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Lúcio Manfredi - Estranhas Visões Perigosas

domingo, 1 de setembro de 2013.
Estranhas Visões Perigosas
Lúcio Manfredi
Um Espírito está aqui, mas sob ele dois princípios contendem.
Philip K. Dick
Cheguei até aqui em parte me arrastando, em parte carregado pelo ímpeto
desse delírio que nasce do sangue derramado à medida que tento caminhar. Não
foi uma lança, claro, mas o ponto do flanco é o mesmo, uma ferida aberta de
onde não vazou água, porém sangue o bastante para me enfraquecer a razão e
trazer aos olhos estranhas visões perigosas, tanto mais estranhas e tanto mais
perigosas devido à insidiosa sutileza com que se entrelaçam às percepções
verdadeiras. Não posso jurar por cada pedaço de rocha, mas a montanha é real,
o que posso deduzir pelo fato de saber que aqui haveria normalmente
montanhas. Porém, da cidade com suas cúpulas luzentes, douradas e belas,
estendendo-se pelos vales abaixo, nada há que me garanta existirem fora de meu
cérebro. É onde suponho que residiam também os vultos que de vez em vez por
mim passavam, posto que não apenas deixavam de me ajudar - o que, desde
Kitty Genovese, tornou-se rotina - mas ainda recusavam-se a ceder à mórbida
curiosidade de me olharem e se perguntarem como me ferira, até quando viveria
e de que modo morreria. Porque não restam dúvidas de que vou morrer. O que
vocês queriam, após esvair tanto sangue e perder minhas forças neste rastejar
insensato? Não tenho um objetivo definido. Não tenho nada definido, entendam.
Sei lá qual é meu nome. De onde vim? Se eu disser que não sei, ao menos nesse
aspecto estarei emparelhado com todos os homens, que igualmente ignoram sua
origem. Trago comigo algumas pistas. Tenho um IDskete, o que prova que
venho de um mundo informatizado, pudesse lê-lo e conheceria minhas respostas.
Bem, foda-se. Não se pode ter tudo. Eu não posso ter nada. É o bastante saber
que um dia, onde quer que seja, tive alguma coisa, isto é, fui alguém que se
definia por uma identidade mais concreta do que a linha escarlate que me faz as
vezes de eixo cartesiano.
Deus, como estou cansado. Parece-me ter vindo de uma espaçonave
sinistrada, vejo no fundo de meus olhos uma imagem de sua carcaça rebrilhando
ao Sol, mas é um brilho igual ao das etéreas cúpulas que ora contemplo e pelas
quais não ponho a mão no fogo. É engraçado, às portas da morte e minha
principal dúvida é saber se aquela Kadath lá embaixo é ou não uma alucinação.
Queria chegar até lá e averiguar, seria ao menos uma certeza, mesmo que fosse a
última.
Uma sombra move-se ao meu lado. Com esforço e alguns gemidos, viro a
cabeça em sua direção. Não estou preparado para o que vejo. Sei, milhares de
homens ao longo da história da humanidade e sabe lá quantos outros seres ao
longo da história de outras coisas que não a humanidade já disseram a mesma
frase ou seu equivalente. Entretanto, eu não estou mesmo preparado para o que
vejo. É uma espécie de lagarta com rosto de palhaço, segurando com suas patas
dianteiras o maior baseado de que já tive notícia.
Seus olhos avermelhados me contemplavam com a expressão de quem
contempla um país de maravilhas e, abrindo sua boca desdentada num sorriso,
ela me ofereceu o cigarro.
- Devo? - perguntei. Acho que perguntei. Em todo caso, ela respondeu.
- O que você tem a perder?
Era verdade. Cambaleante, estendi a mão para ela e peguei o baseado.
Levei-o aos lábios com uma atitude de reverência que me surpreendeu, quase
como se soubesse que o fumo e eu provínhamos do mesmo mundo, de maneira
que o que levava aos lábios era um elo de ligação com minhas origens.
E então, não havia mais dor. De fato, parecia nem mesmo haver mais
ferida. Devolvi-lhe o cigarro e agradeci. A lagarta se despediu com um cordial
aceno da cabeça e desapareceu sob uma fenda na rocha. Agora, eu conseguia
ficar de pé bastante bem e preparei-me para andar até a cidade.
Neste momento, estou em suas ruas, cercado por seus edifícios e casas,
envolvido por sua atmosfera. Os arranha-céus são construídos com grandes
placas translúcidas de cor esmeralda, as ruas são pavimentadas com um asfalto
amarelo, as calçadas quase brilham de limpas. A cidade ideal de uma quimera,
cantarolou em mim a lembrança de uma peça infantil, é uma cidade de ficção
científica: os prédios são feitos de esmeralda e as ruas, cobertas de ouro. Bem,
aqui estou eu. Mas falta algo. Penso, repenso e descubro: faltam pessoas. Uma
cidade precisa de habitantes, mas não se vê alma viva por aí. Não sou um grande
especialista no assunto, mas presumo que também não haja almas mortas.
Postes de luz desligados me dizem que a cidade dorme profundamente. Melhor
averiguar. Entro num edifício que lembra uma repartição pública, até pelo vazio
e silêncio que reinam em seu interior. Ando até o fundo do saguão, onde
presumo que se encontrem os elevadores. Há apenas um, e nele deparo com o
primeiro ser - creio que vivo - desde que cheguei à cidade. É um chimpanzé,
miúdo, vestido de ascensorista, que me encara e pede o número do andar.
- Nove. - respondo ao acaso, sem nem sequer saber quantos andares têm o
edifício.
Ele aperta o botão correspondente, a porta do elevador corre para o lado e
a cabine começa a subir com um matraquear de evidente falta de lubrificação.
Quando o elevador pára, a porta se abre, revelando um longo corredor
acarpetado há muitos anos atrás, porque o carpete mostra-se evidentemente
gasto e um tanto quanto sujo. No fim do corredor, vê-se uma porta em cujo
trinco está pendurado um aviso dizendo: "Não entre. Área interditada pelo olho
público." Na lateral do aviso, em letras miúdas, lê-se: "Parte integrante da
revista Homem-Aranha 2099 nº 4 - não pode ser vendido separadamente."
Cuidadosamente, bato na porta com os nós dos dedos. Contrariando o aviso,
uma voz responde:
- Entre.
Obedeço. Entro em um quarto pequeno e abafado, com as paredes
cobertas de prateleiras repletas de livros de papel, presumo que verdadeiras
antigüidades. Mas existe também um computador no canto, um modelo
antiquado, diante do qual senta-se um homem baixo e magro, olhando-me com
evidente curiosidade.
- É isso que dá a falta de inspiração. - ele diz, com um sotaque de ironia na
voz. - Queria levá-lo para um daqueles mundos grandiosos de space opera , com
vertiginosas batalhas contra espaçonaves inimigas... a propósito, foi numa
batalha dessas que a tua nave explodiu... e acabei trazendo-o aqui. - deu de
ombros, resignado. - Imagino que isso significa que a ficção científica não é
mesmo a minha praia.
Não entendo o que ele diz. Não entendo o que ele é. Pergunto:
- Quem é você?
Ele pensa bastante, antes de responder:
- Pra você? Deus. Ou ninguém. Faz diferença?
Pego o IDskete no bolso de meu uniforme esfarrapado e aponto com ele
para o computador:
- Posso lê-lo?
Ele ri.
- Pra quê? Eu posso dizer o que tem aí. Posso responder a todas as suas
perguntas, como um oráculo. E, como um oráculo, não posso garantir a
inteligibilidade das respostas. - Mas, depois, parecendo refletir melhor, diz: -
Presumo, porém, que seja preciso manter uma coerência mínima no roteiro, não
concorda?
Levanta-se e me oferece o lugar com a mão. Sento-me em sua cadeira, uma
cadeira comum de armação de metal e estofamento coberto de couro sintético,
com um design que há muito tempo, numa galáxia distante, pretendeu-se
moderno. Introduzo o IDskete na ranhura do drive. Mando listar o diretório. Há
um único arquivo, intitulado Estviper.doc. Digito: type Estviper.doc. O monitor,
inacreditavelmente verde, exibe um monturo de lixo que parece interminável, só
depois do qual começa o texto legível:
"Cheguei até aqui em parte me arrastando, em parte carregado pelo
ímpeto desse delírio que nasce do sangue derramado à medida que tento
caminhar. Não foi uma lança, claro, mas o ponto do flanco é o mesmo, uma
ferida aberta de onde não vazou água, porém sangue o bastante para me
enfraquecer a razão e trazer aos olhos estranhas visões perigosas, tanto mais
estranhas e tanto mais perigosas devido à insidiosa sutileza com que se
entrelaçam às percepções verdadeiras. Não posso jurar por cada pedaço de
rocha, mas a montanha é real, o que posso deduzir pelo fato de saber que aqui
haveria normalmente montanhas. Porém, da cidade com suas cúpulas luzentes,
douradas e belas, estendendo-se pelos vales abaixo, nada há que me garanta
existirem fora de meu cérebro. É onde suponho que residiam também os vultos
que, de vez em vez, por mim passavam, posto que não apenas deixavam de me
ajudar - o que, desde Kitty Genovese, tornou-se rotina - mas ainda recusavam-se
a ceder à mórbida curiosidade de me olharem e se perguntarem como me ferira,
até quando viveria e de que modo morreria. Porque não restam dúvidas de que
vou morrer. O que vocês queriam, após esvair tanto sangue e perder minhas
forças neste rastejar insensato? Não tenho um objetivo definido. Não tenho nada
definido, entendam. Sei lá qual é meu nome. De onde vim? Se eu disser que não
sei, ao menos nesse aspecto estarei emparelhado com todos os homens, que
igualmente ignoram sua origem. Trago comigo algumas pistas. Tenho um
IDskete, o que prova que venho de um mundo informatizado, pudesse lê-lo e
conheceria minhas respostas. Bem, foda-se. Não se pode ter tudo. Eu não posso
ter nada. É o bastante saber que um dia, onde quer que seja, tive alguma coisa,
isto é, fui alguém que se definia por uma identidade mais concreta do que a linha
escarlate que me faz as vezes de eixo cartesiano."
Desvio o rosto, sem continuar a ler, e exclamo em voz alta:
- Que porra é essa?!
O homenzinho no quarto sorri, divertido.
- Tua identidade. A única identidade que você possui, meu caro. Alguém
rastejando ferido. Pretendia fazer uma coisa melhor, sabe esse papo de
construção do personagem, com um nome prenhe de significação e algum tipo de
biografia fictícia. Mas, como se trata de ficção científica, isso implicaria em criar
um mundo próprio, com coerência interna, descrito nos mínimos detalhes e, pra
falar a verdade, eu não tenho muito saco pra isso.
Acho que começo a entender o que ele está dizendo.
- Você me criou?
- Precisamente. - Pausa. - Quer dizer, até o ponto em que os autores criam
seus personagens. Pela parte que me toca, você bem pode ser a personificação de
algum complexo inconsciente. Nesse caso, eu seria apenas o teu biógrafo. - Outra
pausa. Ele olha o relógio em seu pulso. - É um pouco cedo pra bebidas. Quer um
café? Chá com bolachas?
- Um copo d'água, por favor.
Ele se levanta e sai. Fico olhando os títulos nas prateleiras. Dublinenses, O
Caçador de Andróides, No Caminho de Swann, Um Estranho Numa Terra
Estranha, Lolita ... Nenhum deles significa grande coisa para mim. Momentos
depois, retorna trazendo a água que pedi, terrivelmente gelada, o que deixa o
copo todo suado por fora.
- Obrigado. - agradeço, devolvendo-lhe o copo, que ele displicentemente
coloca numa mesinha ao lado do computador. - A propósito, qual é o teu nome?
Ele hesita, parece não querer me dizer.
- O nome de uma pessoa é a expressão de sua essência. - Volta a se sentar
em sua cadeira, defronte o computador. - Sabe, os povos primitivos não
divulgavam seus nomes, eles achavam que possuir o nome de alguém era possuir
sua alma. A gente não leva mais a sério essas crenças, rotula como superstição. E
é, claro. - Aqui, seus olhos tornam-se mais incisivos. - Mas não quero entregar
minha alma nas mãos de um personagem. Me chama de Fiat Lux. É um bom
pseudônimo, exprime o fato de que os mundos que eu crio são criados pela
palavra. E também significa que eu sou meio cabeça-quente.
É difícil acompanhar seus raciocínios. Mesmo daquilo que entendo, não
estou convencido. Não acredito que eu não passe de obra sua.
- Meu deus, um cético. - debruça-se sobre o teclado, escreve com rapidez,
ignorando completamente minha presença. Encara-me com uma expressão
sarcástica e diz: - Acho que os caras que derrubaram a tua nave te descobriram.
Com efeito, fora do quarto ouve-se um barulho de gente se aproximando.
Espio pela fresta. Duas grandes figuras negras estão vindo pelo corredor,
inteiramente cobertas por seus trajes. Estes são compostos por um macacão
inteiriço de tecido plástico escuro, uma esvoaçante capa de pano e um capacete
com ar de máscara demoníaca.
- Você tem uma arma? - pergunto.
Ele sacode a cabeça numa negativa:
- Vai ter que contar com a criatividade. - Em seguida, acrescenta: - Com a
minha criatividade.
Procuro com que me defender pelo quarto. O exame mostra-se
desanimador. Além das centenas de livros, vejo apenas uma mesinha com um
rádio-gravador desligado, um pufe cor de carne e, sobre este, um antigo
ventilador verde, de metal, direcionado para o computador.
- Posso...? - indago, mostrando o ventilador.
- À vontade. - diz Lux.
Escondo-me atrás da porta. Eles entram, e agem como se ignorassem
totalmente a presença do escritor. Rapidamente, e com toda a força de que sou
capaz, assesto o ventilador na cabeça do primeiro. A pancada provoca um ruído
seco. Ao mesmo tempo em que o alienígena desaba, lanço-me contra o segundo,
esmurrando-o na barriga. Ele se dobra em dois, dando margem a que eu lhe
acerte uma joelhada no rosto mascarado.
- Não achou eles meio fracos? - pergunta Lux.
- Sorte minha.
- Não se trata de sorte. Eu quis assim. Poderia tê-los feito mais fortes. -
Examina-os aprovadoramente. - Imaginei que uma raça com dependência
maciça de tecnologia obrigatoriamente teria que ter pouca força física. Mas
nada garante isso. - Apontou a cabeça deles com o queixo. - Anda, tira a
máscara deles. Você vai achar interessante.
Agacho-me junto a um dos corpos e faço o que Lux disse. O rosto dos
alienígenas é um cruzamento entre lagarto e abacaxi, com duas guelras do lado
para completar o quadro. Seus olhos, enormes e globosos, não têm pálpebras.
- Existe um motivo para eles terem esses olhos. Monstros de olhos
esbugalhados são uma venerável tradição da space opera . A gente tem que
respeitar as tradições, não acha?
- De onde eles vêm? - pergunto, ainda agachado.
- Sinceramente, ainda não pensei nisso... Vejamos, como eu estou lendo um
conto de John Barth chamado Perseíada , acho que eles se originam de alguma
estrela na constelação de Andrômeda. Não sei qual, preciso consultar um
manual de astronomia pra decidir.
Lentamente, Lux levanta-se de sua cadeira.
- O que mais me atraiu na ficção científica foi seu potencial para exprimir
metaforicamente a condição humana. - Aproximou-se dos dois andromedanos
caídos. - Os extraterrestres, por exemplo. São uma imagem perfeita para o
caráter alienado das relações entre o homem e o mundo, para o fato de que a
realidade sempre aparece à consciência como radicalmente estranha e
ininteligível. Enfrentar um alienígena simbolizaria o confronto com essa
alteridade absoluta. - Chuta a criatura mais próxima, displicentemente, e tanto
ela quanto a outra desaparecem. - Mas não funcionou.
Continuo não inteiramente convencido. Admito, porém, que estou curioso.
- Por que não?
Ele suspira, resignado.
- Porque os leitores normalmente não estão interessados na condição
humana. Eles querem é entretenimento, escapismo. Procurar subtextos
filosóficos por trás da história que estão lendo nem lhes passa pela cabeça.
- E o que há de errado com isso?
A questão parece não preocupá-lo muito.
- De errado? Nada. Só que não é nisso que eu estou interessado. Prefiro
histórias que, como diz Kafka, atinjam a cabeça do leitor feito um machado no
gelo. Ou coisa parecida, não lembro a frase exata. Entende, histórias que o
façam pensar, reavaliar a si mesmo e ao mundo.
- Não é muita pretensão, não?
Lux sorri, deliciado.
- Claro que é. Você não sabia? É disso que vive a literatura: de colocar pra
si mesma um alvo inflacionado e passar o resto do tempo tentando em vão
atingi-lo.
De súbito, lembro-me da lagarta no deserto.
- Sabe o que eu acho? - sugiro. - Acho que este quarto, você, nada é real.
Deve ser apenas uma alucinação provocada pela maconha.
- Ah, aquilo . - retruca Lux, sem muito interesse. - Foi apenas uma
provocação pros leitores mais puritanos, aqueles que se arrepiam quando ouvem
falar em sexo, drogas e rock'n'roll. A ficção científica anda cheia deles. Não é
nada que faça diferença.
Um silêncio constrangedor cai entre nós, agitando-se no ar que nos separa
como uma massa tentacular, amebóide, encimada por um arremedo de rosto
humano que não chega a se fixar. É Lux quem destrói a massa.
- Na outra ponta do corredor tem um quarto. Vai até lá.
Obedeço, não tenho inteira certeza dos motivos. A porta do quarto está
encostada. Abro-a, devagar, com receio de que haja outros andromedanos à
minha espera. Outros andromedanos há, mas não à minha espera. O quarto é
uma espécie de masmorra, onde três alienígenas se ocupam em torturar uma
garota. Seus trajes são tão sumários que quase não dá para descrevê-los, os
longos cabelos loiros escorrendo
sobre os seios nus. Ela está acorrentada à
parede e seus algozes se revezam para aplicar em sua pele clara como leite uma
caixa que, ligada por fios ao braço dos andromedanos, arranca dolorosas
contorções da mulher e arrepios de prazer da carranca esbugalhada que
ostentam sobre o pescoço.
Queria que Lux não tivesse feito os outros dois inimigos desaparecerem.
Eu poderia ter me apropriado de suas armas. Enfim, não adianta muito pensar
no que podia ter feito. Presumo que, uma vez mais, vou ter que me virar como
der.
Do meu lado esquerdo tem uma porta aberta. É um banheiro. Lá dentro,
encontro um cesto com algumas roupas amarfanhadas pelo chão, um cesto de
lixo abarrotado com papel higiênico e um armarinho contendo produtos de
limpeza e um frasco de álcool. Isso me dá uma idéia.
Volto até o quarto de Lux.
- Tem fogo?
Ele faz que não.
- Desculpa, eu não fumo. Meu pai, sim. Infelizmente, ele está trabalhando.
Contudo, imagino que lá embaixo, na cozinha, você possa encontrar uma caixa
de fósforos.
Desço as escadas. O elevador que me trouxe até aqui desapareceu. Passo
por uma sala, entro na cozinha. Percebo que estou numa casa, em vez do prédio
que supusera até aqui. Encontro a caixa que ele indicou ao lado do fogão. A
marca dos fósforos é Fiat Lux . Com cuidado para não fazer barulho, pego o
álcool e uma meia suja, com a qual improviso uma mecha, embebendo-a no
líquido. Mergulho a mecha no frasco. Chego até a porta da masmorra e risco um
fósforo. Atiro o frasco em chamas sobre os andromedanos. Apenas um deles é
atingido, rolando pelo chão à medida que o álcool e o fogo espalham-se por sobre
seu corpo. Ele solta gritos pavorosos, que ecoam pelo ar como os urros e uivos
dos demônios da noite. Aproveitando a confusão instaurada, pulo sobre um
segundo andromedano e o nocauteio, enquanto o terceiro tenta ajudar seu
companheiro caído. Pego a arma que o extraterrestre que acabei de vencer
guarda providencialmente no cinturão e dou cabo do último alienígena.
No mesmo cinturão, estão as chaves da corrente. Liberto a moça que,
grata, atira-se ao meu pescoço. Beijamo-nos. Seus lábios carnudos têm um gosto
doce e a língua sabe a iguarias exóticas de mundos distantes.
- Sou Léa, princesa de Shariar. - ela se apresenta, numa pausa entre dois
beijos.
- É um prazer conhecê-la, Léa. - gostaria de lhe dizer meu nome, mas não
tenho nenhum.
Percebo que Lux está parado à porta do quarto, observando-nos.
- Essa é outra coisa que me incomoda na space opera . - afirma, indicando
Léa. - A superficialidade com que ela trata as relações humanas. Claro que
carreguei um pouco nas tintas pra que você pudesse perceber, mas na maior
parte das histórias as coisas não se passam de modo muito diferente, não.
Mocinho salva mocinha. Agradecida, mocinha trepa com mocinho. E todos
vivem felizes pra sempre. Ou até que o Destruidor das Formas venha fazer o seu
serviço, o que dá no mesmo.
Andamos os três até o quarto dele.
- Na vida real, meu anônimo personagem, você e Léa iriam se
aproximando aos poucos um do outro, num processo lento e por vezes doloroso
de reconhecimento recíproco. Momentos felizes alternariam com conflitos sérios.
Às vezes, você a magoaria, às vezes ela o feriria. Sua principal preocupação seria
criar um espaço no qual ambos pudessem conviver, dar carinho um ao outro,
evitar a armadilha da mútua destruição assegurada. Mas não na space opera ,
claro. Na space opera , o herói está ocupado demais com seus feitos mirabolantes
e maravilhosas proezas pra se importar com outro ser humano.
Estalou os dedos e Léa sumiu de meus braços.
- Pra onde ela foi? - quero saber, ligeiramente irritado.
- Engraçado, você não reagiu assim quando os dois andromedanos
sumiram. - ele ri. - Se você a quer, terá que conquistá-la. Entretanto, terá que
conquistá-la como as pessoas de verdade fazem, despertar o interesse e a
simpatia dela, avivar seu desejo, provocar sua paixão. E, claro, nesse meio
tempo, ela estará fazendo o mesmo com você. Nada de submissa princesa
assistindo passivamente enquanto você derrota monstros de outro planeta com
sua inteligência superior e seus músculos privilegiados. Por falar nisso, esse
físico de Conan também está sobrando.
Quandoele fala, me torno menor e mais magro.
- Ótimo, agora você parece um ser humano real.
- Onde está Léa?
Ele aponta para a janela do quarto.
- Em algum lugar no vasto mundo lá fora. Se você quiser, eu o levarei até
ela. Mas Léa não se lembrará de você, e não será mais uma linda princesa
seminua.
- Se eu quiser... Quer dizer que eu tenho escolha?
Estamos descendo as escadas. Lux se mostra surpreso.
- Claro que tem! Basta dizer e eu te devolvo ao teu deserto e ao teu
ferimento no flanco, à tua espaçonave caída e à tua miragem de cidade. E você
será, para sempre, o heróico personagem de uma história inacabada.
- Você chama isso de alternativa? Que espécie de vida é essa, nas páginas
de uma obra de ficção?
Lux pára em frente à porta da sala.
- Não seja ingênuo, meu caro. Você sempre será um personagem de ficção.
Não pode ser outra coisa. Não pode querer ser outra coisa. Tua escolha não é
essa.
- Qual é, então?
- É a escolha entre ser o mocinho de um mundo grandioso, mas ilusório,
onde as coisas só dão certo pra você porque os leitores sabem que o mocinho não
pode morrer... ou ser o habitante de um mundo igualmente fictício e de
conquistas menos retumbantes que, porém, vão ser efetivamente suas ,
efetivamente conquistas , já que você conviverá de perto com a possibilidade de
errar, de sofrer e mesmo de morrer.
Enquanto fala, Lux abre a porta.
- Não sei onde essa porta vai dar. - diz. - Isso é você quem vai determinar.
Fica esperando que eu saia. Não sei se a decisão é realmente tomada por
mim ou escrita por ele no computador lá de cima. Talvez ambos. Talvez
nenhum. Pode ser que eu tenha um inconsciente que escape até mesmo à
onipotência do meu autor. Pode ser que meu autor nem seja onipotente de
verdade, que ele não controle sua ficção, mas apenas a registre, semelhante um
rei que só ordenasse a seus súditos que fizessem o que eles fariam de qualquer
forma. Eu saio.
A luz do Sol da tarde atinge meus olhos em cheio, fazendo-me piscar.
Quase em frente à casa de Lux, há uma praça na qual algumas crianças jogam
bola. Cria-se um impasse entre elas, sobre se uma falta foi ou não cometida, e o
impasse imediatamente vira discussão. Um vira-lata levanta a perna traseira
para mijar num poste e segue em frente, preparando-se para avançar contra os
automóveis que passam. Quando ligo meu carro, o cachorro se põe de
sobreaviso, mas o caminho para meu apartamento vai na direção contrária, e ele
fica olhando com um ar de desapontamento enquanto me afasto.

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