela via-o como qualquer
coisa mais. Como um fenómeno com um futuro, tal como o passado
que tinha.
Mas talvez tudo fosse errado. Seria realmente possível que
ela própria fosse Pítia? Precisava de falar com Panos. Isso
era natural. Mas tinha que se certificar de que ninguém os
via.
- Posso ajudar?
Dorian virou de repente a cabeça. Atrás dela e um pouco ao
lado estava um jovem grego que já tinha visto na aldeia.
- Que estás aqui a fazer?
- É o filho de Panos! - Disse o Doumas. - Vem cá, Grigoris.
Dá aqui uma ajuda com a corda!
Dorian olhou-o com certa suspeita. De repente a corda ficou
lassa e Doumas gritou para Jones lá em baixo.
- Já lá deve ter chegado - disse Dorian.
Doumas abanou a cabeça:
- Ainda não. Não desceu ainda bastante.
- Então estica-a! - gritou ela, pensando que Jones poderia
ter ficado preso entre as paredes. - Depressa!
Doumas, contudo, não reagiu com a rapidez necessária e a
corda deu um esticão que soou como o estalo de um chicote.
Dorian inclinou-se sobre a fenda e chamou por Jones. Um
momento depois ele respondeu que estava bem, mas que tinha
perdido a lanterna. Imediatamente uma outra foi atada à corda
que se destinava à pesca e mandada lá para baixo. Quando Jones
assinalou que já tinha a nova lanterna, Doumas e os outros
continuaram a fazê-lo descer.
- Tenham cuidado com ele! - acautelou Dorian. Não demorou
muito para que Jones gritasse que já tinha visto a pesca e
lentamente fizeram-no descer o resto do espaço que lhe
faltava.
Dorian passeava de um lado para o outro ao longo da fenda.
Se tivesse sorte, poderia completar o trabalho e regressar à
superfície dentro de meia hora. Muito dependeria da
dificuldade que tivesse no trabalho. Se o seu principal
interesse fosse a placa, nunca o teria deixado ir em primeiro
lugar buscá-la.
113
Muito embora ele tivesse uma boa cabeça e estivesse
surpreendentemente bem informado acerca de arqueologia, não
tinha experiência.
Claro que Doumas tinha tido razão a respeito dele: não tinha
qualificações. Mas ela tinha-o escolhido para a tarefa, apesar
disso, porque percebera que ele tinha de sentir o apelo de um
desafio ou então perdia o interesse e regressaria desgostoso a
Paris.
E isso ela não podia deixar que acontecesse. Agora, não. Ele
fazia parte, e parte importante, do seu plano.
Estava próximo do extremo da fenda quando ouviu uma excitada
troca de palavras entre Doumas e os outros. Jones não podia
ainda ter extraído a placa; não tinha tido tempo para isso.
Ou, pelo menos, a não ser que ela estivesse estalada ou se
tivesse partido.
Quando chegou perto dos homens, Doum as tinha na mão uma das
cordas e o resto dela estava solto, suspenso por cima do
buraco.
- Que foi? - gritou ela.
- Dr.a Belecamus, a corda partiu-se! Não sei como foi que
isto aconteceu...
- Mas que corda?
- A corda onde estava Jones - respondeu Doumas.
- O quê? Não!!!
Caiu de joelhos e espreitou para o abismo, mas a única coisa
que tinha diante de si era a escuridão. Arrancou a corda das
mãos de Doumas e puxou-a rapidamente para cima. Parecia que
tinha sido cortada até meio e depois esfregada em qualquer
coisa suja para dar a impressão de se ter desfiado.
Levantou-se e levantou a mão que segurava a corda, com ar
acusador. O filho da mãe de Grigoris tinha um ar de troça:
tinha a certeza disso, muito embora a expressão do rapaz
parecesse impassível. E Doumas? Balançava de um lado para o
outro como se estivesse prestes a cair, ou não conseguisse
equilibrar-se.
De repente ela lembrou-se da outra corda. Talvez Jones se
tivesse agarrado a ela quando a primeira se partira. Procurou
no chão, mas não a viu.
- Onde é que está a outra? A outra corda?
Doumas olhou para Grigoris:
- Ele perdeu-a; naquela excitação...
Nesse momento ouviu um som; um som em que quase não queria
acreditar, vindo lá de baixo, da fenda. Caiu de joelhos e pôs
as mãos aos lados da boca, a aumentar a força do grito:
- Indy! Estás a ouvir-me? Indy!
A voz dele veio lá de muito longe, tensa, num esforço:
- Sim! Estou a ouvir-te!
- Estás bem?
Não respondeu, por alguns momentos. Depois disse:
- Não muito; manda-me uma corda. Depressa!
- Está bem! Onde é que estás?
114
- Estou pendurado na placa, mas não sei quanto tempo mais
isto vai aguentar...
Dorian olhou por cima do ombro para Doumas:
- Stefanos, depressa! Uma corda!
Doumas olhou em redor como se estivesse à espera que
estivesse ali alguma. Depois respondeu:
- Tenho de ir lá abaixo: há uma na cavalariça...
- Vamos, não fiques aí parado, raios! Vai buscá-la!
Depressa!
- Vai a correr à cavalariça, Grigoris! - disse Doumas. -
Depressa. Há uma corda pendurada num gancho, atrás da porta!
Dorian gritou:
- Eu não te disse para mandares ninguém buscá-la!
Doumas, no entanto, também já lá ia a tentar correr atrás do
aldeão que corria lá adiante. E atrás dele corriam também os
seus assistentes. Parecia que nenhum queria ficar ali só ao pé
dela, e por momentos passou-Lhe pela cabeça a vaga pergunta do
motivo que teriam para isso.
Abanando a cabeça sem compreender tornou a aproximar-se da
fenda. Gritou:
- Já aí vêm, Jones! Uns minutos mais...
Devia ter ido ela mesma buscar a corda. Não confiava em
nenhum deles...
Não houve qualquer resposta.
- Jones! Estás bem?
O silêncio continuou. Teria caído? Mas se tivesse... não
teria gritado?
- Indy! Responde-me!
- Sim! Ouvi-te... - respondeu-lhe uma voz fraca depois de um
momento que lhe pareceu uma eternidade. - Mas não demores.
115
CAPÍTULO XIV
O ÚLTIMO APOIO
Indy estava a cavalo na placa como se ela fosse uma sela.
Encostou-lhe a cara e agarrou-a fortemente com os braços.
Sentia junto ao rosto os arabescos recortados das letras.
Quanto tempo teria ainda de esperar?
Tentou afastar a ideia daquela precária situação,
relembrando passo a passo o que sucedera.
Mal tinha acabado de rabiscar a tradução da placa quando a
corda começara a desfiar-se. Tentara desesperadamente subir
por ela mas a corda partira-se mesmo quando ia a pegar nela
acima dos fios soltos.
Balouçara por um momento, depois sentira um puxão lá de cima
e a corda escapara-se-lhe da mão. No entanto, a sua mão livre
estava nesse momento toda esticada para cima, e ao cair
conseguira agarrar a outra corda, e escorregara até à placa.
Tinha gritado, e a corda ficara frouxa e caíra, quase
fazendo-o cair a ele daquele precário apoio.
Os pensamentos de Indy nesse momento interromperam-se a
ouvir uma espécie de estalo quando a placa se começou a soltar
da parede com o seu peso. Ficou inclinada a fazer um ângulo de
quarenta e cinco graus, e cada vez se tornava mais difícil
manter-se seguro.
Reparou que tinha ainda a mochila com as ferramentas. Nada
melhor que a pessoa cavar a sua própria sepultura...
Não precisava mais daquele peso. Cuidadosamente começou a
tirar os braços, um de cada vez. Estava quase a deixá-lo cair
quando se lembrou que o espigão lhe podia fazer jeito.
Meteu a mão no saco, sentiu-lhe o bico aguçado e tirou-o.
Dei xou cair o saco e momentos depois ouviu um a pancada, como
se ele tivesse batido em qualquer coisa. Devia ter batido na
parede, pensou. Ficou à espera de o ouvir bater no fundo;
abanou a cabeça quando mais nenhum barulho lhe chegou aos
ouvidos.
- Sem fundo. Lindo...
Falar em voz alta parecia ajudar a afastar o medo.
- Tenho de fazer seja o que for. Mas o quê?
Sentiu a placa escorregar uns centímetros mais.
116
Fechou os olhos. Lembrou-se de Dorian a recomendar-Lhe como se
utilizava o espigão e como ele devia atar a corda à placa.
Devia ter-se preocupado um pouco mais com o que se passaria na
outra ponta da corda. Raios! Ela devia ter inspeccionado a
corda antes dele ter descido; e o Doumas? Mas agora havia
muito pouco tempo para ficar a matutar no que tinha
acontecido. Já tinha trabalho que chegasse a tentar
desesperadamente manter-se vivo.
Sentiu a rede debaixo dos pés e pensou se não seria melhor
soltá-la para aliviar o peso. Mas não: isso exigia muitas
manobras e muitos movimentos; se desse mais um esticão só que
fosse, a placa soltava-se da parede. Além disso, o peso ali
era o dele, não o da corda.
- É isso; tenho de me safar...
Se ele pudesse escavar apoios para os pés e para as mãos com
o espigão, talvez se conseguisse equilibrar na parede. Mas por
quanto tempo?
- É melhor morrer a tentar safar-me do que ficar sem fazer
nada...
A placa tornou a gemer e escorregou um pouco mais; não ia
aguentar muito tempo. Lentamente começou a içar-se,
apoiando-se na placa, para chegar à parede. "Mais uns
centímetros..." disse a si próprio. "Paciência. Calma.", Por
fim chegou perto da parede, para poder chegar lá com o
espigão.
Agora arranjar um pouco de balanço...
Estendeu a mão acima da cabeça e bateu com o espigão na
aresta. Mas para surpresa sua bateu em qualquer coisa rija e o
espigão fugiu-lhe da mão. A placa gemeu e inclinou-se ainda
mais e ele escorregou uns centímetros para baixo antes de se
poder agarrar.
Jesus, tinha batido no suporte da lanterna! Tinha-se
esquecido completamente dele, e ele lá estava, fixo na parede
por quatro espigões. Agora aquilo era a sua única esperança.
Tinha de se aproximar novamente da parede e deitar-lhe a mão.
Se conseguisse distribuir o peso entre a base da placa e esse
apoio, talvez se safasse. Imaginou-se a si próprio como um
ágil e delgado acrobata subindo quase a deslizar pela placa e
a equilibrar-se sem esforço aparente. A placa soltou mais um
doentio gemido e ele esqueceu imediatamente a fantasia das
manobras acrobáticas. Sentiu-se gelar: a placa estava a abanar
e ele ia a escorregar para baixo. Soltou uma mão. Lembrou-se
do seu chicote que lá devia ainda estar enrolado numa parede
do seu quarto em Paris. Se o tivesse ali, poderia atirá-lo a
enrolar-se no suporte da lanterna com um golpe seco de pulso.
Jurou a si próprio que se chegasse a ficar vivo para se meter
noutra aventura arqueológica, o chicote passaria a ir sempre
consigo.
117
Escorregou uns centímetros mais; e quanto mais escorregava,
mais a placa ia saindo da parede. O gemido tornou-se mais
forte.
a placa estava prestes a cair. Desesperado apoiou-se ainda
mais na placa e mergulhou para a parede. O chapéu saltou-lhe
da cabeça e tombou no escuro, mas as pontas dos seus dedos
conseguiram apanhar o suporte da lanterna, primeiro uma mão,
depois a outra.
Experimentou a resistência do suporte: a pancada do espigão
tinha-o entortado um pouco, e os espigões tinham começado a
sair.
"Mesmo lindo..." Cuidadosamente pôs-se em pé sobre a placa,
equilibrando-se no suporte e na parede.
- Indy! Estás bem? - A voz de Dorian ecoou fantasm
agoricamente pela fenda. - Indy...?
- Não!
- A corda deve estar a chegar! Aguenta-te!
- Como conselho, não está mal... - disse.
Estava outra vez a chamar-lhe Indy. Havia de servir de
muito, se não se conseguisse aguentar e caísse...
"A Pítia devora-te como se fosse um rato...", Ecoavam-lhe na
cabeça as palavras do velho. Talvez ele não estivesse a falar
de Dorian, mas sim da mítica Pitão, e da maneira como ele
estava agora a dançar precariamente nas fauces da criatura...
Sentiu um arrepio na espinha. Murmurou:
- Odeio serpentes; mesmo que sejam um simples mito...
Mas apesar da força de vontade, os pensamentos mórbidos não
o deixavam. Talvez que a primeira experiência arqueológica
fosse também a última. Uma curta carreira, disso não havia
dúvidas...
"Boa piada, Indy. Continua assim que vais longe..." Olhou
para cima, para o ponto de luz que via lá longe.
- Depressa com essa corda!
Depois outro pensamento lhe aflorou a ideia, como um
mosquito impertinente:
E se ninguém tivesse ido buscar a corda? Se Dorian tinha
mandado o Doumas, o mais certo era ele nãovoltar.
Provavelmente tinha sido esse filho da mãe quem cortara a
corda, e quando descobrira que ele conseguira agarrar a outra
corda, deixara-a cair.
A não ser isso, o que é que poderia ter sido? Um acidente?
Duvidava.
É que alguém, provavelmente Doumas, já lá tinha estado em
baixo e limpara a placa; e tinha sido por isso que ele não
queria que lá fosse a baixo, para recomeçar. E depois devia
ter alterado os planos, quando reconhecera que podia proteger
a Pítia livrando-se dele. E isso irritou-o; havia de mostrar a
esse Doumas. De uma maneira ou de outra havia de sair dali
vivo...
118
- Hei-de conseguir! - disse entre dentes. - Não hei-de cair!
"Raios! Ainda até talvez pudesse salvar a placa, Quando a
corda aqui chegar, e vai chegar, e já estivesse firmemente
seguro a ela, havia de agarrar a corda que ainda estava com
uma ponta amarrada à placa. Tinha a certeza que com um bom
puxão a soltava ; mas tinha de esperar até conseguir sair
daquele maldito buraco para fazer isso..."
- Indy?
- Já aí a tens?
- Ainda não. Vou ver porque é que se estão a demorar tanto,
devia lá ter ido eu mesma. O Doumas não serve para nada...
"Lindo. Mais tempo à espera..."
Tentou descontrair-se ajustando a posição dos pés. Foi um
erro, mas só deu por isso tarde de mais. A mudança de peso de
um para o outro fora o bastante para soltar a placa. Com um
estalido mais forte partiu-se e caiu por ali abaixo.
As pernas iam a acompanhar-lhe a queda, e depois ficaram a
arranhar a parede. Ouviu um barulho surdo como se a placa
tivesse batido em qualquer coisa. Os pés procuraram
desesperadamente um apoio, mas a parede era praticamente lisa.
O suporte da lanterna dobrou-se para baixo, com os espigões a
soltarem-se lentamente da parede.
- Oh, merda!
Era agora. Apertou com força os dentes; o coração bateu-lhe
violentamente nos ouvidos no momento em que os espigões se
soltavam da parede.
Caiu. Outra vez.
Seguia por um túnel fora para uma luz. E a luz ia ficando
cada vez mais brilhante. "Isto é a morte. Indy. Indy." Um som
a ecoar à sua volta. Piscou os olhos por causa da luz. Tão
brilhante! Como uma bola de fogo. E tão perto, agora. O que é
que sucederia quando atingisse a luz? Para onde é que iria?
Desviou os olhos para o lado e àquela luz viu o seu chapéu e a
mochila que deixara cair. E bocados partidos da placa. E
voltou-lhe tudo à memória: tinha caído no abismo; batera com
as coxas no peito: sentia uma dor lancinante. E depois mais
nada. Agora doíam-Lhe as costelas. A mão direita latejava-lhe:
estava molhada de sangue. Tinha a garganta meio afogada de
poeirada e uma das coxas doía-lhe como se tivesse levado uma
119
martelada. A morte era assim tão dolorosa? Ou as pessoas
despertavam a sentir todas as dores que não tinham sentido por
terem perdido o conhecimento?
Tentou levantar-se, mas não foi capaz. Continuava a seguir
em direcção à luz deslumbrante; já lhe doíam os olhos...
Então percebeu que era uma lanterna. Estava amarrada a uma
corda e vinha direita a ele. Afinal estava vivo. E estava
ainda dentro daquele maldito buraco.
Encolheu-se de dor ao pôr-se em pé. Por que é que ainda
estava vivo?
A lanterna estava a balançar um ou dois metros acima de si,
e depois viu que estava numa espécie de saliência que saía da
parede. Semicerrou os olhos por causa da luz e olhou para
cima. Não podia dizer ao certo onde a placa tinha estado, mas
agora tinha a certeza que não tinha caído de muito alto;
talvez de uns cinco ou seis metros. Sentiu debaixo de si
pequenos buracos da pedra que se estilhaçara; se não tivesse o
casaco de cabedal vestido, teria ficado muito mais ferido.
Viu a lanterna cair e passar junto a ele, continuando a ir
por aí abaixo, com o clarão a desaparecer até ser só um vago
ponto de luz.
"Devia pará-la. Mas não parei."
- Indy! Estás a ouvir?
- Dorian, já chegámos até muito mais abaixo do lugar onde
estava a placa! - disse outra voz. - Ele foi-se; tens que
enfrentar o facto!
A voz não era tão forte como a de Dorian, mas o abismo era
como uma espécie de megafone que lhe trazia as palavras até
ele. Doumas; o sacana estava a dá-lo por perdido.
Estava outra vez a ficar claro. A lanterna vinha a subir. E
en tão percebeu claramente o que estava a acontecer: estavam a
abandoná-lo. Sentia-se como que paralisado: sem poder
coordenar os pensamentos e acções. Tinha de fazer qualquer
coisa.
Aclarou a garganta. Com um grande esforço, gritou:
- Dorian!
Apenas lhe saiu um murmúrio. Tinha a garganta seca e como
que empastada de porcaria. Tentou outra vez; agora mais forte,
um ronco grave. Mas não suficientemente forte.
A lanterna continuou a bailar aos seus pés; à sua cintura.
Junto ao seu peito. Estendeu um braço e agarrou-a. Sentiu um
puxão e puxou por ele, em resposta. Depois a corda descaiu, a
oscilar como uma cobra.
- Deve ter ficado presa em qualquer coisa... - disse Doumas.
A cobra foi subindo até ele sentir a fazer-lhe força no
braço. Deu-lhe um puxão.
120
Por momentos não houve qualquer reacção, depois sentiu outro
esticão na corda que o fez ficar de pé. Sentiu-se como se
estivesse na pesca; só que agora o peixe era dele.
- Que foi? - perguntou Dorian.
- Não sei...
- Dá cá isso. Indy! Indyyyyy!!!!!
Inclinou-se para apanhar o chapéu e percebeu que estava em
pé, a meio passo da orla daquela saliência.
- Indy! Por favor, responde!
Deu um passo para trás. Viu uma rocha do feitio de um cone a
sair da parede e deitou-Lhe a mão. Puxou a corda uma, duas,
três vezes.
- É ele! Sinto-o. Ele está lá em baixo. Indy? Torna a puxar,
se me estás a ouvir.
Assim fez. Rapidamente arranjaram uma forma simpmlista de se
comunicarem: um puxão, "sim"; dois puxões, "não". Estava muito
ferido? "Não",.. Era capaz de amarrar a corda à sua vólta?
"Sim". Precisava de mais corda? "Sim."
Quase logo a seguir enrolaram-se à sua volta mais alguns
metros da corda. Sentou-se para pensar na melhor forma de
prender a corda. Não a queria em volta da cintura nem do
peito: tinha pelo menos uma costela estalada ou partida de
cada lado. Talvez mais.
Tenteou à procura da corda; tinha a mão a latejar. Apertou a
palma ensanguentada contra o estômago, tentando suster a
hemorragia. Finalmente deu uma laçada, enfiou a corda por ela
e passou mesmo por aquele grande laço. Iria sentar-se nele
como se fosse um balouço infantil.
Estava quase a dar sinal a Dorian de que estava pronto,
quando deu de novo com os olhos na rocha a que tinha estado
agarrado. Era preta, do feitio de um cone, e estava
parcialmente enterrada na parede. Apontou para lá directamente
a lanterna. A sua superfície estava como que estriada. Como se
tivesse um dia estado embainhada numa bainha de corda e os
fios se tivessem petrificado.
- O que será isto? - murmurou em voz rouca.
Pegou na mochila e tirou o pincel de cerdas rijas. Raspou
alguma da sujidade que estava encrustáda e passou os dedos
pela áspera superfície. Baixou a lanterna até ficar quase a
tocar no cone. Parecia obsidiana, ou ferro, e o estriado,
disso tinha a certeza, não era natural, fora feito pela mão do
homem.
- Indy. Estás bem? - gritou Dorian lá de cima.
Ele olhou para lá e depois deu um esticão à corda.
- Pronto? - perguntou Dorian.
Desta vez deu dois puxões. "Ainda não." Tinha perdido a
placa, talvez pudesse salvar o cone. Não sabia bem porquê, mas
tinha a impressão que era qualquer coisa de importante;
qualquer coisa que não devia deixar para trás.
121
Pôs os braços em torno do cone, a ver se o conseguia soltar.
Puxou com força e ficou com a im pressão que ele se tinha
movido. Respirou fundo e tornou a puxar. Aí estava: movera-se,
tinha a certeza. Encostou o peito ao cone para poder respirar
mais normalmente. Estava exausto e sentia-se estonteado.
E foi então que viu a águia.
Ia bater as asas, direita ao céu.
A águia. A sua águia.
Ali, para o ajudar.
A águia. A sua guardiã. A sua protectora.
"Mas onde é que tens estado? Eu precisei de ti...", Indy
ouviu os seus próprios pensamentos, como se fosse ele próprio
que estava a falar, mas tinha a certeza de que não estava a
mexer os lábios.
A águia continua a cortar os ares, mais alto, cada vez mais
alto. Sentiu a pele a encrespar-se-lhe. Não estava nem a
dormir nem acordado.
Os seus pensamentos derivaram para o passado, para quando
ele tinha 14 anos e tinha conhecido um velho índio Navajo
chamado O Homem que Muda, numa caminhada pelo deserto, com o
seu pai. O índio ficara a gostar muito dojovem Indy e tinha
dito que havia de o tornar a ver. Isso parecia muito pouco
provável, porque poucosmeses mais tarde, Indy tinha-se mudado
para Chicago. No Verão a seguir ao ano em que acabara o curso
do liceu, tinha voltado ao Sudoeste para trabalhar no rancho
do seu tio, mas ne altura, já o seu encontro com o velho índio
não passava de uma recordação distante.
E, no entanto, um dia ele parara num posto de venda para
comprar mantimentos, e lá estava O Homem Que Muda. E não só
ele se lembrava de Indy, mas agira como se tivesse estado à
sua espera.
"Estava já preparado para a sua procura da visão?",
perguntara.
Indy não sabia o que aquilo significava, mas estava curioso
acerca do velho índio e dos seus costumes, e disse que sim,
que estava preparado.
No dia seguinte encontrou-se com o Homem Que Muda ao romper
do dia, à porta do posto de venda, e caminharam pelo terreno
escalvado até ao planalto. Ao cair da noite viu-se sozinho e
sem comida na planície varrida pelo vento. O Homem Que Muda
tinha-Lhe dito que tinha que esperar ali até que um animal se
aproximasse dele, e, de aí em diante ele seria o seu protector
e o seu guia espiritual.
Ao fim de dois dias ele estava delirante de fome, e o seu
cantil estava quase vazio.
122
Fora um erro, um tremendo erro. Talvez a procura da visão
resultasse com os índios, mas parecia que nenhum animal estava
interessádo em si, a não ser que fosse Para Lhe esburgar os
ossos.
Afastou-se do abrigo de pedras que construíra, na esperança
de ter forças bastantes para a caminhada pela montanha abaixo.
Tinha de encontrar água e comida e voltar para o rancho; e daí
a algumas semanas estaria outra vez em Chicago para começar a
Faculdade.
Quando chegou à orla do planalto ouviu uma voz atrás de si.
A Voz do Homem Que Muda.
"Onde é que vais?"
Espantado, voltou-se. Não estava ninguém. Estava a ficar com
alucinações,.. Mas hesitou. O trilho era muito íngreme; o sol
estava baixo. Sentindo-se derrotado, regressou ao abrigo para
mais uma noite. Esperaria até de manhã...
E de repente, uma águia pairou em voo baixo sobre o planalto
e foi pousar no topo de uma das paredes do abrigo. Ficou
imóvel a olhar e nesse momento tornou a ouvir a voz do Homem
que Muda:
"Ela há-de guiar-te sempre!..."
Apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, tinha
encontrado o seu protector.
Lembrou-se daquilo tudo, ao ver a
águia a cortar os ares lá acima de si. Podia vê-la até virar a
cabeça como se estivesse a procurar uma presa. Ou talvez a
olhar para ele. Fez um ruído qualquer. O que é que estava a
dizer? A águia desapareceu mas o som continuou:
- Indy! Indyyyyyy!!! - Era Dorian. Parecia assustada.
-Responde-me!
Deu um esticão na corda.
- Não há muito tempo! Os vapores...
Os vapores! Cristo: tinha-se esquecido completamente disso.
Estava lá em baixo assim há tanto tempo? Tirou do bolso o
relógio, tinha resistido à queda e estava ainda a trabalhar.
Eram 2 e 44 minutos.
Pôs-se em pé e apertou a laçada da corda. Não estava lá
muito convencido de que os vapores fossem perigosos, mas não
havia razão para correr riscos.
Nem havia já tempo para tratar do cone. Devia ter perdido
por minutos a consciência. "Mas havia de ali voltar para o
tirar", disse para si. Puxou a corda uma vez.
Momentos depois sentiu-se levantar e ficar suspenso acima da
saliência coberta de detritos. Os seus olhos fixaram-se no
negro cone congelado no interior da parede. Depois perdeu-o de
vista, envolto na escuridão, perdido num negro abismo.
Levantou a lanterna a ver o sítio onde a placa tinha estado.
123
Três, quatro, seis metros. Continuou a subir. Estava tudo
meio enevoado por causa do fumo da lanterna, mas nessa altura
viu-o. Um buraco negro e acima dele um pequeno dente onde o
suporte da lanterna tinha sido arrancado da parede.
Jesus, a sorte que ele tinha tido! Havia pessoas que caíam
de um metro e meio e partiam os ossos. Ele caíra da altura de
dois andares através de uma escuridão de breu, e safara-se com
alguns golpes, arranhões e provavelmente uma ou duas costelas
rachadas.
Ouviu nesse momento um rugido surdo vindo de algures lá em
baixo. Fora precedido pelo mesmo silvo que anunciara a subida
dos vapores e já sabia que Lhes não poderia escapar.
A lenta e suave oscilação da subida continuava e não havia
nada que ele pudesse fazer para a acelerar. Agitou a lanterna
na sua frente reparando na névoa: era muita para ser só do
fumo da lanterna.
Apertou com força a corda e inalou uma profunda inspiração.:
Fez-lhe doer as costelas, e depois deitou fora parte dele.
Pensou vagamente quanto tempo ainda lhe faltaria para chegar
à superfície. Passou um minuto. Lentamente, deixou escapar o
resto do ar.
Ar viciado. Não valia a pena suster a respiração, se estava
já a respirar os vapores.
Farejou o ar. Não parecia causar quaisquer efeitos, a não
ser deixá-lo meio sonolento. Encostou a cabeça com força à
corda e fechou os olhos. Daí a segundos sentiu-se à deriva,
meio a dormir meio acordado.
Endireitou subitamente a cabeça e agarrou-se à corda. Devia
ter passado pelas brasas. E então viu os vapores a subir à sua
volta. Há quanto tempo estaria a respirar? Obrigou-se a si
próprio a concentrar-se na corda e em manter o equilíbrio.
"Aguenta-te. Fica acordado. Tenta não respirar..."
Jesus, como tudo lhe doía!
Passou outro minuto. Um minuto elástico que pareceu duas
horas, mas finalmente chegou à orla do buraco e sorveu o ar a
longos haustos. O monte de detritos estava envolto em névoa,
não conseguia ver ninguém. Pôs-se em pé, com uma careta de dor
e sentiu-se arrastado para baixo do monte.
- Indy, para aqui!
Cambaleou para a frente, desequilibrado. Levantou
instintivamente os braços para deter a queda. Mas logo a
seguir houve mãos que o agarraram. Tiraram-lhe a corda pelo
peito, pelos ombros, pelos braços. Caiu de joelhos e depois ao
comprido, sobre o estômago. Alguém o ajudou a voltar-se.
- Temos de o levar ao médico! - a voz de Dorian. - Levem-no
para o carro; depressa!
124
Viu movimento à sua volta. Vultos. Sombras. Sentiu-se
levantar de novo. Fechou os olhos.
- O que é que aconteceu lá em baixo, Indy? - perguntou
Dorian. - Como foi que te salvaste?
- Achei uma pedra. Uma pedra preta... - murmurou.
- Que espécie de pedra? - era a voz de Doumas.
- Do feitio de um cone. Com estrias...
- Serias capaz de a tornar a encontrar? - Perguntou Doumas.
- eras?
Mas Indy não lhe chegou a responder. Os olhos
fecharam-se-lhe e desmaiou.
125
CAPÍTULO XV
MANOBRAS
Dorian levantou os olhos do monte de placas de pedra que
estavam sobre a mesa de trabalho, quando ouviu o som de um
leve bater. Era tão fraco que bem poderia ter sido o vento.
Mas depois tornou a ouvi-lo; mais forte, agora.
- Entre!
A porta rangeu ao de leve ao abrir-se lentamente. Viu uma
sombra no limiar; depois reconheceu Panos. Disse-lhe:
- Bom, tenho estado à tua espera...
Panos hesitou e baixou os olhos para as mãos:
- Não tanto como eu esperei...
As palavras eram forçadas. Uma confi ssão. Depois entrou e
es preitou para as filas de placas de pedras.
- Em breve será construída uma casa de arquivos moderna...
A voz era já mais forte e as palavras eram já como que um
desafio. Olhava fixamente para ela.
- Eu sei - respondeu Dorian.
- Sabes? - ele de novo desviou a vista quando ela o fitou e
ela percebeu que o homem se sentia embaraçado. Talvez...
dominado...
- Vai ser precisa... - acrescentou ela.
- Diz-me... diz-me quem és! - pediu ele sempre com os olhos
a fugir dos dela.
Ela sorriu e respondeu sem hesitar:
- Pítia, evidentemente...
Ele assentiu, olhando-a:
- O véu está a dissipar-se. Eu sabia que isso ia acontecer.
Ela pegou numa das placas de pedra, e passou-lhe os dedos de
leve por cima. Disse:
- Agora sei que o Oráculo nunca nos abandonou. A última
Pítia limitou-se a deixá-lo adormecer: e agora ele está a
acordar.
- Bem dito...
- É muito estranho; mas agora compreendo que todo o trabalho
da minha vida sempre constituiu um simples prelúdio para o
Regresso. Há uma semana atrás eu própria me teria rido de uma
tal ideia. Agora sei que isso é um inegável facto.
126
Panos deu alguns passos ao longo da comprida mesa coberta de
placas de pedra. Pegou numa, olhou-a de relance e depois
tornou a poisá-la lá. Havia qualquer coisa nele, como que uma
atitude de desafio, como se estivesse a proclamar em silêncio
o seu domínio sobre a oficina e sobre tudo o que ela
representava, desafiando-a a disputar-Lho.
- O meu filho Grigoris disse-me que Jones achou qualquer
coisa na fenda. O que era?
- Não sei ao certo. Disse qualquer coisa acerca de uma pedra
preta...
Panos rodou sobre os calcanhares e olhou de frente para ela:
- A pedra é importante e Doumas nem sequer lhe deve tocar!
A voz tornou-se-lhe ríspida, pelos olhos passou-lhe como que
um relâmpago. Acrescentou marcando bem as palavras:
- É nossa; temos de ficar com ela!
Dorian ficou espantada; surpreendida por aquela explosão.
Não sabia do que ele estava a falar.
- Não percebes? Ele encontrou Onfalo; temos de o exigir!
O Onfalo era um dos aspectos misteriosos do Oráculo de
Delfos que Dorian nunca tinha claramente compreendido. Na
lenda , era por vezes descrito como uma pedra tão grande como
uma sala, e outras vezes era pequena e facilmente
transportável, do feitio de um cone, como Jones a tinha
descrito.
Às vezes até a Delfos se chamava o Onfalo: o umbigo do
mundo. Ela sempre o tinha considerado mais simbólico do que
real, mais como uma definição de Delfos do que como uma
relíquia que se poderia recuperar.
- Como é que sabes que é o Onfalo?
- O Oráculo nunca poderia regressar sem o Onfalo... -
respondeu ele.
- E porquê, Panos?
Ele franziu a testa. Murmurou:
- Ainda tens muito para recordar. A Pítia devia saber o
grande segredo de Delfos...
- Ela sorriu, e disse:
- Eu sou a Pítia, mas sou também Dorian Belecamus, e não sei
tudo o que a Pítia sabe. Fala-me do Onfalos...
Panos olhou-a por momentos e ela teve a nítida impressão de
que ele não tinha a certeza de que lhe devia dizer qualquer
coisa.
Mas resolveu-se e falou:
- O segredo é simples. Os vapores limitam-se a aumentar
aquilo que o Onfalo cria. O Onfalo é o poder de Delfos...
- Sim: é simples...
Pela maneira como ela o disse dava a impressão de estar
apenas a mencionar um facto interessante; nada mais. Mas em
todos us anos de estudos e todo o seu trabalho em Delfos,
nunca ela tinha ouvido semelhante coisa.
127
O Onfalo fora sempre uma coisa nublosa, simbólica. Nunca a
própria força.
- Quer isso dizer que a autoridade de Pítia pode ser levada
para além de Delfos se tivermos o Onfalo?
- O umbigo do mundo é onde o Onfalos estiver.
Dorian cruzou os braços e encostou-se à mesa. Olhou-o e
perguntou:
- Panos, eu tenho tantas coisas a recordar... Fala-me mais
do Onfalo. De onde é que ele veio?
Panos apontou para o céu:
- Foi uma dádiva do próprio Apolo...
Ela ergueu os olhos, como se os deuses morassem ali, mesmo
nas traves do tecto. Perguntou:
- Queres dizer que o Onfalo caiu dos céus e tombou aqui
mesmo em Delfos?
Panos olhou demoradamente para amesa coberta de placas de
pedra, e conservou-se em silêncio por mais de um minuto antes
de dizer:
- Isso é outro segredo...
Dorian ficou a olhá-lo à espera que continuasse. Por fim ele
continuou:
- Bem gostaria de te poder respon der que foi assim; mas a
verdade é que ele caiu noutro lugar qualquer, e um mensageiro
de Apolo o trouxe para aqui, para o local sagrado onde os
gases estavam a sair do chão...
"Provavelmente um meteorito...", pensou Dorian. Seria lógico
que uma pedra assim fosse adorada e o facto de ela não ter
caído exactamente no sítio de onde emanavam os vapores ainda
tornava isso mais crível.
Sorriu confiante:
- Vamos conseguir o Onfalo. Mas agora vem cá o rei...
- Pois vem. E tu deves falar-Lhe. Ele precisa de compreender
quem tu és. Tem de o aceitar...
Ela anuiu com a cabeça, solenemente como que num voto. Panos
continuou:
- Eu sei que tu o podes convencer... - falava suave e
convincentemente, mas via-se que continuava ainda pouco à
vontade na sua presença. Os seus olhos fixavam-se mais vezes
na mesa do que no rosto dela.
- Eu sei. E até pressinto já aquilo que a Pítia lhe dirá...
Panos desviou a vista, mas a insegurança do olhar mostra que
ele estava à espera que ela lhe revelasse algo do que estava a
pensar. Dorian continuou:
- Vou dizer-lhe aquilo que já sei: em breve todo o mundo
reconhecerá que o Oráculo de Delfos está vivo.
128
O mundo inteiro dirigirá os seus olhares de esperança para o
Oráculo, e o poder da Grécia será cem vezes maior!
Panos teve um largo sorriso:
- E a Pítia dirá isso ao rei...
Os seus olhos pestanejaram rapidamente:
- Sim, isso... e ainda mais.
Pegou num dos braços do canteiro e levou-o para fora da
cabana, continuando a murmurar-lhe ao ouvido. A dizer-lhe
muito mais do que aquilo que ele alguma vez esperara ouvir.
Panos ia beberricando a sua retsina e ouvia Doumas. Era ao
princípio da tarde e só algumas das mesas da taberna estavam
ocupadas. Estavam sentados no mesmo cubículo onde tinham
estado na outra noite em que Jones se dirigira cambaleando
para eles, e também agora o estrangeiro voltava a estar
presente nos seus pensamentos. Na verdade o homem era um
problema; e potencialmente um problema grave. Doumas,
infelizmente, não era dessa opinião. Um gordo intelectual,
todo ele barriga e bochechas, preocupava-se mais com as ideias
do que com a acção.
- Eu não sei o que Grigoris estava a pensar, mas tu tens de
o controlar; ele quase que matou o Jones. E o que é pior é que
a Belecamus suspeita que aquilo não foi um simples acidente...
O duplo queixo de Doumas tremia quando ele falava. Dava a
Panos a ideia de um enorme peru. Teve ganas de lhe gritar que
ele afinal não tinha tutano, que falhara miseravelmente no que
se referia a Jones, mas em vez disso ostentou um ar de
espanto.
- Como é que sabes disso?
- Porque ela me descobriu a discutir com Grigoris na
cavalariça; ele até puxou de uma navalha para mim, para eu não
lhe levar a ela outra corda...
Panos despejou mais um bocado de retsina da garrafa à sua
frente para o copo.
- E ela viu a navalha ou ouviu alguma coisa que vocês
disseram?
- Acho que não. Estava com muita pressa mas percebeu que
estávamos a discutir.
Panos deitou um olhar de aborrecimento aos ocupantes de uma
das mesas. Eram estrangeiros: três homens e uma mulher.
Falavam em voz alta, em inglês. A mulher, principalmente,
tinha voz esganiçada. Bem desejaria que se fossem embora. Não
tinha nada que ali estar: em Delfos, não. E agora ainda menos!
- Há qualquer coisa que eu não compreendo. Se a corda
partiu, porque é que Jones está vivo?
Doumas mostrou um ar irritado:
129
- Teve sorte!
Panos pensou por um momento. Sabia que devia dizer a Doumas
que iria controlar Grigoris, mas a verdade é que ele estava
fora de qualquer controlo.
- Vou falar com o meu filho. Ele não te devia ter ameaçado;
tenho a certeza de que te vai pedir desculpas. Prometo-te...
Doumas não pareceu muito satisfeito. Pior para ele.
Continuou:
- Agora diz-me outra coisa: Que relação há entre Jones e a
Belecamus?
Doumas sorriu, um sorriso velhaco a dizer que era fácil de
saber:
- Ela gosta de estrangeiros novos. Que mais queres que te
diga?
Então era isso. Agora, mais do que nunca, Panos tinha a
certeza de que Jones tinha de ser rapidamente eliminado. Ele
só podia trazer sarilhos; podia retardar a transformação. Era
a altura de pôr Doumas à prova:
- De uma maneira ou de outra, é preciso arrumar o Jones
Imediatamente. Não podemos arriscar-nos a que ele interfIra no
nosso trabalho.
- Não vai interferir. Está retido na cama do seu quarto do
hotel. E tenho a certeza de que não sairá dali para lado
nenhum antes do rei chegar e voltar a ir-se embora. Além
disso, se alguma coisa lhe acontecer, vais irritar a
Belecamus...
- Como é que podemos ter a certeza que ele continua de cama?
Não tenho nenhuma confiança nele: ele não percebe sequer o que
Delfos é!
- Preocupas-te de mais, Panos. Sabes muito bem o que dizia a
placa na fenda. Agora nada pode deter o Regresso. Nem Jones,
nem ninguém. É tão certo como o rei ser rico...
Panos olhou-o com ar de indignação:
- A placa é a confirmação do plano; mas mesmo assim tenho de
fazer aquilo que é preciso para que ele se cumpra!
Doumas despejou o copo e depois colocou-o sobre a mesa.
Respondeu-lhe:
- Tu tens de compreender a minha posição, Panos. Eu sou um
cientista: um arqueólogo. Tenho a minha reputação...
Panos desatou a rir:
- A tua reputação! O que é a tua reputação, Stefanos? Um
curador de pedras velhas! Deixa-te de fantasias; toda essa tua
traLha continua exactamente na mesma, faças tu o que fizeres!
- E o que é que tu queres que eu faça, Panos? Eu trouxe a
BElecamus aqui; eu fui lá abaixo daquele buraco e interpretei
a placa. Podia até ter morrido. Que mais queres tu que eu
faça?
130
- Tu quiseste saber tudo a respeito da Ordem de Pítia. Tudo.
Agora tens de cumprir a tua parte!
- Eu não sou um assassino. Isso é trabalho para o Grigoris!
Panos saltou da cadeira e agarrou Doumas pelo colarinho:
- Não fales do meu filho dessa maneira! -rosnou por entre os
dentes cerrados. - Percebes? Não quero tornar a ouvir isso!
Quando se voltou a sentar na cadeira viu que o grupo dos
estrangeiros estava a olhar para ele. Ignorou-os.
Doumas lançou-lhe um olhar furioso:
- Não me peças para matar o Jones nem seja lá quem for. Não
farei semelhante coisa. Mas posso dizer-te qualquer coisa que
tu não sabes: qualquer coisa de muito valor...
Panos olhou-o ainda carrancudo:
- O que é?
Doumas debruçou-se sobre a mesa:
-Eu sei exactamente quando os vapores vão subir. Existe uma
espécie de bitola, e a menos que as coisas se alterem eu posso
prever a hora das subidas amanhã, para o mês que vem, até
durante anos...
Panos pensou naquilo que estava a ouvir. Ficou admirado de
Doumas saber uma coisa daquela importância, e teve que se
dominar para ocultar o seu espanto.
- Pronto: diz lá...
Enquanto Doumas falava Panos olhou por cima dos ombros do
arqueólogo para dois homens fardados que acabavam de entrar na
sala. Olharam em volta e sentaram-se. O mais alto dos dois
pareceu-lhe vagamente conhecido.
Tentou concentrar-se no que Doumas estava a dizer. Comentou:
- É bom saber-se isso: seis minutos é praticamente a
chave...
Tornou a desviar o olhar para a outra mesa. Recordava-se
agora onde tinha visto o homem. Belecamus tinha-o encontrado
na manhã em que ele a tinha seguido de sua casa ao Agora
Romano.
Da forma como se tinham comportado nessa altura, ficara
convencido de que eram íntimos. Lembrava-se agora de ter nessa
altura pensado que aquele oficial representava um perigo em
potência e agora tinha a certeza de ter razão.
- Temos um outro problema... - disse, indicando com a cabeça
a outra mesa.
Doumas seguiu-Lhe a direcção do gesto:
- Militares. Provavelmente qualquer coisa relacionada com a
vinda do rei...
Panos percebeu pela expressão de Doumas que ele sabia mais
do que estava a dizer. Insistiu:
- Quem é ele, Stefanos? Eu já o vi com ela...
131
Doumas tornou a olhar como se o não tivesse reconhecido à
primeira. Tornou a debruçar-se sobre a mesa:
- Coronel Alexander Mandraki. Belecamus tem-se encontrado de
vez em quando com ele. Amantes...
Panos enrugou a testa:
- Mas o que é que ela vê nele? É feio...
Doumas teve um riso de troça:
- Poder, evidentemente. Devias calcular isso...
Nos lábios de Panos desenhou-se um vago sorriso quando se
encostou para trás na cadeira. Na sua mente começava a formar
um plano. Disse:
- Temos de o voltar contra o Jones, para que seja ele a
fazer-nos o serviço...
Doumas olhou disfarçadamente por cima do ombro, a
certificar-se que Mandraki os não estava a ouvir. Disse:
- É uma possibilidade...
- Assim Belecamus vai ficar é irritada com ele o que é
também vantajoso para nós...
- Mas a quem ela é devotada é a Mandraki. - disse Doumas. -
Não se vai viver contra ele...
- Talvez não por muito tempo; mas o choque de saber que
matou o seujovem aluno e amante com certeza que a afastará
dele por algum tempo. E nós o que precisamos é só de algumas
horas.
Doumas entrelaçou os dedos, fazendo estalar os nós. Como que
pensando em voz alta, murmurou:
- Dois pássaros com uma pedra só...
és esperto, Panos.
Devias ser um político...
Panos olhou para os estrangeiros que se estavam a levantar
da mesa. Sim, quando a transformação estivesse completa, ele
seria uma espécie de político; um agente do poder para os
líderes do mundo inteiro que viriam até ele, para poderem
chegar a Pítia do Oráculo de Delfos.
- Não percamos mais tempo, Stefanos...
- Muito bem; eu vou-Lhe dizer do Jones...
- Não; quero ser eu a fazê-lo. Vocês, intelectuais, têm
muita dificuldade em tratar de assuntos emocionais. E eu quero
ter a certeza que a coisa é bem feita. Quero irritá-lo de
maneira que ele se resolva a fazer qualquer coisa...
Panos afastou a cadeira da mesa e afastou-se sem mais
demora.
Doumas ficou a ver Panos debruçar-se sobre a mesa de
Mandraki e dizer-lhe qualquer coisa.
"Aquilo ia ser interessante,", pensou. Tornou a encher o
copo.
132
O coronel fez com a cabeça um gesto de assentimento e
voltou-se para o outro homem que estava consigo à mesa. O
soldado pôs-se imediatamente de pé, e dirigiu-se para o bar.
Mandraki fez a Panos um gesto convidando-o a sentar-se e
ouviu-o; o homenzinho poisou um cotovelo na mesa e levou a mão
até junto da boca num gesto de confidência.
Doumas desviou o olhar quando dois dos estrangeiros da outra
mesa saíram da taberna. Sabia exactamente o que Panos pensava
dele. Para as pessoas rudes e terra-a-terra como o canteiro,
uma pessoa com peso excessivo era sinónimo de fraqueza. Panos
via-o como um bamboleante guarda das ruínas com estudos a
mais. Mas não fazia mal: era precisamente isso que lhe
agradava que ele pensasse.
Sabia que Panos já se via como o novo Sumo Sacerdote do
Oráculo, mas era doido em pensar que Dorian Belecamus alguma
vez ia permitir que ele a manipulasse. Belecamus tinha a sua
própria agenda; e mesmo que os vapores a afectassem, como
Panos dissera, ela nem sempre estaria sob a sua influência...
Panos não conhecia a Belecamus; apenas sabia coisas dela.
sabia as histórias a seu respeito que qualquer pessoa nas
faculdades de arqueologia lhe podia contar. Até mesmo o Louco,
que dizia saber tanta coisa, nada sabia da sua vida
particular. E quem conhecia a Belecamus: sabia as histórias, e
sabiam que eram verdadeiras.
O rosto de Mandraki carregou-se e sombreou-se. Os cantos da
boca descaíram-lhe. Esfregou o queixo e fez um gesto de cabeça
e a seguir com um aceno da mão afastou Panos como se estivesse
a sacudir uma mosca. Panos deu literalmente um salto pondo-se
em pé e fazendo tombar a cadeira.
O coronel arreganhou os dentes e apontou para a porta.
Doumas ouviu-lhe distintamente a voz irritada:
- Fora da minha vista, malaka!
Panos afastou-se rapidamente. O companheiro do coronel
voltou para junto da mesa e ergueu a cadeira que Panos deitara
ao chão.
Mandraki fez um gesto de mão como que a indicar que não
tinha importância e depois fez um gesto ao soldado para ele se
retirar.
- Malaka... - repetiu Mandraki em voz alta.
Doumas riu-se para si mesmo. Sabia-lhe bem ver o líder da
Ordem da Pítia, que se tinha em tão grande conta e tão mal
pensava, ser chamado parvalhão, e mandado embora como um
criado que não soubesse fazer o seu serviço.
Se a Belecamus fosse uma mulher normal ela reagiria como
Panos esperava; repudiaria o coronel Alez, se ele matasse
Jones.
Para Belecamus Jones era já um homem morto: tinha a certeza
disso. "Estava tudo nas suas mãos", pensou Doumas.
133
O coronel nunca permitiria que Panos se aproximasse de
Belecamus tempo suficiente para ele a conduzir à fenda, e se
Panos falhasse, o plano nunca mais seria viável. Perder-se-ia
a oportunidade. Parar com o trabalho da suavida destruído,
regressaria a Atenas e ao serviço de canteiro, e Dorian
Belecamus, a Pítia falhada, regressaria a Paris e às suas
aulas.
Mas as coisas não terminariam aí. Afinal de contas, a
mensagem que ele descobrira na placa antes da chegada de
Belecamus convencera-o de que Panos estava no bom caminho.
Contudo a inscrição deixava claramente em aberto o assunto de
quem assumiria as tarefas da nova Pítia. Até mesmo a antiga
profecia de o louco, que mencionara o regresso de uma «dória»,
não especificava que ela fosse o Oráculo.
Apesar daquilo que sucedera na fenda, ele tinha a certeza
que ela não era a Pítia. Ela era destituída de escrúpulos e
ardilosa, e isso não eram indiscutivelmente traços
característicos de uma boa Pítia.
Talvez o Sumo Sacerdote fosse ardiloso, mas a Pítia era
muito inocente; uma mulher do campo sem mácula, transformada
num instrumento de adivinhação.
Quando toda a gente partisse e ele ficasse ali só e com
Delfos ao seu cuidado, poderia calmamente recuperar a pedra
negra, Onfalo. Depois experimentaria asjovens moças da aldeia
e talvez de entre elas ele viesse a achar a verdadeira Pítia.
Cada vez mais sentia que era destino seu - não de Panos
cuidar da nova Pítia. Seria o seu intérprete, o sacerdote,
aquele que a apresentaria ao mundo.
E o poder seria seu.
134
CAPÍTULO XVI
RECEPÇÃO REAL
Indy abriu devagar os olhos, mas conservou-se
perfeitamente imóvel, quase sem respirar. Sentia que havia ali
qualquer coisa no ar que não devia lá estar: uma presença
estranha. Estava alguém ali com ele. Sentiu instintivamente
que os membros se lhe tornavam tensos. Muito devagar virou a
cabeça a inspeccionar o quarto. . E nesse momento viu um vulto
de pé, em frente da janela, recortado contra o sol da tarde.
- Jesus, Nikos! - disse ao reconhecer o nariz aquilino e as
clássicas feições gregas. - O que é que andas a fazer?
O miúdo estava a tornar-se uma peste. Havia dois dias que
não saía do pé dele, e Indy tinha estado a falar com ele mesmo
antes de ter adormecido.
- Desculpa, eu ia agora mesmo a sair, e não te queria
acordar. Trouxe a mochila: pu-la debaixo da cama...
- Isso foi rápido!
- Tu dormiste quase duas horas!
- Dormi? - Indy fez uma careta ao mesmo tempo que se
levantava e palpava tentativamente o lado do corpo, Da última
vez que lhe falara, tinha pedido a Nikos para, sem ninguém dar
por isso, lhe trazer a mochila da oficina.
Esfregou os olhos a afastar o sono. Perguntou:
- Alguém te viu?
Nikos abanou a cabeça: : -Não estava lá ninguém. Eu entrei
por uma janela...
O olhar de Indy voltou-se para a mesa de cabeceira. Piscou
os olhos a tentar perceber aquilo que via. Ali em cima estava
uma tigela de barro, e dentro dela viam-se três cabeças de
alho enrolados umas nas outras.
- O que é isto?
Nikos desviou os olhos da tigela para Indy:
- Móli; alho dourado. Vai ajudar-te...
Indy tornou a olhar:
- Móli! Jesus, desde criança que não me lembro de alguém dar
nome aos alhos...
Nikos aproximou-se dele:
135
- Não sabia que na América havia móli. Para que é que o
usavas quando eras miúdo?
- Isso é uma longa história...
- Conta-me! - disse ele, sentando-se na cama.
Indy cruzou as mãos atrás da cabeça e recordou o incidente,
aquele incidente que nunca mais esqueceria.
"Vai buscar móli!" dissera-lhe o pai um dia. E quando Indy
confessara que não sabia de que é que ele estava a falar, fora
obrigado a comer um dente de alho por dia, até saber porque é
que ele se chamava móli. A pergunta perseguiu-o durante perto
de duas semanas, o tempo suficiente para perder um par de
amigos que achavam que ele cheirava horrivelmente. Em
resultado disso, passou mais tempo a ler Homero, outra tarefa
exigida pelo pai.
E finalmente quando labutava com dificuldade com uma das
//canas da Odisseia, descobriu o móli. Era uma espécie de alho
que se cria possuir poderes mágicos. Hermes tinha-o dado a
Ulisses para o proteger dos encantamentos da Circe.
Depois disso nunca mais o seu pai lhe pedira nem que comesse
alho nem que lhe chamasse móli...
- Pensas que eu preciso de protecção, Nikos?
- Acho, sim!
- Porquê?
- Porque se estão a passar coisas muito estranhas...
- Que coisas? - Apostaria que seria alguma coisa relacionada
com a Ordem de Pítia e esperava que Nikos lhe dissesse que
Panos e Doumas andavam a conspirar para o matarem.
- Depois de eu voltar da oficina, dois americanos vieram cá
ao hotel. Pareciam muito amigáveis: disseram-me que te
conheciam e que te queriam ver...
- O quê?
- Pois! Mas antes de eu os poder trazer cá acima, apareceram
três soldados e levaram-nos.
- Levaram-nos para onde?
Nikos abanou a cabeça. Indy olhou-o espantado. Perguntou:
- Soubeste os seus nomes?
- Não me disseram, mas há qualquer coisa mais que tenho que
te dizer...
- Ah sim? Que mais? - Era agora que ele ia falar da Ordem
Mas estava outra vez enganado.
- É a Dr.a Belecamus. Não julguei que tivesse importância,
mas agora já não estou tão certo...
Três ríspidas pancadas na porta fizeram calar imediatamente
Nikos. Saltou da cama como se tivesse sido atingido por um
raio.
136
- Vai, abre! - disse-lhe Indy.
Era Dorian. Trazia um vestido de algodão branco e parecia
que ia para um baile. O cabelo negro tinha reflexos brilhantes
ao sol do fim da tarde que se filtrava através da janela e a
sua beleza era quase deslumbrante, Olhou de Nikos para Indy, e
disse:
- Venho interromper alguma coisa?
- Não, entra!
- Tenho de me ir embora - disse Nikos. Deitou um olhar
furtivo a Indy e saiu.
Dorian aproximou-se da cama:
- E como te sentes hoje?
Indy encolheu os ombros:
- Melhor. Prazer em ver-te...
Havia um laivo de sarcasmo na sua voz: era apenas a segunda
visita que ela lhe fazia desde o acidente, e da primeira vez
tinha lá estado apenas alguns minutos. Tinha-lhe pedido
desculpa do acidente, mas quando ele lhe perguntara como é que
aquilo tinha acontecido, ela respondera que não fazia a mínima
ideia. Não tinha acreditado nela; tinha a certeza de que ela
estava a esconder qualquer coisa; possivelmente as suas
suspeitas de Doumas.
- Tenho estado muito ocupada, mas tenho pensado muito em ti.
Ouvi dizer que o Nikos te tem feito companhia...
O seu sorriso parecia mostrar que o interesse do rapaz por
Indy era ridiculamente infantil. Continuou:
- É engraçado; mas de que é que vocês falam?
- Imensas coisas. Agora mesmo, por exemplo, ele estava a
falar de dois americanos. Disse-me que tinham vindo ao hotel
perguntar por mim...
- E viste-los? - perguntou alegremente.
- Não; o Nikos disse-me que apareceram uns soldados e os
levaram.
- Eram os seus acompanhantes! - disse ela. - Eu encontrei-os
antes disso na taberna e convidei-os para a recepção real
desta noite. É um casal encantador. E eu vinha cá saber se tu
também podes ir...
- Mas quem são eles? Eu não conheço ninguém na Grécia...
Dorian sorriu intencionalmente:
- Eu soube umas coisas do teu passado. Era aquela tua velha
amiguinha, a que deixaste em Paris...
- Madelaine? - disse Indy espantado.
- Essa mesma. Estava com um inglês chamado Brent; um muito
simpático. Estavam em Atenas quando souberam que o rei vinha
cá, e vieram imediatamente...
- Não posso crer! E por que foi que os convidaste a eles
para a recePção?
- a verdade é que eles estavam a fazer tudo para serem
convidados e ficaram encantados quando eu sugeri isso...
137
- Posso imaginar. São convidados admiráveis: têm uma grande
experiência em festas...
Dorian sentou-se na cama e deu-lhe uma palmadinha na perna.
- Parece que ficaste com um bocadinho de ciúme...
Ele riu-se um bocadinho nervoso:
- Não, ciúme não. Só admirado...
- Vens comigo, por favor? Tenho a certeza que eles gostariam
de te ver...
- Eu também gostava de os ver...
- Óptimo. Isso quer dizer que te deves estar a sentir
melhor?
- Acho que sim. Não me agrada ficar na cama dia e noite...
- E agora tens a oportunidade de te encontrares com o rei.
Acho que ele soube do que te aconteceu, e tenho a certeza que
gostaria também de te ver. Podes contar-lhe a tua aventura no
coração de Delfos!
- Eu tive esperanças de que tu própria estivesses
interessada nisso; nem sequer me perguntaste nada sobre a
placa...
Ela mostrou-se espantada:
- Mas por que é que eu te havia de perguntar por ela?
Perdeu-se, não foi?
- Alguém esteve lá antes de mim, e limpou-a...
- O quê...? - a sua expressão era de incredulidade. - Tens a
certeza disso?
- Eu até tive tempo para a traduzir!
- Traduziste? E o que é que dizia?
- Eu leio-te.
Indy pôs as pernas do lado de fora da cama, e ajeitou a
camisa de dormir. Procurou debaixo da cama, cerrando os dentes
ao sentir um trejeito de dor no corpo. Depois lá conseguiu
chegar a mão à mochila e puxou-a para fora.
- Como é que arranjaste isso? - perguntou Dorian num
trejeito de desconfiança.
- Oh, mandei-a buscar... - respondeu ele evasivamente.
Procurou no bolso do lado e encontrou o livro de
apontamentos. Quase não conseguia perceber a sua própria
letra, o que não era de addmirar porque tinha garatujado
quando estava suspenso da corda e numa meia obscuridade.
Lentamente leu a tradução.
A legenda começava com uma pergunta, e era seguida da
resposta:
Precisamos de saber: Haverá sempre Pítia?
Essa pergunta é feita por todas as gerações E a resposta
sempre a mesma é.
Vasto é o poder do Oráculo de Apolo Mas apenas enquanto a
crença existir.
138
Em verdade o dia virá em que a última Pítia se afaste do
sagrado Delfos. Só então se apagarão o grande poder de Apolo E
desfazer-se-ão em pó as obras dos seus seguidores.
Ergueu os olhos do livro de apontamentos e olhou para Dorian
que se conservava imóvel, pensativa.
- Mas há mais...
Virou a página à procura do sítio em que tinha escrito a
segunda pergunta e a sua resposta:
Ó Pítia! A ti clamamos reverência para estes ramos de
súplica que trazemos nas mãos, e nos dês algo mais que nos
conforte sobre o futuro do Oráculo! Se assim não for este
santuário não deixaremos, e aqui ficaremos até que a morte nos
arrebate.
Verdade é o que foi dito. Só quando o Oráculo já
for Uma remota recordação, Haverá uma esperança. Erguei agora
os vossos corações, E regressai felizes a casa. Porque após a
restauração o Oráculo regressará E o seu grande segredo será
revelado.
Dorian levou a mão à garganta:
- Interessante, muito interessante... - murmurou.
Levantou-se e passou as mãos pelo vestido a alisar-lhe as
rugas. Sorriu longamente:
- Pena não a teres podido recuperar... Bom; o melhor é
arranjares-te; está a fazer-se tarde. Vou mandar vir uma
carruagem ao hotel daqui a vinte minutos.
- Vinte minutos? Ena, obrigado por avisares com tanto
tempo...
Ela não respondeu: ia já a sair a porta. Indy fez uma careta
de dor ao vestir a camisa, e depois com muito cuidado enfiou
as calças. Não tinha muita roupa consigo, por isso, as calças
de caqui, uma camisa de algodão e uma gravata tinham de chegar
para a recepção. Depois de vestido enfiou o casaco de cabedal
e pôs o chapéu. Deambulou em torno do quarto e viu o móli.
Apanhou-o da mesa e deu-lhe voltas na mão. Não se considerava
supersticioso, O móli não passava de um alho, e o alho era
apenas isso: alho. Mas também... não lhe fazia mal nenhum
levá-lo consigo, pensou. E meteu-o no bolso.
139
O vestíbulo do hotel Delfos era tudo menos importante: Era
um recinto acanhado com um tapete muito usado, um divã que já
tinha conhecido melhores dias e um par de cadeiras de costas
direitas. A um dos lados estava a mesa da recepção e atrás
dela, debaixo da escada, estava um divã onde Nikos estava
deitado de lado. Quando viu Indy pôs-se em pé de um salto.
- O que é que estás a fazer fora da cama?
- Vou à recepção do rei!
- Mas...?
A porta da rua abriu-se e Dorian espreitou para dentro:
- Ah, já aí estás! A carruagem está à espera!
- Óptimo! - olhou para Nikos e encolheu os ombros:
- Depois falamos...
Quando saíram da aldeia e subiam a montanha ao som ritmado
do clip-clop dos cascos dos cavalos, Indy tentou diversas
posições para aliviar o desconforto, mas estava constantemente
a ser atirado de um lado para o outro, e as costelas doíam-lhe
imenso.
Bem teria preferido ficar na cama e quase disse a Dorian que
queria voltar para trás. Em vez disso perguntou:
- Afinal, quando é que arranjam alguns automóveis para aqui?
- Tu não estás em Chicago, Indy. Além disso, um passeio de
carruagem nesta estrada é tão suave como um Model T...
- Talvez tenhas razão... - disse ele. - E a propósito:
porque é que tu vais a esta recepção? Admiro-me que tenhas
sido convidada; ou até mesmo que te queiram lá...
- Ora, ora, Indy! Nós não somos bárbaros!
Poisou-lhe a mão no braço, mas só por um momento:
- Estamos nos anos vinte: temos um protocolo, como quaisquer
pessoas civilizadas. O rei vai mostrar-se respeitoso para mim,
e eu farei o mesmo a seu respeito; e as minhas opiniões
políticas não serão objecto de discussão...
Indy sentiu-se tentado a pousar a mão na coxa dela, para ver
qual seria a sua reacção, mas achou melhor não. Claro, ele bem
gostaria que as coisas fossem como eram antes de terem chegado
a Delfos, mas também, se ela mudara a sua atitude, ele nada
podia fazer a esse respeito. Pelo menos, naquela noite.
- Indy, amanhã de manhã, quando o rei visitar as ruínas,
gostava que fizesses parte da comitiva...
- Porquê?
- Por que não? Acho que seria uma boa altura para lhe
falares da placa. Esta noite ele vai estar muito ocupado...
Minutos depois o refúgio do rei surgiu à vista no alto da
estrada. A maciça estrutura era feita em pedra e parecia quase
140
nascer da própria montanha. Tanto a mansão como a montanha
pareciam um quadro com pinceladas com cambiantes de vermelho e
laranja lançados pelos ráios do sol poente.
Quando viraram pela estrada principal, Indy reparou nos
grupos de pequenos vultos que se recortavam na varanda, e logo
a seguir a mansão desapareceu da vista.
Pararam num posto de segurança, e um guarda consultou uma
lista quando Dorian lhe indicou os seus nomes. Acenaram-lhes
para seguirem. A carruagem deixou-os à porta princiPal.
Quando iam a subir os degraus, um outro guarda postado à
entrada olhou-os de alto a baixo. Franziu a testa ao fato de
Indy e depois com certa relutância fez-lhe um gesto para
seguirem. Dorian ignorou-o, mas Indy deteve-se a olhá-lo
também de cenho igualmente carregado. E disse-lhe:
- Endireita a gravata, soldado!
Entraram.
A sala estava pejada de convidados e de criados de casaco
branco a servirem bebidas e aperitivos. Havia pelo menos doze
lareiras na sala, todas acesas.
- Já aqui estiveste alguma vez? - perguntou Indy.
- Só uma vez; é um sítio adorável...
- E grande, calculo!
- Trinta e quatro divisões, incluindo quinze quartos de
cama.
"A média para um rei, imagino...
- Bastantes sítios para descansar, pelo menos. Talvez
pudéssemos pedir um; afinal... estamos nos anos vinte.
Ela inclinou a cabeça para ele e disse com uma ponta de
severidade:
- Deixa-te de criancices ou de brincadeiras; e seja lá o que
for que faças, não digas qualquer coisa disparatada ao rei!
- Eu acho que me sei comportar.
Indy descobriu Doumas que avançara por entre a multidão em
direcção a eles, precisamente a pessoa que não tinha o mínimo
interesse em ver. Afinal aquele gorducho arqueólogo ou era
incompetente, ou tinha deliberadamente deixado que ele
descesse à cratera numa corda desfiada.
- Olha quem aí vem! - disse ele a Dorian. - Já não me sinto
muito bem...
- Jones! Já a pé? Que espantosa recuperação! Estou espantado
com essa resistência!
Pronto: outra vez amigos. Maravilhoso...
- E eu também!
- Olha, o que é que tu estavas a dizer de uma pedra preta?
Enquanto falava ia mastigando coisas de um prato de
aperitivos que tinha na mão. Indy franziu a testa:
- Não me lembro de ter dito qualquer coisa a esse
respeito...
- Pois, lembres-te ou não, a verdade é que disseste! -
141
disse Doumas. - Quando te tirámos do buraco, vinhas a
resmungar qualquer coisa a respeito de uma pedra do feitio de
um cone que tinhas achado e que querias lá voltar para a
trazer...
- E disse isso?
- Estavas a delirar - disse Doumas. - Mas o que foi que
viste, exactamente?
Indy olhou para Dorian; esta observava-o atentamente.
Respondeu:
- Foi exactamente isso: tinha uma coisa qualquer a cobri-la
como uma corda que se tivesse petrificado. E eu gostaria de lá
voltar para a trazer.
- Porquê? - perguntou Dorian.
Indy não sabia. Mas tinha pensado muito naquela pedra. Na
realidade era uma coisa que não lhe saía da cabeça.
- Apenas acho que valia a pena ir lá buscá-la;
principalmente visto termos perdido a placa...
- Mas tu não estás precisamente em condições para fazer isso
- disse Doumas. - Não acha, Dr.a Belecamus?
Dorian respondeu rispidamente:
- E também não me parece que tu o estejas; e eu não quero
que ninguém desça aquela fenda sem me dizer. Está entendido,
Stefanos?
- Claro, mas...
Dorian afastou-se sem mais palavras e desapareceu na
multidão.
- Ela está zangada consigo - disse Doumas. - Por causa da
corda. - Pegou numa fatia de bolo do prato e meteu metade na
boca.
Indy sentiu passar-Lhe uma coisa pela vista, ao ver a
audácia do homem. Ripostou:
- Eu é que devia estar zangado! Afinal, que diabo é que se
passou?
- A corda estava podre. E depois naquela confusão, perdemos
a outra. Desculpa. Eu queria ir pedir-te desculpas há mais
tempo, mas não queria incomodar...
Indy esteve quase a acusá-lo de ele próprio ter ido lá
abaixo e ter limpo a placa, quando Doumas se aproximou mais
dele e lhe disse ao ouvido:
- Se eu fosse a ti, Jones, tomava cuidado com a Dr.a
Belecamus, hoje. Está cá o namorado dela, sabes? É aquele
além, fardado de coronel. E dizem-me que ele é muito
ciumento...
Indy quase se sentiu sufocar com o fedor que tresandava de
Doumas. Deu um passo atrás. O homem que Doumas indicara tinha
um rosto rude e um nariz adunco. Parecia andar perto dos
cinquenta; talvez vinte anos mais velho que Dorian.
142
- Obrigado: não me esquecerei disso... - disse Indy. Como se
um dia Doumas tentava matá-lo, e no outro estava a avisá-lo do
perigo. Não fazia sentido.
E a maneira como Dorian tinha reagido no seu quarto aos seus
comentários sobre a placa? Parecia ter ficado abalada, não
pelo facto de alguém ter limpo a placa, mas pelo que ela
dizia. Em especial, as últimas linhas acerca do regresso do
Oráculo e da revelação de um grande segredo. "O número de
coincidências ligadas às profecias do velho estava a
crescer...", pensou. Tinha havido o terramoto, tinha surgido a
Dória. Tinha chegado o rei. Agora a placa parecia confirmar
aquilo que o velho tinha dito: raios! Não era de admirar que
ela tivesse empalidecido; naturalmente devia estar a pensar se
afinal não seria mesmo a Pítia.
Mas coincidências acontecem constantemente; e só são
misteriosas quando estamos à procura de mistérios...
- Indy! Ora cá estás tu!
Voltou-se ao ouvir a voz esganiçada:
- Madelaine! - Ela estava como se nada se tivesse passado, e
estivesse simplesmente em mais um bal musette:
- Disseram-me que estavas aqui, mas eu quase nem queria
acreditar.
- Que bom, não é? Eu adoro a Grécia; e tu?
- Claro! É uma coisa que mexe connosco cá dentro... A tua
amiga Dorian disse que tu tinhas sofrido um acidente; mas a
mim pareces-me bem...
Indy ia a dizer-lhe o que lhe tinha acontecido, quando ela
disse qualquer coisa que o deixou como que paralisado:
- Aquele teu amigo, o Jack Shannon, também cá vem hoje?
- De que diabo é que estás tu a falar? O Jack Shannon está
em Paris.!
- Não está, não! Está aqui. Ainda hoje de manhã o vi na
taberna e estava com um outro que disse que também te
conhecia...
- Tu viste-o aqui?
- Foi isso que eu disse!
- E quem era o outro homem?
- Não me lembro. Jack apresentou-me, mas estava uma grande
confusão. Tom, Terry... talvez Larry. Era mais velho...
- Mais velho... quanto?
- Teria talvez 35... 40 anos. Sabes? Velho! Tinha barba; era
canadiano, acho eu, não sei...
Quem é que ele conhecia que tivesse barba e fosse viajar
para a grécia com Shannon? Não se lembrava de ninguém. Ninguém
assim mais velho. Ninguém que ele conhecesse...
- Tu tens a certeza disso? Falaste com o Shannon?
143
- Claro! Tomámos um copo de ouzo juntos. Disse-me que andava
à tua procura: parecia preocupado...
Olhou em redor e continuou:
- E agora para onde é que foi o Brent com a minha bebida?
- Como é que Jack sabia que eu estava ferido?
- Não creio que o soubesse: eles tinham acabado de chegar,
cerca de uma hora antes de nós...
- Mas tu encontraste-te com a Dorian; ela falou com eles?
- Não sei. - A rapariga estava a ficar aborrecida com as
perguntas. Torceu o pescoço e pôs-se em bicos dos pés a olhar
para a sala. Indy, no entanto, insistiu:
- Tu e Brent vieram ao hotel para me ver quando souberam que
eu estava ferido?
Ela sorriu pouco à vontade:
- Bom, a verdade é que ainda não tivemos oportunidade...
Apertou-lhe o braço com meiguice:
- Mas agora estás aqui, e está tudo bem...
- Pois. Está tudo de primeira!
Nesse momento anunciaram o rei, e um homem alto, um pouco
grisalho entrou na sala. Apertou as mãos das pessoas, umas
atrás das outras à medida que ia passando pela multidão,
coxeando muito ligeiramente. Madelaine escapou-se, ou para ver
mais perto o rei, ou então à procura de Brent e da sua bebida.
Indy viu ao longe Dorian ao lado do coronel. Tinha a certeza
que ambos tinham estado a olhar para ele. Queria acima de tudo
perguntar a Dorian por Shannon e pelo outro homem, mas hesitou
ao lembrar-se de que Nikos lhe tinha dito que tinham sido
soldados que tinham levado o casal. Que explicação daria
Dorian desta vez, e para onde diabo os teriam levado?
Não se podia conter mais; precisava de respostas. Começou a
atravessar a sala, mas de repente viu-se frente a frente ao
rei que lhe estendeu a mão. Indy apresentou-se rapidamente e
apertaram as mãos.
- Ah, sim! O senhor deve ser aquele que eu ouvi dizer que
tinha caído no buraco...
Indy assentiu em silêncio, sentindo-se pouco à vontade
perante aquela atenção real. Disse:
- Não volta a acontecer...
O rei riu-se e deu-lhe uma palmada no ombro:
- Esperemos que não. Amanhã de manhã vou visitar as ruínas.
Vai lá estar?
Indy tinha outras coisas em mente, mas o que é que podia
dizer?
- Sim, evidentemente!
- Óptimo. Talvez então me possa contar tudo o que aconteceu.
Até amanhã!
144
Indy deu um passo atrás e o rei voltou-se e começou a falar
com outra pessoa. Agora já não via Dorian nem o coronel.
Vagueou pela sala e foi até à varanda. Ela não estava à vista.
- Pareces perdido, Indy! - Disse Doumas atrás dele.
- Viste a Dr.a Belecamus?
- Foi-se embora. Saiu com o coronel Mandraki há poucos
minutos.
145
CAPÍTULO XVII
À VOLTA DA FOGUEIRA
Indy esgueirou-se em silêncio da mansão e dirigiu-se para
as traseiras onde os cocheiros esperavam com as suas
carruagens. Perguntou pela carruagem de Doumas e indicaram-lhe
o cocheiro. Dirigiu-se a ele e disse-lhe:
- O Sr. Doumas pediu para tu me levares para o hotel!
O cocheiro olhou para ele, duvidoso:
- Tem a certeza? Ele tinha-me dito para esperar por ele...
- Ele vai passar cá a noite... - Indy aproximou-se
confidEncial:
- Ouzo a mais...
- Já...?
- Já! - respondeu Indy gravemente.
O homem assentiu e subiu para o seu lugar ao mesmo tempo que
Indy subia para a carruagem. Nada do que tinha dito era
verdade, mas não sentia o mínimo remorso por deixar assim
Doumas sem transporte.
Quando chegaram ao hotel, Nikos estava deitado no seu divã a
ler um livro.
- Viste a Dorian?
- Não; ainda não chegou... - passou a mão pelo cabelo curto.
- Voltaste cedo...
- E talvez não fosse o suficiente. Quem é o coronel
Mandraki?
- Era o que eu te ia dizer quando ela entrou no quarto. É
Aquele o namorado dela...
Não era de admirar que ela se tivesse mostrado fria desde
que tinham chegado a Delfos...
- É um homem muito perigoso, e acho que a Dr.a Belecamus
também o é quando ele está perto. Foi por isso que eu te
trouxe móli. Para te proteger.
- Obrigado. Agora diz-me mais coisas dos americanos que me
vieram ver.
- Um era alto e magro, com cabelo ruivo e uma barbicha:
no queixo... - Nikos esfregou a mão no queixo a indicar uma
barba rala. - O outro era mais baixo e tinha uma grande barba.
E eu tenho aqui uma coisa para ti...
146
Inclinou-se para baixo do balcão e estendeu-lhe um chicote
enrolado. Disse:
- O teu amigo mais alto pediu-me para te entregar isto antes
de tu te encontrares com ele. Disse que tu havias de saber o
que era. depois ia a entrar para o teu quarto. Mas chegaram os
soldados.
Indy pegou no chicote e passou as mãos por ele. Era a
confirmação: Shannon estava ali, mas continuava a desconhecer
a identidade do outro homem.
- Indy, tenho outra pergunta sobre a América...
Não estava com muita disposição para conversa amena.
Respondeu:
- Não é lá muito boa altura, mas mesmo assim, diz lá!
- É verdade que os americanos põem compota de maçã no pão?
Indy olhou espantado para ele:
- De que raio é que estás a falar?
O rapaz mostrou-lhe o livro que tinha estado a ler:
- Aqui diz que a rapariga come o pão assim...
- era um velho exemplar do Seventeen.
- Onde é que arranjaste esse livro?
- Foi um dos americanos que mo deu; o mais baixo, com barba.
E nessE momento Indy recordou-se daquele dia na Le Dôme, de
quando Ted Conrad lhe falara no encontro com Booty Também lhe
mostrara o seu exemplar usado. Pegou na revista e leu a
primeira página. E lá estava, assinado pelo Tarkington a
dedicatória: «Para Ted, boa sorte na escrita.»
Mas que diabo estaria Conrad, o seu velho professor de
história a fazer ali? E porquê com o Shannon? Nem sequer se
conheciam um ao outro.,. E mais: por que razão Mandraki os
queria afastar?
- Olha, encontrei isto no livro... - disse Nikos. -
Conheces?
Passou para as mãos de Indy a fotografia de um homem
simpático, sorridente, mais ou menos da sua idade. Estava de
pé ao lado do que parecia ser uma estátua grega e atrás dele
viam-se os degraus de pedra de um anfiteatro.
- Nunca na vida o vi... - disse Indy. Bateu distraidamente
com a fotografia na orla do balcão e franziu a testa. -
Disseste que os meus amigos tinham sido levados pelos
soldados. Pediram-lhes delicadamente para irem com eles, assim
como se fossem uma escolta?
Nikos abanou a cabeça vigorosamente:
- Nada delicadamente! Foram levados como se fossem
criminosos. O coronel Mandraki é que dava as ordens...
- para onde é que os levaram?
- Isso não sei, mas partiram na direcção das ruínas...
147
- Já é um bom começo. Eu vou procurá-los. Posso ficar com
isto? - mostrou a fotografia.
- Só se me deixares ir contigo...
Indy hesitou:
- Eu não te quero meter em sarilhos, Nikos...
- Eu posso ajudar-te a descobri-los. Conheço bons
esconderijos perto das ruínas. Podemos procurá-los lá...
Indy meteu a fotografia no bolso interior do casaco, e
entalou o chicote no cinto.
- Está bem; mas lembra-te que não andamos a brincar às
escondidas com esses soldados. Isto agora é a sério...
- Eu sei. Tens o móli?
Indy forçou um sorriso:
- Tenho...
Minutos depois tinham já montado a cavalo, com Indy a
aconchegar com a mão as costelas doridas e depois a atiçar os
flancos dos cavalos que partiram a galope.
Quando se aproximavam das ruínas, Indy fez um gesto a
indicar a oficina e deixaram a estrada. O sítio parecia calmo
e deserto, mas mesmo assim ele queria vistoriá-lo. Desmontaram
perto da cavalariça e avançaram cautelosamente até à oficina.
Experimentou a porta e ficou admirado ao ver que não estava
trancada. Lestamente abriu-a. Sobre a mesa ardia um candeeiro
de petróleo. Avançou ao longo das filas de prateleiras
carregadas de placas de pedra, olhando ao longo de cada
corredor. Nem sinal de Dorian nem de qualquer outra pessoa.
E iajá a voltar para a porta quando reparou em qualquer
coisa branca e filamentosa a sair de um dos cacifos. Baixou-se
sobre um joelho e palpou o tecido. Teve quase a certeza de
saber o que era. Abriu a porta, e tinha razão: era o vestido
de Dorian, o que tinha vestido nessa noite, na recepção.
Tinha estado ali, e tinha mudado de fato. O facto de não ter
voltado ao hotel só podia significar que ela e Mandraki
estavam com pressa.
Ia a fechar a porta quando viu uma folha de papel colada na
rede do fundo do cacifo. Tinha três colunas de números, a
atravessar a página com a disposição seguinte:
1 4.23 (3.05)
1 7.28 (3.11)
Não demorou muito a descobrir de que se tratava. O número da
esquerda representava os dias e o dia 1, tinha a certeza, era
aquele em que tinham chegado e tinham começado a registar os
vapores. Na coluna do centro eram as horas da subida
148
dos vapores. Os números da direita representavam a duração em
tempo entre as subidas.
Percorreu com o dedo a página e percebeu que se tratava, não
apenas do registo das anteriores subidas, mas da programação
das subidas que se verificariam nos próximos dias. Um dos
conjuntos de números estava sublinhado, e indicava:
11,41 (manhã) (6.53)
Indy contou os dias desde que tinham chegado. Hoje era o
oitavo. Amanh ã de manhã o rei visitaria as ruínas, e os
vapores elevar-se-iam às 11.41. Isso podia ser útil. Esforçou-
se por decorar as horas das subidas de vapor para os dias
seguintes.
- Aqui não está ninguém... - disse Nikos.
- Eu sei. Estiveram cá e saíram; e fosse lá para onde
fossem, Dorian não quis usar o seu vestido...
- Talvez se não quisesse sujar...
Indy fez um aceno de concordância:
- Pode ser. Conheces alguns esconderijos sujos para onde
possam ter levado os meus amigos?
Nikos pensou por momentos. Depois disse:
- Há uma gruta por cima das ruínas...
- Achas que Dorian a conhece?
- Eu sei que conhece...
- Como é que sabes? - insistiu Indy. Nikos pareceu
subitamente pouco à vontade; os olhos negros mudavam
constantemente de direcção e esfregava distraidamente os pés
no chão.
Por fim decidiu-se:
- Sabes, um dia, quando eu tinha 12 anos, fiz uma coisa
muito...
- Diz lá!
- Eu segui a Dr.a Belecamus e um namorado até aqui. Entrei
nessa gruta depois deles, e... e vi-os fazer aquilo.
- Esse namorado: queres dizer o coronel?
Nikos abanou a cabeça:
- Não, outro. Um ajudante; uma pessoa assim como tu: um
estrangeiro!
"Então ela tinha por hábito andar metida com os seus
ajudantes diplomados...", pensou Indy. Lindo. Não sabia
porquê, mas sentiu uma ponta de ciúme: sentiu-se traído.
- Anda daí; vamos dar uma vista de olhos...
Seguiram o carreiro para as ruínas, e subiram ao velho
estádio que ficava para lá do teatro. Daí Nikos seguiu à
frente por uma vereda arborizada.
Apontou para a parede escura da montanha lá à frente.
149
Indy não via nada senão a silhueta das árvores recortadas no
céu banhado pela lua. Não parecia muito prometedor, mas agora
não havia por onde escolher.
O carreiro era íngreme e cheio de curvas a rodear o
penhasco. Quase a cada passo Indy sentia aguilhoadas de dor
nas costelas e na coxa, mas continuava a andar, impelido pela
negra sombra de traição de Dorian.
Por fim Nikos parou e apontou para diante: a luz da lua
mostrou uma fenda com pouco mais de metro e meio de largura.
- Só um bocadinho mais à frente... - murmurou.
A fenda fazia uma curva em torno de uma saliência de rocha.
Estreitava e os pés de Indy estavam a poucos centímetros da
abertura. Sentiu-se subitamente satisfeito pelo facto da
escuridão obscurecer a vista lá para baixo: assim não parecia
tão perigoso, já que não podia ver a altura de que cairia se
escorregasse...
- Alto! - murmurou Nikos. Estava encostado à rocha, com o
rosto na sombra.
Indy ia a perguntar o que era quando ouviu o bater de pés no
chão, mais adiante da fenda. Alguém ia ali mesmo à frente dele
mas as rochas não deixavam ver quem era.
Não havia tempo para mais nada senão tentarem fundir-se com
as sombras dos penhascos. Encostou-se com força à parede, mas
encolheu-se logo com uma dor lancinante quando a pedra lhe
bateu na anca.
Os passos tornaram-se mais fortes; viu qualquer movimento no
escuro. Quem quer que era parara, certamente por ter
pressentido as suas presenças. Estavam encurralados.
O silêncio foi subitamente cortado por um berro patético e
estranho, e Nikos desatou a rir:
- É só uma cabra, com os seus três cabritos...
- O que é que ela faz aqui?
- Vivem aqui; são animais bravios...
Nikos chamou a cabra, mas o animal manteve-se teimosamente
no caminho à frente deles.
- Não há outro por onde possamos ir? - perguntou Indy.
- Não.
Indy olhou em volta e descobriu um grosso ramo que
atravessava por cima do caminho. Desenrolou o chicote e com um
seco golpe de pulso fez a ponta dele enrolar-se em várias
voltas no penhasco. Depois deu balanço e passando por cima da
fenda e das cabras foi cair do lado de cá delas.
- Chô! Ponham-se a andar! - sibilou-Lhes; e a cabra, seguida
dos cabritos afastaram-se apressadamente.
- Como é que fizeste isso? - perguntou Nikos espantado.
- Sorte, acho eu... Vamos embora.
Seguiram cautelosamente o caminho rodeando as rochas até
chegarem a ver a estrada da gruta. Do interior vinha o clarão
de uma luz. Estava lá gente.
Indy deu uma palmadinha no ombro de Nikos:
- Boa marca. Tinhas razão!
Chegaram-se mais próximo.
Havia uma árvore que nascia num sítio qualquer acima da
ravina e cujos ramos cobriam a entrada da gruta; não admirava
que não tivesse visto qualquer luz quando Nikos indicara o
local.
Quando chegaram mais perto da entrada, Indy ouviu o murmúrio
de vozes. Atrás de si Nikos tossiu ao de leve a aclarar a
garganta e Indy voltou-se para trás levando um dedo à boca a
indicar silêncio, mas com a pressa do movimento tropeçou numa
pedra solta que rolou pela encosta.
- Lá está, ouviste? - era a voz de Dorian. - Alex, vai lá
fora ver o que é...
Indy suspendeu a respiração. Jesus! Se aquela águia era a
sua protectora, era agora que ele precisava dela...
- Estive lá agora mesmo! - gritou Mandraki. - Já te disse
são as cabras! As estúpidas cabras!
- Desculpa, sou eu que estou nervosa... - respondeu Dorian.
Indy limpou a testa, e agradeceu a Deus. E também à águia.
Agradecia fosse a quem fosse que se encarregasse de manter o
coronel Mandraki na gruta.
Avançou muito lentamente até chegar perto da entrada da
caverna. Baixou-se sobre um joelho e espreitou lá para dentro.
Ao meio da gruta ardia uma fogueira, com o fumo a escoar-se
por uma chaminé invisível lá no alto; e havia vários vultos
sentados à volta da fogueira. Dorian estava de costas para ele
e a seu lado estava Mandraki. Do outro lado viam-se dois
soldados com espingardas.
Apurou a vista àquela luz mortiça e foi então que viu dois
corpos estendidos no chão, de barriga para baixo, e com as
mãos atadas atrás das costas. Para lá deles havia três covas
compridas e fundas e junto delas uma pá.
Seriam algum sítio de escavações que ele desconhecia? Era de
duvidar. Aqueles buracos mais pareciam sepulturas. Novas.
Três.
- Alex?
- O que foi?
- Isto foi um grande erro; devíamos tê-los deixado em paz...
- Não, não foi erro nenhum. Se eu os tivesse deixado falar
com Jones, ele ia-se embora: e nós precisamos dele amanhã...
- Mas nesta altura ele já sabe com certeza que alguma coisa
se passa, e não vai aparecer nas ruínas: vai procurar os seus
amigos.
151
- Não te preocupes: nós controlamos a situação! -
garantiu-lhe Mandraki.
Indy fez sinal a Nikos para recuar. Cautelosamente foram-se
afastando da boca da caverna até ficarem a uma distância que
não pudessem ser ouvidos.
- Ouve, Nikos; quero que voltes para o hotel. Se alguém
perguntar por mim, dizes que voltei cedo e que me fui deitar.
- E o que vais fazer?
- Descobrir um sítio para ficar de atalaia. Mais tarde ou
mais cedo, Dorian sairá: e é nessa altura que eu entrarei...
Quando Nikos começou a descer a caminho das ruínas, Indy
subiu um pouco mais da ravina até um sítio de onde podia ver
fosse quem fosse que saísse da gruta. Isso, se se conseguisse
manter acordado. Juntou um monte de folhas para Lhe servir de
uma espécie de almofada e sentou-se encostado a uma árvore.
Esfregou cautelosamente a coxa e ajustou a ligadura que lhe
envolvia as costelas. Tentou descontrair-se, e ficou a pensar
no que é que Dorian e Mandraki quereriam com Shannon e com
Conrad, e também, por outro lado, por que razão teriam aqueles
dois resolvido vir à Grécia; mas quanto mais pensava nisso
mais confuso ficava.
Insensivelmente fechou os olhos e estava a começar a
adormecer quando o subconsciente o fez despertar de um salto.
Pôs-se em pé e começou a andar de um lado para o outro para se
manter acordado. E quando ia a sentar-se outra vez ouviu um
ruído; não do lado debaixo, mas de cima. Virou a cabeça a
tentar ouvir: deviam ser as cabras.
Lá em baixo viu uma sombra a mexer. Inclinou-se para diante
e espreitou. E depois percebeu que era a luz da fogueira na
gruta; com certeza que tinham posto mais lenha nela. Tornou a
ajeitar-se escorregando mais para baixo no tronco a que estava
encostado, a tentar uma posição mais cómoda. Esfregou os
braços, abraçando-os contra o corpo; estava frio e húmido. Se
aqueles quatro lá na gruta estavam a fazer turnos de guarda
aos prisioneiros, ia ser uma longa noite... As pálpebras
teimavam em cair-lhe. Abriu os olhos, esfregou a cara e olhou
lá para baixo. Imaginou Dorian e Mandraki, abraçados junto à
fogueira, quentinhos e depois a imagem diluiu-se e
transformou-se. Agora era ele. E era Dorian, e Os dois,
aninhados no beliche do comboio, abraçados. Quentes e seguros.
E de repente sentiu qualquer coisa ameaçadora; estava perto,
mas não conseguia ver. Era um homem louro a olhar para ele, o
mesmo homem que tinha seguido Dorian depois de ela ter estado
a falar com ele, o homem que tinha desaparecido do comboio. O
homem apontou, e viu-lhe os lábios a mexer. Mas o que está ele
a dizer? Era qualquer coisa: uma espécie de aviso, mas Indy
não o conseguia perceber claramente.
152
Acordou num sobressalto, e sacudiu a cabeça. Apenas um
sonho; Fica acordado! Esfregou os braços. Mas momentos depois
tudo se esvaiu de novo. Vozes. Era alguém a não o deixar
dormir. E ele devia saber quem era. Tinha de fazer qualquer
coisa, mas as vozes misturavam-se com o sonho em que ele
estava em Chicago. A voz de Dorian. Mas Dorian não tinha nada
a ver com Chicago. Piscou os olhos, conseguindo por fim
abri-los e orientar-se. "Estou na montanha. À espera. Mas de
quê?" E depois tudo se encaixou no lugar, as confusas peças
daquele estranho puzzle. Acordou. A lua estava a cair por
detrás das montanhas, mas ainda havia que chegasse para ver a
fenda. Não estava lá ninguém, e depois ouviu a voz de um homem
na gruta. E depois a voz de Dorian: estavam a discutir. Quanto
tempo teria dormido? Tirou o relógio do bolso: estava havia
mais de duas horas.
- Vou-me embora! - disse Dorian.
- Está bem: vou contigo! - respondeu o homem. Falou em voz
baixa com outra pessoa e nessa altura saiu da gruta. Indy
espreitou para baixo, para a ravina, vendo Mandraki segui-la.
Acompanhou-os com a vista até desaparecerem. Continuou imóvel,
à espera, a ouvir. Os sons dos passos foram diminuindo até
deixarem de se ouvir. Pôs-se em pé com a mão no cabo do
chicote. Agora estava pronto.
seguindo cautelosamente o caminho à beira da fenda, atento
aonde punha os pés. O aroma no ar era intenso, quase doce, e
teve vontade de fechar os olhos e voltar a adormecer. Algures
mais adiante o mato tinha um a aberta que era suficiente para
descer, pensou: "é aqui: cá está..." Ia preparar-se para
descer quando o som de um ramo a partir-se o imobilizou.
Voltou-se de repente. A princípio nada viu, depois vislumbrou
uma sombra, um braço levantar-se, uma lâmina a cortar o ar
direita a si. Travou a pancada com o braço, agarrou o pulso do
homem e bateu-lhe com o braço no joelho; a navalha saltou-lhe
da mão e caiu para o escuro.
O atacante tentou fugir, mas Indy agarrou-o pelo colarinho e
puxou-o para si. E então viu quem era.
- Filho de um cão!
Deu um violento murro no queixo de Grigoris que o atirou
para a frente.
foi bater num tronco de árvore e depois tombou no chão.
Avançou para ele e abaixou-se: a mão de Grigoris rebuscava à
procura da navalha, a serpentear, em silêncio. Quando
conseguiu apanhá-la, Indy deitou-lhe a mão.
Encostou a navalha ao pescoço do homem, e disse-lhe:
153
- Sabes que eu não gosto muito de ti. Fazes um único som e
corto-te as amígdalas. Percebes?
Procurou nas algibeiras do homem e achou um lenço:
amordaçou-o com ele. Disse:
- Simpático da tua parte: assim não preciso de usar o meu.
Agora desata as botas!
Grigoris ficou a olhar para ele, mas logo a seguir sentiu a
ponta da faca na garganta.
- Já!
Quando ele acabou Indy atou os atacadores um ao outro e
depois amarrou os pulsos de Grigoris atrás das costas e à
volta do tronco de árvore. Não iria ficar seguro por muito
tempo, mas pelo menos devia demorá-lo um bocado: e ele devia
pensar duas vezes antes de pensar fazer qualquer coisa: Ou,
pelo menos, Indy assim o esperava.
Pôs-se em pé.
- Se eu te torno a ver esta noite, atiro-te do monte abaixo.
Entendido?
Indy desceu da escarpa e chegou à entrada da gruta. A
fogueira ainda ardia rasteira. Shannon e Conrad continuavam
deitados no chão, no mesmo sítio em que os tinha visto antes.
Junto dEles estava um guarda.
Um guarda. Onde diabo estaria o outro?
Por cima dele ouviu um ramo estalar. Olhou para lá e nesse
mesmo momento o outro guarda saltou da ravina. Volteou a
coronha da espingarda tentando atingir Indy na cabeça. Este
baixou-se e depois atirou-se de cabeça baixa contra o corpo do
soldado. Rebolaram os dois até à entrada da gruta, com Indy a
tentar desesperadamente agarrar a espingarda.
E, de repente, sentiu o frio do metal encostado à nuca. Era
o outro guarda.
- Não te mexas, malaka. Ou és um homem morto.
154
CAPÍTULO XVIII
COM GUARDA À VISTA
O começo da madrugada estava jáa varrer para longe o
negro manto da noite no céu quando os fizeram sair da caverna
e seguir ao longo da ravina. Shanon, todo ele braços e pernas,
cabelo ruivo solto e barbicha a esvoaçar, cambaleava atrás de
um dos guardas. Indy ia logo atrás e depois seguia Conrad com
o casaco desportivo de lã sujo e amarrotado, o rosto e a barba
enxovalhados da húmida terra da gruta. Mesmo depois de ter
estado deitado no chão e amarrado durante várias horas, era a
primeira vez que verdadeiramente os via: dèsde que os três
tinham estado amordaçados e vendados.
- Siga, siga! - ordenava continuadamente o outro guarda
atrás deles. - Siga, siga! Continuem a andar, mas não muito
depressa.
Indy sentia-se estonteado por não ter dormido, e sentia o
corpo dorido. No entanto, sabia que não iam ser mortos: pelo
menos por enquanto. Felizmente os guardas não sabiam que ele
os podia entender, e tinham estado a falar à vontade quando
ele estava a ouvir.
O que vinha lá atrás, de patente ligeiramente superior à do
outro, tinha dito que deviam esperar por Mandraki, como ele
tinha mandado. O outro guarda, contudo, o que o tinha apanhado
de surpresa estava convencido de que Indy era alguém
importante e que o devia levar imediatamente a Mandraki.
Depois, o primeiro disse que era a ele que competia levar
Jones, por ser o superior.
Tinham discutido isso horas a fio, e por fim tinham chegado
à conclusão que se Mandraki não regressasse até de madrugada,
levariam ambos os quatro cativos até às cavalariças, e ali o
mais graduado ia buscar o coronel.
Quando chegaram ao fim da vertente, Indy teve finalmente a
possibilidade de trocar olhares com Shannon e com Conrad. Não
conseguia adivinhar aquilo que eles estariam a pensar mas viu
medo nos ares dos dois homens, e não se admirou muito:
provavelmente ele próprio teria o mesmo olhar.
155
Quando desciam o atalho para o vale, o céu para lá das
montanhas passou de um cinzento macambúzio para um rosa
profundo. Abaixo deles as ruínas estavam ainda na sombra,
cobertas por um manto de névoa. Se os vapores estivessem agora
a sair, não se distinguiriam por causa do nevoeiro. Talvez
fosse por isso que Dorian tinha querido aquele horário.
Mas... se ela era a Pítia, o que tinha ela a ver com tudo o
que estava agora a acontecer?
Talvez nada. Talvez tudo...
Na altura em que se estavam já a aproximar das ruínas, o
corpo de Indy parecia não saber decidir-se se devia estar frio
ou quente. Tinha a testa encharcada de transpiração, e os seus
dedos estavam enregelados de frio.
Saíram do carreiro, passaram para lá do estádio, e passaram
pelas traseiras do teatro em ruínas.
O nevoeiro estava a levantar e Indy teve a esperança de que
alguém os visse. Com certeza que três homens de mãos amarradas
e amordaçados seriam qualquer coisa de inesperado, e o boato
rapidamente se espalharia; depois com certeza alguém iria
investigar, especialmente hoje, quando o rei vinha visitar as
ruínas.
Como que em resposta aos seus pensamentos, Indy viu a sombra
de um vulto passar pelos bosques ao longo do carreiro entre a
cavalariça e as ruínas. "Por favor, que seja alguém que esteja
com o rei..." suplicou para si. Depois viu que era uma mulher.
Era Dorian, e as suas esperanças renasceram.
Quando ela se aproximou, avaliou rapidamente a situação.
- Bom trabalho. Andávamos à procura dele..... - disse,
fazEndo um gesto de cabeça em direcção a Indy, como se ele
fosse um carneiro ou uma vaca que se tivesse escapado do
redil.
Quando os guardas lhe disseram onde estavam a pensar
levá-los, Dorian abanou a cabeça:
- Levem-nos para além, para a cabana e tirem-lhes as
mordaças. Depois dêem-lhes alguma coisa para comerem.
Sorriu para Indy:
- Não queremos que tu morras de fome antes de veres o rei!
Olhou-o de alto a baixo e tornou a abanar a cabeça:
- Também temos de te arranjar roupas novas; e deves fazer o
possível para descansar um bocado...
"Era doida; tinha de o ser", pensou ele quando estavam a ser
levados quase a correr para a cabana arruinada. Por que raio
ainda quereria ela que ele visse o rei? Se ele próprio não
tivesse inalado os vapores iria acreditar piamente que lhe
tinham dado volta ao juízo.
À entrada da cabana os guardas retiraram-lhes as mordaças e
avisaram-nos por gestos para não falarem. Um após outro foram
empurrados pela porta dentro. Lá dentro a luz era muito muito
fraca, mas mesmo assim conseguiam-se ver uns aos outros.
156
Ninguém disse palavra; pelo menos durante um ou dois minutos.
Indy esfregou o queixo e olhou em redor. A mesa e as cadeiras
tinham sido tiradas, mas quanto ao resto a cabana estava na
mesma, tal como tinha estado da última vez que a vira. Deixou-
se escorregar para o chão e encostou as costas à parede. Por
debaixo do pano que cobria a porta de entrada, viam-se as
botas pretas do soldado. Conrad deixou-se também cair a seu
lado. Disse:
- Eu podia dizer que era bom ter-te encontrado, mas nestas
circunstâncias...
Shannon passeava de um lado para o outro na cabana:
- Não gosto nada disto a falar verdade, odeio-o. Quero
dizer, estou completamente fora do meu ambiente. Não posso
continuar desta maneira; quero tocar a minha trompete. Quero
ouvir jazz,
um jazz qualquer, seja lá o que for, até jazz
falsificado, e quero uma bebida; nem que sej a essa merda
horrível de pinheiro que aqui bebem. Seja o que for...
- Jack, cala-te! - sibilou Indy. - Senão tornam-nos a
amordaçar...
- Ninguém me torna a amordaçar. Temos de sair daqui...
- Havemos de sair, Shannon. Havemos de descobrir maneira de
o conseguir! - disse Conrad. - Mas Indy tem razão: não faças
barulho...
Indy olhou para os dois homens:
- Algum de vocês não se importa de me dizer que diabo estão
aqui a fazer?
Nenhum dos dois falou por momentos.
- Vamos, vocês agora não estão amordaçados - murmurou.
- E não me venham dizer que simplesmente lhes passou pela
cabeça fazerem juntos um a excursão à Grécia. Raios! Eu nem
sequer sabia que vocês os dois se conheciam.
Os dois guardas estavam lá fora a discutir, provavelmente
sobre qual deles iria buscar a comida para eles. Conrad tirou
partido dessa distracção:
- Deixa-me começar pelo dia em que lá na Le Dôme tu me
apresentaste a Belecamus. Depois de vocês os dois saírem do
restaurante, um cavalheiro inglês chamado Gerald Farnsworth
chegou-se ao pé de mim, e disse-me coisas preocupantes a
respeito da Belecamus. Claro que eu fiquei preocupado, e
disse-lhe que ias partir no dia seguinte para a Grécia com
ela, mas não sabia onde tu vivias nem onde poderia contactar
contigo. Ele disse-me que iria apanhar o comboio e que te
informaria ele mesmo...
"Farnsworth tinha-lhe prometido mandar um telegrama dentro
de um ou dois dias", continuou. "Quando não recebeu quaisquer
notícias dele, contactara a polícia e ficara a saber que o seu
corpo havia sido encontrado num beliche do comboio.
157
Tinha sido apunhalado com um estilete afiado, qualquer coisa
como um picador de gelo.
Indy sentiu um nó no estômago quando percebeu que o homem
que seguira Dorian desde o salão-restaurante devia ter sido
esse Farnsworth. Tornou a olhar por debaixo da porta: as botas
já não estavam à vista, e a discussão vinha agora de mais
longe. Continuou a ouvir Conrad.
Nessa noite Conrad tinha ido até à Jungle e começara a
beber.í Tinha acabado de mandar vir o terceiro uísque, quando
Shanno o reconheceu como professor da sua própria faculdade;
não demorou muito tempo para Conrad descobrir que Shannon
tinha sido companheiro de quarto de Indy e também tinha falado
com ele antes da sua partida para a Grécia.
- Quando eu disse ao Jack aquilo que tinha descoberto, ele
ficou a saber que tu estavas em perigo e quis ajudar.
Indy não se conteve mais:
- O que é que o Farnsworth te disse?
Conrad franziu a testa:
- Eu tinha comigo uma fotografia, quando cheguei. Devo tê-la
perdido. Seja como for, é...
- Um momento. - Indy procurou no bolso do casaco e tirou
fotografia que Nikos lhe tinha dado; estava meio amachucada e
ele fez o possível para a alisar. - Queres dizer... este?
- Ele mesmo! - disse Conrad excitado.
- Fala baixo! - Agora era Shannon que tomava conta do nível
de barulho. Olharam os três ansiosamente para a porta e
ficaram a ouvir. Os guardas continuavam a falar, mas em tom
mais baixo.
Indy ergueu a fotografia:
- E então quem é ele?
- Chama-se, ou chamava-se, Richard Farnsworth, irmão mais
novo de Gerald, e antigo estudante formado em arqueologia na
Universidade de Atenas onde Belecamus costumava ensinar.
Desapareceu há dois anos. Nunca mais se descobriu rasto dele.
- E então o Gerald Farnsworth começou a procurar o irmão -
continuou Conrad. - Descobriu que Richard e Dorian Belecamus
tinham sido amantes, mas que ela andava também envolvida com
Mandraki. E sucede que no fim de semana em que Richard
desapareceu, o coronel foi visto com a Belecamus...
Pela espinha de Indy correu um calafrio. Embora Conrad
continuasse a falar, as palavras soavam como se estivessem a
ser pronunciadas debaixo de água. Vogais longas, consoantes
curtas.
Como uma voz gravada a setenta e oito rotações. Esfregou o
ouvido de encontro ao ombro a tentar aclarar a cabeça.
158
- O Gerald Farnsworth descobriu também que um outro aluno
dela tinha sido encontrado morto com um tiro no seu próprio
apartamento, cerca de um ano antes. E também tinha sido a
mando dela. Tinham suspeitado dela, mas nunca ninguém foi
acusado do assassínio. Depois, logo a seguir ao
desaparecimento do Farnsworth, ela pediu a demissão da
universidade. Possivelmente estaria prestes a ser acusada de
conduta imprópria e de falta de ética perante os estudantes.
- Muito pouco próprio! - interveio Shannon.
- Foi então que ela trocou a Grécia por Paris.
- A mim deu-me uma história diferente a respeito de ter
deixado a Grécia - disse Indy, sentindo crescer dentro em si
um bulhar de ira. - Acho que o que ela tem é um extraordinário
apetite por alunos já formados, e eu estava a seguir na calha.
Mas como é que se entende que Nikos, o miúdo do hotel, não
soubesse quem Farnsworth era? Foi ele que me deu o retrato...
- Porque Farnsworth nunca veio até aqui a Delfos. O romance
dela com ele foi em Atenas; ela tinha muito cuidado para não
arranjar namoros onde fosse difícil escondê-los...
"Mas pelo menos deve ter tido um...", pensou Indy, ao
lembrar a história de Nikos. Aquela sensação gelada já
passara; agora em vez dela, sentiu um enorme peso, uma rígida
opressão no estômago.
Shannon acrescentou:
- E depois quando ela se fartava dos rapazinhos, passava-os
ao seu amante assassino. Mas isto não é tudo, meu velho...
Indy olhou-o espantado. Depois da história de Farnsworth não
podia imaginar o que mais haveria.
- A minha família tem alguns contactos aqui para estas
bandas - disse Shannon. - Sabes o que eu quero dizer: gente
com relações políticas.
"Coisas secretas... contactos com o submundo...", pensou
Indy. Shannon estava a fechar muito ojogo. Perguntou:
- E o que é que vocês descobriram?
- Primeiro de tudo, a tua professora de arqueologia tinha em
mente qualquer coisa mais do que uma simples placa de pedra,
quando fez esta viagem. Sabias que o pai dela é dissidente
grego e está a viver na Itália?
- Ela falou-me nisso. Disse que o papá não ia lá muito à
bola com o rei. Diferenças de opinião...
- É mais do que diferenças de opinião. O querido dela, o
Mandraki, é muito chegado ao pai dela. Ouvi dizer que anda a
planear qualquer coisa; talvez um golpe qualquer e que a
Belecamus está metida nisso...
- Um golpe?
- Exacto. Por isso uma pessoa que eu conheço entrou
clandestinamente no escritório dela e descobriu uma carta de
Mandraki que confirmava isso.
159
"Shannon fora possivelmente essa pessoa", pensou Indy.
- Mas se o que estás a dizer é verdade, então por que é que
Dorian me trouxe com ela?
- Eles vão servir-se de ti para qualquer coisa... - disse
Shannon. - Deve ser qualquer coisa relacionada com o teu
encontro de hoje com o rei. Cá por mim estou a pensar que eles
querem matar o rei e tu servias para ficar com as culpas. Esta
gente é pior que gangsters de Chicago. talvez até mais
espertos...
- O Mandraki ameaçou matar-te?
- Não viste as covas na gruta antes de te vendarem os olhos?
- perguntou Shannon. - Eles estão a planear matar-nos a todos
hoje...
Nesse momento o pano da porta da cabana foi afastado e um
dos guardas entrou. Fez-lhes um sinal irritado para se
calarem.
O companheiro entrou com três pratos, cada um deles com um
bocado de pão duro, batatas cozidas e uma fatia de queijo.
Enquanto comiam em silêncio, Indy ficou a pensar que Dorian
era bem capaz de fazer aquilo que Shannon sugerira. Não sabia
como é que ela planeava fazê-lo, mas fosse como fosse, tinha
de avisar o rei.
Indy aproximou-se de Shannon quando acabaram de comer e
Disse:
- Desculpa ter-vos envolvido nisto...
- Fomos nós que nos envolvemos.
Conrad pousou o garfo:
- Eu nunca pensei como é que nós íamos ser descobertos tão
depressa quando cá chegámos. Mas é claro, a Belecamus
lembrava-se de mim...
- A propósito - perguntou Shannon -, que diabo é que aquela
tua amiga esganiçada, a Madelaine, está cá a fazer? - Riu-se
pela primeira vez - Fiquei banzado! Mal tínhamos chegado aqui,
e a última pessoa em que eu podia pensar aparece-me na rua a
encontrar-se comigo...
Nesse momento os dois guardas irromperam por ali dentro e
obrigaram Shannon e Conrad a pôr-se em pé à bruta.
- Ei, que diabo é isso? - gritou Indy. Ia a pôr-se de pé,
mas atiraram-no ao chão e deram-lhe um violento pontapé no
estômago.
Quando se conseguiu endireitar Shannon e Conrad já lá não
estavam, e ele estava de novo amordaçado.
- Sacanas! - murmurou dentro damordaça. Rolou lentamente
pelo chão de forma a poder ver a porta e espreitou. Conseguia
ver um par de tacões de botas. Ficou a pensar se alguma vez
tornaria a ver Shannon e Conrad. Pensou em Shannon e nas suas
partidas na faculdade e como ele tinha ficado irritado quando
Conrad o tinha denunciado ao reitor.
160
Mas tudo isso parecia agora muito infantil, em comparação
com o sarilho em que estavam metidos. Fora a sua atracção por
Dorian Belecamus que o tinha dominado. Tudo afinal se resumia
a isso. Irritado deu um pontapé na parede, e, para surpresa
sua, o pé passou lá para fora. Percebeu que o sítIo onde
batera tinha ficado queimado pelo fogo que involuntariamente
ateara no dia em que ali estivera a cronometrar os vapores.
Puxou o pé para dentro e olhou para os tacões das botas do
lado de fora da porta: não se tinham movido. Cautelosamente
fez força com o pé na madeira meio carbonizada à volta do
buraco. Bocado a bocado foi arrancando pedaços da rede até
conseguir um buraco por onde coubesse. Começou a tentar passar
por ele, com os pés primeiro, e rastejando sobre o estômago.
As ancas, no entanto, eram muito largas e começou a sentir-se
muito apertado de encontro à parede. Apertou as pernas uma
contra a outra e tentou de novo, de dentes cerrados quando a
coxa onde a coxa se tinha ferido na queda raspou de encontro à
parede. Dessa vez conseguiu, e ficou assim, meio dentro e meio
fora da cabana. Firmou osjoelhos no chão e conseguiu sair mais
um bocado.
"Já não falta muito...", pensou; e nessa altura foram os
ombros que ficaram presos. Torceu-se para a direita e para a
esquerda, mas nada resultou. Quando muito parecia ter ficado
mais preso. Deitou fora o ar dos pulmões e fez força com os
joelhos, empurrando com quanta força tinha. A cabana abanou,
mas ele continuou preso naquela armadilha. Olhou para a porta:
os tacões das botas já não estavam à vista.
"Oh, merda. E agora?"
A resposta não se fez esperar. Sentiu que uma das mãos lhe
agarravam os tornozelos e o puxavam. Soltou um gemido quando
os ombros rasparam brutalmente contra a aresta, e logo a
seguir estava cá fora do buraco.
Virou a cabeça e viu um par de sapatos pretos. Olhou para
cima; mas não era o guarda. Era Nikos.
O rapaz tirou-lhe rapidamente a corda que lhe prendia os
pulsos e arrancou-lhe a mordaça.
- Cuidado, o guarda! - sussurrou Indy.
- Não te preocupes! - respondeu Nikos. - Já tratei dele... -
e mostrou-lhe um cacete.
Indy pôs-se em pé e teve um largo sorriso ao mesmo tempo que
sacudia a terra do fato:
- Como é que sabias que eu estava aqui?
- Não sabia, até ver o soldado de guarda à porta. Vim à tua
procura porque vi o coronel Mandraki levar os teus amigos pela
porta das traseiras do hotel, escada acima. Está um soldado de
guarda a eles num dos quartos.
161
Nesse instante Indy ouviu o estalido de uma pistola a ser
engatilhada. Ergueu os olhos e viu o rosto duro de Mandraki a
olhá-lo, com um trejeito na boca a tentar passar por um
sorriso. Tinha uma pistola apontada à sua cabeça.
- Ias a algum lado, Jones?
Indy manteve o olhar na pistola e não respondeu. A última
coisa que queria era antagonizar o homem, que, estava certo,
não tinha qualquer hesitação em puxar o gatilho.
Mandraki olhou para Nikos:
- Vai para o hotel, e fica lá... - disse por entre dentes. -
Se disseres uma palavra seja a quem for, eu mato-o. E depois
vou à tua procura...
Nikos deitou um olhar a Indy e depois afastou-se
rapidamente.
- Eu não gosto de matar crianças, Jones. Mas se tiver de o
fa zer, faço-o. Isso agora é contigo...
- Não sei o que é que queres dizer com isso...
O sorriso de Mandraki tornou-se mais sinistro. Disse:
- vais fazer o que eu disser. Caso contrário o miúdo e os
teus amigos morrem.
- O que é que queres que eu faça?
- Vai haver um acidente. O rei vai cair na fenda depois dos
vapores subirem. E tu vais dar-lhe uma pequena ajuda com um
pequeno empurrão!
"Espera aí que já vou!", pensou Indy. E em voz alta:
- E se ele não quiser chegar-se ao pé dos vapores?
- Vai querer; porque tu vais-lhe dizer como aqueles vapores
te curaram os ferimentos, e que acreditas que lhe farão bem
aos males de que ele sofre. Ele tem uma afecção na coxa; tem
sido visto por médicos de todo o mundo, mas continua a sofrer
disso. Vai querer tentar os vapores, isso posso garantir-to...
Indy não sabia o que dizer. Tinha de descobrir a maneira de
deter Mandraki.
- Se tentares avisar o rei, mato-te nesse mesmo instante,
lembra-te disso. Mas se cooperares com o acidente, tu e os
teus amigos serão autorizados a sair imediatamente do país.
Percebes?
Indy não acreditou naquelas palavras. Nem por um segundo que
fosse. Mandraki atirou-lhe com um saco de roupas:
- Entra na cabana e muda de fato. Queremos que estejas
apresentável para te encontrares com o rei...
Teve um largo sorriso, a descambar numa gargalhada. Pela
alvar.
Pela mente de Indy perpassou um breve pensamento. "Se a
águia era a sua protectora, não parecia estar a fazer grande
coisa..."
162
CAPÍTULO XIX
HISTÓRIAS DE ENCANTAr
Do seu lugar na saliência de uma rocha na base da encosta
da montanha, para lá do templo de Apolo, Panos olhava por
sobre as ruínas para um monte de pessoas reunidas na estrada,
perto da entrada. O rei ainda não tinha chegado, mas devia
estar a chegar de um momento para o outro. Já passava das 11
horas e os vapores iriam subir às 11 horas e 41 minutos.
- Vamos! - disse Grigoris. - Podemos chegar mais perto!
Panos abanou a cabeça:
- Há muito tempo...
Como sempre Grigoris estava cheio de pressa; mas esta manhã
estava também com uma disposição carregada, negra. Quando
Panos ali chegara, havia meia hora, Grigoris tinha despejado a
sua história de infortúnio da noite passada. Panos tinha
ouvido, olhado para as botas sem atacadores do filho e
encolhera os ombros. Que não interessava, dissera-lhe. O que
ele queria dizer era que Jones... não interessava. Já não
interessava. Tinha visto os dois soldados de Mandraki levar os
três estrangeiros pela montanha abaixo; não iam já criar
qualquer problema.
- Olha ali! - o dedo de Grigoris apontou para a estrada no
preciso momento em que Panos via um enorme automóvel parar
junto à entrada. O rei tinha chegado. Ficou a olhar, a ver um
homem fardado sair do banco da frente do carro e ir abrir a
porta de trás.
Momentos depois um homem alto, de cabelo grisalho era
ajudado a sair do banco de trás do carro.Vestia um traje de
safari, como muitos dos estrangeiros que vinham a Delfos, e
por momentos Panos não o reconheceu. Mas não havia dúvidas,
pelas atitudes de deferência dos outros, de que se tratava do
rei. Só a vista do homem que governava o seu país deixou Panos
intimidado.
Lembrou-se então do que Belecamus lhe tinha dito quando o
acompanhara ao sair da oficina; e estava ainda confuso com
isso.
O rei estava em perigo, e o perigo estava perto, dissera
ela. Teria sido a Pítia a falar, ou a Belecamus? Ou ambas? Era
muito confuso...
Fez um sinal a Grigoris, e começaram a descer o trilho até
ficarem mesmo à saída das ruínas.
163
Esperaram por detrás de um tufo de árvores, a menos de
cinquenta metros dos pilares. Tinham chegado o mais longe a
que se atreviam e agora olhavam para o grupo que se aproximava
do templo.
I Panos centrou a sua atenção no rei. Sentiu o
coração a bater-lhe: sabia que estava para suceder um
acontecimento monumental. História. Pela primeira vez, não era
do passado. Estava a acontecer aqui e agora, um importante
acontecimento histórico que afectara todo o mundo. Estava a
vê-lo: faria parte dele...
Belecamus estava a um dos lados do rei, e Mandraki do outro.
Não gostava da maneira como o coronel parecia dirigir a
procissão, como se fosse ele quem estivesse a mandar. E por
que razão estava Doumas a ficar para trás como um parvo?
Depois Panos suspendeu subitamente a respiração ao perceber
que Jones estava no meio do grupo. O que é que ele estava ali
a fazer? Não fazia sentido...
Mesmo à distância, pressentiu o perigo; uma negra presença
que o fez arrepiar. Tinha de ser o Jones; mas se Jones estava
livre, fora Mandraki quem o permitira. E de repente soube que
era o coronel a verdadeira origem do perigo. Ia assassinar o
rei, e de uma forma ou de outra, servir-se de Jones para o
fazer.
Não podia permitir que tal acontecesse. Não hoje,
principalmente. Não aqui em Delfos. Estava tanta coisa em
jogo... Olhou para Grigoris e viu o ódio nos seus olhos; e
ficou a saber que também ele tinha reconhecido Jones.
- Pai, estás a ver...?
- Sim, e agora ouvme com muita atenção. Não faças nada até
eu te dizer. Tem de ser na altura exacta...
Grigoris ficou a olhar para Jones e assentiu lentamente.
Quando falou foi sem convicção:
- Compreendo. Estamos aqui, e isso basta.
Grigoris repetia apenas as próprias palavras de Panos. Mas
agora Panos já não tinha bem a certeza de que fossem
verdadeiras.
Doumas acompanhou a comitiva do rei pelas ruínas, enquanto
Belecamus ia falando alternadamente a gabar-se dos seus
trabalhos como chefe arqueóloga de Delfos e a apontar os
estragos causados pelo terramoto. Talvez ninguém mais pensasse
que ela se estava a gabar, mas a insolência dela era óbvia
para si. Conhecia bem a extensão dos seus trabalhos, e as suas
limitações. Nada lhe agradaria mais do que a ver sair de
Delfos para não mais voltar; pelo menos enquanto ele estivesse
encarregado das ruínas.
Esta não seria de forma alguma a maneira como ele
apresentaria Delfos áo rei. Que diabo é que Mandraki sabia?
164
Não havia qualquer justificação para ser ele a ficar ao lado
do rei. E depois havia o Jones. Provavelmente a única razão
por que estava ainda vivo seria por o rei ter pedido para ele
estar presente, e a Belecamus não querer que ninguém fizesse
perguntas.
E, no entanto, o homem parecia um lunático; tinha as calças
muito curtas e a camisa grande de mais. Os sapatos estavam
cobertos de lama. Se fosse noutro lugar qualquer que não as
ruínas, nunca lhe seria permitido aproximar-se do rei.
E não era só o fato: parecia arrastar-se como se não
dormisse havia muitos dias. Que diabo teria ele andado a fazer
depois de lhe ter fugido com a carruagem?
Ao aproximar-se do templo, Belecamus estava a falar da
fenda. Estava a dar grande ênfase ao facto desses vapores
serem semelhantes aos dos valores históricos dos vapores
mefíticos do Oráculo de Apolo. Atirou até uma mitológica
referência chamando aos vapores o ichor, a seiva da vida dos
deuses.
Doumas quase desatou a rir. Nunca tinha ouvido falar de
Delfos em termos tão românticos. "Deve ser influência do
Jones...", Pensou.
- E que efeito têm esses vapores em quem os inalar? -
perguntou o rei, avançando a coxear.
- Tudo o que podemos afirmar com certeza é que não parecem
causar quaisquer efeitos perniciosos. Pode haver uma sensação
de bem-estar, mas isso pode ser apenas psicológico. Devo,
contudo, dizer que o Sr. Jones tem outras ideias, das quais
vos falará mais tarde, se estiverdes interessado. Ele parece
pensar que os vapores têm efeitos curativos...
"Muito esperta...", pensou Doumas. Estava a passar em claro
por cima do que lhe tinha sucedido a ela própria,
provavelmente por achar que seria pouco profissional dizer que
tinha ficado afectada pelos vapores e tinha agido
estranhamente durante alguns dias. Nem sequer tinha admitido
ter mesmo inalado os vapores... Mas o que era aquilo a
respeito de Jones?
Uma coisa parecia ser certa, agora: ela devia estar prestes
a dizer que era ela a Pítia. E, portanto, tinha perdido: ela
não ia cooperar como ele esperara. Por que é que havia de o
fazer? O canteiro fora um louco por pensar que ela o faria...
- Quando é que os vapores sobem? - perguntou o rei.
- Parecem vir e ir irregularmente; não achas Stefanos?
Ora, porque é que ela tinha dito aquilo e o tinha colocado a
ele em posição de ter de concordar com uma mentira? Aclarou a
voz:
- Bom... parecem aparecer cada vez com menos frequência à
medida que passam os dias...
O próximo devia estar a surgir a cada momento; e ela devia
sabê-lo. Mas talvez com a distracção da visita do rei se
tivesse esquecido. Ficou a pensar se não deveria falar nisso.
Mas... e se estivesse enganado? O rei iria pensar que ele era
um parvo. Podia até ficar sem o seu cargo,
165
se o rei se decidisse a ficar à espera dos vapores e nada
acontecesse. Não; não podia arriscar-se a isso...
Doumas aproximou-se de Belecamus quando ela se dirigia para
as inclinadas colunas do templo. Quando surgisse uma
oportunidade iria mencionar a hora da subida dos vapores e
deixá-la resolver depois o assunto. Ela, no entanto, parecia
ansiosa por continuar a andar, e disse ao rei que do alto do
monte ele já podia ver a fenda.
- Sr. Jones, por que é que não conta a Sua Alteza a sua
própria experiência? - perguntou Belecamus, pegando no braço
do rei, guiando-o a subir o monte. - O senhor é que sabe mais
a este respeito do que qualquer outra pessoa...
"Incrível!", pensou Doumas. primeiro fora o coronel a
indicar o caminho, e agora era Jones que não tinha mais
qualificações do que ele, a assumir funções. Não queria tomar
parte naquilo. Com evidente relutância foi seguindo atrás dos
outros, detendo-se a meio do monte, próximo dos dois ajudantes
do rei.
Enquanto o rei espreitava para a fenda, Jones falou da sua
queda. Descreveu a placa de pedra, e para surpresa de Doumas
fez uma exacta descrição do que ela dizia. O rei, contudo, não
parecia estar muito interessado. Ouviu Jones contar a sua
queda na fen da e depois interrompeu para perguntar como é que
os vapores o tinham afectado.
- Penso que os vapores têm efeitos curativos... - disse
Indy, mas não pareceu estar lá muito convencido do que dizia.
- Bem vê, eu fiquei muito ferido com a queda, mas já sarei,
muito rapidamente...
- E nenhuns efeitos perniciosos?
Jones abanou a cabeça.
"Não parecia estar lá muito bem...", pensou Doumas.
O rei depois de um curto silêncio disse:
- Gostaria de experimentar eu próprio esses vapores, em
qualquer altura...
"Não se eles te fizerem agir como a Belecamus...", pensou
Doumas. Deu uns passos em frente, percebendo subitamente que a
Belecamus estava a preparar alguma. O rei ia ver os vapores, e
possivelmente também inalá-los.
Belecamus estava agora a falar da placa de pedra e do
regresso do oráculo:
- De facto, alguns aldeães dizem que existe uma antiga
profecia sobre o regresso da Pítia depois de um tremor de
terra e na altura em que o rei chegar...
O rei sorriu:
- Ah, sim?
Doumas susteve a respiração ao perceber que se tinha
enganado: ela ia fazê-lo...
166
Nesse momento, como se por se falar nos vapores os tivesse
despertado, Doumas ouviu o surdo rugido e o sopro que os
anunciava.
Os gases começaram a subir: ela planeara assim as coisas:
talvez que fosse mesmo a Pítia. Mas nessa altura ela desceu do
topo do monte quando os vapores lhe chegavam aos tornozelos.
Mandraki pôs-se à frente dela, impedindo os dois ajudantes de
chegarem perto do rei.
- Deixem-no estar! - ordenou-lhes.
- Majestade! - gritou um dos ajudantes ao ver os vapores
envolverem o peito e os ombros do rei. Mas o rei ignorou-o.
Belecamus afastou-se subitamente de Mandraki e desapareceu nos
vapores com o rei e com Jones ao mesmo tempo que a densidade
dos mesmos os envolviam completamente. Tudo sucedeu tão
depressa ,e Doumas mal reparou que Panos e Grigoris estavam
com eles. E, subitamente, criou-se um caos no templo. Panos
correu monte acima para eles, mas Mandraki empurrou-o para
trás. Os dois ajudantes estavam desvairados, tentando
esgadanhar o caminho até ao rei. Mandraki lutou para os deter,
mas nesse momento Grigoris foi esbarrar com o coronel. Panos
correu novamente monte acima, e dessa vez desapareceu no meio
dos vapores. Mandraki estava envolvido com Grigoris e com os
dois ajudantes e não percebeu o que estava a acontecer. Doumas
ficou a olhar num silêncio de assombro, quando um grito que
era mais animalesco do que humano cortou os ares. Sentiu
calafrios na espinha: sabia que Belecamus se estava a
transformar em Pítia. Estava a acontecer, tal como Panos o
tinha planeado. Ouviu a voz de Panos a proclamar a presença da
Pítia... Não! Tinha de os deter. Era ele quem devia ter o
poder, não o Panos. Esforçou-se para trepar o monte, tropeçou
e escorregou para trás. Ouviu as desconexas palavras de Dorian
e a voz do rei. Rastejou para a frente, pôs-se em pé, e
lançou-se para o meio dos vapores no sítio em que Panos tinha
desaparecido.
A nuvem de vapores ocultou os outros. A gritaria do lado de
lá dos vapores parecia distante; sem interesse. Até o rei que
estava perto de Indy tinha uma aparência fantasmagórica; uma
vaga silhueta. Mas mesmo assim conseguia ouvi-lo a encher os
pulmões de profundas golfadas dos vapores.
- Senhor! Majestade! - Como é que se devia dirigir a ele?
O rei ignorou-o.
- Desculpe-me, Majestade...
Tinha de o avisar do perigo. Mas depois como é que iria
salvar Shannon e o Conrad... e a si mesmo? As suas vidas
estavam em jogo, fosse o que fosse que acontecesse ao rei...
167
- A minha anca já está a sarar! - Havia júbilo na voz do
rei.
- Este lugar é... é um verdadeiro milagre!
Antes de Indy poder dizer mais nada, outro vulto surgiu por
entre os vapores. Era Dorian. Tinha os cabelos em pé, porque
agitava a cabeça de um lado para o outro, espasmodicamente. O
queixo escorria-lhe de baba; os olhos pareciam querer
saltar-lhe das órbitas. Gritou, um berro não humano.
- O que é que tens? - perguntou o rei assombrado.
Depois Panos avançou por detrás dela:
- Majestade, a Pítia voltou! - exclamou quase a gritar. - O
que é que pretendeis perguntar?
O rei olhou, espantado. Pítia aproximou-se mais dele,
olhando de esguelha com a língua a sair-lhe da boca:
- Afasta-te! Afasta-te de mim!
E logo a seguir começou a balbuciar coisas desconexas. As
palavras saíam-lhe da boca, mas eram palavras que não faziam
sentido. Indy detectou uma palavra familiar aqui e além:
Latim. Francês. Grego. Inglês. Mas nada que se percebesse.
- Pítia está a dirigir-se a vós, Majestade! - disse Panos. -
Diz que sois vós que tendes que vos afastar; que estais em
perigo.
"Que alguém muito próximo de vós vos quer assassinar. Fugi
deste lugar; fuji já, para salvardes a vida. Mas ide com a
convicção de que Delfos voltará a crescer de novo na fama, e
os destinos do vosso país irão mudar!
- Quem és tu para me estares a dizer isso? - perguntou o
rei.
- Não sou eu: é a Pítia que fala...
O rei olhou incrédulo para Dorian. Tinha a cabeça descaída
para um dos lados e os olhos fechados. Balançava
cadenciadamente para um lado e para o outro.
- Ela é a Pítia?
Indy virou rapidamente a cabeça ao divisar a corpulenta
figura de Doumas perto de si. Corria com os braços estendidos
direito a Panos e agarrou-o pela cintura. Dorian foi empurrada
pelos dois e caiu, batendo com a cabeça com força no chão.
Indy correu para ela, mas foi também empurrado por Doumas e
Panos.
Deu um passo atrás, a tentar recuperar o equilíbrio, mas os
pés escorregaram-lhe à beira da fenda. Escorregou tentando
desesperadamente agarrar a terra com as mãos em garra, até
conseguir firmá-las num pedaço de rocha mesmo à beira do
abismo; mas a rocha estava meio solta, a oscilar.
"Meu Deus, não! Não quero morrer. Aqui, não; não com esta
gente..."
Puxou com quanta força tinha, conseguindo erguer o peito até
à orla do buraco, no preciso momento em que a rocha se soltava
e tombava no vazio. Ficou com as pernas penduradas mas
conseguiu rastejar um pouco mais para cima e passar primeiro
168
uma e depois a outra para cima. Depois rolou, deixando-se
ficar estendido de costas.
Olhou para cima mesmo a tempo de ver um pé a descer-lhe
sobre o rosto; agarrou-o no último momento e sacudiu-o. Viu
então que o pé era de Grigoris, que voltava de novo a atacá-
lo. Mas Doumas agarrou-o pelo pescoço. Segurou pai e filho num
desesperado abraço e os três rolaram em círculos perigosamente
perto da orla da fenda. Em qualquer momento podiam tombar no
abismo e arrastar Indy com eles.
Indy tentou rolar para mais longe da orla, mas quando o fez,
diversos pés tropeçaram nele e os corpos caíram para o buraco.
Alguém gritou e Indy viu umas mãos enclavinhadas à procura de
um apoio. Estendeu o braço e agarrou-o num pulso. Quem quer
que fosse ficara precariamente suspenso no ar, com um
insuportável peso a puxar-lhe pelo braço até ao limite da sua
resistência.
Ouviu um grito lancinante quando um dos homens, não sabia
quem, mergulhou no abismo. Os repetidos gritos ecoaram
pavorosamente no escuro, cada vez mais distantes, até se
perderem num
silêncio de morte.
À sua esquerda Panos estava meio pendurado sobre a orla e
Grigoris esforçava-se desesperadamente para o puxar para cima.
Quem teria caído? Doumas? Então quem é que estava pendurado
na sua mão, no seu braço, em todo o seu corpo. Com um esforço
que lhe exigiu todas as suas forças, puxou, firmando os pés na
terra solta. Viu aparecer um braço; um ombro. O pescoço. E por
fim a cabeça do rei. Com a ajuda da outra mão que o rei lhe
estendia conseguiu tirá-lo da boca diante do abismo.
Puseram-se em pé ao mesmo tempo, e o rei olhou-o longamente.
- Não me irei esquecer disto... - disse -, Salvaste-me a
vida!
Tão depressa como tinham surgido, os vapores dispersaram-se
como um nevoeiro arrastado pelo sol. Era como se Doumas
tivesse sido devorado vivo pelas forças subterrâneas de
Delfos, e agora essas enigmáticas forças estivessem a retrair
os seus etéreos tentáculos...
Logo a seguir os ajudantes do rei estavam junto dele,
amparando-o para o ajudarem a sair do templo em ruínas.
- Ele queria-me matar... - disse o rei.
- Quem? - perguntou um dos ajudantes.
- O gordo; o arqueólogo. Mas eu fui avisado pela Pítia.
Aquela mulher é a Pítia...
Entretanto Mandraki amparava Dorian, e Grigoris ajudava o
pai a levantar-se.
- É mesmo a altura boa para dar à sola... - murmurou Indy,
esgueirando-se dali. Correu por detrás do teatro para o
carreiro que levava à cavalariça. Correu tanto quanto podia,
com a anca dorida a latejar em cada passo que dava.
169
Os vapores não lhe tinham feito absolutamente nada; nem à anca
nem às costelas, a bem dizer.
O carreiro acabava na oficina, e ele correu pelo pátio fora
até à cavalariça.
Percorreu as divisórias e escolheu um cavalo; um que Dorian
lhe tinha dito que era o mais forte e mais rápido. Atirou-lhe
uma sela para o lombo, mas assim que a sentiu, o cavalo
encabritou-se atirando fora a sela e quase atirando Indy ao
chão.
Saiu logo da divisória, resmungando:
- Está bem, pá; fica para a outra vez...
O cubículo seguinte estava vazio, mas no outro ao lado
estava o cavalo que ele já tinha montado antes. Selou-o
rapidamente mas quando ia a montá-lo viu ao longe Mandraki a
dirigir-se para ali, com Dorian nos braços. Podia é claro
passar por eles a correr, mas o mais certo era Mandraki estar
armado.
Soltou uma praga entre dentes e voltou a meter o cavalo no
estábulo, tirou-lhe a sela e baixou-se a um canto.
Segundos depois Mandraki entrava na cavalariça.
"Não venhas para aqui...", pensou Indy. Fechou os olhos ao
ouvir o ranger de uma das portas. A que estava a seu lado, a
do cubículo vazio. Mandraki deitava Dorian na palha do chão.
- Dorian, acorda! Temos de ir embora!
Indy ouviu uma bofetada seca. Depois outra.
- Com mil raios, Dorian! Que diabo é que te deu?
Dorian abriu os olhos ao sentir uma violenta bofetada numa
das faces, e depois outra no outro lado. Não sabia onde
estava. Depois viu Alex debruçado sobre ela. Olhou em redor.
- O que é que eu estou a fazer aqui, na cavalariça? Ai, a
minha cabeça...
Com muita cautela palpou um ponto doloroso perto duma das
fontes.
- Saiu tudo mal; o que é que tu ficaste a fazer no meio dos
vapores? Tu devias ter saído comigo...
- E saí. Mas eu não sei o que aconteceu...
- Bom, o rei escapou, e agora já sabe que houve um atentado
contra a sua vida! - disse Mandraki. - O Jones tentou
empurrá-lo?
- Não sei! - respondeu Dorian. - Não consegui ver. Eu estava
muito preocupada para ver se conseguiria sair dali sem cair lá
para o buraco. Estamos em má situação?
Mandraki abanou a cabeça:
- Não. Ele pensa que foi Doumas que o tentou matar, e o
Doumas está morto. Caiu...
170
- Então estamos safos...
- Não antes de nos limparmos. - disse Mandraki. - Temos de
ir depressa...
- O que é que queres dizer com isso?
Mandraki franziu a testa, admirado com aquela súbita
estupidez. Martelou:
- Temos de nos livrar do Jones e dos seus amigos. Depois de
acabarmos com eles, eu vou pessoalmente tratar daqueles dois
idiotas da aldeia; do pai e do filho. Tens alguma ideia do que
é que estavam aqui a fazer?
Dorian voltou a cabeça para o lado.
- Não faço ideia...
- Outro dia o mais velho disse-me que Jones andava atrás de
ti. Porque é que ele estaria interessado nos meus assuntos? Ou
talvez, melhor dizendo, nos teus?
Mandraki sempre tinha tolerado os seus devaneios com homens
mais novos, amenos que achasse que já estavam a durar tempo de
mais. Nessa altura acabava com eles, à sua maneira. E Jones
não seria uma excepção, ela bem o sabia. Mas ela queria-o
vivo. Fosse como fosse tinha de deter o Mandraki; tinha os
seus planos a respeito de Jones...
- Vai tu andando, Alex. Eu vou ficar aqui deitada um bocado
a descansar...
- Tens a certeza...
Nesse momento ouviu um som como que de um resfolgar.
- O que foi aquilo? - disse Mandraki. Pôs-se em pé e abriu a
porta do estábulo.
A palha e a poeira faziam cócegas no interior do nariz de
Indy. Sentia um formigueiro a subir e descer pelo nariz;
susteve a respiração. Tentou tudo para deter o espirro que se
estava a formar. Mandraki estava a poucos passos de distância,
não podia deixar de o ouvír. Apesar dos seus desesperados
esforços a cabeça teve um espasmo sacudido e soltou um espirro
meio abafado.
- Raios! - murmurou entre dentes.
A porta do cubículo ao lado abriu-se com um rangido. Indy
esperou gelado e imóvel. Passou uma mão diante do espaço
visível à sua frente. A mão fez uma festa no focinho do cavalo
diante de si. Se Mandraki abrisse a cancela, via-o com
certeza; não havia dúvida disso.
- O que é que tens, bicho? Constipado?
Graças a Deus; ele pensava que tinha sido o cavalo...
- Realmente não pareces lá muito bem...
Mandraki afastou-se do cubículo e deu uns passos em frente.
171
Mas o alívio de Indy foi de pouca duração. Quase logo a
seguir outro espirro se começou a formar.
"Depressa, vai-te embora!", suplicou mentalmente a Mandraki
enquanto o coronel selava um cavalo noutro cubículo. Por fim,
depois dos mais longos minutos da sua vida, ouviu Mandraki
levar o cavalo lá para fora.
- Tens a certeza de que ficas bem? - perguntou o coronel a
Dorian.
- Tenho. Daqui a pouco já saio...
Assim que Mandraki lá fora meteu o cavalo a galope, Indy
soltou um sonoro espirro que acabou num ronco de satisfação.
Sentiu-se tão bem que até sorriu. Mas logo a seguir o sorriso
apagou-se-lhe.
- Quem está aí?
O perigo de Mandraki tinha sido tão grande que se esquecera
completamente de Dorian.
- Ninguém...
- Jones! És tu?
Quando se pôs em pé tocou com a mão no cinto e desejou
intimamente que os guardas lhe não tivessem tirado o chicote.
Dorian era sem sombra de dúvida uma pessoa de quem era preciso
aproxim ar-se com mil cautelas. Abriu a porta do cubículo e
ficou a olh ar para ela. Estava deitada de lado, com a cabeça
apoiada num cotovelo. Não viu que ela tivesse quaisquer armas,
mas também não se sentia disposto a baixar a sua guarda.
Ela sentou-se e passou a mão pelos cabelos; bocadinhos de
palha caíram-lhe pelos ombros.
- Vem cá... - disse ela em voz baixa, gutural. Alguns dias
antes aquela voz teria sido sedutora. Agora soava-lhe
viperina...
Não se moveu, nem disse palavra. Os olhos dela chamavam-no.
- Ouviste o que eu disse ao rei quando estávamos nos
vapores?
- Ouvi a tradução...
- O que é que eu disse? - Ela abriu os olhos e olhou-o com
intensidade.
Não sabia se ela na realidade se não lembrava, ou se o
estaria a experimentar. Repetiu o que Panos dissera ao rei.
- Avisei-o de uma ameaça contra a sua vida! - disse Dorian.
- Como vês, desafiei Alex...
- Sim?
- Eu salvei a vida do rei, Indy. Tu ias matá-lo...
- Isso era o que o teu querido queria que eu fizesse! -
contrapôs Indy. - E agora ele quer matar-me e aos meus
amigos...
- Eu posso ajudar-te...
Ele abanou a cabeça:
172
- Não confio em ti, Dorian. Sei muito a teu respeito...
Os olhos negros da mulher pareciam querer atravessá-lo:
- De que é que tu estás a falar?
- Do teu antigo namorado; o Farnsworth. Tu mataste-o, a ele
e ao irmão. E sabe Deus a quantos mais...
- Não fiz nada disso...
- Eu vou-me embora.
Recuou a sair do cubículo e entrou no outro lado; mas quando
estava a selar o cavalo, Dorian bloqueou-lhe a porta.
- Eu... eu nem sempre fiz as coisas certas, Indy! - disse em
voz suave. - Deixei que o Alex me manipulasse. Mas isso
acabou, juro! Eu posso ajudar-te: a ti e aos teus amigos.
Posso provar-te que não sou aquilo que tu pensas...
- Obrigado, mas eu prefiro arranjar-me sozinho.
- Se fores para o hotel, vais ser morto... - disse ela em ar
de conversa.
- É precisamente isso que o Alex espera que tu faças. e não
os mata enquanto não te apanhar a ti; eles são o isco. Se
queres continuar vivo, esconde-te até de manhã. Eu trago-te os
teus amigos ao templo às 8 horas e 30 minutos.
Pensou naquilo. Ela tinha provavelmente razão no que dizia
sobre o hotel. Tinha poucas probabilidades de tirar o Shannon
e o Conrad de Mandraki sem que pelo menos um deles morresse.
- Então mais cedo!
- Não. 8 horas e 30 minutos. Está lá a essa hora; não mais.
Indy sabia pelo horário do cacifo de Dorian que os vapores
se levantariam às 8 horas e 38 minutos. Que diabo tinha ela
agora em mente? Mas também, que outra possibilidade é que ele
tinha? Tudo se resumia a isto: Dorian era a pessoa de menos
confiança que ele conhecia, mas de momento parecia ser ela a
sua única opção. Respondeu:
- Lá estarei.
173
cAPÍTULO XX
NOVA SUBIDA
O nevoeiro cobria as ruínas como montes de lã
acabada de tosquiar. Panos só conseguia ver o vago contorno da
cabana arruinada onde tinha passado a noite e virou de lá o
olhar aborrecido.
Apesar do nevoeiro tinha confiança que Belecamus, a Pítia,
ali estaria dentro de minutos. Ela iria ser atraída para os
vapores como os ricos e poderosos em breve seriam atraídos
para Delfos como formigas a correr para mel derramado.
Em breve Delfos floresceria num renascimento dos tempos de
antigamente. Os cofres do Oráculo ficariam carregados de peso
sobre as ruínas do antigo templo, um novo Templo seria
construído. E não haveria em Delfos mais lugar para cabanas
toscas e arruinadas; ele se encarregaria disso.
A cabana fora a maneira como Doumas fizera a ligação do
passado com o presente, mas tinha sido um fraco elo em
comparação com a poderosa força do Regresso. Doumas, no
entanto, tinha sido uma contradição: tinha afincadamente
procurado compreender a Ordem de Pítia da mesma maneira como
estudava velhas construções em ruínas. E embora nunca se
tivesse iniciado na Ordem tinha-se familiarizado com muitos
dos seus segredos. Mas no mais devia ter-se sentido invejoso
do poder que o sacerdote do oráculo abarcaria. Tinha
desvairadamente tentado mudar o curso da história e apagar o
inevitável regresso da Pítia.
"Não: não estava certo", concluiu Panos. Doumas tinha
querido o poder só para si próprio: fora por isso que ele o
atacara a ele, em vez de Pítia. Mas claro, não o conseguira, e
a sua vida terminara brutalmente num fracasso. Graças a
Grigoris, Panos tinha escapado a idêntico fim.
Nas duas horas desde que se levantara, Panos nada tinha
comido e iria continuar em jejum até à subida. Esta manhã iria
perguntar a Pítia como é que o rei reagira ao que tinha
acontecido ontem, quanto tempo ainda demoraria antes do poder
da própria Pítia vir a ser conhecido de todos. Quanto mais
pormenores soubesse, melhor poderia planear.
174
Passara nessa manhã mais de uma hora sentado na terra suja
do chão da cabana a calcular a duração dos intervalos que
havia numa semana, num mês, num ano e mais tempo ainda. A
princípio ficara preocupado com a rapidez com que os
intervalos entre subidas iam aumentando. Em breve apenas
haveria uma subida por dia, e depois uma de dois em dois dias.
Mas depois percebeu que à medida que os períodos de acalmia se
tornavam maiores, a velocidade da mudança diminuía. Quando
houvesse uma semana entre as subidas, levaria dez semanas
antes que o período calmo se expandisse por mais de uma hora.
e duzentas e quarenta semanas quase cinco anos antes dos
intervalos aumentarem para oito horas. E depois disso os
aumentos ainda seriam mais lentos. Iriam passar décadas antes
dos intervalos serem de duas semanas.
Ouviu passos que se aproximavam pela parte de trás da
cabana. Era ela, sabia-o. Mas foi Grigoris que surgiu do
nevoeiro.
- Que fazes tu aqui? Eu disse-te para te afastares, esta
manhã!
- Eles vêm aí, pai. Eu vi a Pítia a sair do hotel...
- Eu sei que ela vem! - ripostou Panos. Mas depois forçou
um: - Obrigado por me avisares... - Não conseguia zangar-se
com Grigoris, especialmente tão pouco tempo depois de ele o
ter salvo de cair na fenda. Grigoris sempre tinha tentado
fazer aquilo que julgava estar certo, tal como Panos lhe
ensinara. Mas também Lhe havia ensinado a obedecer às ordens,
e essas lições eram as que Grigoris mais dificuldade tinha em
aprender.
- mas eu pensei que tu quererias saber que ela não vem
sozinha.
Indy tinha dormido no sítio em que esperava fosse o último
onde Mandraki o iria procurar. O facto de ainda estar vivo
provava-lhe que a gruta por cima das ruínas tinha sido uma boa
escolha.
Agora avançava lenta e cuidadosamente ao longo da fenda. Nem
sequer conseguia ver os próprios pés através do nevoeiro. Era
muito mais denso do que ontem, tornando o percurso
especialmente traiçoeiro. Bastava um pé posto em falso e
imediatamente se despenharia pela rochosa encosta da montanha.
Aquele passeio - o mesmo que a metáfora em que a sua vida se
tornara: um passo em falso, e estava morto. Enquanto rodeava
cuidadosamente os penhascos, recordou-se daqueles tempos em
que por aqueles sítios passara horas a fio à espera para
cronometrar as subidas dos vapores. Nessa altura tinha sido
terrivelmente aborrecido e irrequieto: agora, nem uma coisa
nem outra. A luta pela sobrevivência tinha-lhe apurado
175
os sentidos, tornando-o muito mais atento e interessado em
tudo o que se passava à sua volta.
Por fim chegou ao fim da fenda e desviou-se para o carreiro.
Quando eram 8 horas e 15 minutos estava ainda na encosta da
montanha, uns centos de metros acima das ruínas. Mas quando
olhou lá de cima para a velha Delfos a seus pés, apenas viu
uma névoa branca irregular que parecia um manto recente de
neve.
Desceu o resto do caminho, sem se preocupar em se esconder,
escondido já ele estava, mas também, toda a gente o estava, se
é que por ali andaria alguém.
Parou quando chegou perto da Via Sagrada e espreitou através
do nevoeiro. Não se via a mais de três metros na sua frente.
Avançou, olhando de um lado para o outro a cada passo que
dava.
Nesse momento ouviu vozes. Escutou. Sim; eram vozes como um
distante gorgulhar das águas de um rio. Não conseguia
distinguir de que lado vinham, nem a que distância estariam.
Continuou a avançar, detendo-se a cada momento para tentar
escutar. Teria ele imaginado as vozes? Talvez fosse todo
aquele conjunto de murmúrios que a Pítia atraíra das
profundezas do nevoeiro, em busca da sagrada Pítia. Ou a
saudar a nova Pítia. E daí... talvez nem tivesse ouvido vozes
nenhumas.
E subitamente os pilares da entrada do templo ergueram-se
imponentes na sua frente. Tirou o relógio. Eram 8 horas e 33
minutos. Os vapores subiriam dentro de cinco minutos. Olhou em
redor, sem saber o que fazer.
- Jones! Onde estás?-era a voz de Dorian a ecoar no templo.
Então, sempre estava lá...
Espreitou através das colunas inclinadas para a fenda:
- Aqui mesmo! - gritou.
- Vem cá. Já! - ordenou Dorian. - Tenho aqui os teus amigos.
Indy hesitou.
- Depressa! Eu cumpri a minha parte do acordo!
Entrou no templo aproximando-se cautelosamente do monte.
- Como é que eu sei...?
- Diz-lhe! - ordenou Dorian.
- Estamos aqui com ela: mais ninguém! - disse Shannon.
Indy, no entanto, detectou uma certa rigidez nas suas
palavras.
- Vem cá acima, Jones!
Ele parou na base do monte:
- Mas porquê aí em cima?
- Os vapores, claro! Quero ter-te aqui para veres o que
acontece!
Ia a meio caminho da subida quando divisou as três figuras
envoltas na névoa.
176
- Para quê?
- Vais ver!
Continuou a subir e agora já conseguia divisar mais
pormenores. Shannon e Conrad estavam a um dos lados de Dorian.
Nenhum deles estava algemado. Por que é que não tinham tentado
fugir? Mas logo a seguir percebeu porquê. Dorian ergueu um
revólver e apontou-lho à cabeça.
- Desculpa, Indy - disse Shannon. - Ela tinha isto encostado
à minha testa.
Ouviu um som atrás de si e percebeu aquilo que sempre tinha
receado: era uma armadilha.
Panos não gostou do facto dos dois estranhos estarem com
ela. Nem de Jones ir a subir o monte para se juntar a eles.
Ela devia bem saber que eles eram perigosos; e era por isso
que estava armada. Mas por que é que os tinha trazido para
ali? Porquê agora?
Subiu o monte. Com Grigoris a seu lado, sabendo que não
havia nada que agora pudesse fazer. Estavam lá: pois que
estivessem. Numa questão de segundos Belecamus entraria em
transe, e então ele tomaria conta das coisas. No momento em
que, para si, aceitou os estrangeiros, a presença deles passou
subitamente a fazer sentido. Surpreendentemente sabia porque é
que eles ali estavam e o que a Pítia lhes iria dizer. Estava
em sintonia com ela. Até sentia as palavras que ela lhes
diria, mesmo antes de ela as pronunciar. Era assim, com o
sacerdote do oráculo...
Jones mostrou-se espantado quando os viu e depois tentou dar
à voz um tom de alívio:
- Vocês! Dorian, o que é que eles estão aqui a fazer?
- O que é que achas? Os vapores vão subir... - respondeu
ela. Era a altura e a Pítia pousou um joelho em terra. Era
impossível distinguir o nevoeiro dos vapores, mas a Pítia
inalou-os profundamente. Tinha a cabeça curvada para baixo e o
cabelo caía-lhe sobre o rosto. Depois a névoa adensou-se e ela
deixou de ficar visível.
Panos avançou para os vapores, com Grigoris atrás de si.
Depois pôs-se em pé a oscilar de um lado para o outro...
Indy olhou para ela, e viu que já não tinha a pistola. A
cabeça descaiu-lhe para a frente, mas logo a seguir ergueu-a.
Os olhos que tinham estado desmesuradamente abertos quando o
rei ali tinha estado, eram agora umas delgadas fendas. Havia
qualquer coisa de diferente nela: era como se estivesse a
suceder qualquer coisa.
Olhou para ele, e inclinou a cabeça, a fitar os outros
homens. Por fim o olhar deteve-se-Lhe em Jones. Sorriu, um
sorriso meio torcido, e depois, logo a seguir deu un passos e
abraçou-o.
177
Jones não lhe retribuiu o abraço; o seu corpo estava rígido.
Dorian murmurou qualquer coisa em voz muito baixa que Panos
não podia ouvir. Mas não interessava: ele sabia o que ela
estava a dizer.
- Pítia diz que deves partir hoje para a tua terra natal e
dizer a toda a gente que conheces, que a Pítia regressou.
Muitas maravilhas irão em breve ter lugar aqui e o mundo tem
de saber isso!
Pítia riu-se, uma gargalhada escarninha, arrepiante, e
afastou-se de Jones.
- Que maravilhas? - perguntou Jones. - Que espécie de
maravilhas?
- Orientação a respeito do futuro; aquele que sabe o que o
espera será muito mais forte do que os que nada sabem...
- Já ninguém acredita nisso! - interveio o homem alto e
ruivo.
- És um louco, se não acreditas! - gritou Grigoris,
avançando para ele como que a desafiá-lo.
- Que coisas maravilhosas prevê Pítia? - insistiu Jones,
olhando intensamente para ela. - Diz-me alguma...
- Isso é uma grande dádiva que ela oferece ao mundo, e tem
de ser usada com prudência! - interveio Panos. - Não é para
tua distracção...
A Pítia deixou escapar outra curta gargalhada e continuou a
sorrir como se troçasse.
Jones parecia hesitante, e Panos ia de novo admoestá-lo
quando ouviu uma voz vinda do lado de fora dos vapores:
- Dorian! Onde estás?
Era Mandraki.
- Ignora-o! - disse Panos.
- É um ardil... - disse um dos homens.
- Eu trato dele! - interveio Grigoris.
- Espera! - gritou Panos; mas Grigoris não se deteve.
Momentos depois ouviu-se o estalo de um tiro e Panos ouviu
um grito do filho.
- Não, não! - gritou, correndo para fora da nuvem de
vapores.
Grigoris estava caído com a cara no chão, a meio caminho da
descida do monte.
Panos correu encosta abaixo e caiu de joelhos ao lado do
corpo do filho. Acabeça do rapaz estava torcida num ângulo
estranho. Virou-Lhe o corpo. O rosto era uma massa meio
desfeita de carne e sangue, pedaços de ossos e massa
encefálica.
Panos atirou a cabeça para trás num desvario de horror.
178
- Tu... tu! - gritou.
Olhou de frente para o olhar gélido
do coronel Mandraki que estava imóvel ao fundo da colina, por
entre o nevoeiro que se ia desvanecendo, com uma espingarda na
mão e um cinto de munições pendurado do ombro à cintura.
- Mataste o meu filho!
Um estalido anunciou a entrada de outra bala na câmara da
espingarda.
- Maláka! - praguejou Mandraki, apontando a arma à cabeça de
Panos.
Puxou o gatilho.
Ao som do primeiro tiro Indy atirou-se para o chão. Conrad e
Shannon fizeram o mesmo, mas Dorian continuou de pé.
Por que é que eles não tinham fugido da colina quando tinham
tido possibilidade de o fazer? A arma de Dorian
desaparecera-lhe da mão e ela continuava a soltar gargalhadas
secas como uma bruxa velha. Que raio de efeito é que os
vapores tinham sobre ela?
Mas estupidamente tinham ficado ali a ver, a ouvir a
arengada de Panos e agora Mandraki estava ali.
Ouviu-se um outro tiro. Jesus! Que é que se estaria lá a
passar? Indy, a falar verdade até nem tinha muito interesse em
saber. Queria era estar o mais longe dali possível; mas agora
estavam encurralados entre Mandraki e a fenda do abismo. E
para qualquer dos lados era morte certa...
- Dorian! Sai já daí! - berrou Mandraki.
Shannon aproximou-se de Indy:
- Estamos feitos, Indy. Assim que os vapores passarem,
acabou-se tudo...
- Dorian! - voltou Mandraki a gritar.
A única possibilidade que tinham de escaparem dele era a de
seguirem pela orla da fenda até caírem no abismo; mas isso não
adiantava muito. Estavam completamente encurralados; como se
já estivessem mortos...
Dorian deu um passo em frente, Os vapores começavam a
diluir-se e Indy já quase conseguia distinguir o vulto de
Mandraki.
- Dorian, onde é que estás? - perguntou Mandraki. - Tens af
contigo esses três?
Ela conservou-se em silêncio. Seria ela ainda a Pítia, ou
qualquer coisa de intermédio?
Nesse momento Indy viu-a a tirar o revólver das dobras de um
cinto de pano. Levou o cano à própria testa.
- Jesus, ela vai-se matar...
- Alex! - gritou ela. - Cuidado!
179
Depois num movimento felino baixou o braço, apontou e
disparou.
Mandraki deu um passo hesitante para trás. A espingarda
caiu-lhe ao chão. Oscilou sobre os calcanhares enclavinhando
as mãos no peito.
Depois dobrou-se lentamente e tombou no chão, mais um corpo
a juntar à carnagem.
180
CAPÍTULO XXI
PARCEIROS PARISIENSES
- Matei-o em autodefesa! - disse ela calmamente. - Ele
ia-nos matar a todos...
Indy ficou a olhar os corpos estendidos no chão. Perguntou:
- Por que é que ele te havia de querer matar a ti?
- Por muitas razões. Principalmente, ciúme. Panos contou-lhe
tudo a nosso respeito. Mas também ficou irritado por o rei ter
escapado e pôs as culpas em mim...
Ele olhou-a atentamente. Não havia o mínino sinal de
quaisquer aberrações produzidas pelo transe nas suas feições.
Parecia calma e até dava a impressão de se sentir aliviada
depois de ter morto o seu amante de tantos anos. A pistola
balançava solta entre os seus dedos. Indy esperava
ansiosamente que ela a deixasse cair, porque assim que o
fizesse ele imediatamente mergulharia para a apanhar.
Os seus olhos desviaram-se para Shannon e Conrad que
continuavam a seu lado; pareciam tão nervosos como quando ele
tinha ali chegado.
Dorian pressentiu todo aquele pouco à-vontade. Disse:
- Não estejam a olhar para mim como se fosse para uma louca:
vocês estão vivos, só por minha causa...
- Que é que vais fazer agora? - perguntou Conrad, dando um
passo para perto dela.
Dorian sorriu de bom humor:
- Eu sei exactamente o que vou fazer, e vocês os três vão-me
ajudar...
Conrad deu mais um passo em frente e estendeu a mão:
- Que bom, Dorian! Eu fico com a pistola; agora já não
precisas dela...
O seu corpo ficou instantaneamente tenso e ela apontou a
pistola para Conrad:
- Não me venhas com paternalismos, professor. Eu sei o que
estou a fazer. Sentem-se já, vocês os três. Eu vou dar-lhes
uma liçãozinha de história sobre Delfos. O senhor gosta de
história, não gosta,professor?
181
Fez um sorriso que era mais uma careta e por momentos Indy
pareceu-lhe tornar a ver a expressão que lhe vira no rosto
quando ela era Pítia. Esse pensamento ficou a bailar-lhe na
ideia, mas sentou-se tal como os outros, conforme ela
ordenara.
- Nos tempos do passado, Delfos era como que um íman que
atraía gente de toda a volta do Mediterrâneo... - começou.
Aquilo era de loucos. Três corpos caídos ali mesmo atrás
dela, e ela a discursar como se estivesse numa das aulas da
Sorbonne.
Indy teve ganas de a mandar calar, mas tinha a certeza que
se o fizesse, ela era bem capaz de o matar tão tranquilamente
como tinha morto Mandraki.
Ela continuou:
- Não eram só os gases mefíticos que constituíam o poder da
Pítia; era também o Onfalo, uma misteriosa pedra preta em
feitio de cone... - Dorian percorreu com os olhos a sua
audiência.
- Está lá em baixo, na fenda, ao nosso alcance. Indy
achou-a, e eu quero-a!
- Como é que a vamos alcançar? - perguntou Shannon a
desempenhar o papel de aluno muito interessado.
- Tu e o professor vão fazer descer o vosso amigo com uma
corda. Ele vai ter assim uma oportunidade para aperfeiçoar as
suas habilidades arqueológicas e ao mesmo tempo recuperar um
dos mais valiosos artefactos de todos os tempos...
Voltou-se para Indy:
- Estás de acordo?
"Como se tivesse alguma opção", pensou. Respondeu:
- Não vejo aqui nenhuma corda...
- Vais buscá-la. Vai à oficina; lá encontrarás uma corda e
as minhas ferramentas de escavações. E depressa!
A voz endureceu, ao continuar:
- Mas se não estiveres de volta dentro de quinze minutos os
teus amigos vão fazer companhia aos outros. Percebes?
- Não precisas de me ameaçar, Dorian!
Ela sorriu e as feições suavizaram-se-lhe. Disse:
- Gosto de ti, Indy. Lamento ter de fazer isto assim; mas
não tenho outra alternativa. Sem a pistola eu não podia contar
com a tua cooperação...
Indy desceu rapidamente a colina, passando pelos corpos de
Panos, Grigoris e Mandraki. Correu através das ruínas para o
trilho arborizado que levava à oficina. Tinha de contar a
qualquer pessoa o que tinha acontecido, mas não tinha tempo
para ir à aldeia nem a outro sítio qualquer. Como as coisas
estavam tinha até de andar bastante depressa para pegar no
equipamento e regressar dentro do prazo.
Achou a mesma corda que tinha servido para o tirar do
buraco, e que estava perfeitamente enrolada sobre a mesa.
182
Ao lado dela estava a mochila de Dorian com as suas
ferramentas de escavações.
Pela forma como estava tudo arrumado, ficou a pensar se ela
não teria já planeado tudo. E se isso assim fosse, ela também
teria planeado matar Mandraki. Aquela mulher era sem sombra de
dúvida a Rainha do Gelo: afinal uma assassina calculista e
fria, com um coração feito de um bloco de gelo.
Olhou em redor da oficina. Tudo parecia estar na mesma desde
quando ali tinha estado antes. Foi até ao cacifo de Dorian e
viu que a tabela das subidas dos vapores continuava ainda
colada na parede do fundo. A próxima seria às 3 horas e 49
minutos da tarde. Tinha tempo suficiente para tirar o Onfalo
ou lá o que era, do buraco. Muito embora, pensou, os vapores
pouco mais fossem do que um vago incómodo para si; tinha
respirado aqueles gases mefíticos já por diversas vezes e nada
tinha sentido de anormal. Era como andar por entre um
nevoeiro; nada mais.
O rei tinha desejado tão intensamente acreditar nas suas
propriedades curativas que até era possível que a dor na perna
lhe tivesse abrandado um pouco; mas Indy ficaria muito
admirado se a dor não tivesse voltado a afligi-lo.
Mas então por que é que Dorian reagia de forma tão
dramaticamente diferente do que ele e qualquer outra pessoa
aos vapores? Que é que a tornava em Pítia, e o não fazia a
mais ninguém?
Ia a fechar o cacifo quando reparou em qualquer coisa
familiar na prateleira de cima. Esticou-se até lá acim a e
apanhou o seu chicote. Talvez ela pensasse que aquilo era uma
espécíe de recordação de mais um aluno (e amante) seu. Mas
este aluno tinha uma grande vantagem sobre os outros; sabia
deles e das suas mortes.
Entalou o chicote no cinto e saiu da oficina, com a mochila
atirada sobre um ombro e a corda no outro. Mas dera um passo
fora da porta quando viu dois homens que se aproximavam a
cavalo. Estava com sorte: podia pedir-lhes para irem procurar
socorro.
Mas quando eles se aproxim aram mais as suas esperanças
desfizeram-se mais depressa do que a luz ao fim do dia.
Soldados.
Baixou a cabeça e puxou o chapéu para os olhos, continuando
a avançar rapidamente; mas quando ia a chegar ao princípio do
carreiro para as ruínas um dos homens chamou-o:
- Eh!
aí! Viste o coronel Mandraki?
Abanou a cabeça numa negativa muda e continuou a andar.
- Vamos ver nas ruínas! - disse o soldado. Indy reconheceuh-
lhe a voz: era o mesmo filho da mãe que o tinha atacado à
saída da gruta.
- Ei! Espera! Aquele não é o gajo que estávamos a guardar? -
Disse o outro.
Indy continuou a andar, na esperança que os soldados
começassem de novo a discutir. Quando o carreiro fez uma curva
e ele ficou fora da vista deles, desatou a correr, mas mal
tinha andado uma dúzia de metros quando ouviu o tropel dos
cavalos atrás dele.
183
Saltou fora do carreiro, atirou para o chão a mochila e a
corda e tirou o chicote do cinto. Quando o primeiro cavaleiro
ia a chegar perto dele, atirou uma chicotada seca, fulminante.
O chicote desenrolou-se numa larga elipse e foi enrolar-se com
duas voltas no pescoço do soldado. Com um sacão seco Indy
puxou-o para o chão.
O cavalo que vinha logo atrás encabritou-se para se desviar
do corpo no chão e atirou fora o cavaleiro.
Indy apanhou a espingarda que caíra a seus pés e apontou-a
aos soldados. Gritou:
- Em pé! Encostados àquela árvore!
Os homens obedeceram, mas quando ele se baixou para apanhar
o rolo de corda um deles atirou-se a ele. Indy num reflexo
instantâneo respon deu com um a larga coronhada que atingiu o
soldado no lado da cabeça. O homem deu dois passos a
cambalear, caiu sobre os joelhos e depois ficou estendido no
chão.
Entretanto o outro soldado meteu a mão na bota e tirou uma
navalha. Com um gesto seco a partir quase do nível da anca,
atirou-a com força. Indy baixou-se e a navalha foi cravar-se
no tronco de uma árvore a poucos centímetros da sua cabeça.
Indy olhou para a faca e depois para o soldado. O homem olhou
também para ele, aparentemente sem saber que fazer a seguir.
Depois decidindo que a retirada era a melhor estratégia,
voltou-se e fugiu a correr.
Indy, contudo, já esperava por isso. Mas o homem tinha dado
meia dúzia de passos quando o chicote cortou de novo os ares e
foi apanhá-lo pelos tornozelos. Indy puxou-o como um pescador
que sente a linha presa, mas o seu «peixe» voltou-se a ele.
Pôs-se em pé de um salto e atirou um violento soco que passou
a rasar o ombro de Indy. Este, contudo, ripostou imediatamente
e aproveitando o balanço que o outro pusera no ataque,
assentou-lhe um poderoso murro no queixo que o deitou por
terra. O homem caiu para trás com o impacte e foi bater com a
cabeça num tronco de árvore ficando inanimado.
Indy encontrou um bocado de corda no selim de uma das mon
tadas e amarrou-a em torno do peito de um deles, passou-a por
um dos grossos ramos e atou com a outra ponta o outro homem.
Quando acabou os dois homens estavam sentados um de cada lado
da árvore, de costas um para o outro e bem amarrados à árvore.
- Eu ficava aqui mais um bocado a conversar com vocês, mas
sucede que estou com pressa...
Com isso voltou a entalar o chicote no cinto, apanhou a
mochila, a corda e a espingarda e montou num dos cavalos.
Infelizmente estava muito carregado e caiu da sela. Olhou de
esguelha para os soldados meio zonzos e sacudiu o pó do fato.
- Não digam a ninguém...
184
Desta vez prendeu a mochila e a corda no bornal da sela, e
tornou a montar. Meteu o animal a galope: não tinha muito
tempo e não estava disposto a pôr Dorian à prova.
Agora, contudo, as coisas iam ser diferentes. Estava armado
e só precisava era de a apanhar desprevenida.
Refreou o cavalo ao chegar às imediações das ruínas. O
nevoeiro tinha levantado, mas as colunas do templo tapavam-Lhe
a vista da colina e não conseguia ver ninguém.
Desmontou, apanhou o equipamento e dirigiu-se o mais
depressa que podia para o templo, levando a espingarda
encostada ao lado da perna.
Quando a colina ficou à vista, parou de repente. Não estava
ali ninguém perto. O templo parecia vazio. E os corpos tinham
desaparecido.
- Que diabo...
Não sabia o que fazer. Ver a cabana. Correu para lá e parou
do lado de fora da porta. Na outra ponta estavam dois cavalos.
Ouviu vozes vindas lá de dentro.
- Achas que estes cavadores de ossos fazem a coisa aqui
mesmo no chão, Brent?
- Mmm! E se calhar é mesmo com os ossos...
- Não acredito! - murmurou Indy. Afastou a porta de pano:
- Que é que vocês estão aqui a fazer?
- Indy! Olá, lindo! - Madelaine vestia calções de montar,
botas altas e um chapéu de feltro com uma peninha de faisão.
- Jones, Jones! Olhem para ele! - Brent saiu da cabana atrás
dele a cofiar o bigodinho. - Todo aperaltado para arqueologia!
Corda, mochila e até uma espingarda; e sujo, também! Mesmo
autêntico!
- Vocês podem falar mais baixo? - Indy olhou para a colina
mas não tinha havido qualquer mudança. Ninguém à vista.
- Vamos partir para Atenas esta manhã e decidimos vir a
cavalo até aqui para nos despedirmos... - disse Madelaine na
sua voz esganiçada. - Sabes, o rei já se foi embora, por isso
agora é tudo muito chato...
- Chato ainda é pouco! - concordou Brent, ajustando o lenço
que trazia ao pescoço no fato de safari.
- Ouçam lá: vocês viram aqui alguém?
- Nem vivalma! - disse Madelaine. - E já nem pensávamos ver-
te a ti. Olha lá: então que coisas excitantes é que tens
andado a fazer? Não te vemos desde a recepção ao rei...
- Pouca coisa... - disse Indy secamente.
- Onde é que está o Shannon? Não o vi desde que cá
cheguei...
- Anda por aí...
Tinha de fazer qualquer coisa. Precisava deles para lhe
trazerem socorro, mas o mais provável é que trouxessem
soldados, e ele duvidava que pudesse confiar neles. Meteu a
mão no bolso do casaco, e descobriu lá uma cabeça de alho. E
de repente teve uma ideia:
185
- Ouçam: vocês ainda vão à aldeia antes de se irem embora?
- Com certeza que não vamos a cavalo até Atenas, disso podes
ter a certeza...
- Podem fazer-me um favor?
- Acho que sim... - disse Madelaine. - Isto é, se não
demorar muito e se Brent se não importar...
- Passem pelo hotel e digam a Nikos, o miúdo da portaria,
que eu vou descer outra vez à fenda e que preciso do meu móli.
- Do teu quê...?
- Ele sabe o que é.
- É claro, móli! É uma coisa de arqueologia! - disse Brent
em ar de conhecedor. - Uma das ferramentas de escavação, ou
coisa parecida. Para fazer buracos, acho eu. É isso, não é
Jones?
- Nem mais. Mas não demorem: preciso disso com muita
urgência!
- Queres que voltemos cá a trazer-ta? - perguntou Madelaine.
- Não; Nikos pode tratar disso. Agora tenho de ir. Boa
viagem para vocês!
- Até Paris, Indy! - Ela beijou-o ao de leve no rosto e
depois enfiou o braço no de Brent e saíram da cabana, em
direcção aos cavalos.
Indy pegou na espingarda e espreitou para a colina. Dorian
devia ter visto Madelaine e Brent, e decidira esconder-se.
Afastou-se da cabana, atravessou a Via Sagrada e parou junto a
um dos pilares.
Encostou-Lhe a espingarda e deu uns passos para o largo.
- Dorian, onde estás tu?
- Mesmo atrás de ti!
Indy deu um salto ao ouvir-lhe a voz. Quando se voltou ela
es tava de péjunto ao pilar, uma mão a apontar-lhe a pistola e
outra a segurar a espingarda.
- Surpresa!
Devia ter estado a espreitá-lo do outro lado das colunas,
mas calculou que estaria longe de mais para ter ouvido a
conversa.
- Que é que disseste aos teus amigos?
- Que estava ocupado, e desejei-lhes boa viagem para
Atenas...
Ela olhou para a estrada:
- E por que é que eles vão para a aldeia?
- Para irem buscar as malas e uma carruagem, acho eu. Só
vieram aqui a cavalo para se despedirem...
Ela assentiu lentamente a olhá-lo com atenção.
- estás do meu lado, não estás?
186
Indy olhou para a espingarda e depois deu a Dorian o olhar
mais sincero que conseguiu arranjar:
- Claro que estou! Se tu não nos tivesses salvo, a esta hora
estávamos mortos!
- Se os teus encantadores amigos aparecem aí com soldados,
estamos todos tramados, bem o sabes...
- Não trazem! E não precisas de me estar a apontar essa
coisa, também...
Ela apontou com a cabeça a espingarda:
- Eu não sou parva, Indy. Onde é que arranjaste esta
espingarda?
Indy contou-lhe o encontro com os soldados. E concluiu:
- Se eu os não tivesse detido, estavam agora aqui à procura
do Mandraki...
- Bom, a verdade é que o não encontravam aqui...
Ficou sem saber o que é que ela queria dizer com aquilo.
- Onde estão o Shannon e o Conrad? - perguntou quando se
dirigiam para a colina.
- Jack e Ted? - ela olhou para os lados da fenda. - Vamos
procurá-los!
Então agora já eram Jack e Ted. "É bom que isto não seja uma
gracinha macabra...", pensou. Se eles estivessem mortos ele
havia de... Não sabia ao certo que fazia, mas não seria coisa
bonita de se ver.
- Onde é que estão os corpos?
- Foram-se! - disse ela ligeiramente.
"Foram-se,", pensou ele. Foram-se, como Richard Farnsworth e
sabe Deus quantos mais namorados antes dele. Ficou à espera
que ela se explicasse, quando iam a subir a colina.
- Viste para aí o Alex? - perguntou ela ao chegarem lá
acima.
- O quê?
- O Alex! Viste-lo?
Ela estava doida com certeza.
- Dorian. Lembra-te: tu mataste o Alex...
- Não, não matei! - ela sorriu e voltou-se para a fenda:
- Tudo bem, rapaziada. Já se foram todos embora e o Indy
está de volta.
Jesus! O estômago deu-lhe uma volta. Ela devia ter-lhes dado
um tiro a cada um e atirado os corpos para o buraco. Estava a
negar tudo, até o facto de ter morto Mandraki. Devia ser dos
vapores. Fosse como fosse deviam tê-la afectado a cabeça e ela
não conseguia deixar de dizer exactamente aquilo que estava a
pensar...
- Que é que os vapores te fizeram, Dorian? Não percebo...
Ela olhou directamente nos olhos e riu-se.
- Queres dizer, quando eu era Pítia?
não sabes, pois não?
não sabes o que é que eu senti nos vapores Indy...
187
- Não, realmente não sei...
Ela deu um passo para ele. "Cuidado. Olha bem para ela...",
pensou.
- Senti o mesmo que tu! - disse ela.
Indy franziu a testa e abanou a cabeça:
- Que queres dizer com isso? Não compreendo...
- Não havia transe nenhum, Indy! - disse ela secamente. - Eu
estava a fingir aquilo tudo...
- Mas como é possível? Tu estavas a balbuciar coisas sem
nexo e Panos estava a interpretar...
Dorian abanou a cabeça:
- Panos queria tanto acreditar naquilo tudo que até pensou
que estava a interpretar. Mas estava apenas a seguir deixas
que eu lhe dera. Eu disse-lhe que o rei estava em perigo na
véspera do dia em que fingi ter o transe. Ele sabia que era
isso que a Pítia lhe queria dizer...
Jesus, ela era ainda mais manhosa do que ele pensara!
- Onde é que eles estão, Dorian? - perguntou rispidamente.
Teve vontade de a sacudir pelos ombros.
- Onde é que está o Jack? e o Ted?
Ela guiou-o para dar a volta até ao outro lado da fenda.
- Além!
Afastou-se dela, rodeando a fenda para evitar ficar de
costas para ela. O monte do outro lado era mais um pináculo,
estreito no topo e quase a prumo aos lados, a fenda num lado e
a encosta a prumo no outro.
Espreitou para lá e por momentos nada viu. Depois lá
descobriu na orla mais distante, viu-os aos dois, seis metros
mais abaixo num estreito ressalto, de cócoras encostados à
rocha suja.
- Vocês estão bem?
- Óptimos! - gritou Shannon.
- Puxa-os cá para cima com a corda! - ordenou Dorian. E
despacha-te que temos coisas a fazer...
Ia para dizer que os podia puxar com o chicote, mas
deteve-se a tempo. Até aí ela ainda não tinha reparado nele e
era melhor que assim continuasse.
Puxou primeiro Shannon enquanto Conrad o ajudava empurrando
o companheiro para cima.
- Fiquei preocupado convosco! - disse ele quando o agarrou
pelo braço. - Porque é que vocês não responderam?
Voltou a atirar a corda para baixo e Conrad rapidamente
escalou a parede rochosa.
- Ela sabia onde estávamos... - disse Shannon com
naturalidade. - Obrigou-nos a atirar os corpos para o buraco e
depois saltarmos para aqui...
188
- Só dois corpos! - disse Conrad, sacudindo a terra das
mãos. - O Mandraki ainda está vivo. Ela deixou-o ir embora...
- O quê?
- Eu disse-te que o não tinha morto! - disse Dorian do outro
lado da fenda. - Quando o vi levantar-se tão corajosamente e
ir-se embora a coxear, não tive coragem de acabar com ele.
Deixei-o ir...
- E sabes uma coisa? - disse Shannon. - Não havia nenhum
sangue no sítio onde ele estava caído. Explica lá isso...
Indy não foi capaz. Mas teve a funesta sensação de que ainda
iriam tornar a ver o coronel Mandraki...
189
CAPÍTULO XXII
O ONFALO
Indy desceu para a escuridão, com uma lanterna numa das
mãos e a corda que estava amarrada à cintura na outra.
Apesar do que tinha acontecido da outra vez que descera
aquele buraco aparentemente sem fundo, sentia-se estranhamente
seguro. Desta vez sabia que estava em boas mãos: Shannon e
Conrad haviam de fazer tudo quanto pudessem para que ele
continuasse vivo.
Foram-no descendo lenta e firmemente, e não demorou muito
até chegar ao sítio de onde a placa fora arrancada da parede.
Não muito mais longe, agora. Estendeu a lanterna à procura da
saliência. Um bocadinho mais; não muito...
Estendeu o braço o mais que podia e espreitou para baixo. A
luz da lanterna saltitou nas paredes; e logo a seguir viu-a:
como que uma estreita prateleira a sair da parede. Mas havia
lá mais qualquer coisa, também. Qualquer coisa com que não
contava.
- Meu Deus!
Os pés assentaram-lhe na saliência: a corda ficou bamba.
Dorian lá em cima gritou para ele; a voz ecoou
fantasmagoricamente pelas paredes.
Deu dois esticões na corda para lhes dizer que estava lá, e
durante todo esse tempo não conseguiu tirar os olhos da
espectral visão do corpo de Panos. Estava caído em ângulo
sobre a plataforma de pedra com uma das pernas penduradas do
lado de fora da berma. Tinha a cabeça voltada para baixo e o
braço direito dobrado por cima do cone negro. Na morte, Panos
tinha encontrado o Onfalo.
Indy aproximou-se, e baixou-se sobre um joelho.
Cuidadosamente levantou o pulso do morto de cima da pedra, mas
quando o fez, o corpo escorregou um bocado mais para a berma.
Ficou por momentos a oscilar e depois Indy deixou-o ir. O
corpo tombou e desapareceu nas entranhas de Delfos.
"Um lugar apropriado para servir de campa ao mestre da Ordem
de Pítia", pensou. E assim ficava junto a seu filho.
190
Olhou para aquele profundo manto de escuridão por um momento
mais. Não tinha quaisquer motivos para sentir a falta de
nenhum daqueles homens: tinham-lhe dado mais desgostos do que
qualquer outra pessoa que algum a vez se tivesse atravessado
no seu caminho; e, no entanto, as suas mortes ainda o
afectavam, quanto mais não fosse por lhe lembrarem que a morte
é a sequência da vida, e que ele era tão vulnerável como
qualquer outra pessoa. Talvez mais. Talvez fosse ele mesmo a
pessoa que iria a seguir.
Sacudiu esse incómodo pensamento e voltou a atenção para o
Onfalo. Passou a mão pela sua áspera superfície, ficando a
pensar quanto estaria ainda embebido na parede. Tirou do ombro
a mochila, pegou numa colher de pedreiro e começou a raspar a
pedra e os detritos que o seguravam à parede. Alguns minutos
depois viu que tinha feito poucos ou nenhuns progressos, e
percebeu que tinha que adoptar uma acção mais definida. Pousou
a colher de pedreiro e pegou num espigão com que começou a
atacar a parede. Durante a meia hora seguinte foi partindo a
rocha e esfarelando o lixo acumulado, abrindo um buraco em
torno da pedra.
Por fim agarrou-a com ambas as mãos e experimentou a ver até
que ponto ela estava ainda firmemente implantada na rocha.Se
se tratasse de uma frágil peça de cerâmica, sabia que aquele
procedimento era uma loucura, mas aquele artefacto parecia ser
mais sólido do que um bloco de motor de um modelo T.
O cone moveu-se ligeiramente quando ele o forçou para um
lado e para o outro. Puxou com mais força mas as mãos
escorregaram-lhe e com o balanço caiu para trás.
Instintivamente rolou sobre o estômago e uma das pernas
escorregou-lhe para a berma. Esbracejou a tentar agarrar o ar,
com os olhos fixos na profundeza do abismo.
"Cuidado, Indy, cuidado!", disse a si mesmo. Desviou-se da
berma e voltou ao trabalho, a martelar a rocha em torno da
pedra.
- Indy! Tudo bem? - gritou Dorian.
Claro. Tudo numa maravilha. Não podia estar melhor. Deu dois
esticões à corda para lhe dizer que ainda a não tinha.
Escavou mais, puxou e torceu a pedra, voltou a escavar e
voltou a puxar. Tinha a certeza de que estava quase solta.
Firmou os pés na parede, agarrou o cone com as duas mãos e
puxou com quanta força tinha.
As mãos escorregaram-lhe e ele caiu de costas.
Levantou-se sobre um cotovelo e olhou para a pedra com
raiva. E com raiva deu-lhe uma violenta pancada com o tacão da
bota. Era tudo o que faltava: a pedra soltou-se. Piscou os
olhos a afastar a poeirada e os lábios abriram-se-lhe num
largo sorriso quando ergueu o Onfalo do monte de cascalho que
ali se juntara.
Pousou-o na saliência e limpou-o do pó. Tinha cerca de
quarenta e cinco centímetros de comprimento e cerca de quinze
a dezassete centímetros de diâmetro na base, estreitando-se
depois gradualmente até um módulo arredondado.
191
Era pesado como ferro.
O procedimento correcto, como Dorian lhe tinha ensinado
exigia que puxasse da fita métrica e do caderno de notas que
tinha na mochila e anotasse as medidas exactas e a descrição e
os pormenores de remoção. No entanto, considerando as
condições em que estava a trabalhar, isso parecia um bocado
ridículo. Não pôde deixar de rir de tal ironia: A professora
estava armada e havia uma forte possibilidade de quando ele
chegasse lá cima à superfície com o achado, ela o matasse. E
isso, tinha ele a certeza, não era com certeza o procedimento
correcto...
Puxou a corda uma só vez. Gritou:
- Já o tenho! Puxem!
Pousou a lanterna na saliência e apertou o cone contra o
peito, agarrando a corda com força. Sentiu-se a ser puxado e
tentou descontrair-se. Não queria pensar no que iria acontecer
quando chegasse lá acima: não podia fazer nada a tal respeito.
Pelo menos agora. E se calhar nem mesmo nessa altura.
O Onfalo parecia estranhamente quente. A sensação
alastrou-se pelo peito e o calor invadiu-lhe o corpo todo com
uma estranha sonolência. Fechou os olhos, sentiu-se vaguear...
Era claro como se fosse dia. Estava a olhar para uma águia,
a sua águia, e ela estava pousada na beira de um ninho.
Conseguia ver ovos, lá dentro do ninho. Ovos prateados. Estava
a sonhar e ao mesmo tempo estava acordado. Sentia-se estático,
melhor do que nunca se tinha sentido antes. Mas... o que é que
estava a acontecer? Que é que ele estava a ver? A águia voltou
a cabeça como que para melhor o ver a ele, ou para ver se ele
lhe estava a prestar atenção. E com uma pancada seca do bico,
a ave partiu um dos ovos e A ave e o ninho desapareceram e
Indy viu-se com o rei numa sala cheia de livros. Uma
biblioteca real. O rei vestia uma túnica de cetim azul e
chinelos. Estranhamente soube de repente que o rei iria
sobreviver ao atentado de Mandraki à sua vida, mas soube
também que o rei seria em breve exilado. Era como se tudo isso
tivesse acontecido.
Reparou que o rei tinha qualquer coisa nas mãos: era o
Onfalo e estava a oferecê-lo a Indy. Depois, tão depressa como
o rei tinha aparecido assim desapareceu e Indy viu o Onfalo
num museu.
Junto a ele Indy viu o curador, que reconheceu como M.
Brody, um velho amigo seu e que fora por vezes como que o
substituto de seu pai. Sorria orgulhoso.
Depois a cena mudou e a sensação de contentamento que tinha
tido transformou-se numa onda de choque: a vitrina que
guardava a relíquia estava estilh açada: o Onfalo tinha
desaparecido. Ouviu a voz de Brody: "Roubado! Foi roubado!"
192
Mas a afronta que sentiu esvaiu-se rapidamente quando a
águia tornou a aparecer na sua frente, pousada no ninho.
Inclinou outra vez a cabeça como tinha feito antes, e bateu
com o bico noutro ovo.
Indy estava a falar com Dorian. Ela estava excitada a
dizer-Lhe que ele tinha de fazer qualquer coisa. Tinha de agir
depressa. Mas... o que é que tinha de fazer? E então Mandraki
estava na sua frente. Levantou a pistola, apontou-a ao coração
de Indy. E disparou.
Outra vez a águia. Mais um ovo partido e desta vez as
imagens surgiram-lhe rápidas e duras. Vislumbrou um homem com
um fato aos quadrados, de cachimbo e bigode num escritório
cheio de livros. Falou num tom de voz que demonstrava
autoridade:
- Não misture a mitologia com a arqueologia, porque se o
fizeres a tua tese é reprovada. São duas disciplinas
diferentes. Se queres a Grécia como a zona focal do teu
trabalho, aceita o desafio da Linear B. Tens aí o fundamento
perfeito para lidar com o problema da língua...
Depois o homem dissolveu-se. Quando se voltou a materializar
era Mandraki. Levantou a pistola e disparou.
Ovos prateados. Restavam dois. O bico da águia bateu
violentamente num deles, e quando se estilhaçou, Indy viu-se a
si próprio a falar diante de uma sala de aula. Não conseguia
ouvir as suas próprias palavras mas sabia que estava a dar uma
aula de arqueologia... E de repente a sala de aula
desapareceu: ele estava agora no centro de um círculo de
enormes pedras. Stonehenge. Abraçava uma mulher. Não Lhe
conseguia ver o rosto, mas sabia que estava mais ligado a ela
do que a qualquer outra mulher no mundo. E depois a mulher
desapareceu. Outra vez Mandraki. A apontar. A disparar. O
último ovo. O olho negro da águia fitava-o. Depois bateu ao de
leve no ovo. Abriu-se uma fenda a todo o comprimento da casca,
a casca abriu-se em duas. Indy tornou a ver-se a si próprio,
agora mais velho, no auge da sua carreira. Tinha um aspecto
mais decidido; mais aventureiro do que estudioso. A visão
piscou e desapareceu e foi substituída por uma enfiada de
imagens. Selvas, Desertos. Ruínas. Cidades perdidas. Relíquias
de poder. E agora mais horrível: um fosso de víboras. Uma
enorme imagem de uma negra, quebrada. Uma mão a empunhar uma
adaga mas outra a oferecer auxílio. Uma voz sobrepôs-se às
imagens: aventuras que excedem a imaginação, mas não sem
grandes perigos. Por fim um encontro com o pai. "Aquilo que
ele procura, tu encontrarás!", as cenas que iam mudando
desapareceram de repente quando a luz crua o inundou. Ouviu
vozes. E depois sentiu outra vez as mãos.
193
Desta vez a levantarem-no do buraco. Piscou os olhos a
defender-se da luz intensa. Estava de joelhos ainda abraçado
ao cone negro.
- Então aí está ele... - disse Dorian. - O Onfalo!
Indy sentiu-se atordoado, oprimido, incapaz de falar. Piscou
os olhos aguados, e viu Dorian pousar a espingarda.
Conservando ainda o revólver, tirou-lhe o Onfalo das mãos. Era
mais pesado do que esperava e apertou-o ao peito.
Indy sentiu que amente se lhe aclarava. O sonho, afantasia
ou fosse lá o que fosse que lhe tinha acontecido, passara.
Tentou concentrar-se naquilo que era real, ali e agora.
Shannon e Conrad estavam debruçados sobre ele. Ajudaram-no a
tirar a mochila.
De repente susteve a respiração e um ar de espanto e choque
passou-lhe pelo rosto. O revólver balançou meio solto na sua
mão, a poucos centímetros da cabeça de Indy. Ficou imóvel, as
feições como que paralisadas num instante de surpresa.
Num gesto rápido e inesperado, Shannon tirou-lhe o revólver
da mão; Conrad deitou a mão à espingarda. Dorian nem sequer
fez menção de reagir. A expressão no seu rosto mudou
lentamente para um ar de espectral assombro, e depois tombou
no chão, ainda agarrada à pedra negra que abraçava.
- Que foi que aconteceu? - perguntou Shannon.
- Não sei... - respondeu Indy ainda meio confuso por tudo
quanto se tinha passado lá nas profundezas. - Vamos levá-la
para a cabana.
- Vou meter a pedra na mochila - disse Shannon, ao mesmo
tempo que a tentava soltar das mãos de Dorian. Esta, contudo,
contorceu-se violentamente, o rosto em convulsão e começou a
gritar.
- Deixa-a levar a pedra! - disse Conrad.
Shannon levantou-a pelos cotovelos e Indy pegou-lhe pelos
pés. Ela, contudo, esperneava e torcia-se, entre guturais
gritos abafados e gemidos, e a marcha era por isso muito
lenta.
Quando saíram do templo e se dirigiam para o carreiro que
levava à oficina, Indy parou subitamente. Olhando para os
outros disse:
- Esperem um momento: Não me parece que a oficina seja muito
boa ideia. Ela é difícil de carregar e nós não temos o dia
todo. Além disso, da última vez encontrei por ali alguns
soldados.
Rapidamente contou-lhes o encontro que tivera. E concluiu:
- Assim que alguém os encontrar, vamos ter companhia, pela
certa...
- Tens razão - disse Conrad. -Nós temos é que sair daqui.
Talvez fosse melhor deixá-la ficar...
Indy abanou a cabeça:
- Não. Vamos levá-la para a cabana, e depois resolvemos o
que fazer.
194
Mal tinham acabado de resolver isso quando ouviram o ruído
de um cavalo a galope a dirigir-se para as ruínas.
- Depressa! - sibilou Indy.
Carregaram Dorian para dentro da cabana, deitando-a no chão.
Indy baixou-se imediatamente ficando apoiado nas mãos e
nosjoelhos e foi espreitar pelo buraco meio chamuscado da
parede do fundo.
- Toma isto! - disse-lhe Shannon, entregando-lhe o revólver
de Dorian.
Indy só conseguia ver umas pernas. Era alguém que corria
para ali, para a cabana. Ouviu-se uma voz gritar:
- Indy! Onde é que estás tu?
- Meu Deus, é o Nikos! - disse Indy aliviado. E logo a
seguir gritou:
- Aqui, Nikos!
- Recebi o teu recado; que foi que aconteceu? - disse o
rapaz, arfando de cansaço.
- Muita coisa! - respondeu Indy.
Nikos susteve pormomentos a respiração à vista de Dorian que
continuava deitada no chão, a gemer e a contorcer o rosto.
Murmurou:
- Pítia!
- Não sei quem diabo ela é. Sei é que Panos e Grigoris estão
mortos...
Contou-Lhe o que se tinha passado na fenda.
- E o que é que tu vais fazer? Se o coronel Mandraki está
vivo, vai com certeza voltar à procura dela e de todos
vocês...
- Temos de sair daqui e depressa! - disse Conrad.
- Lá nisso tens tu razão! - corroborou Shannon. - Começo a
ter mesmo saudades de Paris...
- Nikos, que possibilidades é que tens de nos arranjar uma
carruagem? - perguntou Indy.
- Uma carruagem? E por que não um automóvel?
- Tens algum?
- Tem o coronel Mandraki! Deixou a ch ave dele na recepção
do hotel; e eu até sei guiá-lo, sabias?
- Não sei se isso de lhe roubarmos o carro... - disse Indy
como se pensasse em voz alta.
- Por que não? - perguntou Shannon. - Se nós o tivermos não
o tem ele...
- Mas Mandraki fica a saber o que é que tem de procurar...
- E depois? - respondeu Shannon. - Vamos até Atenas,
largamos o carro em qualquer ruela e saímos do país o mais
depressa que pudermos. Além disso ele levou um tiro, não se
esqueçam. Não deve estar em grande forma para andar por aí às
correrias...
195
Conrad fez um gesto de cabeça a indicar Dorian que parecia
agora adormecida:
- E ela?
- Deixa-a ficar! - disse Shannon. - Deixa que o Mandraki
tome conta dela. Bem merece aquilo que lhe acontecer...
Indy pensou por momentos:
- Nikos, tu és capaz de trazer aqui o carro sem que ninguém
te veja?
- Toda a gente me há-de ver! - respondeu orgulhosamente o
rapaz. - Para verem que eu sei guiar!
Indy assentiu:
- Pois. Era o que eu pensava. - Voltou-se para Conrad:
- Ouçam: Por que é que vocês e eu não nos servimos das
fardas daqueles soldados que eu amarrei? Vamos a cavalo até à
aldeia e depois pegamos no carro.
podes ficar com a Dorian.
Nós vimos depois apanhar-te...
- Toda a gente na aldeia te conhece de vista - protestou
Conrad. - Não vais dar um soldado muito convincente. Vamos
fazer isto de outra maneira: Tu ficas aqui; o Jack e eu vamos
buscar o carro...
- Boa ideia! - concordou Shannon. - Além disso, está-me cá a
parecer que parece que tu atrais sarilhos, Indy...
- Pronto, pronto!
- Eu vou preparar o carro! - disse Nikos, saindo da cabana a
correr.
Conrad pegou na espingarda que tinha deixado encostada à
parede, e Indy entregoú o revólver a Shannon. Nesse momento
Dorian soltou um gemido mais forte e rolou para o lado,
deixando que o Onfalo escorregasse para o chão. Sentou-se e
ficou por momentos a esfregar a cara.
- Achas que ficas bem com ela? - perguntou Conrad.
- Muito bem...
Quando eles saíram, Indy ajoelhou-se junto a Dorian e enfiou
o Onfalo na mochila.
Ela olhava-o atentamente sem dizer palavra.
- Que foi que aconteceu? - perguntou-lhe ele.
Dorian abriu a boca, mas a princípio não pronunciou qualquer
palavra. Por fim soltou:
- Eu... pensei que estava morta...
- Porquê?
- Não sei. Estava a ficar sufocada por uma cobra gigantesca,
Umapitão. Estava toda enrolada em mim; era horrível. Conseguia
até sentir-lhe a respiração fria e acre!
Apertou o corpo com os braços num tremor. O cabelo negro
caía-lhe sobre um dos lados da face; estava sentada como uma
criança, com uma perna dobrada debaixo do corpo e a outra
estendida.
196
197
- Parecia tudo tão verdadeiro...
O seu aspecto não parecia nem de longe nem o da austera
professora, nem o de uma assassina. Era quase duma criança
abandonada, confusa. Indy não queria sentir pena dela, mas não
podia deixar de a sentir.
- Por que é que tu fingiste aqueles transes, Dorian?
- Não percebes, Indy?
não reconheces o poder da Pítia?
- Um momento! Tu mesma disseste que não havia Pítia; que
tinhas estado a fingir...
- Eu não disse que não havia Pítia. Pergunta ao rei; ele
viu, e tenho a certeza de que acredita...
- E agora que Panos está morto, o teu sacerdote
desapareceu...
Ela inclinou-se para diante e um sorriso transfigurado
fixou-se de novo no olhar dele, a chamá-lo, a atraí-lo.
- Panos não estava destinado a ser o meu sacerdote; não era
o que devia ser. És tu Indy. És tu que deves ser o meu
sacerdote... e o meu amante...
Indy fez um esforço para se afastar dela:
- Não, Dorian. Acho que não...
- Tu pensas que eu não posso ser a Pítia, que ninguém me
acreditará? Tu próprio viste que as leituras eram quase sempre
ambíguas, interpretadas de uma maneira se certa coisa
acontecesse e de outra se acontecesse outra coisa. É uma
técnica: eu ensino-te. Inventaremos a nossa própria maneira de
comunicarmos por gestos e por palavras-chave...
Pegou na mão dele e insistiu:
- Pensa nisso: podemos ser as duas pessoas mais poderosas e
mais conhecidas do mundo inteiro. Já pensaste nisso?
Indy retirou a mão:
- Claro...
Ela pôs-se em pé e aproximou-se dele:
- não me desejas, Indy? Eu serei tua; e vais ver que vale a
pena: prometo. Pensa nisso...
Chegava até ele o seu perfume almiscarado, e sentia de novo
a atracção dos seus olhos. Deu outro passo atrás. Disse:
- Mesmo que eu estivesse interessado, Dorian, há aqui um
importante assunto: o da confiança. Tu trouxeste-me aqui com a
intenção de te servires de mim como bode expiatório nesse teu
louco plano de assassinar o rei. E arranjaste uma história...
- Não, não, esse plano não foi feito por mim. Isso foi obra
de Alex; e o mesmo se passou com o Richard Farnsworth. Foi ele
que o matou, não fui eu!
Indy cerrou as mãos em punhos apertados. A ira
avermelhou-lhe o rosto. Quase gritou:
- Mas tu fazias parte dos planos dele; não deste um passo
para o deter...
197
- Porque não podia! Ele obrigava-me! E de resto tu sabes que
eu acabei por ir contra ele: dei-lhe um tiro, por amor de
Deus! Ele devia ter morrido; o que é que posso fazer mais para
te provar as minhas intenções?
- Tu mataste o irmão do Farnsworth. Ele vinha no comboio
para Brindisi. Tu mataste-o com um dos espetos da tua
ferramenta, e depois atiraste-o do comboio abaixo, lá na
última carruagem enquanto eu estava a comer o gelado...
- Não! Não foi assim que isso sucedeu; ele tentou matar-me:
eu tinha apenas de me defender...
Ela tinha resposta para tudo, e as respostas que dava
pareciam razoáveis: era uma espécie de dom que ela tinha.
- E há uma coisa que eu ainda não consigo entender. Se tu
estavas apenas a fingir os transes no vapor, por que é que
fingiste aquele último ataque quando me tiraste o Onfalo das
mãos? Para que foi isso?
- Não. Isso não foi fingimento nenhum. Não sei o que
aconteceu, nem quero tornar a pensar nisso...
Indy ficou por momentos a pensar. Agora que ela tinha
admitido a verdade, já ele não podia tão facilmente afastar da
ideia a sua própria experiência com o Onfalo como se se
tratasse apenas de um sonho inconsequente.
Nesse momento ouviu-se a buzina de um carro. Indy atirou a
mochila para o ombro. Voltou-se para ela:
- Adeus.
- Tu... tu levas o Onfalo?
- Levo. Vou tratar de arranjar para que ele fique num museu.
- Leva-me contigo também. Agora não posso ficar aqui...
- Não.
- Por favor... - agarrou-lhe no braço. - Não sabes a espécie
de coisas que o Alex me pode fazer...
O carro tornou a buzinar. Indy disse:
- Está bem, mas com uma condição. Levo-te ao palácio do rei
e tu vais-Lhe confessar a tua parte no plano do assassínio e
desmascarar o Mandraki.
- Está bem: eu farei isso. Tudo o que disseres...
Saíram da cabana e ficaram os dois a olhar para o templo de
Apolo. Com a mão livre, Indy procurou no bolso e tirou o
relógio.
- Faltam oito minutos para as 4 horas! - disse. - Os vapores
já deviam ter começado a subir há três minutos, e nem sinais
deles...
Dorian olhou-o longamente. Depois disse quase num murmúrio:
- Pois. Quebrou-se o ritmo...
198
CAPÍTULO XXIII
A FUGA DE DELFOS
Do lado de fora das ruínas estava estacionado um
brilhante e luzidio Pierce Arrow, e por momentos Indy pensou
que devia pertencer ao rei. Mas logo a seguir viu Conrad atrás
do volante.
- Esse é que é o carro de Mandraki?
- Um deles... - disse Dorian quando corriam para o carro.
Lá na América podia comprar-se uma carripana utilitária aí
por duzentos e oitenta dólares, ou cinco dólares por semana, a
prestações, mas poucas pessoas podiam dar-se ao luxo de
comprar um Pierce Arrow de luxo; e com certeza que na Grécia o
seu preço devia ser ainda muito mais caro. Comentou:
- Ele deve ter dinheiro...
- Imenso.
- Vamos... - disse Conrad do seu lugar, olhando para Dorian
meio desconfiado.
- Onde é que estão os vossos uniformes?
- Os soldados já se tinham ido embora... - Conrad olhou para
Shannon. - Quase que nos não conseguíamos safar. Jack disse ao
Nikos para voltar ao hotel para lhe trazer a trompete, e
enquanto esperávamos mais de metade da aldeia veio até ali
para ver o carro. Acho que o boato se espalhou rapidamente...
Indy olhou pela estrada para os lados da aldeia:
- Vamos cavar já daqui...
- O que é que ela está aqui a fazer? - perguntou Shannon.
- Vou levá-la ao rei.
Shannon não pôde deixar de sorrir:
- Tu vais... o quê?
- Ela vai confessar.
- Ah, pois claro!
- Bom, eu não podia deixá-la aqui! Mandraki não hesitaria em
matá-la, se estiver ainda vivo...
- Eu ouvi dois soldados a falarem - disse Nikos lá do banco
de trás. - O coronel está bem: a bala bateu-lhe no cinturão...
- Parabéns, foi um belo tiro! - disse Indy a Dorian. -
Nikos, o melhor é saíres; nós temos de seguir...
199
- Eu quero ir a Atenas com vocês! - disse o rapaz com ar
orgulhoso. - O meu pai deu-me licença...
- E ele sabia como é que tu ias?
- Bom, lá isso... não.
- É que pode ser perigoso...
- Achas que sim? - perguntou o rapaz esperançado.
Subitamente surgiu na estrada um camião militar vindo dos
lados da aldeia. Conrad ligou o motor e carregou a fundo no
acelerador. O carro tossiu uma ou duas vezes sem pegar.
- Está afogado! - gritou Shannon.
Conrad experimentou outra vez.
O camião aproximava-se. Indy abriu a porta de trás e agarrou
Dorian pelo braço:
- Entra! Depressa!
O motor rugiu a funcionar em pleno. Mas Dorian apanhou-o de
surpresa. Torceu o braço a soltar-se e correu para o camião.
- Dorian! - gritou ele, saltando do carro, mas a mochila
prendeu-se-lhe na porta. Puxou a tentar soltá-la mas era tarde
de mais.
Ela corria já para o camião, agitando os braços e gritando
por Mandraki.
O camião travou.
"Está morta...", pensou Indy.
- Entra, por amor de Deus! - gritou Conrad pondo o carro em
marcha. Indy deu uma corrida e saltou para o estribo. Olhou
para trás e viu Mandraki a abraçar Dorian no meio da estrada.
- Que diabo...? - exclamou.
Uma dúzia de soldados saltaram do camião pela traseira e
abriram fogo. Conrad carregou no acelerador, enquanto Shannon
respondia ao fogo.
Indy abriu a porta do carro e ia a deslizar para o banco de
trás quando sentiu que qualquer coisa lhe batia violentamente
entre as espáduas. Caiu batendo com o rosto no banco.
Shannon deu um grito de alegria selvagem por cima do barulho
do potente motor:
- Acertei-lhe nas rodas da frente!
Indy arfava tentando encher os pulmões de ar. Disse:
- Foi bom. Mas parece-me que eles me apanharam...
Nikos ajudou-o a tirar a mochila. Indy esperava sentir mais
forte o aguilhão da dor, e o encharcado do sangue.
- Mas tu não foste atingido! - disse Nikos.
- O quê? - perguntou espantado voltando-se a olhar para
Nikos que tinha a mochila erguida no braço.
- Vê! Aqui está o buraco da bala, mas só na parte de trás. A
bala bateu nessa coisa que tu achaste; foi ela que te
salvou...
200
Indy abriu a mochila e olhou incrédulo para o Onfalo. Ainda
pensou em tirá-lo para fora, a ver se descobria a marca da
bala , mas depois reconsiderou.
- Estás bem? - perguntou Shannon por cima do ombro enquanto
o carro deslizava velozmente montanha abaixo.
- Óptimo!
- Tens tanta sorte como o coronel Mandraki... - disse Nikos.
Shannon voltou-se para trás:
- Eu não entendo aquele Mandraki. A mulher dá-lhe um tiro, e
ele recebe-a de braços abertos, como se ela lhe tivesse salvo
a vida...
Indy abanou a cabeça:
- Também não percebo...
O telegrafista nas traseiras do camião acabou de transmitir
a mensagem. Esperou até receber a confirmação e depois fez um
aceno a Mandraki:
- Nunca irão chegar a Atenas... - disse Mandraki sorrindo
para Dorian, satisfeito consigo próprio.
- Óptimo! - disse ela. - Mas não podemos ocultar as suas
mortes. Muitas testemunhas...
Mandraki franziu a testa:
- Nós também não podemos admitir que os matamos; o rei iria
servir-se disso contra mim...
- Calma, Alex. Não vai haver problema. Afinal eles roubaram
o carro de um oficial e um achado arqueológico que é um
tesouro nacional. E foram mortos numa troca de tiros quando
tentavam fugir. Nada mais simples...
- És uma mulher bastante complexa, Dorian. Mas as tuas
simples soluções agradam-me. Agora diz-me lá: quem é que
disparou contra mim?
Era já crepúsculo quando eles desceram as colinas nos
arredores da capital. As luzes de Atenas piscavam lá em baixo.
Indy estava cansado, sequioso e com fome, mas mais do que
tudo, ansioso por chegar ao palácio presidencial. Era o único
lugar onde sentia que podia ficar seguro durante a noite.
Isso, claro, se conseguisse passar pelo portão de entrada...
- Se queres que te diga, acho que devíamos dispensar a
visita ao palácio e irmos para o Pireu e tomar o primeiro
barco que saísse... - disse Shannon. - Com um pouco de sorte
podíamos estar em Paris amanhã à noite.
- Isso não era um pouco de sorte; era um pouco de milagre! -
Interveio Conrad. - Mas era realmente boa ideia safarmo-nos
daqui se pudermos...
201
Indy abanou a cabeça:
- Não; eles vão estar à nossa espera no cais...
- Mas estão atrás de nós... - disse Shannon.
- Mandraki pode estar lá, mas os homens dele devem andar à
nossa procura. Podes ter a certeza disso...
- O porto não é o único sítio onde nos esperam! - disse
Conrad. - Olhem ali para diante!
Indy fez uma careta:
- Lindo! Barreira na estrada...
Nikos inclinou-se para diante:
- Aposto que é aqui que as coisas começam a ficar
perigosas...
Indy olhou para o rapaz:
- Pelo menos é um dos sítios...
Conrad interrompeu-o:
- Ouve: Vamos argumentar com eles; dizemos-lhe que temos de
ir ao palácio presidencial que temos uma informação muito
importante para transmitir ao rei. É possível que eles lhe
sejam leais...
Não houve tempo para discutir o assunto, carregou no travão
e o carro abrandou. Estavam a uns cinquenta metros da barreira
na estrada quando um dos soldados apontou. Vários outros
levantaram as espingardas. Soaram tiros e o pára-brisas
estilhaçou-se.
- Acho que não estão para conversas... - disse Indy.
Conrad pisou o acelerador e saiu da estrada. Desceu um
bocado da colina, tentando rodear a barreira na estrada. O
carro inclinou-se perigosamente e uma saraivada de balas foi
embater no tejadilho.
O que se passou a seguir pareceu demorar apenas uma fracção
de segundo: a colina era muito íngreme e o carro voltou-se e
rolou sobre si mesmo, uma e muitas vezes. Indy e os
companheiros rebolaram de um lado para o outro, sem
conseguirem distinguir quando estavam virados para cima ou
voltados para baixo, até que por fim o carro acabou por parar,
e, milagrosamente, sobre as quatro rodas. E mais
miraculosamente, na estrada, já a umas centenas de metros do
outro lado da barreira.
Os lugares, no entanto, tinham-se trocado; agora era Indy
que estava atrás do volante, Conrad a seu lado e Shannon no
banco de trás.
- Ena! Estou a guiar!
Indy olhou pelo espelho e viu soldados na estrada a
dispararem sobre eles. As balas choviam, vindas do camião. É
certo que o camião os podia perseguir, mas se o Pierce Arrow
se conseguisse manter na estrada, com certeza que nenhum
veículo militar o alcançaria.
- Já estamos fora do alcance das armas deles - disse. -E a
cidade éjá ali adiante. Acho que vamos conseguir...
202
- Achas? - perguntou Conrad. Tinha os olhos embaciados e
fixos. Deixou escapar:
- Nunca pensei que soubesses guiar desta maneira, Ted...
- Nem eu. É que estava encolhido atrás do volante, sem ver a
estrada...
Indy olhou por cima do ombro:
- Olhem lá: o que é que aconteceu ao Nikos?
O garoto levantou-se do chão:
- Esperem até eu contar esta aos meus amigos...
- E tu como estás, Jack?
- Acho que tenho o pescoço partido, e um lábio inchado.
Creio que esta noite não vou tocar grandes melodias ao rei...
- Por falar em rei: alguém sabe o caminho para o palácio?
- Sei eu! - disse Nikos. - É pelo Estádio Olímpico...
- Onde é que é isso em relação à Acrópole?
- Eu mostro-te.
Indy notou que as pessoas que passavam na rua olhavam
admiradas para o carro, à medida que iam atravessando a
cidade. Comentou:
- Acho que esta boa gente se sente altamente impressionada
pelo Pierce Arrow...
Mas nesse momento vislumbrou o reflexo do carro no vidro de
uma grande montra; o tejadilho estava amachucado, o lado do
condutor estava deitado abaixo e por todo o veículo se viam
buracos de balas.
- Temos muita sorte em estarmos vivos...
-Indy, aqui estamos na Platia Phlomouson Hetairae! - disse
Nikos ao entrarem numa praça. - Lembras-te de eu te falar
dela?
- O quê? - perguntou Shannon.
- É onde estão situadas as melhores tabernas da cidade...
-
respondeu Indy.
- A mim apetecia-me uma bebida... - disse Shannon enquanto
continuavam a deslizar.
- Ali está o estádio! - disse Nikos. - Vira à esquerda
quando lá chegares!
De repente saíram do estádio dezenas de soldados, correndo
para a rua a impedir o trânsito e agitando armas.
- Talvez estes estejam do nosso lado... - disse Conrad,
esperançado. Mas logo a seguir uma bala passou a raspar no
carro e outra veio alojar-se no banco da frente, entre Indy e
Conrad.
- Não me cheira... - disse Indy.
- Isto está a tornar-se monótono! - resmungou Shannon.
Indy virou brutalmente o volante para a esquerda, metendo o
carro a toda a velocidade por uma rua estreita e sinuosa até
chegar a um cruzamento.
203
Nikos apontou para a direita:
- O palácio é além!
Mais soldados corriam para a rua que Nikos tinha indicado.
Em vez de virar Indy seguiu em frente, direito a um parque.
Passou a rasar o passeio, fazendo fugir os transeuntes a
protestar, aos gritos e ameaçando-o com os punhos.
- Onde é que estamos, Nikos?
- Nojardim do palácio. Vai por ali! - gritou ele.
Indy guinou para a direita e dirigiu-se para a alameda que
ficava diante dos terrenos do palácio. Deu a volta, tendo
agora o palácio à sua direita.
- Vamos conseguir... - disse Conrad.
- Estás a sonhar! - respondeu-lhe Shannon.
Indy afrouxou ao chegar ao portão principal. Uma dúzia de
soldados armados mantinha-se ali de guarda.
- Estes são os homens do rei! - disse Indy. - Têm de ser...
- Se queres que te diga, parecem-me iguais aos que nos têm
andado aos tiros... - disse Shannon.
Indy começou também a ter dúvidas. Disse:
- Parece-me que vou de roda. Deve haver outra entrada...
Deram a volta ao palácio, mas a única outra entrada que
descobriram também não parecia muito prometedora.
- Que raio de maquineta é aquela ao pé daqueles soldados? -
perguntou Nikos espantado.
- Aquilo chama-se um tanque! - explicou Conrad. - Começaram
a ser usados na guerra. O primeiro combate de tanques deu-se
em 1917, em Cambrai...
- É sempre bom ter um professor de história à mão... - disse
Indy. - Cá por mim sou da opinião que tentemos a entrada
principal. O que dizes, Ted?
- Não temos nada a perder. Pelo menos quando passámos por lá
ninguém disparou sobre nós...
- Que é sem dúvida um bom sinal... - disse Shannon com a voz
repassada de ironia.
Nikos apontou:
- Olhem, estão-nos a abrir o portão principal!
Indy deu a volta ao volante. Porto seguro, finalmente. Mas
de repente carregou no travão, outro tanque estava a bloquear
a entrada.
- Espero sinceramente que seja um comité de boas-vindas.
Indy olhou em redor a avaliar a situação. Ia começar a fazer
marcha atrás quando viu que o outro tanque estava já atrás
dele. O delapidado carro foi imediatamente rodeado por um
monte de soldados de espingardas apontadas para eles:
- Isto não me cheira lá muito bem... - murmurou Conrad.
204
Inúmeras mãos se agarraram às portas, por entre gritos
excitados e gritos de ordens. Depois, como que por encanto,
toda a gente recuou. Ninguém disparou. Os soldados ficaram a
olhar para o carro como se ele estivesse numa exposição.
- Que é que se passa? - perguntou Shannon.
Com os soldados mais afastados, a coisa tornou-se óbvia: os
dois tanques avançavam para eles, um de trás e outro pela
frente. Momentos depois ouviu-se o estalido e o guincho do
metal a rasgar quando se encostaram ao carro.
- Raios partam... - berrou Shannon, abrindo a porta.
Saltaram do carro para o meio dos soldados. Indy sentiu-se
agarrado pelos braços e pelas pernas, ao mesmo tempo que a
mochila lhe era arrancada dos ombros.
- Ei! Esse saco é meu! Preciso dele!
Ninguém lhe ligou nenhuma. Atrás de si os dois tanques, a
avançarem um para o outro, mastigaram os restos do Pierce
Arrow.
- Majestade - disse Dorian. - O homem é perigoso; não
precisamos cá de estrangeiros como ele. Acho que ele e os seus
amigos deviam ser imediatamente expulsos!
O rei recostou-se na cadeira acolchoada da biblioteca real.
Disse:
- Se é verdade o que me dizes, então a expulsão é coisa
demasiado simples para eles. Afinal trata-se de um assunto de
honra e também de justiça, quando alguém rouba uma coisa que é
propriedade de um dos nossos oficiais e depois abre fogo
contra ele...
- Compreendo os vossos sentimentos, majestade. Contudo, e
como sabeis, ninguém ficou ferido...
O rei acariciou o queixo a pensar no que ela dissera.
Perguntou:
- Por que é que o está a defender, Dr.a Belecamus?
"Nem sonhas...", pensou ela. Respondeu:
- Porque me sinto em parte responsável. O homem é um aluno
meu, diplomado, e fui eu quem o trouxe para cá...
- Eujá me encontrei com o Sr. Jones, como se recorda.
Achei-o um bocado estranho, mas isso não deixa de ser vulgar
entre os americanos. No entanto, não me pareceu que fosse
criminoso, e gostaria de ouvir a sua versão da história...
Precisamente aquilo que ela queria evitar. Olhou para
Mandraki:
"Diz qualquer coisa, raios!"
- Não acho que valha a pena dar-vos a esse trabalho - disse
Mandraki. - Bem vedes, em atenção à Dr.a Belecamus, eu não
pretendo apresentar queixa contra o Jones nem os outros
homens.
205
O rei assentiu em silêncio. Depois fez um gesto a um dos
seus ajudantes:
- Prepara os papéis de expulsão: Quero que estejam no barco
para Brindisi pela manhã.
Dorian levantou-se, aliviada e estendeu a mão:
- Muito obrigada, majestade. Agradeço-lhe muito, e peço
desculpa pelos inconvenientes que isso vos causou...
- Terei muito gosto em tomar conta deles até à saída do
navio! - disse Mandraki.
O rei encolheu os ombros e fez um gesto com a mão:
- Não há qualquer inconveniente em conservá-los aqui esta
noite. Prefiro assim. Não quero tornar a ouvir falar de mais
nenhuma fuga espectacular...
Disse isto num tom de finalidade, e Dorian percebeu que não
serviria de nada argumentar. Ia a levantar-se quando o rei
mudou de assunto:
- E a respeito do tal artefacto? Foi por causa dele que
perseguiram Jones e os outros, não foi? - Olhou para Mandraki:
- Além do carro, claro...
- Foi, sim, majestade.
- Bom, e quereis levá-lo convosco?
Só pensar no Onfalo deixava Dorian mal disposta. Nunca mais
lhe queria pôr a mão em cima: mas não podia dizer isso ao rei.
- Por agora não. Mandarei alguém buscá-lo daqui a alguns
dias!
- Afinal o que é essa coisa, o Onfalo?
- Julgo que é um meteorito que foi cortado e polido e
coberto com uma rede que ficou petrificada. O seu valor era
simbólico nos tempos de Pítia. Agora não passa de uma
curiosidade...
- E por que é que Jones o queria?
Ela encolheu os ombros:
- Quem sabe? Acho que ele ficou um bocadinho desnorteado por
ter aspirado aqueles vapores. Eu estava a falar prematuramente
quando disse que eles não tinham aparentemente quaisquer
efeitos. O facto é que parece causarem efeitos diferentes...
Sorriu modestamente como uma humilde servidora:
- Fiquei bastante satisfeita, majestade, por eles me terem.
afectado a mim de forma a poder-vos ajudar. Não me recordo
do que aconteceu, mas acho que tive a oportunidade de vos
avisar de uma ameaça contra a vossa vida...
O rei levou a mão à anca, e Dorian ficou a pensar se ele
ainda acreditaria que os vapores o tinham curado.
- Sim, e desejo agradecer-lhe. Foi uma sensação estranha,
mas se eu não tivesse sido avisado, sabe Deus o que poderia
ter acontecido...
206
Tornou a acariciar o queixo, assentindo pensativo. Depois
levantou-se da cadeira:
- Bom, e agora é já tarde...
Dorian deu-lhe as boas-noites e esperou que Mandraki
apertasse a mão do rei. Sorriu para si própria ao ouvir o rei
murmurar uma desculpa pelo que tinha acontecido ao carro.
Quando ela e Mandraki saíram da biblioteca, falou-lhe
baixinho:
- Acho que nos saímos muito bem. Ele vai já para a cama, e
quando acordar já eles se foram...
Mandraki não deu resposta.
- Que é que há?
- Eu já não estou preocupado com o Jones... - disse ele em
voz baixa, enquanto desciam o vestíbulo. - O que temos é de
derrubar este cretino do poder. Agora está cheio de
refugiados; e cada dia que passa chegam mais. O país está a
cair aos bocados...
- Ele vai pagar pelos seus erros! - disse Dorian. - Nós
trataremos disso, na devida altura...
- E que seja breve! - acrescentou Mandraki.
207
CAPÍTULO XXIV
NO PALÁcIO
Numa cela nua, algures por baixo do palácio, Indy
balançava na orla do sono.
Via uma águia a bater as asas, pairando nos ares por cima de
si, e depois o rosto de Mandraki tapou a águia. O coronel tinh
a um sorriso cruel e depois apontou-lhe o cano da pistola à
cara.
Indy acordou sobressaltado, deu um soco na enxerga dura e
voltou-se para o outro lado.
Sabia que o que lhe tinha acontecido lá nas profundezas da
fenda tinha sido mais do que um sonho. Mas não queria pensar
nisso, não queria atribuir-lhe um significado porque tudo o
que via era a morte; a sua própria morte a obliterar-lhe o
futuro.
Tornou a virar-se para o outro lado, tentando deter os
pensamentos, mas só o conseguia fazer por poucos segundos.
Começou a contar de cem para trás. Noventa e nove, noventa e
oito...
Já chegara a oitenta e cinco quando os números se começaram
a esfumar na mente e começou a vaguear. Oitenta e seis...
setenta e oito.
Adormeceu.
Piscou os olhos ao acordar. Qualquer coisa o tinha sacudido
no sono.
Escutou.
Ouviu respirar.
Shannon e Conrad.
Mas fora outro som que o acordara; tornou a escutar. Vozes
no vazio. Distantes.
Agora mais próximas.
Ecoaram passos no vestíbulo. Ouviu o tilintar de chaves. Uma
voz roufenha resmungou qualquer coisa; outra grunhiu uma
resposta.
E agora?
Aporta abriu-se. Àluz difusa do vestíbulo viu dois guardas
fardados entrarem na cela. Olharam em redor. Um deles apontou
para Indy e o outro imediatamente o puxou do chão.
- Que é que se passa? - gritou Shannon ao ver Indy ser
arrastado em direcção à porta.
- Para onde é que o levam? - Conrad pôs-se em pé, mas foi
imediatamente empurrado para trás. A porta fechou-se com
estrondo.
"Oxalá não seja a visita para a execução...", pensou Indy.
- Já é manhã? - perguntou em grego quando o levavam.
Os guardas não responderam. Ninguém tinha dito uma palavra
sequer aos prisioneiros. Tinham-lhes dado sopa, pão e água, e
tinham-lhes entregue uma manta e uma delgada enxerga a cada
um. Mas todos os pedidos que tinham feito para verem o rei ou
outra pessoa qualquer que os ouvisse tinham tido por resposta
o mais completo silêncio. Na verdade nem sabiam até do
paradeiro de Nikos. Não o tinham visto desde que tinham
saltado do carro e Indy esperava sinceramente que no meio da
confusão ele tivesse conseguido fugir.
Chegaram a uma escada e os guardas literalmente subiram os
degraus a dois e dois.
- Eh, rapazes! Para que é tanta pressa?
Foi conduzido a um vestíbulo das traseiras. Vislumbrou uma
enorme cozinha do lado de lá do vestíbulo onde homens vestidos
de branco esfregavam o chão. Pairava no ar um vago cheiro a
comida.
- O quê, já são horas do pequeno-almoço?
Os guardas conservaram um ar carrancudo.
- Acho que não...
Continuaram a andar e entraram depois noutro vestíbulo, mas
este era mais ornamentado, mais próprio de um palácio. Os pés
afundaram-se-lhe numa grossa carpete. As paredes eram de mogno
e as cornijas ornamentadas a folha de ouro. Não restavam
dúvidas que se encontravam na parte principal do palácio.
A meio caminho do vestíbulo pararam em frente de uma porta
dupla da altura de um gigante.
Um dos guardas bateu ao de leve. Imediatamente a porta se
abriu uns centímetros. Trocaram-se algumas palavras e depois
Indy foi conduzido a uma biblioteca forrada de livros nas
paredes, desde o chão até ao tecto.
"A biblioteca real...", pensou. Tal como no meu sonho!
Um homem alto e de aspecto musculoso, elegantemente vestido,
apontou para uma cadeira e Indy sentou-se. Olhou sombriamente
para o homem, à espera de um interrogatório. Mas porquê numa
biblioteca? Só se ele pensava dar cabo dele a bater-lhe com
livros; olha, com o Ulisses, de Joyce podiam dar cabo dele com
uma pancada só...
- Olá, Sr. Indiana Jones!
Indy olhou para o lado e viu aparecer o rei. Vestia uma
túnica azul e chinelas, tal como na visão, e coxeava
ligeiramente ao andar.
- Majestade... - Indy levantou-se mas o guarda tornou a
empurrá-lo para a cadeira.
209
O rei sentou-se numa cadeira giratória em frente à
lareira.
- Estou a falar-lhe contra os desejos dos meus conselheiros.
Eles acham que eu o devia expulsar do país sem mais qualquer
palavra...
- Verdade? - Eram as melhores notícias que ouvia desde que
saíra de Delfos.
- Tenho a certeza de que os meus amigos e eu aceitam isso.
Mas...
O rei levantou a mão, a detê-lo:
- O motivo porque decidi falar-lhe foi por achar que lhe
devo pelo menos isso; o senhor salvou-me a vida...
- Sinto-me muito feliz por estar aqui convosco...
O rei riu-se.
- O senhor tem muita sorte em estar ainda vivo, muito menos
no palácio. Se os relatórios que eu recebi eram exactos, a
sorte tem estado do seu lado...
Indy tentou dar qualquer resposta, mas sentia a garganta
seca e a voz roufenha.
O rei murmurou qualquer coisa e estalou os dedos. Um homem a
quem se dirigira e que tinha estado oculto pelas estantes
apareceu por instantes. Indy olhou em volta a pensar quantas
mais pessoas estariam ali na sala. Momentos depois o ajudante
apresentou a Indy um copo de água.
- Agora diga-me porque é que roubou um artefacto de Delfos e
um automóvel ao coronel Mandraki.
Indy bebeu um largo golo de água e aclarou a garganta.
Disse:
- Mandraki ia matar-vos. Isto é, queria que eu vos matasse.
- Um momento! - interrompeu o rei. - Comece do princípio.
Por que é que foi para Delfos com Dorian Belecamus?
Indy contou a sua história, desde o seu primeiro encontro
com Dorian. Disse tudo ao rei, desde a sua artimanha de se
transformar em Pítia até à história de Richard Farnssworth.
Esperava que todos os pormenores tornassem a sua história do
plano do assassinato mais crível.
O rei ouviu atentamente, não podendo ocultar o seu espanto
perante as duplicidades da Belecamus.
- Não admira que os vapores milagrosos não funcionassem: a
cura não durou mais do que a nova Pítia...
Perguntou-lhe depois por Stephanus Doumas e Indy disse-lhe
que o falecido arqueólogo havia estado envolvido com a Ordem
de Pítia, mas não na tentativa de assassínio.
- Quer então dizer que essa alegada tentativa para me
assassinarem não tem nada a ver com essa mística ordem, mas é
apenas um golpe militar chefiado pelo coronel Mandraki?
210
Indy assentiu num gesto de cabeça.
O rei pareceu descoroçoado:
- Eu bem sei que os meus inimigos políticos crescem cada vez
mais em número, e nem tudo tem corrido como eu desejaria. Mas
até aqui nenhum deles me tinha tentado matar...
Voltou-se para Indy e sorriu:
- Se o que me diz de Mandraki é verdade, já não me sinto tão
mal por lhe ter mandado esfrangalhar o carro...
Levantou-se e foi a coxear até à lareira. Esfregou as mãos
uma na outra por cima do braseiro baixo e depois tornou a
voltar-se para Indy:
- Gostaria de lhe oferecer a si e aos seus amigos a escolha
entre ficarem aqui no palácio como hóspedes de honra, ou se
partirem: como preferirem...
- Eu acho que posso falar em nome dos meus amigos, e dizer
que todos nós estamos mais do que prontos para regressar a
Paris...
Indy perguntou-Lhe depois por Nikos. O rei olhou para o lado
e o ajudante que tinha trazido a água tornou a aparecer. O
homem ficou a olhar fixamente para Indy enquanto o rei lhe
falava em voz baixa. Disse qualquer coisa ao rei e depois de
uma outra breve troca de palavras, o ajudante afastou-se.
- Desculpe, Sr. Jones - disse o rei -, mas não sabemos nada
do rapaz. Espero que ele tenha conseguido escapar-se do
carro...
- Quer dizer que ele não chegou a sair do carro? - Indy
levantou a voz, e o guarda que estava junto à porta deu dois
passos em frente direito a ele, até que o rei o deteve. E
disse a Indy:
- Eu estou a dizer-lhe que não sei. Se eu soubesse que ele
estava morto, dizia-lho!
O ajudante regressou com a mochila que entregou ao rei. Este
entregou-a a Indy:
- Creio que isto é seu...
"Incrível. Vai-me dar o Onfalo...", pensou Indy. Outra vez;
tal como na visão...
Abanou a cabeça:
- Não, não é meu. É o Onfalo. Pertence a toda a gente...
- Parece-me que se está a dar mais atenção a esta pedra do
que a que ela merece... - disse o rei.
- Não estou tão certo disso, Majestade.
O rei abriu a mochila e tirou de lá o cone com uma só mão.
Lentamente, olhando para Indy disse:
- A Dr.a Belecamus, com todos os seus defeitos, é uma
autoridade em Delfos, e ela disse-me que o Onfalo na realidade
não passa de uma curiosidade; um meteorito, para ser mais
exacto. Tenho a certeza que se tivesse um grande valor ela não
sairia do palácio sem ele. E eu gostaria que o senhor ficasse
com ele, como recordação da sua viagem...
211
-Majestade, acho que deveis torná-lo a meter na mochila. Se
se pega nele durante muito tempo, pode... pode...
Indy não sabia como se explicar. Na realidade não
acreditava, mas algo já lhe tinha acontecido a ele. A ele e a
Dorian...
- Não noto nada de estranho nele... - o rei deu-lhe voltas
na mão. - Parece estar quente...
Deixou-se cair numa cadeira.
- Estou a ficar com sono...
A mochila caiu ao chão quando ele pôs os braços em torno do
Onfalo. Ficou imóvel por alguns segundos. Depois os olhos
abriram-se-lhe muito e a boca torceu-se-lhe numa expressão de
choque: Indy percebeu que o artefacto estava a exercer o seu
encantamento. Correu para a frente mas o corpulento guarda
agarrou-o antes de ele poder chegar perto do rei.
- Façam qualquer coisa! - rugiu Indy. - Não vêem que ele
precisa de auxílio? Agarrem a pedra!
O ajudante chegou-se perto do rei a perguntar-lhe se ele
estava bem. Cuidadosamente retirou-lhe o Onfalo das mãos e
pousou-o no chão.
- O médico! Depressa! - gritou.
O rei levantou a mão:
- Não, estou bem...
Passou a mão pelo rosto.
- Solta-o! -ordenou ao guarda que ainda segurava Indy.
- Desculpe, majestade. Eu tentei avisar-vos...
O rei olhou para o Onfalo no chão. Disse:
- Tive uma experiência muito estranha. Era como um sonho,
mas eu estava acordado. Estava rodeado por horrendas formigas
de huerra que me estavam a picar. E estavam a tentar
arrastar-me com elas...
Indy assentiu, sem saber o que dizer.
- Que é que me aconteceu?
- Não sei! - respondeu Indy. - Acho que esse artefacto terá
de ser cuidadosamente estudado por cientistas...
- Deve é ser trancado! - disse o rei. - Ou então perdido
outra vez...
Houve um momento de silêncio.
- Bom, se vocês querem chegar a horas ao ferry o melhor é
porem-se a caminho...
Quando o rei o acompanhava à porta da biblioteca, Indy ficou
com a impressão que havia qualquer coisa diferente nele; mas
não conseguiu saber ao certo o que era.
212
Agradeceu ao rei o seu auxílio.
- Eu é que agradeço o teu. Agora tenho uns exércitos de
formigas para me entreter até de manhã.
Quando a porta se fechou atrás de Indy é que percebeu o que
o rei tinha de diferente.
Já não coxeava.
A cidade começava a acordar quando eles saíram do palácio
por uma porta lateral e chegaram à rua. Num campanário tocou
um sino. Mais ao longe cantou um galo. O matraquear das patas
de um cavalo a puxar uma charrete contrastava com o roncar do
motor de um automóvel.
- Mal posso acreditar que estamos a sair vivos deste
pesadelo - disse Shannon.
Quando chegaram à rua um soldado armado de espingarda
dirigiu-se a eles.
- E agora o que mais? - resmungou Indy.
O soldado apontou para um Cadillac novo que aguardava à
esquina:
- Seu transporte para porto.
Quando o soldado lhes fechou solenemente a porta do carro,
depois de terem entrado, Indy não pôde deixar de comentar
ironicamente:
- Este parceiro provavelmente ontem estava disposto a
liquidar-nos...
- Está só a fazer o seu trabalho... - disse Conrad.
- Pois, Maria vai com as outras...
- E o que é que nós estamos a fazer? - perguntou Indy.
- Nós... tocamos de ouvido!
- Assim é mais divertido... - comentou Indy.
- Para alguns... - respondeu Conrad. Olhou para o palácio
pela janela do carro, com ar saudoso. Acrescentou:
- Tinha sido bom ficar alguns dias no palácio. Até me podia
ter inspirado para escrever o meu romance...
Indy olhou para ele enquanto o carro se afastava:
- Então e todas as coisas que nos aconteceram nestes últimos
dias?
- As experiências são enganadoras. Indy. Um escritor sai-se
muito melhor a trabalhar material que lhe vem lá de dentro, do
seu eu, do que do resultado de confusas experiências...
Indy pensou por momentos e respondeu:
- Se queres que te diga, em meu entender são as pessoas que
são confusas; não as experiências...
213
Conrad não respondeu e ficaram os dois em silêncio.
Quando passaram pelas ruínas da biblioteca de Adriano e se
aproximaram do Forum Romano Indy olhou para os aglomerados de
refugiados que se tinham erguido por cima das ruínas. Havia
fumo a evolar-se de alguns telhados e esses fios delgados
lembraram-lhe os vapores que se elevavam da fenda do templo de
Apolo.
E então viu-a a passar na alvorada cinzenta, com os longos
cabelos feitos numa trança. Não havia dúvida no seu espírito:
era Dorian Belecamus.
- Pára!
- Que é que vais fazer? - perguntou Shannon ao ver Indy
abrir a porta do carro. - Temos de seguir para o Pireu!
- Ouçam: esperem cinco minutos por mim. Se eu nãovoltar
sigam viagem. Irei ter convosco ao ferry. Tenho de fazer um a
coisa...
- Não temos muito tempo! - avisou Conrad.
- Eu sei, eu sei.
Bateu com a porta e sem mais palavras correu por entre o
aglomerado de barracas. Ela fora naquela direcção e ele
calculava saber para onde se dirigia.
Passou pela antiga porta do Forum e continuou, quase a
correr até que viu a Torre dos Ventos.
Ela lá estava, junto a ele, a olhar para o alto.
Dorian olhava fixamente o rosto de Lips, o vento sudoeste que
ia a acelerar a viagem de um barco. Jones e os outros em breve
se iriam. O perigo passara. E, no entanto, ela sentia-se
vazia.
Sentiria a falta de Jones. Tinha gostado verdadeiramente da
sua companhia, coisa em que ele nunca iria acreditar. Ele
nunca compreenderia a complexidade da sua vida, e como as
forças exteriores à sua vida pessoal a dirigiam. E ela também
sabia que mesmo que tivesse conseguido romper com Mandraki e
se tivesse tornado Pítia, não haveria qualquer diferença. As
mesmas forças políticas continuariam a empurrá-la e a sua
fantasia a respeito de si e de Jones no trono do poder,
ruiriam.
Não sabia qual seria o seu futuro. Talvez regressasse a
Paris. Ou talvez não. Nada podia ser resolvido antes de
Mandraki agir. A sua vida não lhe pertencia, e ela abominava
isso.
- Agora sei por que é que esta é a tua ruína favorita...
Ela voltou-se de um salto, assombrada:
- Indy!
- Tu és mesmo como ele: Rostos diferentes para diferentes
ventos...
- Regresso a Paris. Vim dizer-te adio...
Ela olhou em volta. Mandraki estava a inspeccionar a
situação dos refugiados e devia encontrar-se com ela ali a
qualquer momento.
- Não devias estar aqui! Figete!
Ele soltou uma gargalhada:
- Agora dizes-me para desaparecer! Mas eu não saio daqui sem
satisfazer a minha curiosidade. Por que é que Mandraki te
tornou a receber depois de lhe teres dado um tiro? Ele não me
parece ser exactamente do tipo de perdoar as ofensas...
Ela sabia que ele não partiria se lhe não respondesse.
Disse:
- Ele não soube quem disparou sobre ele. Vê-se melhor dos
vapores para fora do que de fora para lá deles. Ele só me
ouviu chamá-lo pelo nome...
- Era de crer. Enganaste a ele como me enganaste a mim e
provavelmente a todos os homens da tua vida. E pensar que
durante algum tempo eu te amei...
Ela enfrentou o seu olhar frio. Respondeu:
- Eu na verdade não sou uma pessoa má, Indy. Eu faço aquilo
que tenho de fazer. Mas tu és homem; nunca o compreenderias...
Ele abanou a cabeça:
- O teu sexo não tem nada a ver com isso. Se todas as
mulheres fossem como tu, estaríamos todos...
- Vai-te embora. Por favor!
Mas era tarde de mais. Mandraki estava a pouco mais de um
metro deles. E empunhava um revólver.
A pistola pareceu mover-se em câmara lenta. Aquilo não podia
estar a acontecer. A visão não podia ser verdadeira. Então e
todas as aventuras? Todo o seu inteiro futuro, ou a falta
dele, teriam dependido de ele ter ou não saído do carro para
se ir encontrar com Dorian?
- Jones... estás morto!
- Não! - gritou Dorian correndo a interpor-se entre os dois
homens.
- Sai da minha frente, Dorian! Já!
- Não! Tu não o vais matar!
- Sai da frente!
- Terás de me matar primeiro!
- Maldita sejas, Dorian!
Soou um tiro.
- Que estás tu a fazer aqui?
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Indy agarrou Dorian quando ela caiu. Sentiu o calor do seu
sangue passar-lhe através da camisa e ouviu o suave e horrível
arquejo da sua débil tentativa de fazer entrar ar nos pulmões.
Sabia que Mandraki ainda estava com a pistola quando pousou
gentilmente Dorian no chão. Levantou-lhe um pouco a cabeça
para ela se não afogar no seu próprio sangue.
- Dorian... - murmurou Mandraki num lamento. - Não foi minha
intenção; a pistola disparou-se...
Ela tentou falar, mas não conseguiu. Tentou levantar uma
mão, mas também não foi capaz. Indy inclinou-se para ela e
acariciou-lhe o rosto.
- Afasta-te dela! - berrou Mandraki. - Fizeste isto; foste
tu que a mataste, e agora vais morrer!
Indy ficou por uma fracção de segundos a olhar para o cano
da arma apontada a si. Exactamente como na visão. Era agora.
Ouviu-se o tiro.
Mandraki cambaleou alguns passos.
- Malaka! - praguejou. E tombou no chão.
Indy reconheceu imediatamente o guarda da biblioteca do rei,
de pé na clareira. Quando o guarda se aproximava deles, Indy
viu Mandraki levantar outra vez a arma e tornar a apontá-la
para ele.
Mas o guarda estava preparado. Disparou vários tiros sobre
ele. A pistola caiu-Lhe da mão. Um fio de sangue rolou-lhe da
boca para o chão. E desta vez já se não voltou a levantar.
Quando Indy tornou a olhar para Dorian, ela estava morta. Os
olhos abertos estavam meio velados a abarcar o imenso azul do
céu da manhã.
Estranhamente Indy sentiu que iria ter saudades dela. Apesar
das suas deficiências, ela tinha definitivamente influenciado
a sua vida. Ele nunca mais voltaria a ser a mesma pessoa, e
sabia que tinha encontrado a carreira que iria ser o trabalho
de toda a sua vida. Passou a mão pelo rosto de Dorian e depois
cerrou-lhe os olhos.
-Indy! Estás bem?
- Nikos! O que é que fazes aqui?
Nikos olhou ansiosamente em redor:
- Escondi-me toda a noite no jardim do palácio, e depois
vi-te sair no carro. Segui-te num táxi porque te queria dizer
adeus...
- Tenho de ir apanhar o ferry...
- Anda daí; o táxi está à espera. Ainda chegas a tempo...
Olhou uma vez mais para a expressão gélida de Dorian e
voltou-se, começando a andar.
A buzina do ferry berrava ferozmente quando chegaram ao
porto. Apertou a mão de Nikos e agradeceu-lhe a ajuda.
- Vem visitar-me em Paris!
- E também quero ir à América e ver uma banda de jazz e
visitar o «Grand Canyon»! - gritou-lhe Nikos.
- E por que não? - respondeu Indy a sorrir. Depois subiu a
prancha do portaló. A buzina gritou outra vez e a prancha foi
retirada atrás dele.
Quando o ferry se ia afastando do cais Indy ouviu outro som
mais familiar. Era Shannon a tocar a sua trompete no
tombadilho. Dirigiu-se lentamente para lá, saudando com um
aceno Conrad.
Shannon tirou mais algumas notas num ritmo compassado de
blues e depois baixou a trompete:
- Chegaste mesmo no último minuto, Indy; onde diabo é que te
meteste?
- Mais tarde te conto. Vamos ter muito tempo para conversar.
Mas que música era essa? Não será impressão minha de que já a
ouvi?
- Isso é por só teres visto a letra. Chama-se Cá no Bairro.
Ainda precisa de quem cante, mas já lhe arranjei mais um
verso...
Estacou os dedos em rápidas flexões e soltou as notas na
trompete:
Fui viajar para a Grécia distante
E o bairro tive então
Que abandonar.
Mas meu Deus, que saudade lancinante
Senti no coração
Do meu segundo lar...
- Exactamente o que eu pensava! - disse Indy.
- Tenho uma coisa para ti! - disse Conrad, entregando a Indy
um embrulho. - Chegou aqui momentos antes de ti...
- Que é isto? - perguntou Indy rasgando o sobrescrito
pregado ao tampo do embrulho. Era um bilhete do rei.
Prezado Sr. Jones. Espero que mude de ideias e aceite o
Onfalo. Afunde-o no mar, se assim o entender, mas por favor, o
mais longe possível da Grécia e de Delfos. Os dias do Oráculo
de Apolo já passaram e nós os gregos teremos de olhar para o
futuro em vez de tentarmos reviver o nosso distante passado.
Obrigado.
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- Que é isso? - perguntou Shannon quando o ferry se começava
a afastar do cais.
- Um bocado de uma estrela cadente, acho eu... - disse Indy
equilibrando o embrulho na amurada.
- E que é que vais fazer com isso?
Indy olhou lá para baixo, para o mar de um azul carregado.
- Ainda não sei. Mas conheço o curador de um museu de
Chicago que ficaria muito satisfeito por ter isto na sua
colecção de coisas da Grécia...
FIM DO LIVRO
Data da Digitalização
Amadora, Setembro de 1999
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