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Rob Macgregor - Indiana Jones E A Grande Cruzada

domingo, 1 de setembro de 2013.
Indiana Jones e a Grande Cruzada
Rob MacGregor
Indiana Jones, o incrível arqueólogo aventureiro, está de
volta para uma nova expediçäo que o conduzirá, uma vez mais,
ao longo de um desenfreado combate contra as forças do mal.
Mas primeiro tem de cumprir uma missäo pessoal: deve
descobrir o paradeiro do pai, o Dr. Henry, conceituado
historiador que foi raptado porque alguém pensa que ele sabe
onde se encontra o Sagrado Graal, o cálice de ouro que contém
o segredo da vida eterna.
Dos canais de Veneza até às alturas estonteantes dos
castelos alemäes, passando pelas terras áridas dos desertos
orientais, Indiana Jones tudo fará para salvar o pai. Juntos,
iräo combater a força mais poderosa do século: o nazismo.
Contudo, existe o nazi disposto a tudo para alcançar a
imortalidade...
- Como pode ver, Dr. Jones, íamos prestes a concluir uma
demanda grandiosa que começou à quase dois mil anos. Estamos
apenas a um passo de encontrar o Graal.
Indy sorriu.
- É entäo que quase sempre as coisas se começam a complicar.
Donovan inspirou o ar por entre os dentes e voltou a
expeli-lo, um suspiro que revelava um qualquer inconveniente
menor que, de uma forma ou de outra, se transformara num
fardo. - É capaz de estar mais perto da verdade do que aquilo
que pensa.
- Como assim?
- Chegámos a um beco sem saída. O indivíduo que chefiava o
nosso projecto, desapareceu. O mesmo se passou com o produto
das suas investigaçöes. Recebemos um telegrama do colega dele,
um tal Schneider. Este näo tem qualquer ideia quanto ao seu
paradeiro, nem quanto ao que lhe aconteceu... Quero que retome
as coisas no ponto onde ele as deixou. Encontre-o e terá
encontrado o Graal. É capaz de pensar num desafio maior que
este?
- Veio ter com o Jones errado, Mr. Donovan. Por que razäo
näo tenta o meu pai? Tenho a certeza de que ele ficaria
fascinado com a ideia e pronto a ajudá-lo no que fosse
possível.
- Já tentei. O homem que desapareceu é o seu pai.
Rob MacGregor
Indiana Jones
E A Grande Cruzada
PUBLICAÇÖES EUROPA-AMÉRICA
Traduçäo de Lucília Rodrigues
Execuçäo técnica: Gráfica Europam, L.da,
Mira-Sintra -Mem Martins
O problema do herói que vai ao encontro do pai é o de abrir
a alma para lá do terror, até atingir o ponto em que estará
pronto a compreender o modo como as tragédias sem sentido que
ocorrem neste unitváde do Seme e cruel säo inteiramente
justificáveis na majestade. O herói transcende a vida.
Por um momento, tem uma breve visäo das fontes. Encara e, e
ambos se redimem. o rosto do pai, compreende
The Hero with a Thousand Faces
JOSEPH CAMPBELL
Qualquer um pode imaginar facilmente como me senti quando,
numa cidade moderna e no meio de toda a agitaçäo do meio-dia,
avistei um cruzado movendo-se na minha direcçäo.
CARL JUNG
Memories, Dreams, Reflections
índice
Capítulo i - Perseguiçäo no deserto ...... 09/1
Capítulo II - Núneros de circo ........... 17/0
Capítulo III - A frente interna .......... 25/1
Capítulo IV - A travessia do Atlântico ... 29/1
Capítulo V - No "Campus" ................. 36/1
Capítulo VI - A placa do cruzado ......... 43/2
Capítulo Vii - O diário do Graal ......... 48/2
Capítulo VIII - Os numerais romanos ...... 57/2
Capítulo IX - O túmulo do cruzado ........ 63/3
Capítulo X - Agentes mortíferos .......... 71/3
Capítulo XI - A casa de Donovan .......... 77/3
Capítulo XII - O Castelo de Brunwald ..... 84/4
Capítulo XIII - Traiçäo .................. 95/4
Capítulo XIV - Desejos ardentes ......... 103/5
Capítulo XV - Os fogos de Berlim ........ 110/5
Capítulo XVI - Acrobacias aéreas ........ 116/5
Capítulo XVII - Forças convergentes ..... 126/6
Capítulo XVIII - Confrontos ............. 134/6
Capítulo XIX - Um contra muitos ......... 142/7
Capítulo XX - O trilho do Graal ......... 151/7
Capítulo XXI - Os três desafios ........ 159/7
Capítulo XXII - O terceiro cavaleiro .... 167/8
Capítulo XXIII - O fim da demanda ....... 17/8
Colorado: 1912
CAPíTULO I
PERSEGUIÇÄO NO DESERTO
O comando carregou através do deserto, os cavalos deixaram
atrás de si um barulho semelhante ao trovejar, uma nuvem de
poeira que se elevava no seu rasto. Cavalgaram bastante
depressa, como que para escaparem ao sol que se elevara por
sobre uma montanha estéril. A paisagem árida já começava a ser
iluminada por uma luz violenta, e näo faltava muito para que o
deserto se transformasse num forno.
Mesmo à frente encontrava-se o local para onde se dirigiam,
um antigo pueblo rochoso. Os cavaleiros vestidos de uniforme
pararam os cavalos assim que viram o comandante levantar a
mäo.
- Des-montar - gritou.
O primeiro a saltar da montada foi um cavaleiro com um tufo
de cabelos cor de palha. Deu uma olhadela aos membros do
grupo. Pensou que, vistos à distância, talvez lembrassem uma
companhia de soldados de cavalaria. No entanto, as coisas eram
diferentes de perto. Até mesmo a sua melhor tentativa de os
imaginar como soldados fracassava. Era bastante óbvio que se
tratava apenas de um batalhäo de escuteiros. æ excepçäo de Mr.
Havelock, ninguém ultrapassava os 13 anos.
Viu um rapazinho gorducho afastar-se do cavalo. Sabia que o
miúdo se chamava Herman, mas näo o conhecia bem. Ouvira alguns
rapazes dizerem que o Herman tinha problemas em casa. Näo
tinha a certeza do tipo de problemas, mas era evidente que
também tinha problemas aqui. Este dobrou-se, cambaleou, e fez
um ar de quem vai cair e bater com a cara no chäo. Acabou por
parar, encostar as mäos aos joelhos, e começar a vomitar.
Todos os que estavam perto dele rugiram. Acotovelavam-se e
apontavam para aquele escuteiro patético.
- O Herman enjoou - gritou um deles.
- Sim, e também molhou a sela - uivou um outro alegremente.
O escuteiro louro, cujo uniforme ostentava um cinto Hopi,
encaminhou-se para Herman e perguntou-lhe se estava bem.
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O seu rosto ostentava um ar preocupado e compreensivo, sem
vestígio de troça. Era evidente que era menos imaturo que os
outros, e ninguém se atreveu a abrir a boca quando ele levou o
outro consigo.
Mr. Havelock gritou aos rapazes que o seguissem com os
cavalos. Estes conduziram as montadas na direcçäo do rochedo
e, deixaram os cavalos à sombra do pueblo. Os rapazes
reuniram-se à volta do chefe.
- Agora näo se ponham a vadiar por aí. Algumas destas
passagens têm várias milhas.
æ medida que o batalhäo marchava atrás do guia, os
escuteiros iam conversando em voz baixa.
- É bom que as coisas melhorem - disse um deles.
- Sim, o circo chega hoje - murmurou outro. - Podíamos
vê-los montar as tendas.
Iam a subir um trilho antigo que escalava o rochedo. Era
poeirento, quente e íngreme. Estavam todos demasiado
embrenhados na subi da para prestarem atençäo á Herman ou ao
rapaz louro que seguia no fim da fila. Um ou dois minutos mais
tarde estavam dentro da primeira habitaçäo. Dentro das paredes
de adobe estava escuro e o ar era fresco. Depois continuaram a
avançar, seguindo um caminho bastante mais frequentado.
Apesar de ser o último, o miúdo louro era o mais atento de
todo o grupo, Era quase como se ele estivesse a sentir o que
aquele local deveria ter sido quando era habitado por um
qualquer povo antigo. De repente, quando o batalhäo virou uma
esquina, agarrou Herman por um braço.
- Chiu! Escuta!
Herman conteve a respiraçäo, interrogando-se sobre o que
poderia ter despertado a atençäo do seu novo amigo. Olhou à
volta pouco à vontade.
Partindo do caminho onde estavam, via-se um outro trilho, e,
dentro da passagem escura, ouviam-se vozes. Apesar de serem
baixas, ouviam-se com nitidez. O rapaz louro fez sinal a
Herman para que o seguisse.
- Anda. Vamos dar uma olhadela.
Herman olhou para trás, na direcçäo onde os outros tinham
ido. Parecia pouco seguro sobre o que deveria fazer, até que
se decidiu e seguiu em frente.
- Okay, Júnior, lá vou eu.
Teias de aranha agarravam-se aos cabelos. Esta passagem era
mais escura e mais fria, e era óbvio que näo era täo
movimentada.
- Para onde vamos? - perguntou Herman.
O rapaz louro, Júnior, virou-se e levou o indicador aos
lábios. As vozes ouviam-se agora com mais nitidez. As paredes
à sua frente iluminaram-se subitamente, e viam-se sombras
enormes e fantasmagóricas aí projectadas. Os dois rapazes
encostaram-se à parede. Sustinham a respiraçäo à medida que
avançavam.
Foi entäo que o Júnior viu quatro figuras que cavavam,
servindo-se de pás e picaretas. Soube de imediato que näo se
tratava de fantasmas. Tinha a certeza de que eram ladröes e
sabiam o que estavam a fazer. Estavam a arrombar uma das
kivas, os aposentos secretos do pueblo.
O pai era professor de arqueologia e dava aulas na
universidade. Sabia tudo a respeito das kivas, e também sobre
muitas outras coisas. Tentara fazer que o pai se juntasse hoje
aos escuteiros e lhes falasse dos pueblos e do povo que ali
vivera. Mas, como sempre, o pai estava demasiado ocupado para
se incomodar com um grupo de garotos. Para além disso, dissera
ele, esta näo era a sua especialidade.
Júnior examinou os quatro homens o melhor que podia. Um
deles era mais pequeno que os outros, e acabou por reparar que
näo se tratava de um homem. Era apenas um miúdo, näo muito
mais velho que qualquer um deles. Contudo, tinha algo de duro.
- Roscoe, levanta a lanterna - disse-Lhe um dos homens.
O homem que acabara de falar vestia um casaco de cabedal com
franjas. Usava um chapéu com a aba levantada de um dos lados,
e tinha ar de ser um cavaleiro dos diabos. O homem que se
encontrava do outro lado de Roscoe tinha cabelo preto e basto
que lhe chegava até aos ombros. Um índio. Näo. Um mestiço.
O último deles estava afastado dos outros três, na sombra.
Usava um casaco de cabedal e um chapéu de feltro castanho, do
tipo fedora.
Sem fazer barulho, o rapazinho louro avançou mais alguns
passos para ver melhor. Fez sinal a Herman. Ouviu respirar
alto e olhou para trás para o acalmar. Herman tinha a boca
aberta e da testa corria-lhe suor.
"Espero que ele näo volte a vomitar. Pelo menos aqui."
Herman escorregou numa pedra solta. Esta fez um barulho
abafado e o rapaz teve de se agarrar à parede para recuperar o
equilíbrio.
Júnior agachou-se, tentando fazer-se o mais pequeno que
podia, colando-se às sombras. Herman seguiu lhe o exemplo.
- Desculpa - murmurou.
Júnior pestanejou e mandou calar com um gesto.
O homem do chapéu voltou-se devagar, levantou a lanterna e
olhou na direcçäo de ambos. Viram-lhe o rosto pela primeira
vez.
- Pensei ter ouvido qualquer coisa - murmurou, voltando de
novo as costas.
Os rapazes estavam simultaneamente assustados e
hipnotizados. æ medida que o Fedora deitava água do cantil
sobre um objecto envolvido em lama, eles observaram-no
atentamente. æ luz da lanterna, Júnior pôde ver que se tratava
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de uma cruz de ouro cravejada de pedras preciosas.
Os amigos do Fedora aproximaram-se.
- Olhem para aquilo! Estamos ricos! - Rugiu Roscoe.
- Pouco barulho. Näo fales täo alto - ralhou o Mestiço.
- Espera para ver. Näo falta muito para que essa
preciosidade renda uns bons dólares - murmurou o Cavaleiro dos
Diabos com dureza.
Fedora pegou na cruz, louvando em silêncio o seu valor e a
sua beleza. Dava a sensaçäo de estar afastado dos outros, de
lhes ser superior de alguma forma.
Júnior tocou no ombro de Herman, incapaz de conter quer a
excitaçäo quer a preocupaçäo que sentia.
- É a Cruz de Coronado! - murmurou. - Fernando Cortes
ofereceu-lha em 1520! Prova que Cortes enviou Francisco
Coronado procurar as Sete Cidades de Ouro.
Herman estava espantado.
- Como é que sabes isso tudo, Júnior?
O rapaz louro voltou a olhar na direcçäo dos homens,
observando-os durante um bom bocado.
- Aquela cruz é uma peça importante. O lugar dela é num
museu. E faz-me um favor, näo me chames Júnior.
- É assim que Mr. Havelock te chama.
- O meu nome é Indy.
Detestava que o tratassem por Júnior. Fazia-o parecer-se com
um miúdo de calçöes. Contudo, e sempre que Lhe falava no
problema do nome, o pai ignorava-o.
Ficaram a observar durante mais uns minutos, até que a
expressäo de Indy endureceu, exactamente como se tivesse
acabado de se decidir. Voltou-se para Herman.
- Ouve, volta atrás e vai ter com os outros. Diz a Mr.
Havelock que há homens a saquear o pueblo. Diz-lhe que traga o
xerife.
Herman parecia näo ter ouvido. Estava a mexer a boca, mas
dapoque olhava aterrorizado para uma cobra que Lhe escorregara
para o colo, näo saía qualquer palavra.
- É só uma cobra - disse Indy, apanhando-a e atirando-a para
o lado. - Ouviste o que eu te disse, Herman? É importante.
- Certo. Voltar atrás. Mr. Havelock. O xerife. - Fez um
gesto de assentimento, e o seu olhar seguiu para lá de Indy.
- Que vais fazer Jún... Indy? na direcçäo dos homens.
- Näo sei. Hei-de lembrar-me de alguma coisa. É melhor ires
andando.
Herman desapareceu pela passagem, recapitulando o caminho 1
que fizera, isto enquanto Indy se voltava a ocupar dos
ladröes.
Estes tinham posto a cruz de lado e andavam à procura de
mais 12 peças. Devagar, sempre junto à parede, foi avançando
até se encontrar muito perto da cruz. Apesar de sujas, asjóias
brilhavam à luz da lanterna, chamando-lhe a atençäo.
Aproximou-se, agarrou-a, e quando o fez viu que estava um
escorpiäo agarrado à cruz. Tentou tirá-lo dali, mas a criatura
mortífera parecia estar colada ao objecto. Praguejou entre
dentes e continuou a abanar a mäo. O escorpiäo caiu, mas ele
traíra-se. Os ladröes viraram-se ao mesmo tempo e
descobriram-no.
- Essa coisa é nossa - gritou Roscoe. - Ele tem a nossa
coisa.
- Apanhem-no - gritou o Mestiço. Indy precipitou-se às cegas
pela passagem, agarrando-se à cruz, o coraçäo a bater de
encontro às costelas. A certa altura olhou para trás e viu um
dos ladröes tropeçar e cair, e dois deles chocarem um de
encontro ao outro enquanto o tentavam alcançar. Mirou por um
momento para ver se o iam deixar em paz. No entanto, näo teve
essa sorte. Viu o Fedora lançar um olhar enjoado na direcçäo
dos companheiros, e seguir pelo túnel atrás dele. "Raios! Se
ao menos o pai ali estivesse", pensava ele enquanto avançava
pela escuridäo. O pai saberia lidar com aqueles tipos.
imaginou o pai a apontar um dedo acusador aos ladröes e estes
a encolherem-se. Sim, ele faria uma coisa desse tipo. Indy
arfava quando saiu da escuridäo do pueblo e encontrou a luz
quente e clara do dia. Parou, perscrutou o horizonte, e,
sustendo a respiraçäo, protegeu os olhos com as mäos. Olhou em
todas as direcçöes. Descobriu que se encontrava no telhado de
um nível de pueblos.
- Herman! Mr. Havelock! Quem quer que seja! Onde estäo? -
Abanou a cabeça. - Raios, perderam-se todos menos eu -
resnungou entre dentes.
Ouviu passos atrás de si e viu o Fedora aparecer vindo do
pueblo. O Cavaleiro dos Diabos, o Mestiço e Roscoe seguiam
imediatamente atrás. Indy atravessou o telhado até chegar a
uma escada que levava ao nível inferior e ouviu Roscoe gritar
quando o viu. Em vez de descer a escada, calculou a distância
que o separava do próximo pueblo, pegou na escada, tomou
balanço e saltou para o telhado seguinte.
Três dos ladröes correram até à beira do telhado e pararam
bruscamente. Confusos, olharam à volta, tentando descobrir
como apanhar o miúdo.
Entretanto, Indy chegara à beira do telhado e näo tinha a
certeza do que faria a seguir. Desta vez näo havia ali
qualquer escada e o solo estava a cerca de vinte pés mais
abaixo. Foi entäo que viu os cavalos a descansar à sombra, no
local onde os escuteiros os tinham deixado. Levou os dedos à
boca e assobiou, chamando a sua montada. O cavalo abanou a
crina e foi ter com ele a trotar.
Indy olhou para trás e viu Fedora passar pelos companheiros
e saltar o abismo. Assim que chegou ao outro lado, parou
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durante o tempo suficiente para olhar para os outros com
desdém. Entäo, abanando a cabeça, atirou a escada na direcçäo
onde estes se encontravam.
Indy agachou-se, para se deixar cair na sela, mas o cavalo
näo parava quieto; mas ouviu o som de passos ressoar no
telhado.
- Fica quieto. Näo te mexas. Porta-te bem.
Saltou, e foi precisamente nesse momento que o cavalo deu um
passo em frente e Indy näo conseguiu aterrar na sela. Bateu
com os pés no chäo, e depois atirou-se para o solo tentando
amortecer a queda. O impacte fez-lhe estremecer o corpo,
sacudindo-o dos pés à cabeça. A cruz caiu-lhe do bolso, indo
parar ao pé. Ele apanhou-a, enfiou-a no alforge e montou a
cavalo.
Enquanto se afastava, olhou para trás e viu Fedora parado à
beira do telhado, observando-o. Sorriu e esporeou o cavalo,
incentivando-o a seguir. Tinha de chegar junto do xerife o
mais depressa que pudesse, de forma a evitar que os ladröes
fugissem.
Fedora levou dois dedos à boca e assobiou. Nenhum dos
cavalos se mexeu. Em vez disso, apareceram dois automóveis
vindos da parede do pueblo seguinte. Um deles, um
descapotável, descreveu um círculo e fez uma paragem
adruptajunto de Fedora, que saltou do telhado formando uma
nuvem de pó. Assim que o ar clareou, o automóvel partiu,
levando Fedora instalado no banco de trás.
Com uma expressäo satisfeita, este compós o chapéu e gritou
- Força!
O condutor carregou no acelerador e o automóvel de imediato
ganhou velocidade. A segunda viatura deixou-se ficar para trás
pois o motorista estava à espera que Roscoe, o Mestiço e o
Cavaleiro dos Diabos o alcançassem. Indy corria pelo deserto,
cortando o ar seco do mesmo modo que uma faca corta manteiga.
O sol bri lhava impiedosamente, fustigando a terra e fazendo
sentir-se assado. Atrás de si, os dois automóveis díminuíam a
distância ra pidamente.
A montanha desolada que se erguia à sua frente näo havia
maneira de se aproximar. Era como se o cavalo estivesse a
galopar no mesmo sítio. As únicas coisas que se moviam eram os
automóveis, dos quais emergiam um de cada lado. Indy sentiu-se
como se fizesse parte de uma sandes, e ele e o cavalo fossem a
carne.
Olhou para a sua direita e viu um homem com um chapéu largo
a conduzir um Sedan cor de creme. Vestia um fato de linho
branco que dava a ideia de ser bastante caro; e o
rosto estava escondido pela enorme aba do chapéu.
Através da janela do assento traseiro, Roscoe fez-lhe uma
careta e abanou o pulso na sua direcçäo. Dado que o condutor
tentou agarrar-lhe a perna, Indy esporeou a montada, e, se bem
que por breves instantes, ganhou uma certa vantagem.
No entanto, o seu esforço extraordinário näo surtiu efeito.
Os automóveis näo tardaram muito a recuperar a margem por ele
conseguida. Näo se limitavam apenas a manter o mesmo andamento
dele, mas apertavam-no como se fosse um torno gigantesco e com
rodas. Apenas o vento quente e o pó o separavam dos veículos.
Indy baixou-se o mais que podia e inclinou-se para a frente,
numa tentativa para escapar. O coraçäo batia-lhe com força, os
níveis de adrenalina subiram em flecha, e ele precipitou-se
para a frente.
æ sua esquerda, Fedora passou para um dos lados do
descapotável e desceu para o estribo. Indy olhou no rosto. O
homem sorriu-lhe, como para dizer que estava a gostar da
perseguiçäo. Entäo, e com graciosidade, saltou para o cavalo
de Indy.
Contudo, o rapaz era täo rápido e ousado quanto ele. Antes
de Fedora o poder agarrar elevou-se na direcçäo da capota do
Sedan que se encontrava à sua direita. Aterrou de joelhos, e
manteve o equilíbrio agarrando-se à borda do tejadilho. O
Cavaleiro dos Diabos e Roscoe emergiram das janelas e tentavam
agarrá-lo quando, subitamente, Indy se apercebeu de que já näo
tinha a cruz consigo. A sua cabeça moveu-se na direcçäo do
cavalo. Viu-a, meio a sair do alforge.
No entanto, Fedora näo sabia que a cruz estava a algumas
polegadas do seu alcance. Fez um ar irritado e subiu para o
tejadilho do Sedan. Estendeu um braço na direcçäo de Indy, mas
o rapaz voltou a saltar para o cavalo, impedindo que o
agarrassem, e fazendo que o Cavaleiro dos Diabos e Roscoe
batessem com as cabeças uma na outra quando o tentaram
agarrar.
Indy puxou as rédeas com força, fazendo o cavalo abrandar,
tudo enquanto os dois automóveis passavam por ele a grande
velocidade. Envolto numa nuvem de pó, virou-se numa outra
direcçäo e galopou no sentido da linha do caminho-de-ferro, na
qual se via aproximar um comboio a toda a velocidade. Atrás de
si, os automóveis descreveram duas voltas largas e retomaram a
perseguiçäo.
Quando Indy se aproximou dos trilhos, o comboio estava mesmo
ao seu lado e fazia um barulho enorme. Este tinha algo de
estranho. Em vez de serem castanhas e cinzentas, como era
costume, as carruagens eram bastante coloridas. No entanto, e
dado que os dois automóveis estavam quase a alcançá-lo, näo
teve tempo para pensar nesse pormenor. Só lhe restava uma
alternativa.
Enfiou a cruz no cinto, elevou-se na sela e agarrou-se à
escada da carruagem mais próxima. Começou a subi-la, mas mudou
de ideias assim que viu uma janela aberta ali perto. Como se
fosse uma aranha, arranjou maneira de a alcançar. Olhou por
cima do ombro e viu os automóveis acercarem-se do comboio.
Indy alcançou a janela e deixou-se cair através dela.
Aterrou em algo macio, grande, mais ou menos como um canteiro
de melöes. Contudo, tratava-se de um meläo humano. Afundou-se
numa série de dobras e pregas de carne.
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Afastou-se, e viu que a sua cabeça aterrara numa mulher
copiosamente obesa.
Admirado e embaraçado, Indy levantou-se de um salto. A
enorme criatura estava sentada num assento suficientemente
grande para acnmodar os seus mais de duzentos quilos. Recuou,
sorrindo, Indy ouviu alguém soltar uma gargalhada e voltou-se.
Ficou de boca aberta.
Conversando, encontrava-se o grupo de pessoas mais estranhas
que Indy vira em todos os seus 13 anos. Aquele era composto
por indivíduos com cabeças de alfinete, uma dama barbuda,
anöes, um homem de borracha, e um rapaz com pés em forma de
barbatana, Claro! Era a caravana do circo que se dirigia para
a cidade.
- Olá! Espero que näo se importem que eu tenha caído aqui
assim. - æ medida que falava, Indy continuava a olhar em
volta.Näo pôde ser de outra maneira. Eu tinha um cavalo,
mas...
Parou assim que o anäo se aproximou dele.
- Queres dizer que saltaste para o comboio vindo de um
cavalo... tal como num número de circo? - A voz do homem era
fininha , a condizer com o tamanho.
Indy sorriu.
- Sim.
- Näo vejo cavalo nenhum.
- Ele está a mentir - disse alguém.
- Aposto que te queres juntar ao circo - disse o anäo,
espetando-lhe um dedo no estômago.
- É demasiado normal - resmungou o homem de borracha.
- Deixem o miúdo em paz - disse a mulher barbada passando os
dedos pelos pêlos que lhe cresciam no rosto.
O anäo, que tinha os olhos à altura do cinto de Indy,
inclinou-se para a frente e examinou a cruz.
- Que é isso? - perguntou, franzindo um pouco a testa.
- Nada.
- Dás-ma?
- Näo. - Pronunciara esta frase demasiado alto e demasiado
depressa. - Vou levá la para o museu. É lá que é o seu lugar.
- Para o museu - repetiu o anäo. - Estou a ver.
Indy sentou-se numa caixa para evitar que o anäo continuasse
a olhar para a cruz. Pensou que talvez descesse do comboio
quando passassem perto de sua casa. Assim que chegassem à
cidade, os ladröes näo Teriam coragem de o incomodar. Teriam
medo de ser apanhados. Se tentassem alguma coisa, ele só teria
de gritar por socorro. E, assim que chegasse a casa,
explicaria tudo ao pai.
Disse a si próprio que iri a fi car tudo bem. O pai
ficaria orgulhoso dele. Estava sempre a queixar-se a propósito
das pessoas que saqueavam os locais de interesse arqueológico.
E agora o seu filho, Júnior - "Indy, o meu nome é Indy" -,
apanhara quatro indivíduos com a boca na botija.
Sentiu que alguém lhe tocava o ombro, e voltou-se para
encarar o anäo, que agora tinha o nariz à mesma altura do seu.
- Tenho uma pergunta a fazer-te.
- Qual?
O anäo apontou para lá do local onde se encontrava.
- Aquele ali também veio a cavalo?
Indy deu meia volta e viu que Fedora o observava através da
janela.
CAPíTULO II
NúMEROS DE CIRCO
- A fazer novos amigos? - perguntou Fedora com um sorriso.
Indy levantou-se e recuou alguns passos.
- Claro que sim. - Continuava a fitar Fedora, mas falava
para os outros. - Cuidado com este homem. É um ladräo.
Fedora entrou pela janela e tentou passar pela senhora
gorda.
- Espere um minuto - disse ela, levantando-se e bloqueando o
caminho de Fedora. - Neste comboio näo queremos gente da sua
laia.
Indy aproveitou a oportunidade e dirigiu-se para a porta que
se encontrava no fundo da carruagem. Abriu-a e saltou para um
vagäo. No meio deste encontrava-se um monstro impressionante,
composto por filas de apitos brilhantes movidos a vapor, os
quais se elevavam a partir de um teclado cor de pérola.
Escondeu-se atrás dele e olhou para trás, mesmo a tempo de ver
Fedora entrar pela porta com a mulher barbada agarrada à sua
garganta. Ele deu-lhe um empurräo e saltou para o atrelado.
Indy agarrou-se a uma alavanca que se encontrava num dos
lados do objecto, tentando equilibrar-se, mas aquela moveu-se
e o monstro despertou para a vida. Dos tubos saíam vagas de
vapor e ruído. Os companheiros de Fedora, que haviam abalroado
o vagäo, vindos do automóvel, pararam subitamente e taparam os
ouvidos, protegendo-se contra aqueles pavorosos roncos e
silvos. Recuaram, e uma explosäo de vapor quase que os deitou
para fora do comboio.
Enquanto isso, Indy elevara-se para o telhado do vagäo
seguinte, e escalou até atingir um alçapäo. Abriu o trinco e
elevou-se até chegar a uma passagem que se encontrava suspensa
do tecto do vagäo. Alguns centímetros mais abaixo
encontravam-se uma série de caixotes que pareciam conter todos
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os tipos de cobras, la gartos, crocodilos e jacarés. Era uma
autêntica Arca de Noé carregada de répteis.
Indy ficou a olhar para os caixotes, fascinado e
horrorizado. A última coisa que queria era cair lá em baixo. A
sua única esperança era que os outros näo dessem por aquela
porta e se dirigissem para o próximo vagäo. Mas, precisamente
quando assim pensava, a porta abriu-se e o Mestiço e Roscoe
precipitaram-se para a passagem.
"E agora?"
Indy dirigiu-se à pressa para o fundo do vagäo, interrogando
-se sobre o que faria quando chegasse ao fim da passagem. Por
muito corajoso e forte que fosse, sabia que näo podia aguentar
com os outros dois. Raios, até mesmo Roscoe era capaz de criar
problemas só por si. Era o tipo de miúdo capaz de fazer jogo
sujo, capaz de coisas como render-se, e, depois, quando os
outros estivessem de costas, saltar sobre eles.
Reparou que havia um outro alçapäo mesmo por cima dele, no
fundo da passagem. Fugiria antes que o agarrassem, claro. Era
canja. Contudo, antes de poder dar mais um passo, um som
metálico elevou-se nos ares. A passagem começou a abanar.
Levantou os olhos, e o medo invadiu-o como se de um gás
venenoso se tratasse. O peso dos três era demasiado para a
passagem, e um dos parafusos que a seguravam ao tecto começara
a soltar-se. O pequeno corredor abanava e gemia, ameaçando
lançar os três nas caixas dos répteis que rastejavam.
Os três ficaram como que petrificados nos lugares onde se
encontravam, receando que um simples gesto fizesse que se
despenhassem. Indy olhou para o alto, na direcçäo da porta.
Estava a cerca de um passo de distância, e a seu lado havia
uma pega. Conseguiu agarrá-la, elevou-se, abriu a porta a
pontapé e içou-se para o cimo do vagäo.
- E agora, Espertalhäo? É quase certo que os outros dois
ladröes estäo lá fora à tua espera." Näo sabia o que ia fazer,
mas näo havia tempo para pensar a esse respeito.
Agachou-se e deu um salto na direcçäo do puxador. Os seus
dedos tocaram-Lhe ao de leve, mas näo o conseguiu agarrar.
Desequili brado, aterrou apenas em cima de um dos pés. A
passagem balouçou, e ouviu uma série de estalidos à medida que
vários parafusos se soltavam. Roscoe e o Mestiço gritaram, mas
o que caiu foi o lado da passagem onde Indy se encontrava.
Este mergulhou no chäo do vagäo, aterrando com uma pancada
seca dentro de uma plataforma de madeira.
Näo se mexeu durante um momento. Tinha medo de ter partido
alguma coisa - as pernes, talvez os braços, talvez mesmo o
pesCoço. No entanto, a escuridäo era algo pior que o medo de
ter partido um membro. Näo conseguia ver. O pânico fervia-lhe
na garganta; e estava prestes a soltar um grito quando
descobriu que fechara os olhos quando caíra. Riu-se de
mansinho de si para si, mas, quando os abriu, a sua gargalhada
transformou-se em algo estranho, desesperado, quase um
cacarejo. Estava frente a frente com uma enorme anacönda.
Acabeça do animal era täo grande que este mais parecia um
tyrannosaurus rex que uma cobra. Tinha a língua de fora, quase
que de encontro ao seu rosto. Um arrepio gelado percorreu-Lhe
a espinha. Aterrorizado, arregalou os olhos. Rolou sobre si
mesmo, pôs-se em pé e afastou-se. Tinha medo de que, ao
desviar os olhos da anaconda, esta o atacasse. Näo via para
onde se dirigia, e um dos pés atingiu os limites da
plataforma. Vacilou por um momento e depois inclinou-se para
trás. Aterrou com suavidade. Näo se tinha aleijado. Foi entäo
que se apercebeu de onde estava. Caíra numa caixa de cobras.
De súbito, tinha centenas de répteis a rastejar por debaixo
e por cima dele. Toda aquela massa em movimento o envolvia
como se de areia movediça se tratasse. Só que aquilo era pior
que areia movediça, muito pior. As cobras estavam a tirar-lhe
o fôlego, a vida. Por instantes, quando levantou a cabeça
daquele pesadelo, viu o Mestiço e Roscoe tentando manter-se na
passagem pouco segura situada por cima dele.
Roscoe agarrara-se a uma das pernas do Mestiço, mas o ladräo
de cabelos negros queria ver-se livre do rapazinho. Chegara ao
alçapäo e abanava a perna, tentando afastar-se do outro, que
gritava, apavorado, receando aterrar nas mandíbulas de
qualquer jacaré ou crocodilo que rastejavam por debaixo de si.
Foi entäo que as serpentes voltaram a cobrir Indy e este
deixou de ver fosse o que fosse. No entanto, näo desistiu.
Estava a lutar pela vida. Tanto por baixo como por cima dele
se empilhavam serpentes, e isto impedia-o de se voltar a pôr
em pé. Assim, foi forçado a fazer a única coisa que podia
fazer: pontapear a parede do caixote.
Depois de vários pontapés no mesmo local, a parede da caixa
estalou. Servindo-se de toda a energia que ainda possuía, deu
mais um pontapé. Desta feita, a parede partiu-se, e toda
aquela massa de cobras rastejantes escorregou para fora da
caixa, levando Indy junto com elas.
Levantou-se, procurando recuperar o fôlego. Sacudiu as
cobras dos ombros e das pernas. Para ele, aqueles animais
jamais seriam os mesmos. Por cima de si ouviu estalidos de
metal, bem assim como as pragas que os dois ladröes soltavam à
medida que tentavam atingir o alçapäo. Contudo, a sua atençäo
concentrava-se agora na porta que estava no chäo, e que talvez
18 19
fosse usada quando limpavam o vagäo.
Indy abriu-a, e foi de imediato bombardeado pelo barulho
metálico que os vagöes faziam a bater de encontro aos carris.
As traves dos carris passavam por debaixo de si. Hesitou. O
pai seria capaz de o matar se soubesse aquilo que estava
prestes a tentar.
Já era suficientemente mau ter entrado num comboio em
movimento a partir de um cavalo, junto com o facto de ter
caído num caixote cheio de cobras, mas agora estava prestes a
tentar o impossível.
Apesar disso, näo estava disposto a permanecer no chäo no
vagäo perto das cobras e dos jacarés. Näo havia outra saída.
Para mais, tinha de se afastar dos ladröes.
Respirou fundo e baixou a cabeça, passando-a pela porta. A
todo o comprimento do vagäo corria uma barra de aço. Baixou-se
e segurou-a com uma mäo. Esta estava quente mas näo a
escaldar, e estava colocada acima dos carris a altura
suficiente para nela se instalar, isto desde que a mantivesse
junto ao peito.
Apenas alguns centímetros. Esta era a distância que tinha de
rastejar.
"Uns quantos centímetros näo säo uma coisa impossível, pois
näo? Posso rastejar durante alguns centímetros. Sei que o
posso fazer.", Com cuidado, baixou-se através da porta,
agarrando-se à barra de metal, primeiro com as mäos, depois
com os braços e as pernas. Começou a avançar. Os embates do
comboio vibravam por todo o seu corpo, ameaçando atirá-lo dali
para fora.
"Merda! Para que foi que me meti nesta?" Disse a si mesmo
para se concentrar. Sabia que, desde que se concentrasse e
usasse toda a força de que dispunha, seria capaz de aguentar.
"Vou conseguir. Vou conseguir", repetia ele à medida que
avançava.
Finalmente, acabou por chegar ao fim e descobriu que näo
pensara na maneira de sair da barra. A frente do vagäo
estendia-se alguns centímetros para lá do fim da barra. Talvez
ficasse bem se se deixasse ficar onde estava.
No entanto, quanto tempo seria capaz de aguentar antes que
os seus braços se cansassem? As vibraçöes faziam-no estremecer
até aos ossos.
Pensou por um momento na cruz que enfiara no cinto. Se esta
escorregasse e se esmagasse de encontro aos carris, todos os
seus esforços teriam sido inúteis. Soltou uma das mäos e
estendeu-a em direcçäo ao fim da carruagem. Tacteou o limite
mais baixo da parede da frente, tentando encontrar algo a que
se agarrar. Contudo, nada encontrou.
20
Foi entäo que se lembrou do cabo de segurança que ligava as
carruagens. Onde estaria? Estendeu o braço o mais possível. Os
dedos tocaram em algo antes de escorregarem. Tentou outra vez
e desta feita agarrou o cabo.
"E agora?"
Estava estendido entre o cabo e a barra, e tinha de se
decidir por um dos dois. A indecisäo paralisou-o
momentaneamente. "Que devo fazer? Será que importa?" Fechou os
olhos, deixou a outra mäo soltar-se da barra, e, às cegas,
tentou agarrar o cabo. Segurou-o com força e deixou os pés
escorregarem pelos últimos centímetros da barra. As pernas
ficaram entäo a balouçar no ar, e, servindo-se das mäos, ia
avançando. Abriu os olhos e viu a atrelagem mesmo por cima de
si. Segurou-se a ela com um braço, e depois passou-lhe uma
perna por cima, tal como se estivesse a montar a cavalo.
Conseguira. Ia montado na atrelagem que unia os dois vagöes.
Inclinou-se para a frente na direcçäo da outra carruagem.
Esta era uma espécie de jaula sobre rodas. Lá dentro estava um
enorme tigre de Bengala. Tentou alcançar a grade mais próxima,
e subiu para a atrelagem, ganhando balanço. Foi entäo que
saltou para o lado de fora da jaula.
Começou a caminhar através da estreita borda do vagäo,
agarrando-se àjaula. Parou por um momento quando sentiu algo a
rastejar ao longo de uma das pernas. Torceu o nariz, tirou uma
cobra de dentro das calças. Reajustou a cruz ao cinto e
continuou a andar. Dentro dajaula, o tigre observava-o,
andando de um lado para o outro. Indy olhou também para ele. æ
medida que se aproximava da parte da frente da jaula, o tigre
andava cada vez mais perto. Agachou-se para descansar, na
esperança de que aquele enorme gato näo fizesse caso dele.
Apesar de entre ele e o tigre existirem grades, se a criatura
estendesse as garras para fora das grades, esta brincadeira
seria mortal.
Contudo, aquilo de que ele näo se apercebeu foi de que um
outro perigo o espreitava. O Cavaleiro dos Diabos conseguira
chegar quase à frente dajaula, vindo do lado oposto. Tal como
o tigre, também o ladräo tinha os olhos fixos na sua presa.
Quando sentiu uma mäo agarrar-lhe o pescoço, Indy olhava
para o tigre e dizia-lhe mentalmente para se afastar.
- Apanhei-te - gritou o Cavaleiro dos Diabos.
Nesse instante o tigre aproximou-se das grades. Estendeu uma
das patas, cravando as garras no ombro e nas costas do
Cavaleiro dos Diabos, rasgando-Lhe o casaco. O ladräo soltou
um grito de dor e de surpresa, agarrando o ombro. Vacilou
durante alguns momentos, e depois caiu do comboio.
Indy olhou para trás a tempo de ver o outro rolar pelos
carris. Voltou-se para a parte da frente da carruagem e sentiu
um punho enterrar-se-lhe no estómago, cortando-lhe a
21
respiraçäo. Dobrou-se, arfando, certo de que ia morrer.
Levantou os olhos e viu Roscoe inclinando-se para ele.
- Maricas. - O garoto fez um sorrisinho de desprezo, e
voltou a preparar o punho para bater.
Contudo, Indy enterrou o tacäo da bota no pé de Roscoe.
Deu-lhe um murro no olho e mordeu-lhe a mäo. O outro soltou um
grito de dor e Indy ultrapassou-o. Saltou para um atrelado e
subiu a escada que levava ao tejadilho.
Roscoe foi rápido a recuperar e, enquanto o perseguia, ia-o
amaldiçoando. Indy acabara de chegar lá acima quando o outro
lhe agarrou o tornozelo. Caiu no tejadilho e os dois rapazes
rolaram perigosamente para perto da beira.
O barulho dos carris martelava os ouvidos de Indy, e este
viu Roscoe elevar uma faca no ar. A ponta da lâmina faiscava.
Roscoe desferiu o golpe. Indy rebolou-se mesmo a tempo de
evitar a lâmina. Afastou-se a rastejar, mas o outro foi atrás
dele, impedindo de se levantar.
"Seja o que for que está neste atrelado, deve ser coisa
grande!"
Sempre que ele ou Roscoe se moviam, havia algo que se
atirava de encontro ao atrelado, abanando-. Contudo, näo tinha
tempo para meditar sobre o assunto. Estava demasiado ocupado a
tentar manter-se vivo.
- Dá-me essa cruz! - gritou Roscoe, exibindo a lâmina por
sobre Indy. - Já!
Indy agarrou o pulso de Roscoe, dobrando para trás de forma
a fazê-lo guardar a faca.
De repente, a presa de um rinoceronte atravessou a parede de
madeira, falhando a cabeça de Indy por um triz. Ele rebolou-se
para um dos lados e o pulso de Roscoe ficou livre de novo.
Indy empurrou-o, mas o rapaz lançou-se sobre ele,
apontando-lhe a faca à garganta. Indy levantou a cabeça e a
lâmina espetou-se na madeira, falhando-lhe a orelha por pouco.
Enquanto Roscoe tentava libertar a faca, o rinoceronte
voltou a atacar, e desta vez o corno apareceu exactamente
entre as pernas de Indy. Roscoe levantou a faca e atirou-a ao
peito de Indy. Este viu a lâmina faiscar à luz. Levantou as
pernas e atirou-as contra o peito de Roscoe, fazendo recuar. O
rapaz vacilou por um instante, agitando os braços para
recuperar o equilíbrio, e pouco faltou para que caísse da
carruagem.
Indy rebolou sobre o estômago e olhou para trás mesmo a
tempo de ver Roscoe atirar a faca na sua direcçäo. O mais
provável era esta cravar-se no seu rosto, mas, naquele
momento, o corpo do rinoceronte apareceu no tejadilho, mesmo
ao lado da cabeça de Indy, e a faca acertou-lhe.
22
Indy conseguiu pór-se de pé e viu um tanque de água ao lado
dos carris imediatamente à frente. A goteira surgia mesmo à
sua frente, e elevava-se por cima do comboio. Soube de
imediato como se podia escapar. Correu para um dos lados do
vagäo, calculou a distância e cronometrou o salto.
Näo teve problemas em se agarrar à goteira, mas a velocidade
a que o comboio seguia fez que aquela girasse em torno do
tanque.
Ele continuou a agarrar-se, fechou os olhos, e, assim que
sentiu a goteira abrandar, deixou-se cair. A queda foi
bastante pequena, facto que o fez compreender que dera uma
volta completa e que estava de novo no comboio. Desta feita,
aterrara no tejadilho de um outro atrelado, e de pronto
colidiu com o Mestiço, que se desequilibrou e caiu.
Confuso com o que acontecera, Indy deu meia volta. O que
sucedeu a seguir confundiu-o ainda mais. Caiu por uma abertura
no tejadilho.
Assim que chegou ao chäo, uma nuvem de pó elevou-se à sua
volta. Os raios de sol penetravam no vagäo através dos
intervalos das tábuas, mas demorou algum tempo até que os seus
olhos se habituassem à escuridäo. No ar pairava um cheiro
pesado a animal, e ele torceu o nariz. Foi entäo que viu a
fonte do odor. No lado oposto do compartimento, um leäo
africano levantava-se lentamente.
Era mais que óbvio que pretendia investigar a criatura que
caíra no seu covil.
O animal rugiu e as paredes do atrelado pareceram
estremecer. O pó elevava-se em torno do leäo à medida que este
olhava para ele como se de uma presa se tratasse.
- Caramba! - Indy engoliu em seco e recuou até ao canto da
viatura.
Viu que um raio de luz se reflectia em qualquer coisa caída
no chäo, e de repente compreendeu o que era. A cruz tinha-se
solto quando caíra, e agora encontrava-se aos pés do leäo.
Olhou em volta e continuou a recuar até que, com as costas,
sentiu a parede do fundo do vagäo. æ medida que o leäo
continuava a olhá-lo, preparado para dar o seu salto
mortífero, Indy pressionou as mäos contra a parede. A sua mäo
esquerda foi ao encontro de um prego. Por debaixo dele estava
qualquer coisa de pele. Pensando tratar-se de outra cobra,
virou a cabeça. Em vez disso viu um chicote-o chicote do
domador de leöes. Cuidadosamente, pegou nele pela pega. O
animal reconheceu o chicote e rugiu baixinho. Indy engoliu em
seco, deu um esticäo ao chicote. Este desenrolou-se
desastradamente, e a ponta voou para trás, atingindo no rosto
e fazendo-lhe um golpe no queixo.
Agora o leäo rugia mais alto.
Com alguma rapidez, Indy levantou o chicote, humedeceu os
lábios, tentou de novo. Desta vez o instrumento fez um barulho
cortante, tal como era suposto acontecer, exactamente como ele
vira no circo quando o domador de leöes,
23
de chicote em riste, andava à volta do rei dos animais.
O bicho rugiu e depois encolheu-se. A experiência dizia-lhe
o que o estalar do chicote significava.
Surpreendido e encantado com o seu feito, Indy sorriu.
Voltou a estalar o chicote e o leäo encolheu-se ainda mais.
Indy avançou alguns centímetros até a cruz se encontrar mesmo
na sua frente. O animal encontr ava-se a pouca distância.
Devagar, o rapaz baixou-se. Sem desviar os olhos do leäo,
apanhou a cruz.
Foi entäo que recuou, apercebendo-se de que tinha as mäos a
tremer e que o suor lhe escorria pelo rosto. Inspirou
profundamente, expirou e tentou recompor-se. Agora, como
poderia ele sair dali?
Levantou os olhos para a abertura de onde caíra, e viu que
Fedora o observava. Fedora fez-lhe um sinal, sorriu, e
estendeu-lhe a mäo.
Era tudo o que ele precisava. Indy decidiu que era
preferível enfrentar Fedora que permanecer por mais um minuto
que fosse dentro dajaula do leäo. Atirou uma das pontas do
chicote na direcçäo do buraco, e Fedora agarrou-a.
O homem içou-o lentamente enquanto ele subia pela parede.
Ainda olhou para trás, e viu o leäo agachado e pronto a
saltar se ele caísse. Voltou a cabeça de repente, e concentrou
a sua atençäo em sair dali. Quando chegou à beira da abertura
Fedora estendeu o braço e puxou-o para fora, depositando-o no
tejadilho. Ele caiu de joelhos. Custava-lhe a respirar. Estava
exausto. O leäo conseguira arrasá-lo.
- Sou obrigado a dizer que tens coragem, miúdo - disse
Fedora. Apontou para a cruz. - No entanto, isso pertence-me.
Indy levantou os olhos e viu que tinha mais companheiros:
tanto Roscoe como o Mestiço estavam ali. Ficou a olhar para
Fedora.
- Isto pertence a Coronado.
- Coronado está morto. E os seus netos também. - O homem
estendeu o braço com a palma virada para cima. - Vá lá, miúdo,
näo há outra saída.
- Atira lá isso - ladrou Roscoe, agarrando a cruz. Indy
continuava a segurar a outra ponta, recusando-se a largá-la.
Deu-se início a uma espécie de braço-de-ferro. No decorrer
deste, uma cobra esgueirou-se pela manga da camisa de Indy e
enroscou-se em torno da mäo de Roscoe.
- Tirem-na daqui - gritou. Largou a cruz e abanou o braço
até se ver livre do animal. A seus pés, o leäo rugiu. Indy
aproveitou-se desta confusäo, e, passando por entre as pernas
do Mestiço, saltou para o vagäo seguinte. O Mestiço estava
prestes a lançar-se atrás dele, mas Fedora fez-lhe sinal para
parar.
24
- Fica quieto! Näo o deixes voltar atrás. - Deu meia volta e
foi atrás do rapaz.
Indy desceu a escada que se encontrava entre as carruagens,
e entrou numa pequena carruagem destinada ao pessoal. Esta
estava cheia de roupas e continha também o equipamento do
mágico. Olhou em volta à procura de um local para se esconder.
Ouviu Fedora descer as escadas e esgueirou-se até desaparecer
de vista.
Fedora entrou calmamente na carruagem e inspeccionou-a.
Dirigiu-se para uma enorme caixa preta e, como quem näo quer a
coisa, destapou-a. Um a um, os quatro lados da caixa caíram,
nada revelando.
Quando viu a parte superior de uma outra caixa mexer-se
ligeiramente, sorriu com confiança.
- Vá lá, miúdo. Acabou-se. Sai daí.
Abriu a caixa e uma série de pardais saiu lá de dentro,
espalhando-se pela carruagem. Estava a começar a ficar farto
daquele miúdo fujäo. Abriu caminho através das roupas e dos
apetrechos mágicos. Pegou numa vara e dirigiu-se para um dos
cantos, mas esta estremeceu e transformou-se num lenço.
- Raios, onde é que...
Foi entäo que viu alguns pardais voarem pela porta das
traseiras da carruagem, porta esta que balouçava na brisa.
Compreendendo o sucedido, correu até à varanda das traseiras.
æ medida que se aproximava do seu destino, o comboio ia
abrandando, e, à distância, viu Indy desaparecer por uma rua
formada por modestas construçöes de madeira.
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CAPíTULO III
A FReNTE INTERNA
Ofegante, mas levando consigo a cruz de Coronado, Indy
dirigiu-se para casa. Trancou todas as portas, e correu da
cozinha para a sala, espreitando pelas janelas. A costa estava
livre.
Precipitou-se pelo corredor e entrou noutra divisäo para
voltar a observar a rua. A boca mantinha ainda o sabor a pó.
Os seus pensamentos falaram-lhe de água. Precisava de um
enorme copo de água. No entanto, tinha coisas a fazer antes
disso. O pai. Precisava de falar com o pai.
- Pai?
25
Näo houve resposta, mas Indy sabia que o pai estava
noescritório. Desde que a mäe de Indy morrera que o pai
parecia viver para os estudos, sempre debruçado sobre livros
velhos e pergaminhos.
Para ele, o passado remoto era bem mais real que o presente.
"Olhem só para a casa", pensou Indy. Os quartos diziam tudo:
näo havia aí qualquer mäo feminina, nada de suave, colorido,
apenas livros e coisas velhas. Era ele o único que limpava a
casa. Por vezes, Indy tinha a sensaçäo de que era só no
escritório que o pai vivia. Para ele, aquele era o único local
onde a sua presença era real.
Abriu a porta do escritório. As prateleiras estavam cheias
de livros, e também os havia amontoados pelo chäo. As paredes
estavam cobertas com mapas de terras antigas e quadros de
belos castelos e catedrais. Tudo naquele quarto parecia ter um
significado, isto apesar de Indy näo saber qual. Tudo aquilo
reflectia uma enorme paixäo pelos estudos sobre a Europa
medieval.
Indy pigarreou.
- Pai?
Em frente a uma secretária de mogno, o pai, o professor
Henry Jones, estava embrenhado no trabalho. Havia livros e
papéis espalhados à sua volta. Indyficou a olhar para a curva
que as costas do pai faziam, desejoso de que ele falasse, que
fizesse um sinal, que reconhecesse a sua presença de qualquer
modo. Sabia que o pai o ouvira, mas o facto de näo o ter
saudado, de nem mesmo se ter voltado, significava que näo
queria ser perturbado.
Nunca queria que o perturbassem.
Mesmo assim, tratava-se de um assunto importante.
Aproximou-se da secretária, deitou uma olhadela ao pergaminho
que o pai estudava, e disse:
- Pai, preciso de falar contigo.
- Fora! - gritou Henry sem mesmo se ter voltado.
- Mas é muito importante!
Henry continuou a trabalhar.
- Espera. Conta até vinte.
- Näo, ouve...
- Júnior - avisou Henry, em voz baixa, ameaçadora e dura.
Indy engoliu em seco, acenou e deu um respeitoso passo
atrás. Sabia que o pai estava aborrecido com ele. Tinha pouco
por onde escolher. Começou a contar em voz baixa e, à medida
que o fazia olhava para o pai por cima do ombro.
Viu que a página da frente do manuscrito continha uma
ilustraçäo representando aquilo que parecia ser um vitral
ostentando vários numerais romanos. O pai estava ocupado a
copiar o desenho no bloco-notas.
- Isto também é importante... e näo pode ser apressado...
foram precisos novecentos anos para que saísse de um caixote
esquecido, encontrado no Sepulcro de Santa Sofia, em
Constantinopla, e chegassem à secretária do único homem do
mundo que os pode entender.
"- ... dezanove ... vinte - Isto é mesmo importante. Presta
atençäo."
Indy tirou a Cruz de Coronado de dentro da camisa e voltou a
levantar a voz e a falar depressa. - Estive no pueblo com os
escuteiros e...
- Agora podes contar em grego - ordenou Henry, continuando a
näo se desviar do trabalho nem a ouvir o filho.
"Ele nunca me ouve." Indy detestou-o por isso.
Numa voz zangada e bastante elevada Indy começou a contar em
grego. Fazìa de conta que cada número era um palavräo
destinado ao seu teimoso pai.
Ouviu um carro parar em frente à casa. Ainda a contar, saiu
do escritório. Viu uma viatura da polícia.
"E agora? Que devo fazer?" Sabia que se o pai visse os
polícias ficaria a pensar que Indy voltara a meter-se em
trabalhos. Ele jamais lhe daria oportunidade para se explicar.
A experiência dizia-Lhe isso.
Voltou a olhar para o pai, que continuava a trabalhar no
esboço. Ouviu-o falar baixinho para consigo próprio.
- Que aquele que iluminou isto me ilumine a mim.
Indy susteve a respiraçäo à medida que, com todos os
cuidados , fechava a porta do escritório e se dirigia para o
vestíbulo. Quando a porta da entrada se abriu e Herman entrou
na sala, já ele voltara a enfiar a cruz debaixo da camisa.
- Trouxe-o comigo, Indy! Trouxe-o comigo!
A porta voltou a abrir-se e o xerife entrou em casa, näo sem
antes ter olhado à volta.
- Senhor xerife! Eram para aí cinco ou seis! Quase me
apanharam, mas...
- Tudo bem, filho. - O xerife levantou a mäo. - Ainda a
tens?
- Sim senhor, mesmo aqui.
Voltou a tirar a cruz e entregou-a ao xerife, que lhe deitou
um olhar distraído sem sequer se importar em a examinar de
perto.
Assim que a cruz saiu da sua mäo, Indy sentiu que havia ali
algo de errado a respeito da forma como o xerife actuava. Se
ao menos ele soubesse tudo aquilo por que passara!
- ?ptimo, rapaz. ?ptimo... o legítimo dono da cruz disse
que, se colaborasses, näo apresentaria queixa contra ti.
Indy ficou desorientado. Abriu a boca. Encolheu os dedos.
- Apresentar queixa... De que é que está a falar?
Fedora entrou em casa e tirou o chapéu. Cumprimentou Indy
com um aceno amigável e fez uma festa na cabeça de Herman.
26 27
- De roubo - retorquiu o xerife. - Ele tem testemunhas, umas
quatro ou cinco.
O xerife e Fedora estavam feitos um com o outro. Que mais
poderia ser? Nem sequer estava a prestar-lhe atençäo. Nem
mesmo quisera saber como as coisas se tinham passado.
- E nós näo queremos que a tua mäezinha ande às voltas na
tumba, pois näo?
O xerife entregou a cruz a Fedora, que a colocou numa bolsa
de pele que trazia pendurada à cintura. Quando o xerife se
afastou , Indy deu uma olhadela através dajanela e viu um
Sedan creme , aquele que o perseguira no deserto. Estava
estacionado atrás da viatura do xerife, coberto por uma
pequena camada de poeira do deserto. Ao volante, esperando
pacientemente, estava o homem do chapéu largo.
Depois de o xerife ter partido, Fedora deixou-se ficar para
trás.
Quando falou, fê-lo no tom irónico de quem está a falar com
outro homem.
- Bom, miúdo, hoje ficaste a perder, mas isso näo quer dizer
que tenhas gostado.
Tirou o chapéu, e, durante breves instantes, segurou-o pela
copa. Depois deu um passo em frente e estendeu o braço como se
estivesse prestes a colocar o chapéu na cabeça de Indy em
sinal de respeito e admiraçäo. Mas retraiu-se assim que o
rapaz falou.
- A Cruz de Coronado tem quatrocentos anos e um longo
caminho à sua frente. Faço tensöes de ficar por perto. Pode
ter a certeza disso.
Fedora sorriu, deixou cair o chapéu na sua própria cabeça, e
deu meia volta.
- Vou comunicar ao paträo - disse, soltando uma gargaLhada.
Quando chegou à porta, parou ainda por um momento e olhou
para trás, fitando-o.
- Hoje foste bastante bom com o chicote, miúdo. Gosto do teu
estilo.
Indy deu um pontapé na porta, fechando-a atrás de si.
Ouviu Fedora rir enquanto descia o passeio.
Correu para ajanela e viu o homem entrar no Sedan creme,
levando a cruz na mäo. Viu-o passar a preciosa peça ao homem
que estava ao volante e depois afastarem-se.
Disse para si mesmo que voltaria a recuperar a cruz,
independentemente do tempo que tivesse de esperar.
No mar alto: 1938
CAPíTULO IV
A TRAVESSIA DO ATLÅNTICO
Vagas enormes abatiam-se sobre o convés do velho cargueiro,
levando consigo tudo o que näo estivesse amarrado. A chuva
caía , vinda de todos os lados. O vento soprava. A madeira do
velho cargueiro gemi a como se estivesse a ser separada a
partir das junçöes.
Era um som terrível, o som de algo que está com dores, e
Indy näo o conseguia ignorar.
Agarrou-se à beira da tarimba, na certeza de que nos
próximos segundos uma vaga se abateria contra a madeira,
esmagando-a, e arrastando-o para longe. Mantinha os olhos
fechados à medida que a tempestade atirava o barco para a
direita, para a esquerda, e novamente para a direita. Agora as
vagas abatiam-se sobre a popa. Agora submergia a parte
traseira do navio. Agora ia de um lado para o outro. Agora
subia e descia.
"Vou vomitar."
No entanto, quando abriu os olhos, a escuridäo que se
avistava dajanela fê-lo ficar sem respiraçäo. Foi entäo que
uma enorme parede de água se abateu sobre esse lado do navio e
se esmagou de encontro ao vidro. O impacte fê-lo cair da
tarimba. Aterrou no chäo e, durante um ou dois segundos,
deixou-se ficar ali deitado a gemer.
"Levanta-te, homem. Faz aquilo que tinhas planeado."
Claro. O plano. Ele tinha um plano, näo tinha?
Levantou-se apoiado nas mäos, abanou a cabeça para aclarar
as ideias, e tentou agarrar-se a qualquer coisa que näo se
movesse. "Pöe-te de pé, homem. Agora. Faz o que tens a fazer
enquanto o capitäo está na ponte.", Sim, o capitäo. O capitäo
e a cruz. "Consegui!"
Agarrou-se à beira da tarimba e içou-se até estar de pé.
Apertou o casaco de cabedal com uma das mäos, enfiou o chapéu
na cabeça, certificou-se de que o chicote continuava preso à
cintura, e depois dirigiu-se para a porta.
"Força, companheiro." Direita, esquerda, outra vez direita.
?ptimo, mas óptimo mesmo."
28 29
Ia conseguir chegar à porta, sair do quarto, dirigir-se ao
convés, e depois descer até ao compartimento do capitäo. Era
lá que se encontrava a cruz.
Indy reservara passagem neste cargueiro depois de lhe terem
dado uma informaçäo sobre o paradeiro da Cruz de Coronado. Um
homem telefonara para o seu gabinete na universidade,
dizendo-lhe que, se estava interessado na cruz, deveria
encontrar-se com ele em Lisboa, Portugal. Quando lhe
perguntara quem era, o homem descreveu-se como sendo aquela
pessoa que Indy vira apenas durante breves momentos enquanto
criança, o homem que ficara em poder da cruz, o homem que
perseguia hájá vários anos.
Quando Indy lhe perguntou qual era o preço da informaçäo, o
indivíduo disse-lhe que apenas se queria vingar. O possuidor
da cruz era o seu paträo, e só muito recentemente descobrira
que o homem tinha um caso com a sua mulher. Indy ficou com a
sensaçäo de que tudo isto fazia sentido, e na altura podia
dispor de vários dias. Já seguira pistas menos prováveis, e
esta parecia-lhe ser a oportunidade pela qual esperara. Já por
várias vezes estivera quase a alcançar o homem cuja imagem de
marca era o chapéu largo, mas já há alguns anos que näo tinha
qualquer pista.
Quando chegou a Lisboa, o seu informador disse-lhe que a
cruz havia desaparecido e que devia esperar por mais
informaçöes. Passaram oito dias, e estava prestes a desistir e
a voltar para os Estados Unidos. Já estava atrasado para
iniciar mais um semestre de aulas. Nesse mesmo dia, o
informador contactara-o dizendo-lhe que a cruz seria enviada
para a América no dia seguinte a bordo de um cargueiro, e que
esta se encontrava na posse do capitäo do navio.
Agora Indy encontrava-se no barco, e esta era a sua primeira
oportunidade de passar revista aos alojamentos do capitäo.
Dado que o tempo estava como estava, tinha a certeza de que o
capitäo se encontraria na ponte.
"pode ser a primeir a e a última oportunidade que tens,
companheiro.", Abriu a porta e o vento veio ao seu encontro.
Avançou contra ele segurando o chapéu com uma das mäos,
enquanto que a outra se agarrava à ombreira da porta.
O barco rolou para a esquerda. Indy rolou com ele e quase se
desequilibrou. Para se agarrar à outra ombreira teve de largar
o chapéu, e o vento que lhe passou por debaixo da aba
tirou-Lho da cabeça, atirando-o para o quarto. Ele deixou ir.
Avançou de encontro ao vento, contr a a sua força, e abriu
caminho até ao convés, fechando a porta atrás de si.
O barco elevou-se na crista de uma vaga, gemendo e chiando,
e Indy agarrou-se ao corrimäo, à espera de que o barco
descesse.
30
Quando isso aconteceu, a água precipitou-se para o convés,
quase o fazendo largar o seu ponto de apoio. Isto durou apenas
alguns segundos, e ele precipitou-se para afrente, opondo-se a
toda aquela violência. O vento uivava à sua volta. O sal
cobria-lhe os lábios e fazia-lhe arder os olhos, obrigando-os
a fecharem-se até estes terem o aspecto de ranhuras.
"O capitäo está na ponte e é agora ou nunca."
Continuou a avançar. Atempestade atirava obarco de um lado
para o outro como se fosse um pedaço de madeira à deriva.
Pensou na cruz. Esta ardia-lhe o pensamento, mais brilhante
que mercúrio, mais quente que o Sol. Depois de um bocado, já
näo sentia o vento, a tempestade, nem os movimentos do mar.
Andava ao sabor do navio, tal como se fizesse parte dele e
formassem um todo. As pernas pareciam-lhe mais fortes, mais
seguras. Ganhou novas forças. A imagem da cruz ardia e ardia.
Quando chegou aos alojamentos do capitäo estava ensopado até
aos ossos. A água escorria-lhe pelo rosto em catadupas. O sal
agarrava-se-Lhe aos lábios e à língua. Pegou num instrumento
de metal, longo e esguio, que mais lembrava uma pinça de gelo,
sendo contudo feito de um metal mais maleável. Era uma peça
usada por ladröes, e näo por arqueólogos. Agarrou o puxador da
porta e tentou manter a mäo o mais firme que podia. Empurrou a
ponta do instrumento na direcçäo dafechadura, mas o barco
oscilou, e o seu braço vacilou como se fosse o maestro de uma
orquestra e empunhasse uma batuta. Tentou mais uma vez, e
desta feita aleijou-se no pulso.
"Raios!" Abanou a mäo. "Calma. Calma."
Fez mais duas tentativas antes de ter conseguido enfiar o
aparelho na fechadura. Guiou-o até ao trinco e abanou-o até
este estar no lugar. Respirou fundo e girou a maçaneta com
cuidado. Sorriu quando a porta se abriu.
A porta fechou-se assim que ele entrou, afastando a
tempestade. Olhou em volta para se certificar de que estava
sozinho. Só entäo se dirigiu para a tarimba do capitäo. A
lâmpada que se encontrava na parede estremeceu, apagou-se, e o
navio moveu-se para o seu lado. Agarrou-se à borda da tarimba
e esperou que o barco voltasse a endireitar-se.
O seu informador garantira-lhe que o capitäo guardaria a
cruz no cofre do navio. Näo se limitara apenas a dizer-lhe
onde este se encontrava, mas chegara mesmo a entregar-lhe um
pedaço de papel contendo a combinaçäo do cofre. Quando lhe
perguntara onde a arranjara, o homem sorrira e dissera-Lhe
para näo questionar a sua boa estrela.
Desconfiava do sujeito. Näo gostava dele. Mas esta fora a
melhor pista que seguira nos últimos anos, e ninguém é
obrigado a gostar de toda a gente com quem trabalha.
31
Agora estava a um passo de verificar que tal estava a sua
boa estrela. Talvez tudo aquilo näo passasse de uma intrujice.
Meteu as mäos por debaixo do colchäo e levantou-o. O cofre
estava mesmo ali, construído a partir do chäo e encostado à
cama.
Agarrou na trave da cama e arrancou-a.
"Até aqui tudo bem."
O próximo passo era saber se conseguia abrir o cofre. Se a
combinaçäo näo funcionasse, entäo estaria täo longe da cruz
como se tivesse ficado em casa. Moveu o disco para trás e para
diante, tentando compreender como funcionava. Tinha decorado a
combinaçäo. Marcou o primeiro número, ao qual se seguia uma
sequência de mais cinco.
Parou por um momento quando acabou, e só entäo, bastante
devagar, girou o braço. O cofre abriu-se. Lá dentro estava
escuro.
æs cegas, enfiou lá o braço. Tacteou uma série de caixas,
caixas de jóias, sem dúvida. Os seus dedos foram ao encontro
de um maço de papéis. Meteu a mäo por debaixo deles e sentiu
que lá no fundo estava um objecto embrulhado em tecido - um
objecto com a forma de uma cruz.
Sentindo-se cada vez mais excitado, puxou- para fora. Desfez
o nó que o atava, e depois desembrulhou o tecido. Lá dentro
estava a Cruz de Coronado. Näo tinha esquecido a sua beleza,
mas a visäo do objecto, simplesmente maravilhosa, ainda o fez
admirar-se.
Era algo de frio e pesado nas suas mäos. Era algo de bom.
Enfiou no casaco, por debaixo do cinto, quase no mesmo ponto
em que o escondera há vinte e dois anos.
Fechou o cofre, rodou o disco, e voltou a colocar a cama no
lugar. Assim que se viu cá fora, o local onde a cruz
descansava por debaixo da sua camisa molhada parecia-lhe
quente, espesso, protegido. Estava tonto devido ao cansaço, ao
alívio que sentia, e ainda a uma sensaçäo de triunfo. "Vinte e
dois anos, minha filha da mäe" pensou. "Vinte e dois anos."
Sentia que estava preocupado com qualquer coisa, algo em que
näo se conseguia concentrar, qualquer coisa de importante.
Tentou agarrá-la, analisá-la, mas estava täo cansado e o vento
soprava täo alto que... "Mais tarde, penso nisso mais tarde."
Quando levantou os olhos viu um marinheiro corpulento que
olhava para ele com má cara, e que o esperava no fundo do
corredor. Virou-se, e viu um outro marinheiro no lado oposto.
Foi entäo que compreendeu tudo. "Uma armadilha. Näo é para
admirar que tenha sido tudo täo fácil. Näo admira que o
informador soubesse a combinaçäo. Foi tudo fácil de mais.", E
era isto que o tinha atormentado.
Vindos de ambos os lados, os marinheiros avançavam.
32
Estava prestes a desferir um murro, mas o barco oscilou e ele
foi cair nos braços do segundo marinheiro. Agarraram-lhe nas
mäos por detrás das costas e arrastaram-no até ao fundo do
corredor, depois do que entraram no convés. Foi entäo que uma
terceira figura saiu de entre as sombras e lhe deu um murro no
estômago.
Indy arquejou. Sentiu as pernas perderem a força. Um dos
marinheiros levantou-o e empurrou-o para a direita, para
debaixo de um avançado que oferecia alguma protecçäo à
tempestade. Foi entäo que Indy viu o filho da mäe que o
esmurrara. Era um homem que tinha um chapéu largo enfiado na
cabeça. Era o mesmo homem que se encontrava por detrás do
roubo primitivo, e, sem qualquer dúvida, o responsável pela
cilada. Estava mais velho, mas, mesmo na escuridäo, Indy pôde
ver-lhe os olhos, azuis e gelados, brilhantes como duas luas
gémeas.
- Como o mundo é pequeno, dr. Jones! Demasiado pequeno para
ambos. Vejo que näo alterou o seu estilo - comentou, olhando
para o chapéu.
- Muito observador. Contudo, talvez seja melhor passarmos
aos negócios.
O homem levantou-lhe o casaco com tanta força que Indy
pensou que o cabedal ia rasgar. O outro estendeu a mäo na
direcçäo do cinto e tirou-lhe a cruz.
- Como é do seu conhecimento, esta é a segunda vez que tenho
de lhe pedir o que é meu, mas o facto de nos termos encontrado
esta noite näo é fruto de nenhuma coincidência.
- Eu sei. Montou-me uma armadilha.
- Você é a presa, dr. Jones.
Contou a Indy que sabia tudo a respeito da sua persistência
no que respeitava à cruz, o melhor objecto da sua colecçäo.
Desde que a Depressäo lhe fizera perder dinheiro, que ele a
tentava vender. Por fim, tinham acabado por lhe oferecer uma
quantia razoável que poria fim aos seus problemas financeiros.
Contudo, o contrato continha uma cláusula estipulando que o
metediço do dr. Indiana Jones deveria desaparecer antes de o
negócio estar concluído.
- Foi entäo que arranjei maneira de o atrair. Fiz jogo
limpo. Até lhe dei mais uma oportunidade de roubar a cruz. -
Endereçou-lhe um sorriso. - É pena ter voltado a ser apanhado.
- O lugar dessa cruz é num museu.
- O seu também. - Deitou uma olhadela aos marinheiros. -
Atirem-no borda fora.
Indy foi projectado através do convés até atingir a amurada.
Foi quando passavam por um amontoado de barris de combustível
que ele viu maneira de se aproveitar da tempestade. Usando os
marinheiros como alavanca, deu um pontapé nas barras de metal
que mantinham os barris unidos, abrindo-as.
De súbito, os barris ficaram soltos e começaram a rolar pelo
33
convés. Indy espetou os cotovelos nos estômagos dos espantados
marinheiros e precipitou-se para o seu inimigo.
Chapéu Largo viu-o aproximar-se e avançou para a escada que
dava acesso à ponte. Contudo, antes de lhe poder chegar, um
enorme barril de combustível foi abater-se de encontro à
escada, bloqueando-lhe o caminho. O barril começou a rolar na
sua direcçäo. Desviou-se para o lado e, à medida que o fazia,
a cruz soltou-se da sua mäo e caiu no chäo.
Indy inclinou-se na direcçäo da cruz, mas um dos marinheiros
bloqueou-lhe o caminho, atirando-lhe uma barra de metal à
cabeça. Abaixou-se mesmo a tempo, desferindo um soco de baixo
para cima que apanhou o marinheiro exactamente na parte
inferior do queixo.
Freneticamente, Indy olhou em volta à procura da cruz. Viu
que esta se encontrava ali perto. Atirou-se a ela e escorregou
pelo convés de barriga para baixo e com os braços estendidos,
tal como se de asas se tratassem. Agarrou a cruz no preciso
momento em que uma vaga se abateu sobre o convés,
submergindo-o.
Escorregou mais alguns metros, e viu um enorme barril de
combustível rolando ao seu encontro. Deu um salto mas
desequilibrou-se. Escassos momentos antes de ser esmagado,
atirou-se para o chäo e começou a rebolar. O barril passou-lhe
ao lado.
Levantou os olhos e viu que uma série de barris vinha ao seu
encontro. Pôs-se de pé e evitou-os. Foi por pouco! Voltou-se e
viu o outro marinheiro brandindo um gancho de estivador. A
criatura caminhava na sua direcçäo.
Soltou o chicote que trazia preso à cintura e começou por
esticar o braço para trás, só depois o inclinando na direcçäo
inversa.
O chicote estalou. Atingiu o alvo, enrolando-se em torno do
tornozelo do marinheiro. Puxou o chicote e o navio agitado fez
o resto:
o marinheiro estatelou-se no convés.
Indy parou para admirar o seu bom trabalho. Nesse preciso
momento foi envolvido por uma rede, e Chapéu Largo caiu sobre
ele aos murros. Era óbvio que o homem estava a divertir-se com
o que fazia, batendo-lhe repetidas vezes, sempre com bastante
força. Indy tentou amortecer os golpes e livrar-se da rede,
mas näo foi bem sucedido.
Todos os barris que Indy evitara quando rolavam de bombordo
para estibordo haviam mudado de direcçäo, acompanhando os
movimentos do navio. Agora dirigiam-se outra vez de encontro a
ele, só que desta feita também se dirigiam de encontro a uma
série de objectos que estavam junto de si e que estavam
marcados com as letras "ToT - PEruGo."
Indy gritou quando um dos barris se dirigiu para ele. Chapéu
Largo virou-se, viu o barril e precipitou-se pelo convés. Indy
desviou-se na direcçäo oposta, pouco faltando para ser
atingido.
Tentou libertar-se da rede, mas a cruz estava presa nela. A
única maneira de se escapar seria largar a cruz, coisa que näo
fazia tensöes de fazer. Foi entäo que levantou os olhos mesmo
a tempo de ver um outro barril de combustível avançar na
direcçäo dos explosivos.
Havia apenas uma coisa a fazer, e ele fê-la. Elevou-se por
sobre a amurada, aterrando no mar encapelado. No preciso
momento em que atingiu a água, o navio explodiu, partindo-se.
Do ar caía toda a espécie de pequenos objectos, exactamente
como se também pertencessem à tempestade, e aquilo que restava
do navio näo demorou muito tempo a afundar-se nas águas.
A água e a explosäo haviam feito que se libertasse da rede.
Rolou de um lado para o outro na água, até que acabou por
aparecer à superfície como se de um pedaço de cortina se
tratasse. Continuava a agarrar a cruz. Agitava as pernas
furiosamente, tentando manter a cabeça fora de água.
Procurava arranjar alguma coisa a que se agarrar. Mergulhou
e voltou à superficie, tossindo e cuspindo água. A sua mäo
tocou em algo - uma bóia. Agarrou-a com ambos os braços.
Foi entäo que, a flutuar mesmo ao seu lado, viu algo que lhe
pareceu familiar. Estendeu um braço e apanhou aquilo, chegando
perto do rosto. Tratava-se dos restos de um chapéu de abas
largas.
æ distância, um cargueiro americano fez soar o apito. Indy
acenou, tentando chamar a atençäo dos tripulantes do navio, e
foi entäo que viu que agitava a cruz no ar. Perguntou-se como
diabo poderia explicar o facto de ter uma cruz. "Sou padre.
Salvei a cruz. A cruz salvou-me."
Que interesse tinha isso? Tinha vontade de rir e chorar ao
mesmo tempo. Raios, sabia que ia conseguir. E, caramba, a cruz
estava consigo.
34 35
Nova Iorque: alguns dias mais tarde
CAPíTULO V
NO "CAmpUS"
A tarde, por ser quente e primaveril, fizera que os
estudantes se precipitassem para o exterior, jovens de
vestidos curtos e I homens de gravata percorriam os caminhos
de tijolo ladeados de árvores frondosas que serpenteavam pelo
campus, para lá dos edifícios de tijolo cobertos de hera.
Levavam os livros debaixo dos braços, os lápis atrás da
orelha, e nenhum deles parecia ter muita pressa.
Um corvo negro pairou silenciosamente por sobre os alunos e
aterrou no parapeito de uma janela do segundo piso de um
edifício coberto de hera. Lá dentro, um professor que usava um
casaco de tweed e óculos com aros de metal, olhou na direcçäo
dajanela, momentaneamente distraído com a ave, e depois voltou
a concentrar a sua atençäo na turma. Os estudantes olhavam-no
com atençäo, à espera de que continuasse.
Apesar do seu ar profissional, havia nele algo de duro.
Ficava-se com a impressäo de que quando tirava o casaco e a
gravata e passava à acçäo, procurando objectos antigos, tudo
podia acontecer, facto este que era bem capaz de ser verdade.
Era este ar misterioso -bem assim como uma certa timidez -que
faziam que a sua turma se enchesse de alunas. Pela parte que
lhe tocava, nunca se queixava da enorme quantidade de jovens
atraentes que iam assistir às suas aulas.
Aqueles que o conheciam de perto sabiam que costumava
minimizar as suas próprias experiências. Isto talvez se
devesse ao facto de sentir que vivia à sombra do seu famoso
pai, conhecido perito da época medieval, o dr. Henry Jones.
Fosse por que razäo fosse, costumava dizer uma coisa a seu
respeito e a respeito da sua carreira, mas, simultaneamente, e
servindo-se de outros meios - gestos, olhares furtivos e
sorrisos misteriosos - dava a entender que tudo o que dizia
era apenas parte da história.
36 37
Com as mäos enfi adas nos bolsos das calças, passou os olhos
pela sala.
- Bom, esqueçam essas histórias de cidades perdidas, viagens
exóticas e escavaçöes em todo o mundo. Setenta por cento do
trabalho arqueológico é feito na biblioteca. Para nós, a
mitologia näo é uma coisa que possa ser levada à letra, nem
seguimos mapas de tesouros escondidos, principalmente porque o
"X" nunca marca o lugar certo! O continente perdido de
Atlântida! Os Cavaleiros da Távola Redonda! Nada disto passa
de uma série de disparates românticos.
Parou por um momento, sentindo o peso da cruz de ouro que
trazia no bolso do casaco. Olhou para baixo, coçou a orelha e
continuou.
-A arqueologia significa a procura de factos... Näo da
verdade. Se, minhas senhoras e meus senhores, estäo
interessados na verdade, as aulas de filosofia do dr. Peterman
säo um bom começo.
A turma soltou uma gargalhada e o professor Indiana Jones
olhou para uma aluna bastante bonita que estava sentada ao pé
da porta, e sorriu.
- Próxima semana: Egiptologia. Vamos começar com a escavaçäo
de Naukratis, levada a cabo por Flinders Petrie em 1885. A
Jenoy, perdäo, Miss Appleton, tem a lista das leituras para
este semestre. Porfavor, quando saírem levem um exemplar. -
Dado que esperava que uma série de alunos se precipitasse para
o estrado, acrescentou: - Se têm mais perguntas väo ter comigo
ao meu gabinete.
æ medida que os estudantes iam saindo, Indy desviou os olhos
na direcçäo do lado oposto da sala, onde Marcus Brody,
director do museu da Antiguidade e amigo de longa data de seu
pai, o esperava. Contornou o estrado e encaminhou-se para
junto dele.
Brody, indiscutivelmente britânico, andava à volta dos 60.
Tratava-se de um indivíduo permanentemente dividido entre os
relatórios de contas dos contabilistas do museu e os caprichos
dos beneméritos endinheirados. Já por várias vezes dissera a
Indy que o via como uma luz na escuridäo, um homem de
princípios disposto a enfrentar aqueles que viam nos objectos
antigos apenas uma maneira de conseguir lucro.
Tinha um rosto bastante expressivo, cheio de rugas
profundas, cada uma das quais contava uma história. Tinha
quase sempre um ar preocupado, e Indy sentia-se sempre tentado
a dar-lhe uma palmadinha no ombro e a afirmar-lhe que as
coisas acabariam por se compor.
- Marcus! - Indy bateu no bolso. - Consegui.
Os olhos de Brody iluminaram-se.
- Quero que me contes tudo.
- Vamos andando.
Quando deixaram a sala e tomaram o caminho do átrio, Indy
tirou a Cruz de Coronado do bolso do casaco e estendeu-a para
que Brody visse.
- Tem-la mesmo contigo. Bravo. Estou contente. Estou mais
que contente. Estou feliz.
- Como é que achas que me sinto? Sabes há quanto tempo
andava atrás dela?
- Desde sempre.
- Desde sempre.
Falaram ao mesmo tempo, e ambos se riram.
- Muito bem, Indy. Muito bem, mesmo! Agora conta-me como
conseguiste.
Indy encolheu os ombros.
- Näo foi preciso muito. Somente um pouco de persuasäo
amigável, mais nada.
- Mais nada? - perguntou Brody como se näo acreditasse.
- Bom, quando as coisas azedaram tive de recorrer a outros
métodos.
- Estou a ver. - Brody acenou. Era mais que óbvio que estava
interessado em ouvir mais. No entanto, preocupava-o o facto de
poder ouvir algo que estivesse fora dos cânones do museu que
representava.
Contudo, antes que Indy pudesse começar a contar a sua
história, foi abordado no corredor por dois colegas.
- Jones, por onde andaste? - perguntou o mais alto. - As
férias do semestre acabaram há uma semana.
O outro colega colocou uma deusa da fertilidade feita de
louça à frente de Indy.
- Dá uma olhadela a isto, Jones. Descobri-a numa viagem ao
México. É provável que ma consigas datar. Que dizes?
Indy revirou a peça de cerâmica nas mäos. Um sorriso forçado
subiu-lhe aos lábios.
- Datá-la?
Pouco à vontade, o homem compôs a gravata e encarou-o.
Depois, servindo-se de um falso tom de autoconfiança,
acrescentou:
- Paguei quase duzentos dólares por ela. O homem garantiu-me
que era précolombiana.
- Pré-Outubro ou Novembro. É difícil de saber. Bom, o melhor
é dar-lhe uma olhadela. - Antes que o espantado professor
tivesse tempo de dizer alguma coisa, Indy partiu a figurinha
em duas. - Vês, podes ver a partir do corte transversal. Näo
vale nada.
- Näo vale nada?
- É isso mesmo. - Devolveu ambos os pedaços da figura ao
professor, e afastou-se com Brody.
- Devia ter-lhes mostrado qual o aspecto de um objecto
valioso - disse Brody, segurando a cruz.
38 39
Indy encolheu os ombros.
- Para quê tamanho incómodo?
Alguns minutos mais tarde pararam em frente do gabinete de
Indy.
- Esta peça será colocada num lugar de honra entre as nossas
aquisiçöes espanholas - assegurou-lhe Brody.
- ?ptimo. Os meus honorários podem ser discutidos mais
tarde, com uma garrafa de champanhe.
- Quando posso esperar por ti?
Indy ficou um momento pensativo. Ainda näo fora ao gabinete
e näo estava com muita vontade de se embrenhar na papelada que
deveria estar à sua espera devido ao facto de ter faltado à
primeira semana do semestre.
- Dentro de meia hora.
Brody sorriu, enfiou a cruz dentro da pasta, e, à medida que
se afastava, continuava a exibir o seu ar satisfeito.
Indy abriu a porta do gabinete e pestanejou. O vestíbulo
estava apinhado de estudantes que de imediato o rodearam.
- Professor Jones, näo se importa...
- Dr. Jones, eu preciso...
- Olha lá, eu cheguei primeiro. Professor...
æ força, Indy abriu caminho até à secretária. A funcionária,
uma professora assistente chamada Irene, parecia estar em
estado de choque. Näo olhava para lado nenhum, ignorando o
bombardeamento de alunos. Foi entäo que viu Indy e voltou de
súbito à actividade.
- Dr. Jones! Por amor de Deus, estou täo contente por ter
voltado. Tem o correio na secretária. As suas mensagens
telefónicas estäo aqui. A agenda com as entrevistas é esta.
Estäo aqui alguns trabalhos que ainda näo foram classificados.
Indy acenou, pegou nos trabalhos e virou-se para a entrada
do seu gabinete privado. Os alunos tentavam ainda atrair a
atençäo.
- Dr. Jones!
- Espere, dr. Jones. Tem aqui o meu trabalho.
- Assine a minha caderneta.
- Oiça, dr. Jones. Se eu pudesse ter...
Indy levantou a mäo e a turma ficou de súbito silenciosa e
atenta.
- Irene... faça uma lista com os nomes dos alunos conforme a
ordem de chegada. Atenderei um de cada vez.
Irene desviou os olhos de Indy e encarou os alunos.
Semelhante a uma nuvem de mosquitos, a horda precipitou-se
sobre ela.
- Bom, vou tentar - murmurou.
- Eu cheguei primeiro.
- Näo, eu cheguei antes de ti...
40
- Tenho a certeza que fui o segundo...
- Tu aí, vê lá onde é que estás a pisar.
Indy enfiou-se no escritório, e, com alguma impaciência,
começou a vasculhar o correio. Este constava de inúmeros
boletins de faculdade, circulares arqueológicas, o último
número de Esquire and Colliers, e um sobrescrito volumoso que
exibia um selo estrangeiro.
Olhou durante um momento.
- Hum... Veneza. - Tentou lembrar-se se conhecia aí alguém,
mas näo chegou a nenhuma conclusäo. Antes de ter oportunidade
de abrir o sobrescrito, a voz perturbada de Irene soou através
do intercomunicador.
- Dr. Jones... parece que há uma pequena discussäo sobre
quem chegou primeiro e eu...
- Está bem - cortou Indy. - Faça o melhor que puder. Estarei
pronto dentro de um minuto.
"O diabo é que estarei."
Enfiou o correio nos bolsos do casaco, deu uma olhadela em
redor, abriu ajanela e passou através dela. Respirou fundo,
enchendo os pulmöes com o ar daquela tarde primaveril, e deu
consigo no jardim que havia ali perto. Rosas, gardénias, erva.
Era maravilhoso.
- Que lindo dia! - disse para consigo, afastando-se do
gabinete e atravessando o jardim. Caminhava confiante e
decidido. Sorria, gozando a liberdade, ao mesmo tempo que
ignorava toda e qualquer responsabilidade. Depois do que
passara para conseguir a cruz, merecia descansar um pouco.
Se alguém se queixasse, bom... nunca dissera ser täo
responsável quanto o pai. Tinha consciência de que a reputaçäo
do pai era uma lâmina de dois gumes. Por um lado, servia para
lhe assegurar o lugar na universidade. Por outro, fazia-o
sentir-se como um estudioso de segunda ordem, incapaz de
igualar o pai.
Talvez fosse por isso mesmo que era irresponsável e se
arriscava tanto. æ sua maneira, queria chamar as atençöes.
Aquilo que näo conseguia igualar em sabedoria ultrapassava na
prática. E a prática fornecia-Lhe um enorme campo de acçäo,
cheio de aventuras.
Quando chegou à curva situada fora do edifício, na
extremidade do campus, um Packard enorme e negro foi ao seu
encontro.
Indy olhou lá para dentro e estava prestes a seguir o seu
caminho quando a porta de trás se abriu e saiu de lá um homem.
Vestia um fato escuro de três peças, e usava o chapéu täo
enterrado na cabeça que a aba deste lhe deixava os olhos na
sombra. Nada indicava que estivesse a brincar. Aquilo que viu
fez Indy pensar que se tratava de um detective federal.
- Dr. Jones?
Indy olhou-o nos olhos.
41
- Sim? Posso ajudá-lo em alguma coisa?
- Temos algo de bastante importante para discutir consigo.
Gostaríamos que viesse connosco.
Indy hesitou, observando o homem de perto. "Um chumaço no
casaco. ?ptimo. Era disto que eu precisava." Como que
parajustificar as suas suspeitas, o homem deixou que o casaco
se abrisse , revelando que trazia uma pistola presa ao ombro.
Indy fitou a arma, depois os três homens que estavam dentro do
carro. Tinham sido todos feitos pelo mesmo molde que fizera o
que estava à sua frente.
Näo sabia o que queriam, mas näo se deu ao trabalho de
procurar saber.
- Näo sei se agora tenho tempo - disse, num tom hesitante
tentando descobrir uma maneira de sair daquela.
-Näo tem de pensar em mais nada, dr. Jones. Receio ter de
insistir para nos acompanhar.
Durante a meia hora que se seguiu, Indy viu-se sentado no
assento traseiro do Packard, entalado entre dois guarda-costas
corpulentos. Tentou saber o que se passava por diversas vezes,
mas disseram-lhe que näo faltava muito para descobrir. Quando
fez um qualquer comentário sobre a temperatura primaveril, o
homem que estava à sua esquerda grunhiu. O que estava à
direita limitou-se a olhar em frente.
"Bastante simpáticos."
Lembrou-se de que nenhum deles lhe mostrara a identificaçäo.
Virou-se para o indivíduo que estava sentado a seu lado e
pediu que Lhe mostrasse o cartäo. O homem fez de conta que näo
o ouviu.
- Vocês säo polícias, näo säo?
- Somos moços de recados - respondeu um deles, e todos
riram.
Pouco à vontade, Indy também riu. As coisas estavam a ficar
engraçadas.
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CAPíTULO VI
A PLACA DO CRUZADO
Estava quase a escurecer quando o Packard parou em frente de
um luxuoso edifício privado da 5ª Avenida, a partir do qual
se avistava o Central Park. Indy saiu do carro e foi
acompanhado até ao edifício por dois dos homens. Conduziram-no
através do átrio e enfiaram-no num elevador particular. Desceu
quando a porta se abriu, e ficou impressionado com o luxo que
o rodeava.
- Vá lá - resmungou um dos homens. - Lá dentro pode
ocupar-se da paisagem.
Fizeram-no entrar num apartamento - Art Deco que fora
construído no telhado, e deixaram-no numa sala decorada com
inúmeros objectos dignos de serem expostos num museu. Indy
começou a andar por ali, examinando-os um por um. Fosse quem
fosse o dono da casa, este tinha dinheiro e bom gosto, com
especial incidência para o primeiro. Pegou num vaso de
cerâmica que tinha o desenho de um paväo de um dos lados.
Reconheceu que era originário da Grécia, e, apesar de ter mais
de dois mil e quinhentos anos, o brilho das suas cores estava
muitíssimo bem conservado.
Quando se abriu uma porta à sua frente, Indy interrompeu a
inspecçäo. Ouviu música de piano e vozes, e, por alguns
momentos , antes de a porta se ter enchido com a figura de um
homem alto, de ombros largos, vestido de smoking, reparou que
ali decorria um cocktail. O maxilar inferior era quadrado, e o
cabelo louro começava a escassear. Apesar de aparentar ter
mais de 50 anos, o corpo era esbelto e musculoso, como se de
umjovem se tratasse. Enquanto atravessava a sala, a sua figura
apresentava um porte régio, e Indy näo teve qualquer dúvida de
que estava prestes a conhecer o dono do apartamento. Achou que
o conhecia, mas de onde? Foi entäo que se lembrou. Tratava-se
de um dos maiores doadores do Museu da Antiguidade. Vira-o por
diversas vezes em acontecimentos sociais relacionados com o
museu, e ouvira Brody falar muito a seu respeito. Chamava-se
Walter... Walter Donovan. Era isso.
- Repare nos olhos que estäo na cauda do paväo - disse
Donovan, apontando para o vaso que Indy continuava a segurar.
Com todo o cuidado, voltou a pôr a peça no lugar.
- Sim, säo bem bonitos.
- Sabe a quem pertencem?
Indy sorriu.
- Claro. Säo os olhos de Argo. Tratava-se de um gigante com
cem olhos. Hermes matou-o e Hera colocou os seus olhos na
cauda dos pavöes.
Donovan fitou-o por um instante.
- Devia ter calculado que sabia alguma coisa sobre mitologia
grega.
Ele encolheu os ombros.
- Um pouco.
O estudo da mitologia grega fora o suplício da sua infância,
e só o aceitara devido à insistência do pai. Gostara de alguns
dos contos, principalmente dos que se referiam a Herácles e às
sortes, mas demonstrara sempre o seu desprezo pelo pai por
lhos ter obrigado a ler e a decorar. Agora, no entanto,
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admirava-se por, trinta anos mais tarde, se lembrar täo bem
dos heróis e das histórias. Era como se as tivesse lido a
semana passada.
- Espero que tenha feito boa viagem, dr. Jones - sorriu
Donovan, exalando confiança e poder. - Espero que os meus
assistentes näo o tenham alarmado.
Ele esteve quase para fazer um comentário sobre os incríveis
diálogos que travara durante o caminho, mas Donovan
estendeu-lhe a mäo e apresentou-se.
- Já o conheço, Mr. Donovan - disse ele quando o outro Lhe
soltou a mäo que apertara com firmeza. - As suas contribuiçöes
para o Museu da Antiguidade têm sido extremamente generosas.
- Obrigado.
- Algumas das peças da sua colecçäo impressionam bastante -
acrescentou Indy, olhando em seu redor.
"Bom, que negócio queres tu comigo?"
- Ainda bem que reparou.
Donovan encaminhou-se para uma mesa onde se encontrava um
objecto coberto por um pedaço de tecido. Era uma das peças que
Indy ainda näo examinara. Donovan puxou o pano, deixando à
vista uma placa de pedra com apenas alguns centímetros
quadrados.
- Gostava bastante que observasse esta, dr. Jones.
Indy aproximou-se e viu que a placa continha inscriçöes
compostas por letras e símbolos. Tirou os óculos do bolso,
pô-los no nariz, inclinou-se com vista a observar mais perto a
antiga placa.
- Símbolos cristäos primitivos. Caracteres góticos.
Inscriçöes bizantinas. Diria que de meados do século XII.
Donovan cruzou os braços.
- Coincide com a nossa avaliaçäo.
- Onde foi que encontrou isto?
- Os meus engenheiros desenterraram-na nas regiöes
montanhosas do norte de Ankara, enquanto escavavam para obter
cobre. - Parou por um instante, examinando Indy pelo canto dos
olhos. - Dr. Jones, é capaz de traduzir a inscriçäo?
Indy recuou um passo. Continuava a fixar a placa. Explicou
que näo seria fácil traduzir as inscriçöes, até mesmo para
alguém como ele, conhecedor do período e das línguas.
- Mas por que näo tenta mesmo assim? - perguntou Donovan num
tom persuasivo.
"Por que diabo o hei-de fazer?"
- Gostaria bastante - acrescentou o outro.
"Aposto que sim."
Indy franziu a testa e olhou para a inscriçäo. Por fim,
pigarreou e começou a falar devagar, com uma voz hesitante,
mais ou menos como uma criança que está a aprender a ler.
44
"... Quem beber a água que lhe dou, diz o Senhor, terá uma
nascente dentro de si... brotando para a vida eterna. Deixem
que me conduzam à vossa montanha mágica, ao lugar onde
habitas.
Através do deserto e através da montanha, até ao
desfiladeiro da Lua em Quarto Crescente, que tem espaço para
apenas um homem. Até ao Templo do Sol, suficientemente sagrado
para todos os homens..."
Indy parou, olhou para Donovan com uma expressäo de
surpresa, näo viu qualquer reacçäo e continuou a ler a última
linha.
"... onde o cálice que contém o sangue de Jesus Cristo,
nosso Senhor, repousa para sempre."
- O Santo Graal, dr. Jones. - A voz de Donovan mal se
elevara, reverente. Era óbvio que ficara impressionado com o
que Indy lera. - O Cálice de que Cristo se serviu durante a
ûltima Ceia. A taça que recolheu o seu sangue durante a
cruxificaçäo e que foi confiada a José de Arimateia. Uma taça
de grande poder para quem a encontrar.
Indy coçou o queixo e olhou para Donovan de um modo
duvidoso.
- Já ouvi essa história antes.
- A vida eterna, dr. Jones. - Escolhia as palavras como se
Indy näo o tivesse ouvido. - A dádiva dajuventude para quem
beber do Graal.
Tudo levava a crer que Donovan levava a inscriçäo à letra em
vez de a considerar no seu contexto mitológico. Acenou, mas
nada disse, pois näo queria encorajar o homem a lançar-se numa
busca que já consumira diversas vidas. Sabia bem de mais como
a demanda pelo Cálice do Graal se transformara numa obsessäo,
até mesmo para os estudiosos mais racionais.
- Trata-se de uma história da carochinha que eu gostaria de
trazer à luz - continuou Donovan.
- O sonho de um velho.
- O sonho de todos os homens - contrapôs Donovan. -
Incluindo o seu próprio pai, creio.
Indy endireitou-se ligeiramente quando ouviu falar do pai.
- A ciência do Graal é o seu passatempo. - Falava sem
revelar qualquer emoçäo, encobrindo o desconforto que sentia
sempre que o Graal e o pai eram mencionados um a seguir ao
outro, como partes de um verso ou de uma adivinha.
- É muito mais que um simples passatempo - continuou
Donovan. - Há quase vinte anos que o seu pai ocupa a cátedra
de literatura medieval em Princeton.
- É professor de literatura medieval. O tipo de professor
que os alunos esperam nunca vir a ter.
- Faça justiça ao homem. Trata-se do maior estudioso do
Graal que existe no mundo.
Indy lançou um olhar turvo a Donovan, e estava prestes a
dar-Lhe uma resposta quando a porta se abriu.
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A sala foi subitamente invadida por música e o som de vozes, e
ambos os homens se voltaram quando uma mulher com ar de
matrona e que envergava um vestido de noite bastante caro,
entrou na sala.
- Walter, estás a esquecer-te dos convidados - disse ela,
num tom que näo escondia o aborrecimento. Os seus olhos
desviaram-se do marido e fixaram-se em Indy, voltando depois
ao ponto de partida.
- Já vou, querida.
Quando se tornou evidente que Donovan näo o ia apresentar à
mulher, Indy voltou a concentrar-se na placa.
Mrs. Donovan suspirou, um suspiro que dizia estar já
habituada a coisas deste tipo, e voltou para a festa, o
vestido a roçagar à medida que se afastava.
Apesar dos seus comentários cépticos, Indy estava fascinado
com a placa do Graal. Näo punha as mäos no fogo, mas tinha
quase a certeza de que esta era aquilo que aparentava ser. A
sua existência era já uma descoberta importante. Aquilo a que
esta podia conduzir era algo em que por agora näo queria
pensar.
Esquecera-se do modo como o tinham tirado da rua. Era
inconsequente. Tudo o que interessava era a placa e aquilo que
esta dizia.
- É difícil resistir, näo é? - comentou Donovan, certo do
interesse que despertara em Indy. - O local onde o Santo Graal
repousa descrito em pormenor. Simplesmente espantoso.
Indy encolheu os ombros e recuperou a sua atitude céptica e
científica, a que dominava a personalidade que exibia nas
aulas.
- E depois? A placa fala de desertos, montanhas e
desfiladeiros. Há muitos desertos no mundo... o Sahara, o
deserto da Arábia, o Kalahari. E também cordilheiras... os
Urais, os Alpes, Atlas...
Por onde começar?
Depois fez notar a falha evidente que existia na descoberta.
- Talvez que se a placa estivesse completamente intacta
pudéssemos avançar um pouco mais. Contudo, a parte superior
desapareceu completamente.
Donovan näo tinha ar de quem ia desistir facilmente. Segundo
Indy, agia como alguém que sabia mais que aquilo que dizia -
algo bastante importante.
- Mesmo assim, dr. Jones, já está em marcha uma tentativa
para recuperar o Graal.
Indy franziu a testa e abanou a cabeça.
- Quer dizer que a placa já foi traduzida?
Donovan fez que sim com a cabeça.
- Entäo por que razäo me arrastou do campus se só queria uma
segunda opiniäo? Posso acusá-lo de rapto. - Era de propósito
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que falava com dureza.
Donovan levantou uma mäo.
- Podia fazê-lo, mas näo creio que o faça. Vou explicar
porquê.
Mas deixe-me primeiro contar-lhe mais uma história da
carochinha, dr. Jones. Depois de o Graal ter sido con fiado a
José de Arimateia, desapareceu e esteve perdido durante cerca
de mil anos até ter voltado a ser encontrado pelos cavaleiros
da primeira cruzada. Para ser mais preciso, por três irmäos.
- Também já conheço essa - interrompeu Indy, acabando ele
mesmo por concluir a história. - Cento e cinquenta anos depois
de o Graal ter sido encontrado, dois dos irmäos abandonaram o
deserto e deram início à viagem de regresso. Contudo, apenas
um foi bem sucedido, e, antes de ter morrido muito, muito,
velhinho, contou a sua história a um frade franciscano.
Visivelmente satisfeito por Indy saber a história, Donovan
acenou.
- Excelente. Agora deixe-me mostrar-lhe uma coisa. -
Atravessou a sala e regressou trazendo um livro com uma capa
de pele. Abriu com cuidado. Era evidente que as páginas eram
extremamente frágeis.
- Este é o manuscrito do frade franciscano. - Fez uma pausa,
deixando o facto actuar plenamente. - Näo revela a localizaçäo
do Graal, mas o cavaleiro declarou que haviam sido deixados
dois "marcos" que ajudariam a encontrar o caminho.
Donovan apontou para a placa de pedra.
- Este, dr. Jones, é um dos "marcos". Esta placa prova que a
história é verdadeira. Mas, como fez notar, está incompleta.
Passaram alguns segundos. Indy quase que os podia ouvir
encher a sala, e sentiu que tinha o corpo tenso, à espera que
Donovan continuasse.
- O segundo marco está enterrado junto com os restos mortais
do irmäo do cavaleiro. O chefe da nossa expediçäo, depois de
ter passado anos sem fim a estudar este assunto, acredita que
o túmulo está localizado em Veneza, Itália.
- E quanto ao terceiro irmäo, aquele que ficou no deserto? O
frade diz qualquer coisa a seu respeito no manuscrito?
- O terceiro irmäo ficou para trás para se transformar no
guardiäo do Graal. - Donovan fechou o velho manuscrito com
todo o cuidado. - Como pode ver, dr. Jones, estamos prestes a
concluir uma demanda grandiosa que começou há quase dois mil
anos. Estamos apenas a um passo de encontrar o Graal.
Indy sorriu.
- E é aqui que, quase sempre, as coisas começam a
complicar-se.
Donovan inspirou o ar por entre os dentes e voltou a
expeli-lo, um suspiro que revelava um qualquer inconveniente
menor que, de uma forma ou de outra, se transformara num
fardo.
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- É capaz de estar mais perto da verdade que aquilo que
julga.
- Como assim?
- Chegámos a um beco sem saída. O indivíduo que chefiava o
nosso projecto desapareceu. O mesmo se passou com o produto
das suas investigaçöes. Recebemos um telegrama do colega dele,
um tal Schneider, que näo tem qualquer ideia do seu paradeiro
nem do que lhe aconteceu.
Donovan baixou os olhos para o manuscrito antigo, e depois
voltou a encarar Indy. Tinha um olhar distante, quase fixo,
como se uma parte de si estivesse täo perdida como o colega de
Schneider.
- Quero que retome as coisas no ponto onde ele as deixou.
Encontre-o e terá encontrado o Graal. É capaz de pensar num
desafio maior que este?
Indy levantou as mäos e abanou a cabeça. Soltou uma pequena
gargalhada, näo muito firme. Um desafio era uma coisa, a
estupidez outra. "Para além disso", pensou, tinha um
compromisso com a universidade. Näo podia deixar tudo e
partir, principalmente porque acabara de regressar de uma
outra viagem de trabalho.
- Veio ter com o Jones errado, Mr. Donovan. Por que razäo
näo tenta o meu pai? Tenho a certeza de que ficaria fascinado
com a ideia, e pronto para o ajudar no que fosse possível.
- Já tentei. O homem que desapareceu é o seu pai.
CAPíTULO VII
O DIåRIO DO GRAAL
Indy percorria a grande velocidade uma alameda rodeada de
árvores que seguia por uma zona residencial bastante antiga.
Quando fez a curva, girou de tal forma o volante do Ford
Coupé, que quase atropelou um homem que ia a atravessar a rua.
- Indy, pelo amor de Deus, e pelo meu pobre coraçäo, abranda
- gritou Brody.
Parou no quarteiräo seguinte, junto à curva. Durante breves
momentos, olhou através do vidro da frente para uma casa
parcialmente escondida por uma sebe e algumas árvores.
Tratava-se de uma construçäo de dois andares, com
muitasjanelas e um jardim bastante bonito. Era o tipo de casa
que poderia ter pertencido a uma família vulgar, com crianças
e animais de estimaçäo, o género de família que faz
churrascos, ao fim-de-semana, a família que Indy nunca tivera.
Em nada se parecia com o local onde ele e o pai tinham vivido
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há muitos anos. Contudo, emanava o mesmo sentimento de
desconforto, apesar de ele já lá näo ir há pelo menos dois
anos.
Mas agora nada do que acontecera entre ele e o pai
interessava.
Saltou do Ford, e já tinha percorrido metade do caminho que
o separava da porta principal quando Brody o alcançou. Este
estava sem fôlego devido à violência do exercício e tinha a
testa franzida.
- O teu pai e eu somos amigos de longa data. Vi-te crescer,
Indy. Também os vi irem-se separando. - Subiu os degraus que
davam para a varanda um passo atrás de Indy. - E nunca antes
te vi täo preocupado com ele como agora.
Indy atravessou a varanda.
- Ele é um académico. Um rato de biblioteca, näo um homem de
acçäo, Marcus. Claro que estou preocupado...
A porta da frente estava aberta e isto fez que ele se
calasse. Brody e ele entreolharam-se, e Indy aproximou-se com
cautela, com os músculos comprimidos. Abriu a porta e esta
abriu-se completamente, chiando um pouco. O ar que o atingiu
no rosto era frio - e vazio.
- Pai?
- Henry? - chamou Brody quando entrou, depois de Indy.
As suas vozes ecoaram no vazio. Os receios de Indy
acentuaram-se. Voltou a chamar o pai e precipitou-se pelo
corredor, metendo a cabeça em quartos vazios, quartos que näo
tinham conhecido grandes modificaçöes desde que se haviam
mudado do Colorado, tinha ele 15 anos. A mobília era mais
bonita, havia mais coisas, mas o ar aqui era täo estéril e sem
personalidade como o fora na outra casa depois da morte da
mäe.
O tiquetaque do relógio fazia-se ouvir no silêncio. O
frigorífico zumbia. O silêncio parecia estar a rir-se dele.
"Foi-se", pensou Indy e desviou a cortina que separava o hall
de entrada da sala de estar.
Fez uma careta, e Brody murmurou:
- Meu Deus!
A sala näo se limitara a ser revirada. Fora dizimada. Os
armários haviam sido virados e atirados ao chäo. Tinham
esvaziado as prateleiras. As almofadas do sofá tinham sido
arrancadas e depois atiradas para longe. Por todo o lado se
viam livros, cartas e sobrescritos.
Indy ficou parado durante alguns instantes, olhando de um
lado para o outro à procura de algo, de qualquer coisa que lhe
pudesse fornecer uma pista.
Abaixou-se e apanhou um álbum de fotografias que havia sido
deixado de lado. Caíram algumas fotos e ele apanhou-as,
ficando a olhar para a que estava em cima. Esta mostrava um
rapazinho acompanhado por um indivíduo mais velho,
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bastante sisudo, cuja barba ainda näo embranquecera por
completo. Tanto o homem como o rapaz estavam rígidos. Como
quem está pouco à-vontade. E ambos tinham ar de quem queria
estar em todo o lado menos ali.
"E isso", pensou ele, fora sempre o problema entre ele e o
pai, até mesmo na altura em que a fotografia fora tirada.
Nunca se tinham sentido à vontade um com o outro, e agora, à
medida que os velhos sentimentos voltavam, Indy sentiu que
qualquer coisa lhe doía no peito.
A fotografia fora tirada no ano a seguir à morte da mäe. O
pai estivera de luto durante todo esse ano. Indy sabia que ele
pensava muito na mulher, que formara uma espécie de ponte
entre o pai e o filho. A ponte desapareceu aquando da sua
morte. O pai nunca lhe falava a respeito dela. Se ele
mencionasse a mäe ou qualquer assunto relacionado com ela, o
pai deitava-Lhe um olhar frio e mudava de assunto, ou entäo,
como alternativa, dava-Lhe um trabalho para fazer.
E depois havia as ameaças. Lembrou-se das inúmeras vezes em
que lhe diziam que näo podia competir com o velhote. Näo
possuía a disciplina, a determinaçäo e a inteligência
necessárias. É claro que o pai reconhecia que ele tinha uma
certa curiosidade.
Mas de que é que isso lhe servia? Tudo o que fazia era
meter-se em sarilhos.
æ medida que cresceu, o ressentimento e a raiva que sentia
em criança aumentaram. Certo dia, Indy disse ao pai que ele
havia de ver. Também seria arqueólogo e dos bons. A vontade
que tinha de ser täo conhecido como o pai parecia crescer
proporcionalmente com a teimosia e a insistência demonstradas
pelo homem mais veLho em que ele näo chegaria a lado nenhum.
O som dos passos de Brody nas escadas fizeram-no voltar ao
presente. Os seus mal-entendidos com o pai foram prontamente
substituídos por um enorme sentimento de culpa pelas vezes em
que desejara nunca mais o ver. E também pelas vezes em que o
desejara ver morto. Apesar da teimosia e da obstinaçäo
demonstradas pelo pai, agora que ele desaparecera, as coisas
mudavam de figura. Naquele preciso momento näo havia ninguém
no mundo que Indy tivesse tanta necessidade de ver.
- Aqui dentro näo está em lado nenhum - disse Brody.
- Já calculava isso.
O rosto de Brody estava distorcido devido à preocupaçäo que
sentia.
- Em que será que aquele idiota se meteu desta vez?
- Näo sei. Mas, seja no que for, de certeza que perdeu a
cabeça.
- Näo consigo imaginar o Henry a meter-se com pessoas em
quem näo confiasse. Repara, até a correspondência lhe
revistaram.
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Indy olhou para o amontoado de papéis e sobrescritos, e foi
entäo que reparou de que se esquecera do seu próprio correio.
- As cartas. É isso, Marcus!
Meteu a mäo ao bolso e tirou de lá aquele sobrescrito
bastante grosso que transportava desde que saíra do gabinete.
Voltou a olhar para o selo estrangeiro e abanou a cabeça.
- Veneza, Itália. Como é que pude ser täo estúpido?
Brody parecia surpreendido.
- Estás a falar de quê, Indy?
Abriu um sobrescrito e tirou lá de dentro um pequeno
bloco-notas. Deu uma olhadela rápida a várias páginas. Parecia
tratar-se de um registo, de um diário. As páginas estavam
cobertas de notas escritas à mäo e de desenhos.
Brody olhou para o bloco por cima do ombro de Indy.
- É da parte do Henry?
- Sim. O diário que o meu pai escreveu a respeito do Graal.
- Mas por que razäo to foi ele mandar?
- Näo sei. - Deu uma olhadela à sua volta e depois voltou a
desviar os olhos para o diário. - Tenho o pressentimento que
era disto que eles andavam à procura. Parece que há para aí
alguém que o quer a todo o custo.
Passou a mäo ao de leve pela capa de pele do diário. "Ele
confiou em mim. Finalmente fez alguma coisa mostrando que
confia e acredita em mim."
- Posso vê-lo? - perguntou Brody.
- Claro. Está tudo aí. Todo o trabalho de uma vida.
æ medida que Brody virava as páginas do diário, as rugas do
seu rosto iam-se acentuando.
- A pesquisa sempre foi a sua paixäo, Indy.
- Eu sei. Mas tu acreditas nesse conto de fadas, Marcus?
Acreditas mesmo na existência do Graal?
Brody parou de virar as páginas assim que descobriu uma
gravura que fora copiada para o diário. Representava Cristo na
cruz, e José de Arimateia recolhia o seu sangue num cálice de
ouro.
Levantou os olhos e falou com convicçäo.
- A demanda do cálice de Cristo representa a busca do divino
que existe em todos nós.
Indy acenou com a cabeça e tentou esconder o cepticismo que
sentia. Contudo, Brody näo deixou passar o seu sorriso
indulgente.
- Eu sei. Tu queres factos. Só que näo tenho nada para ti,
Indy. Quando se chega à minha idade está-se pronto a aceitar
algumas coisas inexplicáveis. Sinto isso mas näo o consigo
provar.
Indy nada disse. O seu olhar estava cravado num quadro
colocado na parede. Representava alguns cavaleiros do século
XI que encontravam a morte mergulhando do alto de um enorme
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rochedo. No entanto, um deles flutuava no ar em segurança,
pois segurava o Graal nas mäos.
Lembrou-se de como o pai o obrigara a ler o Parzival, de
Wolfram von Eschenbach - A história do Graal. Tinha apenas 13
anos e näo conseguia imaginar pior forma de passar as tardes
de Veräo - pelo menos até ao ano seguinte, altura em que o pai
o obrigou a voltar a ler tudo aquilo, desta vez na versäo
alemä original. A Isso seguiu-se a ópera de Richard Wagner,
Parsifal, baseada no trabaLho de Eschenbach.
Todos os dias o pai lhe fazia perguntas a respeito da
história para se certificar de que ele a compreendera. Se näo
soubesse a resposta para alguma das perguntas ordenava que
voltasse atrás e lesse outra vez a parte correspondente. Como
incentivo, o pai prometera-lhe uma recompensa quando estivesse
a par do trabalho de Wagner.
Costumava pensar a respeito da recompensa que o pai lhe
daria, e desejava que fosse uma viagem ao Egipto para ver as
pirâmides, ou talvez a Atenas para ver o Parténon, ou ao
México, a Yucatan e às ruínas maias. Na pior das hipóteses,
achava que merecia uma visita ao museu do capitólio e às
múmias que ali estavam. Em vez disso, o prémio que recebeu
foram as lendas do rei Artur a propósito do Graal. Primeiro, a
Morte De Arthur, de Sir Thomas Malory, que começou por ler em
francês e só depois em inglês. Depois disso foi Idylls of the
King, de Lord Tennyson. "Uma bela recompensa", pensou,
lugubremente. Apesar do ódio que nutria por aqueles livros
difíceis que falavam de Parzival, e da raiva silenciosa que
sentira pela recompensa, nunca esquecera as aventuras dos
cavaleiros Parzival, Gawain e Feirifs - os heróis do Parzival
de von Eschenbach -o u Perceval, Galahad, Bars e Lancelot,
todos protagonistas da lenda de Malory. De facto, agora que
pensava nisso, era provável que esses livros tivessem
influenciado consideravelmente a forma como vivia a vida.
Dado que Indy näo falava, Brody pigarreou e continuou.
- Se o teu pai acredita que o Graal existe, o mesmo se passa
comigo.
Indy näo estava certo daquilo em que devia acreditar, a näo
ser que precisava de agir, de começar a procurar.
- Marcus, telefona ao Donovan. Diz-Lhe que quero um bilhete
para Veneza imediatamente. Vou à procura de meu pai.
- ?ptimo. Vou dizer-lhe que queremos dois bilhetes. Eu
também vou.
Dirigiram-se para o aeroporto sentados no banco de trás de
uma limusina, sendo acompanhados pelo dono desta, Walter
Donovan. Indy conseguira uma autorizaçäo de emergência para se
ausentar da universidade. A princípio, quando fizera o pedido,
o reitor olhara-o de soslaio. Como poderia ele estar a pedir
uma autorizaçäo para partir, quando acabara de faltar à
primeira semana do semestre. Foi entäo que Indy lhe forneceu
pormenores, e, à mençäo do nome do pai, a atitude do reitor
mudou imediatamente.
Este acenou solenemente, olhou pela janela, e contou-lhe uma
história em que o pai era protagonista. Já a tinha ouvido, mas
desta vez o fim deu uma outra volta. Tratava-se de um
incidente que ocorrera quando um colega particularmente
arrogante do dr. Jones montara uma exposiçäo sobre os seus
mais recentes achados arqueológicos. Dado que era um indivíduo
importante e possuidor de bastante poder no meio académico, a
recepçäo registava a presença de estudiosos e arqueólogos
vindos de várias universidades de leste. Estavam ali näo
porque admirassem o indivíduo, mas sim porque o receavam.
Quando chegou a hora de mostrar o achado mais significativo
da colecçäo, o dr. Jones dirigiu-se para a parte da frente da
sala e retirou a cobertura que tapava uma peça de cerâmica
supostamente mais antiga que qualquer outra que fora
descoberta no Novo Mundo. Depois disto esmagou-a de encontro
ao pedestal onde esta se encontrava, e declarou que näo
passava de uma fraude. Os guardas levaram-no dali o mais
depressa possível, mas as provas que deixou atrás de si
confirmaram que a razäo estava do seu lado, e o reinado de
terror do tal professor ficou por ali.
O reitor afastara-se da janela e fitava Indy nos olhos.
- Esse professor fora meu conselheiro e quase me expulsara
porque näo concordei com ele no que respeitava à datagem de
uma peça. Sem o saber, aquilo que o seu pai fez salvou-me a
carreira. Sim, com certeza que vai encontrar o dr. Jones. O
mundo precisa de homens como ele.
Indy levou a viagem até ao aeroporto meditando naquilo que
sabia a respeito do desaparecimento do pai. O facto de saber
ainda täo pouco constituía o principal problema. Suspeitava
que a excessiva paixäo que o pai nutria pelo Graal o tivesse
levado a aceitar participar numa expediçäo pouco convencional.
Tendo em conta a sua idade, era provável que tivesse pensado
que esta seria a sua única oportunidade de encontrar o Graal e
de terminar a demanda de uma vida.
"Raios partam o velhote e a sua obsessäo!"
Se as relaçöes entre ambos fossem melhores, nada disto teria
acontecido. Culpou-se a si próprio. Tivera sempre uma atitude
pouco positiva a propósito de tudo o que se relacionava com o
pai. No entanto, de uma forma ou de outra, iria compensar
todos os mal-entendidos do passado e rectificar as coisas.
52 53
Mal a limusina deu a curva à entrada do aeroporto, Donovan
apertou a mäo de Brody.
- Bom, Marcus, boa sorte.
"Como se a sorte tivesse alguma coisa a ver com isto."
Pensou Indy.
- Obrigado, Walter. - Brody acenou, com algum nervosismo. -
Assim que chegarmos a Veneza...
- Näo te preocupes - retorquiu Donovan. - Schneider estará
lá para vos receber. Tenho um apartamento em Veneza. Está à
vossa disposiçäo.
- Ainda bem, Walter.
Brody abandonou a viatura e Indy estava prestes a segui-lo,
quando Donovan lhe tocou no ombro.
- Tenha cuidado, dr. Jones. Näo confie em ninguém.
Compreende?
Indy olhou-o de frente.
- Farei tudo o que for necessário para encontrar o meu pai.
O aviäo avançava à luz do sol, passando por nuvens que se
agarravam ao céu como se de pequenas vírgulas brancas se
tratasse. Por debaixo deles estendia-se o Atlântico, uma
mancha infinita, um deserto azul, brilhante e que quase
cegava. Mas Indy näo viu nada disto. Durante a maior parte da
viagem esteve ocupado com o diário que o pai escrevera sobre o
Graal.
Leu-o com cuidado, anotando todas as entradas, todas as
páginas, procurando encontrar dados. "A palavra Graal deriva
de graduale, o que significa a passo e passo, degrau a
degrau", lia-se logo ao princípio. "Existem seis etapas, ou
níveis de consciência, na demanda do Graal, e cada uma delas é
representada por um animal."
O diário explicava que o corvo simboli zava a primeira
etapa, representando o mensageiro do Graal e o Hdedo do
destino" , o qual iniciava a demanda.
A segunda fase era representada pelo paväo, o símbolo da
busca da imortalidade. Sugeria igualmente a natureza brilhante
e imaginativa da demanda.
O animal que correspondia à terceira fase era o cisne, pois
aquele que aceitasse ir procurar o Graal teria de fazer como o
cisne, e näo ligar qualquer importância às suas ambiçöes
pessoais.
Para se ter sucesso era preciso ultrapassar as fraquezas do
espírito e da carne, e passar para lá de todos os desejos e
aversöes mesquinhas.
A quarta etapa encontrava correspondência no pelicano,
54
a ave que estava disposta a ferir o próprio peito para que a
sua cria se alimentasse. Simbolizava o auto-sacrifício e a
disponibilidade para enfrentar o perigo, salvando com isso a
sua gente.
O símbolo do quinto grau era o leäo. Significava liderança,
conquista, e a realizaçäo de objectivos elevados.
O sexto, e o mais importante de todos os níveis, era
representado pela águia. Somente no fim da demanda se atingia
esse estado.
Nesta fase, aquele que buscava o Graal teria conquistado o
poder e os conhecimentos suficientes para entender totalmente
o significado da busca.
Indy levantou os olhos do livro e mudou de posiçäo. Era
típico do pai representar as coisas através de símbolos e de
metáforas. Como estudioso, trabalhava com conceitos
abstractos. Tinha a sensaçäo de que o diário do Graal era uma
mistificaçäo quase täo grande como a do próprio Cálice.
O facto de terem sido mencionados animais lembrou-lhe algo
em que há muito näo pensava. Quando tinha 18 anos, regressara
às regiöes do sudeste e tentara alcançar a visäo, sendo para
tal guiado por um velho índio Navajo. Subira a um pequeno
planalto, uma mesa, do Novo México, sozinho e sem levar
comida. Entäo construíra um abrigo e ficara à espera.
O índio dissera-lhe que deveria esperar até que um animal se
aproximasse dele. A partir de entäo este seria o seu
protector, o seu guia espiritual. Passaram dois dias e sentia
o estômago vazio e a garganta seca. Queria descer e encontrar
água. Levantou-se, foi até à beira do planalto e olhou para
baixo, perguntando a si mesmo que foi que lhe dera para fazer
algo täo louco.
Estava prestes a iniciar a descida quando julgou ouvir a voz
do velho índio dizendo-lhe para esperar. Surpreendido,
voltou-se. Näo estava ali ninguém. Pensou que a fome e a sede
estavam a provocar-lhe alucinaçöes. Contudo, em vez de descer,
voltou para trás, para o abrigo.
Näo dera mais que uma dúzia de passos quando, de repente,
apareceu uma águia no céu, pairando por sobre aquela
superfície lisa e rochosa. A majestosa criatura acabou por
poisar numa das paredes do abrigo. Encontrara o seu protector.
Quando lhe contou a história, o velho Navajo fez sim com a
cabeça, e disse que a águia o guiaria sempre nas suas viagens,
dando-lhe poderes para alcançar tudo aquilo que queria.
Indy saiu do seu sonho quando a hospedeira lhe bateu no
ombro e lhe perguntou se queria uma bebida. Ele assentiu, e,
quando se sentava melhor, caiu do diário um pedaço de papel
dobrado. A hospedeira apanhou-o e devolveu-lho junto com a
bebida. Ele colocou o copo no tabuleiro que estava à sua
frente e desdobrou o papel.
Tratava-se de um decalque que de imediato reconheceu como
sendo a cópia da placa do Graal que estava na posse de
Donovan.
55
A parte superior revelava um espaço em branco, tal como se
tivesse ficado assim para receber o que faltava da placa.
- Dá uma olhadela a isto, Marcus.
Estendeu o papel a Brody, mas foi entäo que descobriu que o
seu companheiro de viagem dormia profundamente.
Voltou a dobrar a folha e estava prestes a enfiá-la no
diário, quando reparou no desenho que a página onde o livro se
abrira ostentava.
Era o esboço daquilo que parecia ser um vitral. Por baixo
encontravam-se uma série de números. "Qual o significado
disto?"
Näo faltava muito para o descobrir.
56
Veneza
CAPíTULO VIII
OS NUmERAIS ROMANOS
- Ah, Veneza! - suspirou Indy, olhando em volta e acenando
para si mesmo, retirando algum consolo daquilo que o rodeava.
Veneza era uma cidade única no mundo, o perfeito antídoto para
o seu mau humor. æ medida que, junto com Brody, atravessava a
cidade de barco, a nuvem negra que pairava sobre ele desde que
soubera do desaparecimento do pai, esfumara-se.
O ar tinha um cheiro doce a água, o céu era uma almofada
suave e azul, e o espírito de Indy elevou-se. "Vai ficar tudo
bem", disse, de si para si. Acabaria por encontrar o pai.
- Repara - disse Brody. - Uma cidade construída numa lagoa e
em cento e dezoito ilhas.
Indy acenou.
- E vê só o que eles construíram.
Em cada rua e canal se podia ver a herança de Veneza. A
cidade era um porto de cultura e saber, de história e de
romance, e, sem qualquer dúvida, de intriga e aventura.
Assim que ele e Brody desembarcaram no cais, o sentimento de
euforia que dominava Indy desfez-se subitamente. A milícia
fascista conduzia um suspeito em direcçäo à cidade. Quando viu
o barco, o homem tentou escapar-se a todo o custo. Os homens
que constituíam a milícia reagiram com dureza. Bateram-lhe com
os bastöes, pontapearam-no com aquelas botas pesadíssimas, e o
pobre gemia e gritava, tentando escapar-se. Acabou por cair
nas pedras da calçada com o rosto cheio de sangue e o corpo
täo quieto como se de um morto se tratasse.
Näo havia palavras para descrever o quanto Indy se sentiu
preocupado com aquilo. A atitude dos homens da milícia
cheirava-lhe a vingança, algo que excedia os códigos
militares. Era mais que evidente que gostavam do que faziam, e
lembrou-se dos marinheiros que se tinham afundado junto com o
cargueiro.
- Ah, Veneza? - voltou ele a dizer. Contudo, desta vez a voz
era mais grave, mais pesada, reflectindo a preocupaçäo que
sentia pelo que se passava em Itália e em toda a Europa. Os
fascistas e os nazis tinham lançado a confusäo no continente.
57
Quem poderia saber onde esta terminaria? Ou quando. Ou como.
Ou se teria fim.
Parte das apreensöes que sentira estavam agora de volta.
- Considero este tipo de coisas bastante perturbador -
comentou Brody à medida que atravessavam o cais. - Espero näo
encontrar mais violência durante esta viagem.
Indy encarou-o. Brody voltara a ostentar a sua expressäo
preocupada.
- É, eu também näo. - Contudo, tinha a impressäo de que näo
seria assim.
Olharam em volta, e Indy perguntou em voz alta como iriam
reconhecer Schneider quando o vissem. Donovan näo lhes tinha
fornecido qualquer descriçäo do colega do pai. Limitara-se a
dizer que estaria à espera deles.
- Talvez tenha um letreiro - sugeriu Brody, esperançado.
De repente, uma mulher surgiu do meio da multidäo e
sorriu-lhes. Era uma loura bastante atraente, de maçäs do
rosto elevadas, e uma figura esbelta. Os olhos eram muito
azuis, brilhantes e inteligentes.
- Dr. Jones?
- Sim. - Indy sorriu. Schneider devia ter mandado a
secretária esperá-los, e ele näo se importava nem um
bocadinho.
- Já calculava. - A sua atitude era bastante provocante. -
Tem os olhos do seu pai.
Indy sentiu-se de imediato atraído por ela.
- E as orelhas da minha mäe. Mas o resto é todo seu.
Esperava que ela se zangasse. Em vez disso, soltou uma
gargaLhada. Era um som bastante bonito, leve, cheio de vida,
e, por alguns segundos pensou que ela se estava a rir de si.
"E depois?", pensou. "Que interesse tinha isso?" Só para a
ouvir rir mais uma vez era capaz de voltar a repetir a piada.
- Parece que as partes melhores säo aquelas de que já
falámos - retorquiu ela.
Divertido com o comentário, Indy sorriu.
A mulher voltou-se para Brody.
- Marcus Brody?
- Certo.
- O meu nome é Elsa Schneider.
O sorriso de Indy desapareceu.
Brody tentou disfarçar a surpresa que sentia, mas näo foi
bem sucedido.
- Ah, pois, dr.a Schneider...
Apertaram as mäos. Ele pigarreou e olhou para Indy à espera
que ele retomasse a conversa, voltando-se depois de novo para
ela.
- Prazer em conhecê-la. O Walter näo, ah...
58
Ela sorriu e voltou-se.
- Já calculava. Acho que o Walter gosta de surpreender as
pessoas. Por aqui, meus senhores.
Entraram na enorme Piazza di San Marco, e ela tratou de
dirigir a conversa para aquilo que interessava.
- A última vez que vi o seu pai estávamos na Biblioteca
Marciana. É para lá que vamos. Ele estava prestes a descobrir
o túmulo do cavaleiro. Nunca o tinha visto täo animado. Andava
alegre como um rapazinho. Estava certo que o túmulo continha o
mapa que o levaria ao Graal.
"O Dr. Henry Jones - o professor åtila - alegre como um
rapazinho." Desconhecia esta faceta do pai.
- Ele nunca foi alegre, nem mesmo quando era um rapazinho.
Talvez o facto de trabalhar com Elsa Schneider tivesse
desorientado o velhote. Indy näo conseguia desviar os olhos
dela, e teve de confessar que também ele se sentia um pouco
eufórico. Enquanto caminhavam reparou que havia ali um
vendedor de flores com uma padiola. Voltou atrás e tirou um
cravo vermelho de um dos ramos da esquina. O homem estava
ocupado com uma cliente e näo deu por nada.
Estendeu a flor na direcçäo de Elsa e sorriu.
- Dá-me licença, Fraulein?
Ela olhou para a flor e depois para Indy.
- Näo costumo dar.
- Eu também näo costumo fazer isto.
Ela fitou-o mais um pouco.
- Nesse caso dou-lhe licença.
Pegou no cravo.
- Já me estou a sentir triste... amanhä já estará murcho.
- Nesse caso, amanhä terei de roubar outro. É tudo o que
posso prometer.
Ela voltou a rir, aquela gargalhada bonita que ficou gravada
na memória de Indy a partir daquele instante. Ia para dizer
qualquer coisa, mas Brody interrompeu-o.
- Desculpem, detesto interromper, mas a razäo porque estamos
aqui...
- Claro - disse Elsa numa voz séria. Depois disso abriu a
mala. - Tenho uma coisa para mostrar aos dois. Como eu estava
a dizer, deixei o dr. Jones a trabalhar na biblioteca. Ele
mandara-me à secçäo dos mapas buscar uma planta antiga da
cidade. Quando voltei para junto da mesa ele desaparecera, e o
mesmo se passara com os papéis em que trabalhava. Sobrou
apenas uma coisa.
Pegou num pedaço de papel e fitou-os a ambos.
- Descobri isto perto da cadeira em que se encontrava.
Indy pegou no papel e desdobrou-o. A única coisa que lá
estava escrita eram os numerais romanos III, VII e X.
Ficou a meditar sobre este assunto.
59
Elsa apontou para a direita com a sua mäo enluvada.
- A biblioteca é já aqui.
Subiram os degraus da entrada e Elsa foi a primeira a
entrar.
Os sapatos deles faziam barulho ao bater no chäo de mármore
polido. Indy calculou tratar-se de um daqueles lugares onde
uma pessoa se sente forçada a baixar a voz, a falar com alguma
reverência.
- Tenho andado a semana toda a descobrir o signi ficado
desses números - murmurou ela -, três, sete e dez. Näo parece
tratar-se de uma referência bíblica. Verifiquei todas as
combinaçöes de versículos e capítulos dos Evangelhos.
Indy levantou os olhos para o tecto, o qual se situava a
cerca de cinquenta pés de altura, e para as paredes de pedra
cobertas de vitrinas. Abiblioteca era sombria e enorme,
suficientemente grande para uma pessoa se perder lá dentro.
Pensou na probabilidade de o pai ainda ali se encontrar,
absorvido nalgum manuscrito antigo, e sem saber que fora dado
como desaparecido.
- Agora ando a estudar as crónicas medievais de Jean
Froissart - prosseguiu Elsa. - A biblioteca tem cópias dos
textos originais. Talvez que o três, o sete e o dez
representem os números de alguns dos volumes.
Indy acenou. Estava impressionado com a biblioteca, mas
também näo se sentia muito à vontade, pois sabia que fora ali
que o pai desaparecera.
De certo modo, as coisas eram um pouco irónicas. Lembrou-se
do professor Henry Jones a dar-lhe liçöes sobre as
bibliotecas.
"Depósitos do saber, Júnior. Quanto mais tempo passares numa
biblioteca, mais culto ficas."
O pai adorava bibliotecas. Mergulhava nos livros, mas nunca
se perdia. Indy tinha a certeza disso. O seu desaparecimento
era algo forçado, näo voluntário. Näo pertencia ao tipo dos
que fogem dos problemas. Era demasiado teimoso para isso.
Caminhavam entre dois enormes pilares de granito e acabaram
por entrar numa sala contendo enormes filas de estantes cheias
de livros. Elsa conduziu-os até um dos cantos da divisäo, e
paroujunto a uma mesa, passando a mäo com ternura por cima de
uma série de livros com capas de pele.
- Os seus olhos estäo a brilhar - comentou Indy.
- As grandes bibliotecas quase me fazem chorar. Até mesmo um
simples livro. É qualquer coisa de sagrado, um tijolo no
templo de toda a nossa história.
- É. Gosto de um bom livro - troçou Indy.
- Diria que é como estar numa igreja - acrescentou Brody,
compreensivo.
60
- Neste caso, isso é a pura das verdades. Estamos em chäo
sagrado. Esta era a capela de um mosteiro franciscano. - Ela
apontou na direcçäo de uma série de colunas de mármore. -
Estas colunas foram devolvidas na condiçäo de despojos de
guerra depois do saque de Bizâncio, durante as Cruzadas.
Indy olhou para as colunas, mas na altura estava mais
interessado najanela que se situava por cima da mesa.
Tratava--se de um vitral e representava um cavaleiro das
Cruzadas. Contornou a mesa, observou-o mais de perto, e depois
voltou-se para Elsa.
- É esta a mesa onde viu o meu pai pela última vez?
Ela acenou, passando os dedos pelas arestas da mesma.
- Estava a trabalhar mesmo aqui. A propósito, tenho de ir
falar com o funcionário. Deixei-lhe um retrato do Henry. Ele
disse que ficaria atento caso o seu pai voltasse a aparecer.
Assim que Elsa desapareceu, Indy pegou no braço de Brody e
apontou para o vitral.
- Marcus, já vi aquela janela antes.
Brody franziu a testa.
- Onde?
O outro puxou do diário do Graal e abriu-o no esboço em que
reparara durante o voo. Bateu no livro.
- Mesmo aqui.
Brody observou o esboço, levantou os olhos para a janela,
voltou a poisá-los no desenho, e acenou, devagar.
- Bom trabalho, Indy. É o mesmo.
- Estás a ver?
- Sim, os números romanos pertencem ao desenho dajanela.
- O meu pai andava à procura de qualquer coisa aqui.
Brody devolveu o diário a Indy.
- Sim, mas de quê? Sabemos de onde vêm os números, mas näo
sabemos o que significam.
Indy viu que Elsa se aproximava, e enfiou o diário no bolso
o mais rápido que podia.
- O meu pai mandou-me isto por alguma razäo. Portanto, e até
a termos descoberto, acho melhor guardarmos isto só para nós.
- Concordo.
Elsa abanou a cabeça.
- Näo há sinais dele. - Franziu a testa, olhando ora para
Indy ora para Brody. - Estäo com cara de quem descobriu alguma
coisa. O quê?
- É assim täo evidente?
De momento estava a observar as paredes e o tecto. Algures,
em alguma parte, tinha de haver uma pista, tinha a certeza
disso. Nunca na vida estivera täo certo de uma coisa.
Brody apontou para a janela.
- Três, sete e dez. Lá está, a fonte dos números romanos.
- Meu Deus, tem toda a razäo.
61
- O meu pai näo andava à procura de um livro, mas sim do
túmulo do cavaleiro. Andava à procura do próprio túmulo.
A expressäo de Elsa era completamente vazia. Por fim, abanou
a cabeça.
- Que quer dizer com isso?
- Näo compreende, Elsa? O túmulo está aqui, algures, nesta
biblioteca. Você mesma disse que este lugar era uma igreja.
Os olhos de Indy pousaram nas colunas de mármore.
- Ali. - Apontou um dedo e atravessou o aposento à medida
que Elsa e Brody o seguiam.
- Ali. - Indy apontou para os números romanos gravados nas
colunas, e sorriu triunfantemente. - Aposto que estäo todas
numeradas. Espalhem-se. Vamos encontrar as outras... a sete e
a dez.
Afastaram-se em diferentes direcçöes, cada um seguindo o
caminho mais curto na direcçäo a uma coluna. Minutos mais
tarde Brody fez sinal a Indy. Encontrara o número VII.
Continuaram a procurar, mas ninguém conseguia descobrir a
última coluna-a X.
Juntaram-se de novo no centro da sala, a cerca de meio
caminho entre a III e a VII.
- Raios, tem de estar aqui - murmurou Indy. - Tem de estar
aqui. Tenho a certeza.
Subiu a escada que levava a uma galeria, chegou lá acima e
olhou para baixo, esperançado de que esta nova perspectiva lhe
fornecesse uma pista. Isso näo demorou muito a acontecer. Era
bastante óbvio. O local onde Elsa e Brody tinham os pés era um
padräo de mosaico bastante complicado, onde apenas a partir da
perspectiva superior se podia ver um X.
- O X marca o local preciso - disse, e sorriu. Desceu a
escada a correr e encontrou-se no meio do X, no local onde se
juntava.
Baixou-se apoiado num joelho, e começou a levantar o mosaico
com a faca.
- Que está a fazer? - murmurou Elsa, olhando à volta, näo
fosse alguém estar a observar aquele estrangeiro maluco que
estava a levantar o soalho.
- Vou encontrar o túmulo do cavaleiro. - As palavras
saíram-lhe por entre os dentes, cerrados devido ao esforço que
fazia. - Que coisas está para aí a pensar?
Depois de alguns momentos o mosaico soltou-se, revelando um
buraco com cerca de dois pés, o que provava que tinha razäo.
Da cavidade escura elevava-se um vento gelado e um cheiro
húmido e desagradável.
Indy levantou os olhos para Elsa e Brody, e sorriu
abertamente.
- Bingo!
62
CAPíTULO IX
O TûMULO DO CRUZADO
- Você näo desaponta ninguém, dr. Jones - disse Elsa à
medida que alinhava uma madeixa de cabelo louro. - É bastante
parecido com o seu pai.
- Só que ele está perdido e eu näo.
Indy espreitou para a escuridäo, tirou uma moeda do bolso e
deixou-a cair. Um segundo mais tarde ouvia-se um ruído
abafado. O buraco näo era muito fundo.
- Volto já.
Estava quase a saltar para dentro do buraco quando Elsa lhe
tocou no ombro.
- Primeiro as senhoras, Indiana Jones. Por favor, desça-me.
Indy levou a mäo ao chapéu, impressionado com a coragem
daquela mulher. Ela sentou-se, passou as pernas por cima do
buraco, levantou a cabeça e olhou-o.
- Está pronto? - perguntou.
- Pronto - respondeu ele.
Elsa levantou os braços acima da cabeça. Ele segurou-lhe as
mäos e ela afastou-se da beira. Durante um ou dois segundos
ficou a balouçar no centro da escuriddäo, depois do que Indy a
foi baixando devagar, até ao momento em que ela lhe disse para
a largár. Ele fez o que lhe mandavam, e ouviu-a chegar ao
chäo.
Olhou para Brody por cima do ombro.
- Fica a tomar conta das coisas, Marcus.
Brody acenou.
- Vou voltar a pôr o mosaico no lugar para näo chamar as
atençöes.
- Boa ideia. - Meteu a mäo no bolso, puxou o diário do
Graal, e tirou de lá o pedaço de papel que estava dobrado.
Enfiou-o na camisa, e só depois passou o diário a Brody.
- Toma conta dele.
- Claro.
Indy olhou para dentro do buraco, depois de novo para Brody.
- Voltarei em breve. Espero...
Deixou-se cair na abertura e o mosaico voltou a ser colocado
no lugar certo. Nesse mesmo instante, a escuridäo envolveu-o.
Lá em cima ouviu-se um bater de pés. Que raio estaria Brody a
fazer? A sapatear?
- Elsa? - murmurou.
63
Ela acendeu o isqueiro. Aquela pequena luz amarela parecia-
se com um insecto estranho, luminoso. Pestanejou e viu que ela
o olhava.
- Ouviu aquilo? - perguntou.
- O quê?
Ele levantou o olhar, indeciso sobre se deveria voltar atrás
ou seguir em frente. Talvez o bibliotecário ou um qualquer
polícia tivessem encontrado Brody a mexer no mosaico. Se
voltassem lá agora, talvez nunca mais voltassem a ter a
oportunidade de procurar o cavaleiro e o segundo marco.
- Nada, acho.
Tirou-lhe o isqueiro.
- Venha daí. Vamos acabar com isso.
Fazia frio, näo corria uma aragem, e o ar cheirava a meias
molhadas. Caminhavam ao longo de um corredor com paredes de
pedra, e Indy ia protegendo a chama com a palma da mäo. Esta
näo dava muita luz, e, uma vez por outra, tinha de olhar, ora
para a esquerda ora para a direita, de forma a poder ver o que
estava à sua frente. Parou e olhou por um momento na direcçäo
de um nicho escavado na parede. Avançou alguns passos, näo
acreditando no que via àquela luz tremeluzente. Segurou o
isqueiro de lado e olhou em frente, na direcçäo de uma caveira
que estava presa aos restos enegrecidos de um esqueleto
coberto com faixas de linho podre.
- Acho que estamos numa espécie de catacumbas - disse Elsa.
- Na outra parede há um outro sujeito igual a este.
Indy olhou por cima do ombro.
- ?ptimo. Vamos continuar. Acho que nenhum destes rapazes
simpáticos é o nosso cavaleiro.
Continuaram a avançar, passando por vários túmulos
semeLhantes, antes de Elsa apontar para alguns símbolos
gravados na parede ao lado dos esqueletos.
- Olhe para isto - disse. - Säo símbolos pagäos. Do quarto
ou do quinto século.
Indy levantou o isqueiro e deu alguns passos em frente para
examinar as marcas.
- Certíssimo. Cerca de seiscentos anos antes das Cruzadas.
- Os cristäos devem ter escavado as suas próprias passagens
e câmaras funerárias alguns séculos mais tarde - acrescentou
ela.
Sabia que ela estava com a razäo e declarou-lho.
e há um cavaleiro da Primeira Cruzada aqui enterrado, é lá
que o vamos encontrar.
Passaram para o túnel seguinte.
- Nós também estamos numa Cruzada, näo estamos? - Avoz
de Elsa revelava sentimento e sinceridade.
"Engraçado", pensou. Ela levava essa história do Graal täo a
sério como o pai dele.
- Acho que sim. Pode dizê-lo. - Parou. - Dê-me a mäo.
- Porquê?
Achou que ela näo se mostrava muito entusiasmada, mas, e
depois?
- Näo quero cair.
Elsa soltou uma gargalhada e os seus dedos tocaram nos dele.
Indy agarrou-lhe a mäo.
A passagem virava para a esquerda e seguia durante cerca de
cem metros, desembocando depois numa secçäo onde as catacumbas
eram maiores e mais húmidas. Dentro em pouco estavam
mergulhados até aos tornozelos numa água escura e pegajosa.
Indy reparou em algo parecido com coágulos. Passou-lhe os
dedos por cima e esfregou-os uns de encontro aos outros.
- Petróleo. Podia abrir um poço aqui em baixo e reformar-me.
- Indy, olhe. - Elsa apontou para um outro sinal gravado na
parede. - Um símbolo judeu. Veneza foi palco de uma enorme
comunidade judaica durante o século X.
- Acho que isso quer dizer que estamos na direcçäo certa.
Elsa parou em frente a outro símbolo.
- Näo conheço este.
Indy olhou para a parede e soube imediatamente do que se
tratava. Näo apenas vira como também perseguira por todo o
mundo aquilo que ele representava, tendo estado perto da morte
por mais de uma vez.
- É a Arca da Aliança.
- Tem a certeza?
Ele olhou-a de esguelha com um sorriso irónico a bailar-lhe
nos lábios.
- Absoluta.
Continuaram a embrenhar-se nas catacumbas. A passagem era
agora mais estreita. A água chegava-lhes aos joelhos. Indy
parou. Ouviu algo cair à água, seguido de um som parecido com
um guincho. Levantou o isqueiro.
- Ratazanas.
Duas, três, quatro. Nada de extraordinário. Depois de ter
minimizado o problema, viu mais algumas. e depois outras
ainda. Dúzias de ratos saltavam dos parapeitos para a água.
Avançou com cautela, e viu que a água estava cheia de
ratazanas. Voltou a fazer as contas. Eram centenas, talvez
milhares, todas a mergulharem no corredor.
Começou a ficar preocupado.
Olhou para Elsa. Luz e sombra reflectiam-se no seu rosto.
Parecia estar enojada, mas näo enjoada, facto pelo qual se
sentiu grato. A última coisa que queria era ter junto de si
64 65
uma mulher capaz de desmaiar assim que visse um rato. Sugeriu
que subissem para o parapeito, sugestäo esta que foi
prontamente aceite.
O parapeito era suficientemente largo para se equilibrarem.
Estava húmido e escorregadio, e eles avançavam de mäos
dadas, com as costas encostadas à parede. A seus pés, a
corrente de ratos que guinchava continuava a avançar, e, uma
vez por outra, Indy dava com as botas naqueles que saíam ao
seu caminho. Pelo menos näo eram cobras. Desde que, enquanto
adolescente, caíra num caixote de cobras, nunca mais as pudera
ver. Alguns anos antes, durante a busca da Arca da Aliança,
ficara preso num antro de cobras, e ainda hoje tinha pesadelos
por causa disso.
Os níveis de adrenalina subiam à medida que avançava pelo
parapeito. O perigo era uma experiência com duas faces: num
dos lados o medo, no outro a emoçäo. Apertou a mäo de Elsa e
sorriu para consigo. Se tinha de andar por uma catacumba
infestada de ratos, Elsa Schneider era a melhor companhia de
que se podia lembrar. Era inteligente, amorosa, e näo parecia
mais perturbada que ele a propósito das circunstâncias
precárias em que se encontravam. Gostava disto. Para mais,
sabia que o facto de estarem a partilhar esta experiência só
os unia mais, e ele gostava de pensar no que poderia sair dali
- isto desde que sobrevivessem ao passeio.
Na sua profissäo, os encontros com mulheres belas em
circunstâncias exóticas e perigosas näo eram experiências do
dia a dia.
Näo chegavam a ser merecedores de mençäo nas aulas que dava.
Bom, mas talvez um dia escrevesse um livro e transformasse
os encontros de campoH mais interessantes numa aventura de
pasmar.
A passagem dava uma volta e desembocava numa câmara de
grandes dimensöes, inundada de água negra e brilhante, mas, e
ao que parecia, livre de ratos. Os olhos de ambos já se tinham
acostumado à escuridäo, e ele já näo precisava do isqueiro.
Pararam por um momento, olhando em silêncio para o centro da
caverna.
Elevando-se acima da água estava uma plataforma de pedra com
algumas urnas antigas.
"Uma ilha-altar", pensou Indy.
Avançaram em direcçäo aos caixöes, e repararam que a água
pútrida ia ficando mais profunda. Já lhes dava pelos joelhos e
ainda faltava bastante para lá chegarem.
- Cuidado - disse Indy. - Fique atrás de mim. O fundo é
escorregadio.
Palavras näo eram ditas, escorregou e caiu de joelhos.
- Está a ver o que quero dizer? - Levantou-se, sorriu
estupidamente, deu outro passo, e nesse mesmo instante a água
chegou-lhe ao peito.
66
- Näo passa de água. Vamos.
Seguiram em frente com cuidado, a água ainda à altura do
peito de Indy e dos ombros de Elsa. Ela avisou-o.
- Se a água se tornar mais profunda vou ter de saltar para
as suas costas.
- ?ptimo. Mas e eu? Vou saltar para cima das costas de quem?
Quando chegaram ao centro da câmara, subiram para a
plataforma, e de imediato se esqueceram dos ratos e da água.
Os dois estudiosos começaram a examinar as urnas, antigas e
decoradas com embutidos, as quais eram feitas de carvalho, e
se mantinham juntas devido ao uso de peças de bronze.
- Tem de ser uma destas - disse Indy.
- Esta - replicou Elsa.
Indy acenou. Näo tinha a certeza de que ela estivesse certa,
mas Elsa parecia täo confiante quanto à sua escolha!
- Näo confia em mim? Repare na perfeiçäo dos embutidos e nos
arabescos. Trata-se de um trabalho de indivíduos que
acreditavam que a sua devoçäo a Deus e à beleza eram a mesma
coisa - retorquiu, tocando suavemente no caixäo.
Indy inclinou-se e tentou abrir o fecho. Elsa juntou-se a
ele. A tampa gemia à medida que ia sendo erguida devagar. Foi
entäo que se soltou do caixäo e bateu de encontro à plataforma
de pedra.
Espreitou lá para dentro e viu uma armadura enferrujada e um
escudo cheio de arabescos.
A viseira do elmo estava levantada e, lá dentro, fitavam-no
os olhos vazios de uma caveira.
- É este o cavaleiro - declarou Elsa. - Repare no trabalho
de gravaçäo do escudo. É semelhante ao da placa do Graal que
pertence a Donovan.
Indy exultava. Agarrou-lhe num dos braços, e as palavras
saíram-Lhe de jacto. - O escudo é o segundo marco, e nós
descobrimo-lo.
- Gostava que ele estivesse aqui para ver.
- Quem, o Donovan?
- Näo, claro que näo. O seu pai. Ficaria täo entusiasmado.
Indy deu uma olhada em volta e tentou imaginar o pai ali.
Näo conseguiu. Como objectivo de uma excursäo, as bibliotecas
eram tudo o que conseguia imaginar.
- Sim, mortalmente entusiasmado.
Inclinou-se sobre o caixäo e afastou o pó e a ferrugem que
estavam depositados no escudo do cavaleiro. Apesar de todo o
entusiasmo que sentia, o passado e a relaçäo difícil que
mantinha com o pai nunca estavam longe do seu pensamento.
- Nunca teria aqui chegado com estes ratos todos. Detesta
ratos, tem medo deles. - Lembrou-se de algo que acontecera
durante a sua infância. - Acredite-me. Sei o que digo. Certa
vez apareceu um na cave e imagine quem é que o foi matar?
67
Eu, claro, e tinha apenas 6 anos.
Indy meteu a mäo na camisa e tirou o papel com as inscriçöes
da placa. Desdobrou-o, colocando a seguir sobre o escudo. A
parte que ali faltava estava impressa no escudo.
- Uma combinaçäo perfeita. Temos o que queríamos.
- Onde foi que arranjou isso?
- Segredo de Estado.
- Oh, estava convencida de que éramos sócios.
Parecia zangada, e ele, que começara a copiar a parte que
faltava da placa do Graal, parou durante o tempo suficiente
para levantar os olhos e sorrir.
- Sem ofensa, Elsa, mas acabamos de nos conhecer. - Dito
isto, voltou ao trabalho.
- Esta näo é a altura própria para rivalidades
profissionais, dr. Jones. O seu pai desapareceu. É bem
possível que esteja em perigo, e aqui...
Ele levantou a cabeça.
- Espere! - Näo fora nada do que ela dissera que o tinha
feito dar-lhe um grito.
Olhou à volta e levantou a cabeça, à escuta. Havia ali
qualquer coisa errada. Ouviu um chiar distante. Estava a
aproximar-se e a tornar-se mais alto. Outra vez os ratos.
Foi entäo que viu o brilho de lume a dançar nas paredes da
catacumba. Um minuto mais tarde viu os ratos. Milhares chiavam
na passagem estreita, invadiam a câmara, e dirigiam-se para a
plataforma de pedra.
Dentro de poucos segundos os ratos começaram a invadir a
plataforma e as urnas, uma torrente que chiava e escorregava.
Foi nessa altura que Indy viu o que os fazia fugir. Ao virar
da esquina, uma enorme bola de fogo rugia. Utilizava óleo como
combustível, e alimentava-se de oxigénio, um monstro que
devorava tudo o que encontrava no caminho. Estava a
espalhar-se através da câmara, dirigindo-se ao encontro de
ambos.
Elsa gritou.
Indy en fiou a cópia que fizera do escudo dentro da camisa,
encostou as costas ao altar, e empurrou o caixäo com os pés.
Este esmagou-se de encontro ao chäo e foi cair dentro de água.
Afundou-se, para logo voltar à superfície.
- Salte! - gritou ele.
Elsa näo se mexeu durante alguns segundos. Indy agarrou-lhe
a mäo e puxou-a atrás de si. Caíram na água a escassos
centímetros da urna flutuante. Línguas de fogo estendiam-se
pela água, devorando enor-mes quantidades de ratazanas.
Indy agarrou-se ao caixäo.
68
- Vá para debaixo dele, depressa. Há poços de ar.
Dado que ela hesitava, pôs-Lhe uma mäo na cabeça,
mergulhou-a e arrastou-a para debaixo da urna. Elsa veio à
tona em pleno poço de ar, a cuspir e a tossir, afastando o
cabelo dos olhos para poder ver. Ficou sem respiraçäo quando
se viu frente a frente com a fantasmagórica caveira do
cavaleiro do Graal, que deixara a armadura presa ao esquife.
Indy emergiu ao lado dela, fez uma careta à caveira, e
tentou tirar o esqueleto do caixäo. Levantou e empurrou-o para
baixo. Contudo, a armadura continha poços de ar, e a caveira
voltou a emergir, fitando-os com os seus olhos cegos.
- Desaparece. - Indy bateu no topo do crânio com o punho,
como se este fosse um martelo. Desta vez a caveira afundou-se
devagar ao lado deles. Deu um pontapé na armadura, e esta
afastou-se.
O calor subia. Centenas de ratos percorriam a parte superior
da urna e o barulho que as suas unhas faziam, junto com os
guinchos, criava um barulho ensurdecedor. O caixäo balouçava
de um lado para o outro, e, devido ao peso dos ratos, começou
a afundar-se. Alguns deles apareceram dentro do caixäo,
guinchando sempre.
- Indy por amor de Deus!
Elsa enxotou um rato que nadava na sua direcçäo, depois
enxotou outro que lhe subira para o ombro. Os ratos pareciam
estar em todo o lado, e nunca mais acabavam. Estavam
apavorados e mordiam em tudo o que encontravam à frente.
Todos os ratos que se aproximavam de Indy eram recebidos com
um murro no focinho. Por cima deles caía uma chuva de
serradura, pois os animais tentavam passar pela tampa do
caixäo. Uma das ratazanas caiu por um buraco. Outras se lhe
seguiram, caindo por cima deles. Alguns dos ratos estavam a
arder e assobiavam assim que caíam à água. A urna tresandava a
pêlo e a carne queimada. O calor adensava-se, consumindo todo
o oxigénio. Ele tossiu e esfregou os olhos.
Elsa gritou quando foi mordida.
"Isto näo pode durar muito mais. Näo pode."
- O caixäo está a arder. - Elsa elevara a voz por cima do
chiar dos ratos.
- Lá se väo os bichos - retorquiu Indy, o mais calmamente
possível.
Contudo, sabia que a situaçäo era desesperada.
- Sabe nadar?
- Fui a campeä de nataçäo da åustria. 1932. Olimpíadas de
Veräo. Medalha de prata nos cinquenta metros livres.
- Um simples sim ou näo teriam bastado. Respire fundo. Vamos
ter de nadar debaixo do fogo.
Encheram os pulmöes e mergulharam. æ medida que iam nadando,
69
Indy interrogava-se sobre o que poderia ter causado o fogo.
Talvez que uma faísca do isqueiro o tivesse ateado. Mas teriam
dado por ele muito antes.
"Trinta segundos." E se alguém os tivesse seguido? Se assim
fosse, que teria acontecido a Brody?
"Quarenta e cinco segundos." Indy sentiu que chegavam a um
dos extremos da câmara. Viu uma luz fraca à sua esquerda, e
dirigiu-se nessa direcçäo.
"Um minuto." A luz filtrava-se através de um escoadouro que
entrava pela parede.
Indy parou e olhou para trás, para Elsa. Aquilo onde a luz
entrava devia dar para o exterior. Mas será que caberiam pela
abertura? Nadou na direcçäo do escoadouro, e ainda näo
avançara muitos metros quando reparou num buraco que se
elevava por cima deste. Um raio de luz passava através dele, e
a abertura era suficientemente larga para o seu ombro passar.
Voltou a olhar para Elsa, apontou para o buraco, e fez-Lhe
sinal para subir. Ela abanou a cabeça e pediu-lhe para ír
primeiro.
Ele näo estava para discutir. Estava debaixo de água há pelo
menos minuto e meio, talvez mais, e sentia os pulmöes prontos
a rebentar. Impulsionou as pernas com força, elevou-se, e a
sua cabeça apareceu à superfície. Aspirou o ar com força.
Nunca nada lhe soubera täo bem.
Pouco depois, Elsa emergiu ao seu lado. Para sua surpresa,
ela nem sequer parecia cansada.
Levantou os olhos. Um respiradouro com vinte pés de altura
separava-o da luz do dia. Indy encostou as costas a uma das
paredes deste, pressionou os pés contra a outra, e foi subindo
desta maneira.
Elsa imitou-o.
- Näo caia em cima de mim, Indy - gritou.
- Longe de mim tal ideia.
Só olhou para baixo uma vez. Elsa parecia uma espécie de
caranguejo, subindo atrás de si, o cabelo louro molhado e
embaraçado. Sentiu que estava a ser observada e levantou a
cabeça. Sorriu, e Indy soltou uma gargalhada, continuando a
subir.
Quando chegou lá acima levantou um dos lados da grade. Esta
subiu apenas alguns milímetros, e voltou a cair. Tentou outra
vez e näo foi mais bem sucedido. Viu que por ali passavam uns
pés e gritou. Alguém olhou para baixo, e ele pediu ao homem
que puxasse a grade.
O extranho fez o que lhe pedira, e estendeu lhe a mäo.
Assim que dali saiu, deu meia volta e meteu-se no
escoadouro, gritando para Elsa se agarrar à sua mäo. Ela
seguiu os seus conselhos, e ele elevou-a até ao passeio.
O homem olhou-os, e, em italiano, perguntou-lhes se estavam
bem.
Elsa respondeu-lhe num tom convincente, garantindo-lhe que
estava tudo bem.
Indy olhou à volta. Estavam a uma das esquinas da Praça de
Säo Marcos, a alguns passos de uma esplanada onde as pessoas
abriam a boca de espanto e conversavam animadamente umas com
as outras.
Indy fez um sorriso de orelha a orelha quando encarou com
aquela cena digna de um postal ilustrado.
- Ah, Veneza!
No entanto, o seu humor foi de pouca dura.
70
CAPíTULO X
AGENTES MORTíFEROS
Indy deixou de prestar atençäo aos basbaques do café e
voltou-se para o homem que o ajudara a sair do sorvedouro.
Estava prestes a agradecer-lhe quando reparou que ali havia
qualquer coisa errada. Ao contrário do resto das pessoas, o
homem näo lhes ligava nenhuma. Olhava através da praça, na
direcçäo da biblioteca. Ele seguiu-lhe o olhar e viu quatro
homens correndo na direcçäo em que se encontravam. Reparou que
um deles usava um fez. Foi entäo que viu outra coisa. Um deles
trazia uma metralhadora.
- Oh, oh!
Subitamente uma série de coisas passou afazer sentido: os
ruídos que ouvira depois de Brody ter baixado o mosaico, as
dúvidas que tivera quanto à origem do fogo, näo esquecendo o
local de onde os homens vinham a correr. Indy ficou com a
nítida sensaçäo de que estavam a ser perseguidos. Pegou na mäo
de Elsa e começou a correr na direcçäo oposta, para a zona do
Grande Canal.
Elsa arrastava-se atrás dele, confundida com aquela corrida
abrupta na direcçäo da água.
- Que está a fazer? Ficou maluco?
Ele deu-lhe uma palmadinha na mäo.
- Vem gente atrás de nós.
Ela olhou para trás, e, de um momento para o outro, passou
para a frente de Indy.
- Tem razäo.
Ele saltou para um barco a motor. Tentou ligar o motor. Este
fez um ruído e ficou na mesma.
Voltou a tentar e desta vez foi bem sucedido. Colocou no
piloto automático, e, nesse preciso momento, o barco balouçou
71
violentamente, e Elsa soltou um grito.
Indy baixou a válvula reguladora e olhou para trás, mesmo a
tempo de apanhar um murro. Um dos homens embarcara na altura
em que o barco começara a trabalhar. Este rodopiava à medida
que os dois homens trocavam murros. Elsa passou por eles a
rastejar, agarrou o volante, e voltou bruscamente a direcçäo
do barco, falhando algumas gôndolas por pouco. Enquanto
avançavam ao longo do canal, os gondoleiros pararam de cantar
e mostraram-Lhes os punhos. Uma gôndola virou-se devido ao
impacto da água levantada pelo barco.
- Desculpe - gritou Elsa.
Entretanto, e a bordo daquele barco, Indy batia-se o melhor
que podia. Levou um enorme soco no estômago e dobrou-se,
agarrado a uma costela. O atacante elevou-se, encolheu o
braço, preparado para desferir o golpe final, mas Indyfoi mais
rápido que ele. Atingiu-o em cheio no rosto, atirando-o pela
borda fora.
Satisfeito, esfregou as mäos uma na outra. Gostaria que o
homem tivesse ficado por ali para o poder interrogar, mas este
näo parecera muito pronto a cooperar.
- Pronto, acho que resolvemos o assunto - gritou para Elsa.
- Acha que sim?
Um par de barcos a motor seguia-os de perto, estando quase a
alcançá-los. Ele avançou para o volante.
- Deixe-me ser eu a tratar disto.
- Espere até que...
Indy levantou os olhos e o espanto paralisou-o. Mesmo à sua
frente estava um enorme barco a vapor. O navio dirigia-se para
a doca, e a distância que os separava dele era cada vez mais
curta.
- Está doida - gritou. - Näo se meta entre eles. Nunca
conseguiremos...
No entanto, Elsa apanhou apenas fragmentos do que dissera.
- Meter-me entre eles? Está doido?
Confuso, abanou a cabeça. Deu um passo na direcçäo do
volante, mas Elsa já se encarregara de tomar o rumo perigoso
entre o barco a vapor e a doca. Desesperado, agitou as mäos.
- Näo Elsa, eu disse para os contornar.
- Você disse para passar por entre eles.
- Näo disse nada.
Nesta alturajá nada disso interessava. Tanto o casco do
navio como a parede da doca se elevavam à sua volta, mais ou
menos como as paredes de uma caverna. Indy agachou-se,
agarrou-se a um dos lados do barco, e fechou os olhos, à
espera de sentir o impacte do choque.
Ouviu o som agudo provocado pelo metal. Contudo, ainda
estavam inteiros. Abriu os olhos e olhou para trás. Mesmo
atrás deles, um dos outros barcos esmagara-se contra o casco.
Indy suspirou de alívio. Mas, logo a seguir, viu o outro
barco aparecer vindo do outro extremo do vapor.
- Deixe-me ser eu a tratar disto - disse, agarrando o
volante. - Você assusta-me.
Mal acabou de dizer isto, virou para a direita, tentando
despistar os outros. O barco fez uma curva apertada, mas o que
os perseguia fez o mesmo. Continuava a aproximar-se, vindo do
lado esquerdo.
- Tudo bem, rapazes - murmurou ele -, vejamos o material de
que säo feitos.
Voltou o volante para a esquerda, tentando com isto que o
outro barco fosse de encontro à margem do canal. Subitamente,
fez-se ou- vir uma metralhadora, e elevaram-se algumas lascas
do casco do barco.
"Okay. Estou a perceber."
Mudou rapidamente de direcçäo, ziguezagueando à frente dos
perseguidores. Contudo, a metralhadora acertou no motor. Este
fez uma série de ruídos e parou.
Indy agarrou na pistola e disparou contra o outro barco até
ficar sem balas.
- Indy, olhe!
- O quê?
Elsa apontou para fora do barco. Estavam a mover-se contra
as lâminas rotativas de um outro barco a vapor.
O barco que os perseguia acercou-se deles. Um dos homens
apontou-lhes uma metralhadora. O outro, o que estava ao
volante, levantou-se e sorriu para Indy. Era moreno, bem
entrado nos 30, com bigode e cabelo preto, encaracolado, que
aparecia por debaixo do fez. Os seus olhos escuros e
penetrantes pareciam atravessá-lo. O barco foi bater de
encontro a eles, empurrando-os para junto das pás propulsoras.
Indy estava demasiado cansado para pensar. Decifrara o
código antigo, lutara contra os ratos naquela água
escorregadia, e escapara por pouco ao incêndio. Depois de tudo
isto seguira-se a fuga e a batalha aquática. Agora, ao
encontrar-se frente a frente com o homem, queria apenas saber
o que diabo se estava a passar.
Foi entäo que se lembrou de Brody.
- Que foi que fizeram ao meu amigo lá na biblioteca?
O homem riu alto. Os seus olhos eram agora dois poços negros
que nada revelavam.
- O seu amigo vai ficar bem. É melhor preocupar-se consigo.
Indy olhou por cima do ombro e viu que se tinham aproximado
ainda mais das pás.
- E já agora, quem säo vocês e o que querem?
72 73
- O meu nome é Kazim, e ando atrás do mesmo que você, amigo.
- Näo preciso de amigos do seu tipo. E näo sei de que está a
falar.
- Oh, aposto que sim, dr. Jones.
O barco andava de um lado para o outro nas águas turbulentas
perto do propulsor. Indy voltou-se para Elsa e fez-lhe sinal
com os olhos que estava na hora de agir.
- Chega de conversa - gritou Kazim por sobre o ruído que as
pás faziam quando batiam na água. - Desejo-lhe melhor sorte lá
no outro mundo. - Fez sinal ao homem da metralhadora para os
abater.
Elsa saltou para o outro barco, e isto distraiu por momentos
o homem da arma. Indy ergueu o braço e levantou a
metralhadora, que disparou para o ar. Enquanto lutavam pela
posse da arma, o motor começou a trabalhar.
O barco começou a andar e Indy desequilibrou-se. Caiu borda
fora, arrastando consigo o homem da metralhadora. Indy soltou
o outro homem e começou a nadar o mais depressa que podia para
se afastar das lâminas propulsoras. O outro indivíduo,
desesperado e em pânico, gritava por socorro.
Atrás de si, ouvia o enorme barulho feito pelo outro barco à
medida que ia sendo arrastado para debaixo de água. De súbito,
com um estrondo ensurdecedor, as pás do barco a vapor
esmagaram-no violentamente, como se de umajangada se tratasse,
espalhando os bocadinhos do barco por toda a superfície.
Kazim fez virar o barco e aproximou-se o mais que podia do
vapor. Indy nadou na sua direcçäo e Elsa estirou-se borda
fora, estendendo-lhe a mäo para que se agarrasse.
O homem da metralhadora näo foi täo feliz. Já se debatia no
meio do redemoinho, a escassos metros das lâminas. Voltou a
gritar para Kazim, mas era tarde de mais. Indy olhou para trás
e viu o homem desaparecer no meio das pás.
A água ficou subitamente vermelha.
Kazim acelerou, e o barco afastou-se do redemoinho. Andava
aos ziguezagues, tentando fazer que Indy caísse. Contudo, Elsa
agarrava-lhe o braço com força. Finalmente, num último assomo
de energia, elevou-se da água e deixou-se cair dentro do
barco, tentando a todo o custo recuperar o fôlego.
Levantou os olhos e viu que Kazim tentava carregar a arma e
conduzir o barco ao mesmo tempo. Gatinhou na sua direcçäo e
empurrou-o de encontro ao volante, fazendo que o barco
descrevesse um ângulo de cento e oitenta graus, voltando a
dirigir-se para junto do barco a vapor.
74
- Indy, estamos outra vez a andar para trás...
Antes de Elsa ter tido tempo para acabar a frase, desligou a
igniçäo e tirou a chave. Encostou um dedo à garganta do homem.
- Okay, Kazim, tu e eu vamos ter uma conversinha.
Dado que Indy Lhe carregava na garganta, Kazim era forçado a
gaguejar.
- Você está doido. - Tentava manter uma voz calma e digna. -
Que está a fazer, dr. Jones? Está louco?
- Onde está o meu pai?
- Deixe-me, por favor?
- Onde... está... o... meu... pai?
- Dr. Jones, se näo me deixar morreremos ambos. Estamos a
dirigir-nos para o barco a vapor.
Indy reparou no ruído que as lâminas faziam ao bater na
água.
Näo se deu ao trabalho de olhar para trás. Tinha os olhos
esbugalhados,e a voz revelava sinais de histeria.
- ?ptimo. Entäo morreremos juntos.
- A minha alma está preparada, dr. Jones. - A voz de Kazim
näo se alterara, era suave como natas. - E quanto à sua,
Doutor?
A sua alma está preparada?
Indy agarrou pela frente da camisa.
- Raios, esta é a sua última oportunidade!
A camisa de Kazim abriu-se, revelando uma tatuagem que este
tinha no peito, a qual tinha a forma de uma cruz cristä
afunilada em baixo, tal como as lâminas das espadas.
Imperturbável, ele olhava para Indy.
- Que é isso? - perguntou Indy.
Kazim levantou a cabeça.
- É um símbolo antigo da minha família. Os meus antepassados
foram os príncipes de um império que se estendia desde
Marrocos ao mar Cáspio.
- Alá seja louvado - retorquiu o outro calmamente.
- Obrigado, e que Deus o salve a si também. No entanto,
estava a referir-me ao Império Cristäo de Bizâncio.
Indy sorriu.
- Claro. E por que razäo tentou matar-me?
Elsa bateu-lhe no ombro.
- Indy, vai matar-nos a todos se näo sair daqui.
- Espere. - Ele parecia irritado. - Continue, Kazim. As
coisas estäo a tornar-se interessantes.
- O segredo do Graal esteve a salvo durante mil anos. E
durante todo esse tempo a Irmandade da Espada Cruciforme tem
estado preparada para fazer tudo de modo a mantê-lo a salvo.
- A Irmandade da Espada Cruciforme? - Elsa parecia ter-se
esquecido da situaçäo precária em que se encontravam, e
mostrava-se bastante curiosa.
75
Indy voltou a olhar para a tatuagem do peito de Kazim e
estreitou os olhos. Quando o encarou de novo, susteve o olhar.
O ruído das pás era agora muito alto. O barco abanava
violentamente em frente a elas.
- Pergunte a si próprio por que razäo procura o Cálice de
Cristo: para glória Dele, ou para a sua? - disse Kazim.
- Näo vim atrás do Cálice de Cristo. Vim à procura do meu
pai.
Kazim acenou, e olhou por cima do ombro de Indy na direcçäo
do barco.
- Nesse caso, que Deus o acompanhe na sua demanda. O seu pai
está preso no castelo de Brunwald, na fronteira entre a
åustria e a Alemanha.
Indy empurrou Kazim e enfiou a chave na igniçäo. Quando a
girou, sentiu que as pás do vapor o empurravam com força. O
motor rugiu, depois parou.
- Vá lá! Pega!
Voltou a tentar. Desta vez foi bem sucedido, e afastaram-se
apenas alguns segundos antes de as lâminas os terem esmagado
de encontro ao casco.
- Você é perigoso! - gritou-lhe Elsa, o seu bonito rosto
bastante vermelho, tal como se tivesse apanhado um escaldäo. -
Podia ter-nos morto.
Sorriu.
- Eu sei. Mas consegui o que queria. Pergunte ao Kazim onde
o podemos largar.
Os pensamentos de Indy já estavam a milhas dali.
76
CAPíTULO XI
A CASA DE DONOVAN
Depois de um duche quente, de comida, e de nove horas de
sono, Indy estava em condiçöes de explorar o apartamento que
Donovan lhe permitira utilizar durante a sua estada em Veneza.
Contudo, a palavra apartamento näo era a mais adequada.
Tratava-se de um autêntico palácio.
Os tectos eram abobadados, e o chäo estava coberto por
grossas placas de mármore. Os móveis antigos valiam uma
fortuna. Havia um pátio e várias varandas, e pelo menos uma
dúzia de quartos. As paredes estavam cobertas com alguns dos
melhores quadros dos artistas venezianos seiscentistas:
Veronese, Tintoretto e Ticiano, para já näo se mencionar uma
série de trabalhos de importância histórica. Indy achava óbvio
que a maioria das pinturas havia sido concebida para exaltar
os egos dos aristocratas do século XVI, que passavam a maior
parte do tempo a exibir as riquezas dos seus estados aos
dignatários estrangeiros. Sorriu, achando que o Donovan era
feito da mesma massa, um patrício do século XX.
Indy estava impressionado com tudo aquilo, mas ao mesmo
tempo achava pretencioso de mais para uma residência
particular. Alguns dos trabalhos deveriam estar em museus para
poderem ser apreciados por um maior número de pessoas. De
certo modo, era até um pouco obsceno pensar que tanta beleza
era apenas desfrutada pelas pessoas que visitavam aquelas
salas.
Entrou na biblioteca. Em todas as paredes as estantes
elevavam-se do chäo ao tecto. Pensou que era qualquer coisa de
impressionante. O pai teria adorado. Enfiou o nariz nos livros
e pegou num volume chamado The Commonwealth of Oceania, de
James Harrington. Tratava-se de uma ediçäo original, e fora
publicada em 1656. Abriu numa página marcada e leu uma frase
que descrevia Veneza. "Nenhuma outra República é täo calma,
täo tranquila, täo em paz consigo mesma, que Veneza."
- Certíssimo - riu Indy. Paz e tranquilidade: as coisas
tinham mudado um pouco em três séculos. Veio-lhe à ideia a
imagem dos fascistas brutais que vira. Distraidamente,
esfregou uma das costelas doridas, e tentou näo pensar
demasiado a respeito das experiências menos tranquilas por que
passara na cidade.
Talvez que esta ainda se apresentasse calmaH para algumas
pessoas, mas ele näo pertencia a esse grupo. i Era o segundo
dia que passava em Veneza, e qualquer um dos três estava a
recuperar dos incidentes do dia anterior. Brody tinha um alto
do tamanho de um ovo na parte de trás da cabeça, no lugar onde
fora atingido. Indy estava a recuperar de uma estranha
combinaçäo composta pelos combates que travara e pelo cansaço
da viagem. Doía-lhe o maxilar inferior, e tinha duas costelas
magoadas devido aos socos que recebera. Enquanto isso, Elsa
queixava-se de algumas mordidelas de ratos e de uma ligeira
queimadura num dos braços, e que fora causada pelo incêndio
ocorrido nas catacumbas.
Indy ficara impressionado com o facto de ela só ter
mencionado as queimaduras e as mordidelas depois de terem
encontrado Brody a vaguear pela biblioteca, e de terem chegado
ao apartamento. Agora estava pensativa e olhava-o como se
quisesse dizer qualquer coisa, mas, sempre que ele tentava dar
início à conversa, arranjava sempre uma desculpa para fazer
outra coisa.
- Indy!
Brody estava à porta da biblioteca. Numa das mäos segurava
um saco de gelo que apertava de encontro à cabeça, e na outra
uma folha de papel amarrotado.
- Como é que vai a cabeça, Marcus.
77
- Agora, depois de ter visto isto, melhor. Acabou de secar.
Tens de lhe dar uma olhadela.
Apesar do saco de gelo, Brody estava animado como Indy nunca
vira. Entrou todo apressado na biblioteca, e deixou cair o
pedaço de papel na enorme secretária de mogno que dominava a
sala.
O papel era aquilo que restava do decalque do escudo do
cavaleiro.
A molha que levara no túnel fizera que secasse manchado e
pouco nítido, mas ainda estava inteiro. Agora que secara, Indy
pôde ver que era legível.
- Sabemos que aquilo que faltava na placa do Graal que
Donovan tem é o nome de uma cidade, näo é?
Indy acenou.
Brody apontou para as letras antigas e Indy aproximou-se. No
entanto, Brody näo se conseguiu conter.
- Estás a ver? Trata-se de Alexandretta.
- Tens a certeza?
- Absoluta.
Indy dirigiu-se para uma das estantes e começou à procura de
um atlas.
- Que estás a fazer? - perguntou o outro.
- æ procura de um mapa de Hatay.
Indy sabia que os cavaleiros da Primeira Cruzada tinham
cercado Alexandretta durante mais de um ano, e que a cidade
fora completamente destruída. Actualmente, acidade de
Iskendenrun, na costa mediterrânica de Hatay, estava
construída sobre as suas ruínas.
Encontrou a página que queria e apontou para ela.
- Aqui. Olha, Marcus, este é o deserto e esta a cordilheira.
É tal e qual o caminho que a placa do Graal descreve. Algures
nestas montanhas deve estar o desfiladeiro da Lua em Quarto
Crescente. - Parou por um momento, estudando o mapa. - Mas
onde?
Onde, no meio de todas estas montanhas?
- O teu pai deve saber - disse Brody com calma.
- Deve?
- Deixa-me dar uma olhadela ao diário.
Ele entregou-lho.
- O teu pai sabe. Sabe tudo menos o nome da cidade por onde
começar. Elaborou um mapa que näo contém um único nome.
Aqui está ele.
Colocou o diário na mesa, e abriu-o no ponto onde se via um
mapa feito a lápis que ocupava duas páginas. Indy vira de
passagem no aviäo, mas, dado que näo tinha nomes, nada lhe
dissera.
Os dedos de Brody moviam-se através dele.
- É provável que o Henry tenha recolhido estes dados de uma
78
centena de fontes diferentes ao longo dos últimos quarenta
anos.
- De que se trata? - perguntou Indy, apesar de fazer uma
ideia do que queria.
- Trata-se da descriçäo de uma rota que segue para leste,
afastando-se da cidade, seguindo pelo deserto até chegar a um
oásis. Depois vira para sul, para um rio que segue na direcçäo
de uma cordilheira, e depois para um desfiladeiro. Mas, como
ele näo tinha nomes, näo sabia que cidade, que deserto, ou que
rio.
E agora, para grande alegria que, por certo, causariam ao
pai, possuiam-no.
- De certeza que aqui existem pormenores suficientes para o
encontrar. Indy, vou atrás dele.
Sentindo o bom humor voltar depois desta descoberta, Brody
levantou os olhos.
- Espero que venhas comigo.
Indy abanou a cabeça e fechou o diário do Graal.
- Vou à procura do meu pai. Amanhä de manhä parto para a
åustria.
Compreensivo, Brody acenou.
- Claro. Que estava eu para aqui a dizer? Acho melhor...
- Näo. Tu vais à frente, Marcus. Eu... Nós depois vamos ter;
contigo.
- De certeza?
- Sim.
Brody ficou calado por um momento, tal como se estivesse a
perguntar a si mesmo se fizera a opçäo certa. Depois
animou-se.
- Bom, temos ainda algumas horas para passar em Veneza.
Vamos aproveitá-las o melhor que podemos. Gostaria imenso de
ir visitar as galerias da Academia. Têm a melhor colecçäo de
pintura veneziana existente. Vamos, está bem?
- Tens a certeza de que te sentes bem?
Ele tirou o saco do gelo da cabeça.
- Sinto-me lindamente. Sabias que nessa colecçäo estäo "A
Tempestade" de Giorgion, "O Ciclo de Santa ûrsula", de
Carpaccio, e "AApresentaçäo da Virgem", de Ticiano? Estálá
tudo - disse Brody -, desde os primeiros mestres do século
xIv, até às grandes peças de meados do século XVIII.
Indy encolheu os ombros.
- Vamos. Vou perguntar à Elsa se quer fazer-nos companhia.
Elsa parecia näo conseguir decidir-se sobre se os devia
acompanhar ou näo. Era como se estivesse a sofrer os efeitos
retardados do choque, a ressaca das suas experiências
tumultuosas. Ou talvez que se tratasse de uma espécie de
depressäo.
- Acho que näo vou às galerias - acabou ela por dizer. - Vou
sair para comprar algumas coisas para o jantar. Näo se
importa, pois näo?
- Quer companhia?
79
- Näo se importaria nada de passar o resto da tarde sozinho
com ela, enquanto Brody andasse pelos museus. Raios, até a
ajudaria a fazer o jantar.
Ela abanou a cabeça.
- Vá você e o Marcus. Voltaremos a encontrar-nos no
apartamento.
"Lá se vai um jantar romântico,", pensou, e saiu para se
vestir.
Depois de terem caminhado durante cinco minutos, Indy e
Brody chegaram à ponte da Academia, uma estrutura de madeira
que atravessava o Grande Canal. Em Veneza havia quatrocentas
pontes, mas apenas três atravessavam o Grande Canal. Aponte de
madeira fora construída há cinco anos, durante a Depressäo, e
era suposto tratar-se de uma estrutura provisória.
Pararam mesmo lá no alto para olhar em volta. æ esquerda
podiam alcançar a Basílica de Säo Marcos, e à direita o
Palácio Balbi.
- Estive a pensar, Marcus. Näo gosto de saber que vais
viajar sozinho.
- Indy, tenho a certeza de que o teu pai concordaria. Se
esperarmos mais tempo, é possível que as pessoas dessa
irmandade estranha o encontrem, e quem sabe o que poderá
acontecer ao Cálice do Graal.
- Näo te vou impedir. Mas, antes de partires, contacta o
Sallah. Diz-lhe para se encontrar contigo em Iskendenrun.
Brody acenou afirmativamente. Sallah era um velho amigo de
ambos. Quando Indy andara atrás da Arca da Aliança, no Egipto,
Sallah salvara-lhe a vida por mais de uma vez. Sentir-se-ia
bastante melhor a respeito de Brody e da demanda do Graal, se
soubesse que Sallah estava com ele.
Os dois homens passaram a hora que se seguiu passeando pelas
salas da Academia. Brody era um guia turístico entusiasta e
conhecedor, chamando a atençäo para o significado dos quadros,
um a seguir ao outro. Indy achava-os interessantes, mas tinha
menos entusiasmo que Brody. Costumava dizer aos alunos que
havia uma relaçäo entre a arte e a arqueologia, mas, no que
respeitava à última, os restos de sedimentos bem conservados
podiam ser täo interessantes como peças de cerâmica pintada,
ou certos trabalhos em ouro.
æ medida que a hora se aproximava do fim, Indy pôde dizer ao
amigo que este se estava a cansar, lembrando-lhe também que a
ferida que este tinha na cabeça ainda estava fresca, e que era
melhor ter cuidado.
- Eu estou bem, Indy. Trata-se apenas de uma ferida de pouca
importância, e de uma pequena dor de cabeça. Amanhä de manhä
já estou bom.
No entanto, concordou em como eram horas de partirem.
æ medida que se aproximavam do apartamento, Indy sentia-se
cada vez mais inquieto. Era como se lhe estivessem a espetar
dezenas de agulhinhas na nuca. A experiência ensinara-lhe a
tomar esta sensaçäo em linha de conta. Era uma espécie de
sinal de aviso, e já lhe fora útil por mais de uma vez.
Assim que chegaram ao apartamento soube que a sua intuiçäo
näo o enganara. A porta estava entreaberta. Espreitou lá para
dentro, entrou com todas as cautelas, e olhou em volta.
- Elsa? - chamou.
O silêncio devolveu-lhe a voz, mais ou menos como se de um
eco vazio se tratasse.
- Elsa? - desta vez levantara a voz. Voltou a näo obter
qualquer resposta.
Tal e qual como o pai. Um arrepio gelado percorreu-Lhe a
coluna.
- Vou ver à cozinha - disse Brody.
Indy foi a correr até ao seu quarto e abriu a porta. O
quarto fora revistado. O colchäo estava no chäo, e as
prateleiras tinham sido despejadas.
"Oh, meu Deus! Que lhe terá acontecido?"
Desceu o corredor e foi até ao quarto de Elsa. Parou,
respirou fundo, e abriu a porta devagar. O quarto dela fora
igualmente revistado. O invasor atirara as coisas das
prateleiras, arrancara as roupas dos cabides, afastara os
lençóis do colchäo.
Mas onde raio estaria ela?
Saiu do quarto e ouviu uma voz, distante e abafada.
Lançou-se a correr pelo corredor. A voz aumentava de volume,
tornava-se mais distinta. Era uma voz de mulher, estava a
cantar, e vinha da casa de banho.
Abriu a porta de rompante.
- Elsa?
- Olá, Indy.
Estava dentro de uma banheira cheia de espuma, e sorria-lhe.
As bolhas rodeavam-lhe o pescoço como se fossem pérolas de um
colar transparente. Por entre a espuma elevava-se um ombro
liso e branco.
- Ouve, miúda, há quem queira dormir. - Retirou-se, aliviado
por ela estar bem. Deixá-la-ia tomar banho descansada.
Voltou para o seu quarto e observou toda aquela confusäo.
Fosse quem fosse que tivesse vasculhado a casa, devia ter-se
escondido quando Elsa regressara das compras, e fugira quando
ela entrara na casa de banho.
Ficou à espera quando ouviu Elsa cantar enquanto caminhava
pelo corredor, a caminho do quarto. Olhou para o relógio,
calculando quanto tempo levaria até ela mudar de tom.
80 81
Ouviu um grito e sorriu. Esperava que ela se precipitasse
para o seu quarto. Ouviu passos. Elsa abriu a porta de par em
par. Tinha um roupäo vestido e o cabelo ainda estava molhado.
Ostentava um ar verdadeiramente surpreendido.
- Indy, o meu quarto...
- Sim, o meu também.
Ela abanou a cabeça.
- Que será que procuravam.
- Isto.
Tirou o diário do Graal do bolso, e atirou-o para cima de
uma mesa.
- O diário de seu pai. Estava consigo?
- Uhm, uhm.
- Näo me tinha dito nada. - Abanou a cabeça. - Näo confia em
mim.
Por sobre o ombro de Elsa, Indy viu Brody a espreitar para
dentro do quarto, e fez-lhe sinal de que estava tudo bem.
Brody, sentindo que as coisas tinham tomado uma feiçäo íntima,
recuou rapidamente, desaparecendo de vista.
- Näo te conhecia. - Olhou bem no meio daqueles olhos azuis.
Desejava com toda a força traçar-lhe o contorno da boca. Céus,
era difícil resistir-Lhe. - Ou talvez desejasse apenas
conhecer-te melhor.
- Passou-se o mesmo comigo.. - Falava a custo. - Desde o
momento em que te vi.
- Este tipo de coisas acontece-te com frequência?
- Näo. Nunca. É um sentimento agradável.
Ele aproximou-se e tocou lhe no ombro.
- Näo confies nisso, Elsa.
- Que queres dizer?
- Termos partilhado o perigo e saído dele com vida. Foi isso
que provocou tudo.
- Sim? - Sorriu timidamente, e Indy aproximou-se mais,
tocou-lhe no queixo, levantou-o, e beijou-a ao de leve. A boca
dela sabia vagamente a pasta de dentes. O cheiro a sabonete na
pele dela entontecia-o. Ela moveu-se na sua direcçäo, e,
subitamente, deu consigo a beijá la com força, e Elsa
respondia com paixäo, deixando-se levar.
- Toma conta de mim, Indy - murmurou ao ouvido dele.
As suas mäos pousaram no cinto do roupäo dela.
- Ontem tomaste conta de ti bastante bem. Pelo menos para
uma licenciada em História de Arte.
- Dr. Jones, o senhor näo sabe nada a respeito de
licenciadas em História de Arte, pois näo?
- Mas gosto daquilo que conheço.
82
- Ainda bem que gostas, Indiana Jones.
Agarrou-o pela nuca e puxou-lhe a cabeça contra si. Beijou-o
com força durante muito tempo, mantendo-se abraçada a ele. O
beijo foi täo forte que Indy cortou o lábio num dos seus
dentes.
Limpou o sangue com a parte de trás da mäo.
- És perigosa.
- Talvez. Tal como tu.
Os olhos dela brilharam. Estava ofegante, à espera de um
gesto da parte dele. A forma dos seus lábios foi alterada por
um sorriso. A brisa nocturna que entrava pela janela fazia-lhe
ondular o cabelo. Lá fora, um gondoleiro cantava.
- Ah, Veneza - disse Indy a meia voz, fechando a porta do
quarto.
83
åustria-Alemanha
CAPíTULO XII
O CASTELO DE BRUNWALD
O Mercedes-Benz que Indy alugara deslizava suavemente pelas
curvas das montanhas dos Alpes austríacos. Quando partiram, o
céu estava limpo, de um azul suave. Mas, ao fim da tarde,
quando ele e Elsa se aproximavam da fronteira alemä e dos
terrenos pertencentes ao castelo de Brunwald, ohorizonte
estava totalmente enevoado, e ao longe ouviam-se trovöes.
"Um dia óptimo para visitas", pensou, olhando de soslaio
para Elsa.
Ela mantinha o olhar fixo na estrada. Tinha o cabelo louro
atado atrás, e a luz do sol que esmorecia batia-lhe nos pontos
salientes do rosto - as maçäs do rosto elevadas devido ao
frio. Lembrou-se daquela vez, em Veneza, em que tinham feito
amor apaixonadamente e esticou o braço, tocando-lhe na parte
de trás do pescoço. A sua pele estava fixa e seca, e ela virou
a cabeça e sorriu distraidamente, como se tivesse muito em que
pensar.
"Quando tudo isto terminar", pensou, "eu e Elsa
poderemos..." Bom, näo sabia de mais nada. Haveria de se
lembrar de alguma coisa. Ela fizera-lhe perguntas sobre a
universidade, sobre os programas de História de Arte e de
Arqueologia, e sugerira que talvez estivesse interessada em o
visitar. Quem sabe o que poderia acontecer?
Entrou no pátio. Visto da janela da frente, aquele local
tinha um aspecto ameaçador e inexpugnável. As janelas escuras
situadas nos andares superiores nada revelavam. Tratava-se de
uma construçäo inexpugnável, mais ou menos como um bloco de
pedra.
Interrogou-se sobre qual seria o quarto do pai. Mas seria
que este tinha mesmo quarto? Talvez estivesse acorrentado nas
masmorras. Talvez já nem estivesse vivo. Mas näo. Tratava-se
de maus pensamentos.
Aquela näo era a altura própria para isso. Näo fazia ideia
de como iria descobrir onde o pai estava preso, e muito menos
de como o salvaria. Talvez ele nem ali estivesse. Talvez
aquilo tudo näo passasse de uma mentira de Kazim para o
desviar da pista do Cálice do Graal.
84 85
- Chegámos - disse ele calmamente. Sentia umas picadas
bastante familiares na nuca, avisando-o de que se encontrava
em perigo. Sim, o pai estava ali. Tinha a certeza.
- Impressionante, näo? - perguntou Elsa.
- Sabes alguma coisa a respeito deste lugar?
- Pertence à família Brunwald há várias geraçöes. Säo muito
poderosos aqui na regiäo, mas näo säo particularmente
estimados.
Reparou que havia um lago ao lado do castelo, e que,
deslizando pela superfície, estava um cisne solitário. O seu
longo pescoço estava graciosamente arqueado, e as suas penas
muito brancas, em contraste com as águas escuras do lago,
pareciam luminosas.
Lembrou-se do cisne que estava mencionado no diário do pai.
Representava um dos níveis de consciência na demanda do Graal,
e significava algo sobre a superaçäo das fraquezas do coraçäo
e da mente.
Elsa era a sua fraqueza. Saciara os seus desejos como homem
que anda há vários dias no deserto sem levar água consigo, e
que de repente encontra um oásis. Agarrara-a com força, e ela
satisfizera os seus desejos. Por que razäo é que ele, ou outra
pessoa qualquer, haveria de prescindir destes prazeres?
- Que estás a pensar? - perguntou ela.
- Nada.
- Sim, estou a ver.
Ele franziu a testa, furioso por ver que os seus sentimentos
eram täo transparentes.
Elsa colocou a mäo por debaixo do cabelo e afastou-o da
gola.
Indy sentiu que se tratava de um gesto que significava o
afastar de um qualquer pensamento, ou entäo apenas um sinal
para avançarem. Estendeu o braço para o assento de trás, pegou
no chicote e concentrou-se no que interessava. Assim que saiu
do carro, amarrou-o ao cinto.
- Que vais fazer? - perguntou ela assim que se encaminharam
para o castelo.
- Näo sei. Hei-de arranjar alguma coisa.
Bateu à porta e ficou à espera. Os relâmpagos iluminavam o
céu. Quase no mesmo instante ouviu-se um troväo e começou a
chover. As gotas de água corriam pelo casaco comprido e bem
talhado de Elsa.
- Empresta-me o teu casaco, está bem?
- Tens frio? - gracejou ela.
- Tenho uma ideia.
Ela despiu o casaco e ele colocou-o de imediato sobre os
ombros, cobrindo o casaco de cabedal e o chicote mesmo na
altura em que a pesada porta de madeira se abriu.
86
Um mordomo de uniforme disse Sim com uma voz capaz de gelar
o mais valente.
Indy adoptara a expressäo arrogante de um advogado da classe
superior inglesa, e olhou o mordomo com uma expressäo a
condizer com o seu aspecto.
- Já näo era sem tempo! Era sua intençäo deixar-nos ficar
nas escádas durante todo o dia? Estamos completamente
encharcados!
æ medida que falava empurrava o espantado mordomo,
arrastando Elsa consigo. Espirrou.
- Veja só! Constipei-me.
Assoou-se furiosamente, e Elsa, espantada, ficou a olhar
para ele.
- Estäo à vossa espera? - A voz do mordomo continuava gelada
e dura.
- Näo fale assim comigo, meu bom homem! Desapareça e diga ao
baräo de Brunwald que lorde Clarence Chumley e a sua
assistente estäo aqui para ver as tapeçarias.
- Tapeçarias?
Indy olhou para Elsa.
- Meu Deus, o homem é estúpido. Acha que ele me ouviu?
Voltou a olhar para o mordomo e continuou.
- Isto é um castelo, näo é? Tem tapeçarias, näo tem?
- Isto é um castelo, sim senhor. Claro que tem tapeçarias, e
se você é um lorde inglês, eu sou o Jesse Owens.
- Que descaramento! - respondeu Indy com voz de falsete,
esmurrando o outro no queixo com toda a força.
O mordomo caiu no chäo como se fosse um brinquedo que de
repente se precipita no chäo. Indy sacudiu as mäos.
- Que descaramento! - continuava a falar com a sua voz
afectada. - Ouviu-o falar comigo daquela maneira, a duvidar da
minha estirpe, da minha honra, do meu dom de causar uma boa
impressäo?
Elsa riu e abanou a cabeça, ajudando-o a arrastar o mordomo
para um armário.
- Inacreditável. Meu caro lorde, o senhor é muito
convincente.
Ele parou de representar, agarrou na mäo de Elsa e
conduziu-a ao longo de um enorme corredor abobadado.
- Okay, vamos lá ao que interessa.
æ medida que atravessavam a sala, desembaraçou-se do casaco
dela. Ela vestiu-o e começou a murmurar qualquer coisa, mas
ele levou um dedo à boca.
- Vozes.
Pararam. Ele deitou uma rápida olhadela em redor, e
enfiaram-se ambos num nicho situado por detrás de uma peça de
escultura. Um par de soldados nazis passou por eles.
- Säo SS, deveria ter calculado - segredou a Elsa quando os
homens desapareceram.
87
Saíram do esconderijo e começaram a descer o corredor.
- Onde é que achas que prenderam o meu pai?
- Nas masmorras?
- Muito engraçado. - Andava demasiado perto daquilo que ele
calculara.
Apareceu uma criada no corredor, empurrando um enorme
carrinho contendo as sobras de um banquete. Indy e Elsa
esconderam-se por detrás de uma escada, e ficaram a ver. Hájá
algumas horas que näo comiam, e os olhos de ambos dilataram-se
com todos aqueles restos. Indy colocou a mäo no estômago para
o impedir de fazer barulho. Perguntou-se se aquilo teria sido
ojantar do pai. Esperava que sim. Pelo menos näo estaria a
passar fome.
Ficaram ali escondidos durante muito tempo. Ele queria saber
ao certo o que ali se passava. Precisava de ter uma ideia a
respeito da quantidade de pessoas que ali trabalhavam, quais
eram os hábitos da casa, se a casa tinha hábitos, e, no caso
de isso acontecer, o modo como poderia tirar partido deles.
Ouviu-se um troväo, e depois a chuva abateu-se sobre ajanela
situada por cima das suas cabeças...
A fome fez que o estômago de Elsa fizesse barulho.
O mesmo se passou com o de Indy.
Entreolharam-se e sorriram em silêncio.
O som de passos na escada chamou a atençäo de Indy. Uma
criada, escoltada por um soldado alemäo armado, ia a descer
carregando uma travessa barata. Esta continha uma tijela de
metal à qual estava acorrentada uma colher. "O pai acabou de
jantar."
- Aquilo tinha mais ar de comida de presos - murmurou, assim
que os outros desapareceram de vista.
- Receio bem que sim.
Estava na hora de agir. Saíram do esconderijo onde estavam e
começaram a subir as escadas. Contudo, assim que chegaram ao
primeiro piso viram aproximar-se mais nazis. Desta vez
esconderam-se atrás de uma enorme coluna, e esperaram até
deixar de ouvir o som agudo provocado pelas botas dos
soldados.
Precipitaram-se para a frente, e quando chegaram ao andar
seguinte pararam e olharam nos dois sentidos. Ali perto estava
uma porta aberta. Indy ouviu vozes dentro da sala e espreitou
lá para dentro. Alguns nazis estavam muito ocupados a examinar
obras de arte. "Trata-se de material arranjado ilegalmente",
pensou.
Hitler estava interessado em conseguir todos os objectos de
arte e instrumentos primitivos que pudesse, mas näo apenas
pelo valor material dos antigos tesouros. Indy sabia muito bem
que Hitler tinha um interesse especial na obtençäo de objectos
místicos que o ajudassem a reforçar o seu poder, expandindo
assim o império.
Tinham sido os nazis quem se opusera a Indy na demanda da
Arca da Aliança. De facto, ele encontrara a Arca apenas para
descobrir que os esbirros do Führer o esperavam para lha
roubar. Só compreendera os motivos de Hitler quando
experimentara o poder da Arca, algo que ainda näo conseguia
explicar. Muito embora tivesse acabado por a levar para os
Estados Unidos, o misterioso objecto fora confiscado pelos
burocratas. Calculava que devia estar enfiado nalgum armazém
poeirento, à espera.
Também ouvira dizer que Hitler andava atrás da Lança do
Destino, a mesma que trespassara o flanco de Jesus Cristo. E,
sem qualquer dúvida, o chefe do Terceiro Reich gostaria
bastante de deitar as mäos ao Cálice do Graal, que continha o
sangue de Jesus. Sabia que era por isso que o pai estava ali
preso.
Saiu de ao pé da frincha, e, junto com Elsa, afastou-se pelo
corredor. Havia três portas ao fundo deste. Indy olhou para
todas elas, e depois apontou com o indicador para a da
esquerda.
- É esta.
- Como é que sabes? - murmurou Elsa.
Apontou para um fio eléctrico.
- Porque é a única que está ligada à corrente. Tenho de
descobrir uma outra maneira de entrar. -Recuou, examinou a
situaçäo durante alguns instantes, e depois decidiu tentar a
porta do lado.
Girou a maçaneta. A porta estava fechada. Meteu a mäo na
bolsa que trazia pendurada no cinto, e tirou o tal instrumento
de abrir fechos. Parecia ter passado uma eternidade desde que
se servira dele para abrir a porta do capitäo e chegar ao
cofre com a Cruz de Coronado. Contudo, fora há menos de duas
semanas. Enfiou o instrumento esguio e comprido no fecho,
abanou-o durante um momento, e depois girou a maçaneta. A
porta chiou e abriu-se.
O quarto era pouco iluminado e estava vazio, tirando uma
cama e um guarda-fatos. Assim que Elsa entrou, voltou a fechar
a porta.
- Que é isso? - perguntou ela quando o viu enfiar a gazua na
bolsa.
- É segredo.
- Ah, queres dizer que näo dizes nada a esse respeito aos
teus alunos? - perguntou, fingindo-se surpreendida.
- Só aos mais adiantados - disse, dirigindo-se para a
janela.
A chuva batia furiosamente de encontro ao rosto,
ensopando-lhe o cabelo. Pestanejou, tentando aclarar a vista.
æfrente dajanela do outro quarto havia um parapeito estreito.
Terminava abruptamente apenas a uns escassos centímetros.
Indy voltou a meter a cabeça para dentro e soltou o chicote.
- Que vais fazer? - perguntou Elsa.
- Tomar duche.
88 89
Ela foi espreitar à janela.
- Näo queres dizer que vais... - Viu-o desenrolar o chicote.
- Näo acredito.
- Pois entäo toma nota. É canja.
Enfiou-se na janela e atirou a ponta do chicote na direcçäo
da figura de pedra que se salientava da parede do castelo,
mesmo por cima da janela do lado. Foi um lançamento perfeito.
O chicote enrolou-se mesmo em torno do grosso pescoço da
figura. Puxou com força, certificando-se de que este aguentava
com o seu peso.
Passou uma perna pela janela e olhou para Elsa através do
vidro.
- Fica aqui. Näo me demoro.
- Indy, isto é uma loucura. Näo podes...
Levantou uma mäo.
- Näo te preocupes. É uma brincadeira de crianças. Volto já.
Indy deixou-se escorregar dajanela e ficou com as pernas a
baloiçar no vazio. Tinha razäo. Era bastante fácil. Mas
esquecera-se de uma coisa. A chuva ensopara o parapeito, e,
quando aterrou, os pés deslizaram através da superfície
escorregadia. Um dos pés saiu de fora do parapeito, o joelho
dobrou-se, e, por momentos, perdeu o equilíbrio. Foi entäo que
puxou o chicote e recuperou o equilíbrio.
O passo seguinte era tentar descobrir como havia de abrir as
persianas, as quais estavam fechadas. Tentou levantá-las, mas
estas näo se moveram. Estava prestes a tentar de novo quando
ouviu barulho, olhou para baixo e viu dois guardas nazis
acompanhados de cäes e lanternas.
Encontraram o mordomo.
Uma das luzes brilhava contra a parede do castelo,
dirigindo-se na sua direcçäo. Encostou-se ao väo da janela e
deixou-se ficar muito quieto. O chicote. Poderia tê-lo solto,
mas agora era tarde de mais. O feixe de luz passou por ele.
Ficou à espera, contendo a respiraçäo. Depois ouviu os nazis
afastarem-se. Näo tinham dado por ele nem pelo chicote.
Voltou a concentrar-se na persiana. Meteu os dedos nos
intervalos desta, e puxou com toda a força que tinha. Mesmo
assim ela näo se mexeu. Tentou servir-se do ombro, mas a
alavanca näo funcionou.
Pronto, era preciso tomar medidas mais drásticas. Contudo,
tinha de calcular o tempo com toda a precisäo. Ficou à espera
de ver um relâmpago, e reparou que já näo chovia tanto. Quando
este apareceu, contou os segundos que decorreram até ouvir o
troväo correspondente.
Esperou que o relâmpago seguinte iluminasse o céu. Agarrou o
chicote com ambas as mäos, contou baixinho para si mesmo,
90
e de pois afastou-se da parede do castelo. Acrescentou mais
uns quantos números aos seus cálculos, partindo do princípio
de que a tempestade estava a afastar-se. Inclinou-se para
trás, curvou as pernas, e partiu a persiana com os pés. O
barulho que fez estava em perfeita sincronia com o troväo.
Entrou no quarto atabalhoadamente, caindo de gatas. A chuva
e o vento entravam no quarto pelas persianas partidas. Pôs-se
de pé e olhou em volta. Quando compreendeu que o pai näo
estava à vista, algo de pesado atingiu-o na nuca, partindo-se.
Indy vacilou e caiu apoiado num joelho. Tonto, sem conseguir
focar a vista, olhou para cima desamparado, e foi entäo que
viu alguém sair da sombra.
- Júnior!
- Sim, senhor - disse, respondendo da mesma forma que
costumava fazer em criança. Esfregou a cabeça e focou o olhar
no pai.
- És tu, Júnior?
As ideias de Indy voltaram a ficar claras. Agora estava
aborrecido.
- Pára de me chamar assim.
- Que raio estás tu aqui a fazer?
Interrogou-se sobre se os nazis tinham feito alguma coisa ao
cérebro do pai.
- Que é que achas? Vim tirar-te daqui.
Henry baixou os olhos para a mäo, subitamente distraído e
alarmado com o que viu.
- Espera um minuto.
Indy conteve a respiraçäo, bastante tenso, e olhou em volta.
- Que se passa?
- Fins do século xIv, dinastia Ming - murmurou o pai para
consigo.
Quando compreendeu que todo aquele barulho era por causa de
um vaso partido, Indy franziu o sobrolho.
- É de cortar o coraçäo - exclamou Henry.
- E a cabeça também - interrompeu ele. - Bateste-me com ele,
pai.
Ainda a olhar para o vaso, Henry continuou.
- Nunca me perdoarei.
Indy interpretou mal o pai, que falava ainda a respeito do
vaso.
- Esquece. Eu estou bem.
- Graças a Deus.
Enquanto examinava a extremidade partida do vaso, Henry fez
um ar aliviado.
- É falso. Vês? Dá uma olhadela, pode ver-se pelas...
... junçöes - disseram ambos ao mesmo tempo.
91
Olharam um para o outro e sorriram.
- Desculpa ter-te batido - disse Henry, franzindo a testa
ligeiramente, tal como se tivesse acabado de ver o filho. -
Pensei que eras um deles.
- Eles entram pela porta - retorquiu Indy. - Näo precisam de
usar a janela.
- Bem pensado, mas é melhor prevenir que remediar. Desta vez
estava errado. Mas graças a Deus fiz bem em te ter mandado o
diário. Senti que ia acontecer alguma coisa. Recebeste-o?
Indy acenou.
- Recebi e usei-o. Descobri a entrada das catacumbas.
Henry ficou subitamente excitado.
- Através da biblioteca. Descobriste-a?
- É verdade. - Indy sorriu, satisfeito por ver o pai
impressionado com alguma coisa que ele fi zera.
- Eu sabia. - Desferiu um soco para o ar. - Eu sabia. E
quanto ao túmulo de sir Richard?
- Também o descobri.
Henry ficou sem respiraçäo.
- Ele estava mesmo ali. Viste-o?
- O que sobrava dele.
Henry baixou a voz até esta näo ser mais que um murmúrio
excitado, e começou a tremer de nervoso.
- E o escudo... a inscriçäo no escudo de sir Richard?
Indy voltou a acenar, parou por um momento e acabou por
responder usando uma só palavra.
- Alexandretta.
Henry ficou de boca aberta. Recuou, coçou a barba, e passou
em revista tudo o que tinha acabado de ouvir. Perdido em
pensamentos, murmurava para si mesmo:
- Claro, Alexandretta. Estava na rota das peregrinaçöes do
Império do Oriente. - Ostentando uma expressäo de felicidade,
voltou-se para o filho. - Júnior...
Indy estremeceu e estava tentado a interromper o pai por ter
voltado a chamá-lo usando o nome de infância, mas calculou que
näo fosse a altura apropriada.
O outro continuou.
... Conseguíste.
- Näo, foi o pai que conseguiu. Quarenta anos de estudo e de
pesquisa.
Os olhos de Henry brilhavam, fixos num qualquer ponto mesmo
acima do ombro do filho.
- Se ao menos eu lá estivesse. - Voltou a olhá-lo. - Como
foi?
- Havia ratos.
- Ratos? - parecia que, de repente, deixara de estar
interessado em ouvir pormenores da aventura.
92
- Sim. Ratazanas.
- Estou a ver.
- A propósito de ratos... Como é que os nazis te têm
tratado?
- Até agora nada mal. Deram-me mais um dia para falar, e
entäo tornar-se-äo duros. Só que eu näo ia dizer nem uma
palavra, Júnior. Achava que, se morresse, tu continuarias a
busca. Sabia que podia ter a certeza de que manterias o livro
o mais longe possível dos nazis.
Ele levou a mäo ao bolso. Os seus dedos traçaram os
contornos do diário.
- Imagina só, pai. Näo está assim täo longe.
- Sim, acho que sim. - De repente sentiu-se pouco à vontade.
- É melhor irmos andando...
Um ruído surdo fez com que ficasse silencioso. Voltou a
cabeça para a porta a tempo de a ver abrir-se com violência, e
três nazis entraram no quarto. Dois deles traziam
metralhadoras. O terceiro era um o ficial SS.
- Dr. Jones! - gritou o oficial.
- Sim. - Indy e Henry responderam ao mesmo tempo.
- Quero esse livro agora.
- Que livro? - perguntaram em uníssono.
O oficial voltou-se para Indy e fez um sorriso escarninho.
- Tem o diário no seu bolso.
A gargalhada que Henry soltou vinha mesmo lá de dentro, e
Indy pensou que ia ficar doente.
- Cretino! Acha mesmo que o meu filho seria täo estúpido a
ponto de trazer o diário para o local exacto onde...
Henry parou e voltou-se devagar para o filho.
- Näo o fizeste, pois näo, Júnior?
Pouco à vontade, Indy sorriu. - Ah... bem... - Pois näo? -
gritou Henry.
- Acontece que...
- Trouxeste mesmo! Meu Deus!
- Podemos discutir isso mais tarde, pai? Acho que agora näo
é a altura...
- Deveria tê-lo mandado aos irmäos Marx - encolerizou-se o
pai.
Levantou uma mäo e disse:
- Pai, por favor, acalme-se.
- Por que razäo é que achas que o mandei para casa? -
Apontou na direcçäo dos nazis. - Para o manter longe das mäos
deles!
- Vim aqui para o salvar - disse Indy em voz baixa, olhando
para as metralhadoras.
- E quem é que te vai vir salvar, Júnior? - rugiu Henry,
vermelho como um pimento.
O que aconteceu a seguir foi täo rápido, que, quando chegou
ao fim, Indy mal acreditava no que tinha feito.
93
Os seus olhos deitavam faíscas, as narinas estremeciam de
raiva. Parecia estar prestes a esmurrar o pai, e tinha um ar
täo convincente que Henry recuou, antecipando um soco.
Contudo, Indy estendeu o braço e tirou a metralhadora a um dos
espantados guardas. Deu um rápido pontapé ao cano da segunda
metralhadora, virando-o para o ar. O tecto ficou cravejado de
balas.
Segundos depois, o dedo de Indy apertava o gatilho da arma.
- Já te disse antes... - gritou, enquanto os três nazis
recuavam devido ao choque, indo cair no chäo. - Näo me chames
Júnior.
Incrédulo, Henry viu os três nazis sangrar e morrer. Estava
chocado e horrorizado.
- Vê só o que fizeste! Mataste-os!
Indy agarrou-lhe num braço e puxou-o para fora do quarto.
Colocou a mäo na maçaneta da porta do quarto seguinte, onde
Elsa estava à espera, e girou-a.
- Näo consigo acreditar no que fizeste - murmurou Henry com
os olhos completamente esbugalhados: - Mataste aqueles homens!
Indy parou junto à entrada.
- Que raio achas tu que eles nos iam fazer!
O pai franziu a testa, tal como se estivesse a justificar
para si mesmo a violêncía do filho.
Indy abriu a porta e levantou a mäo para dar a entender a
Elsa que estava na hora de saírem dali. Ficou gelado. Estava a
olhar para um nazi. Um dos braços musculosos do homem estava
enrolado à cintura de Elsa, como se de uma cobra grossa se
tratasse. Com a outra mäo segurava uma Lugger, e o cano da
arma estava encostado ao ouvido da rapariga.
- Já foi longe de mais, dr. Jones.
Era um homem importante. Um coronel. Tinha o queixo
quadrado, era pequeno, e tinha os olhos escuros, olhos de
insecto. Tratava-se de uma outra versäo da palavra "bruto",
sem qualquer margem para dúvida.
- Largue a arma imediatamente - ordenou o coronel. O seu
sotaque era carregado, mas näo ridículo. - A menos que queira
ver a sua amiguinha morta.
- Näo lhe dês ouvidos - disse Henry.
- Largue a arma - ordenava o coronel.
- Näo - dizia o pai. - Ela está feita com eles.
- Indy, por favor - implorava Elsa, os olhos muito abertos
devido ao medo.
- Ela é nazi - contrapôs Henry.
- O quê? - confuso, Indy abanou a cabeça. Näo sabia o que
fazer. Olhou para Elsa, depois para o pai. Toda a gente
gritava ao mesmo tempo.
94
- Confia em mim - gritou Henry.
- Indy, näo - pediu ela.
- A frulein vai morrer - ladrou o coronel por entre dentes.
- Força - disse-lhe Henry.
- Näo a mate - gritou Indy.
- Ele näo a mata - retorquiu Henry.
- Indy, por favor! - implorou Elsa. - Por favor, fáz o que
ele diz.
- Por amor de Deus, näo lhe dês ouvidos. - era a voz de
Henry.
- Já chega. Vou matá-la.
- O coronel encostou o cano da Lugger ao pescoço de Elsa.
Apavorada, ela gritou.
- Espere. - Indy atirou a metralhadora ao chäo e deu-lhe um
pontapé.
Henry rugiu.
O coronel libertou a rapariga e empurrou-a na direcçäo de
Indy. Ele recebeu-a nos braços, e abraçou-a com força à medida
que ela enterrava o rosto no seu peito.
- Desculpa, Indy.
Ele confortou-a.
- Näo faz mal.
- Tenho muita pena.
Elsa enfiou a mäo no bolso do casaco dele e tirou o diário
do Graal.
Sorriu-lhe tristemente.
- Devias ter dado ouvidos ao teu pai.
- Nunca deu - disse Henry num tom irritado. - Nunca deu.
CAPíTuLO XIII
TRAiçäO
Elsa afastou-se dele e voltou para junto do coronel nazi.
Indy limitou-se a ficar ali, siderado, sem fala, detestando o
sorriso escarninho que via no rosto do nazi, e a doce
inocência dos olhos de Elsa. Queria agarrá-la pelo ombro e
abaná-la até que ela lhe explicasse tudo. Tinha de saber.
Contudo, o coronel levantou a Lugger ameaçadoramente, e Indy
deixou-se ficar onde estava, limitando-se a olhar. "Como foi
que me pudeste fazer isto!", pensou.
Ela sorriu ligeiramente, como se tivesse ouvido o seu
pensamento, e Indy acabou por desviar os olhos dela e encarar
o pai.
Desejou näo o ter feito.
95
A expressäo que Henry ostentava era capaz de transformar a
pedra em pó. "Näo admira que ainda me chames Júnior." Indy
estava täo espantado com o que acontecera ali como o pai
estivera há alguns minutos atrás, quando Indy dizimara a
oposiçäo no quarto ao lado.
- É melhor virem os dois comigo e com o coronel Vogel.
Imediatamente.
A voz de Elsa era fria e dura, a voz de uma desconhecida.
Até o seu rosto parecia diferente. Dava a sensaçäo de ter o
queixo quadrado, a pele parecia ainda mais clara, imaculada,
como se fosse de loiça, e os olhos eram cubos de gelo que
nunca derreteriam.
O coronel levantou a pistola, e Indy disse:
- Sim, é melhor irmos andando.
- Como se tivéssemos por onde escolher - murmurou o pai em
tom acusador.
æ medida que iam avançando pelo castelo com a arma apontada
às costas, Indy podia sentir o desapontamento do pai.
Irradiava dele como se fosse calor, ou entäo como um odor
sufícientemente forte para deixar rasto. Este näo diminuiu até
à altura em que entraram numa enorme sala senhorial situada ao
fundo do mesmo piso.
Ali as paredes estavam decoradas com armaduras e tapeçarias
antigas. Na lareira, o lume crepitava e assobiava, lançando
enormes sombras que se estendiam pelas paredes e pelo tecto.
Reparou que Elsa se afastava, abrindo espaço para dois guardas
nazis que se lhes tinham juntado.
Os guardas amarraram-lhes as mäos atrás das costas. Quando
sentiu as cordas cortarem-lhe dolorosamente os pulsos, Indy
pensou que era óbvio tratar-se de profissionais. Enquanto os
guardas se ocupavam das cordas, e Elsa conferenciava com o
coronel Vogel, Indy olhava furtivamente à sua volta. Havia ali
algumasjanelas, mas estavam no terceiro andar. Para além do
mais, desde que tivessem as mäos amarradas e os esbirros os
estivessem a vigiar, as suas hipóteses de fugir eram mínimas.
Mesmo assim, nunca era de mais exercitar a imaginaçäo.
Quando se lhe esgotaram as ideias pensou em Elsa e no que
gostaria de lhe fazer se ficasse livre. Viu-a atravessar a
sala e dirigir-se para uma cadeirinha baixa colocada em frente
ao lume. Parou perto da cadeira e estendeu o diário do Graal.
Quando uma mäo se estendeu para o agarrar, Indy reparou que a
cadeira estava ocupada. Quando Henry se chegou a ele, os seus
olhos pousaram no pai.
- Como foi que soubeste que ela era nazi? - perguntou, num
murmúrio.
96
- Ela fala durante o sono.
- O quê? - voltou a cabeça na direcçäo do pai. - Queres
dizer que tu... tu e aquela mulher... eram...
- Silêncio! - gritou Vogel.
"Elsa e o meu velhote..." As peças começavam ajuntar-se.
Elsa vasculhara o seu quarto em Veneza, à procura do diário, e
depois desarrumara o quarto dela para dar a ideia de que
alguém entrara no apartamento.
"E eu caí na esparrela."
- Nunca confiei nela. Por que razäo tu o foste fazer? -
murmurou o pai, inclinando a cabeça na sua direcçäo.
O homem que estava sentado na cadeira levantou-se e
respondeu à pergunta de Henry.
- Porque näo seguiu os meus conselhos. Foi só por isso.
Indy arquejou quando viu Walter Donovan dirigir-se na
direcçäo em que estavam, o porte täo régio e aristocrático
como a própria sala. "Jesus! Näo podia acreditar."
- Näo lhe disse para näo confiar em ninguém, dr. Jones? -
Donovan sorria benevolentemente enquanto folheava o diário.
Indy näo conseguiu responder. Limitou-se a ficar calado.
Estava em presença do homem que lhe dissera que o pai
desaparecera, o homem que lhe dissera para se ir encontrar com
a dr.a Schneider a Veneza, o filho da mäe que estava por
detrás de tudo aquilo. Que poderia dizer num caso destes?
As coisas estavam a andar depressa de mais. Nos últimos
minutos fora traído por Elsa e por Donovan. Para cúmulo,
descobrira que ela fora para a cama com o pai, e que este, se
bem que inadvertidamente, lhe dera com um vaso na cabeça.
Henry resmungou, indignado, mas quando falou a sua voz era
velha e cansada.
- Näo te tinha compreendido totalmente, Walter. Sabia que
por um vaso etrusco eras capaz de vender a tua mäe. Só näo
sabia que eras capaz de vender o teu país e a tua alma a este
punhado de loucos.
Donovan ignorou. A ruga que tinha na testa aprofundava-se à
medida que ia folheando o diário cada vez mais depressa.
- Dr.a Schneider! - gaguejou.
Ela precipitou-se para ele.
- Que se passa?
Donovan levantou o diário e abanou-o em frente da cara dela.
- Este livro tinha um mapa... um mapa sem nomes, mas que
continha as indicaçöes precisas a respeito da tal cidade
desconhecida, e do caminho para o desfiladeiro do santo Graal.
- Sim - respondeu ela. - É conhecido pelo Desfiladeiro da
Lua em Quarto Crescente.
- Onde está o mapa?
Elsa encolheu os ombros e parecia pouco à vontade. Respondeu
97
que näo sabia, que achava que devia estar no diário. Donovan,
vermelho de raiva, olhava ora para Elsa ora para Indy.
- Bom, onde estäo as páginas que aqui faltam? Temos de as
ter connosco.
Henry olhou para o filho, visivelmente surpreendido e
satisfeito.
Este sorriu.
- Näo vale a pena perguntar-lhe - retorquiu Elsa. - Ele nada
dirá. E também näo vale a pena. É mais que evidente onde as
páginas estäo.
Sorriu triunfantemente para Indy, e voltou-se para Donovan.
- Entregou-as ao Marcus Brody.
Henry fechou os olhos como que para afastar de si aquilo que
acabara de ouvir. Quando os abriu de novo, voltou-se para o
filho.
- Marcus? Meteste o pobre Marcus nisto? Por amor de Deus,
Júnior, ele näo está à altura do desafio!
- Acabaremos por descobrir - disse Donovan, afastando-se
deles.
- Näo tenha tanto a certeza - gritou-lhe Indy. - Leva-lhe
dois dias de vantagem, bastante mais do que é preciso.
Donovan parou, meditando sobre o que acabara de ouvir. Indy
prosseguiu.
- Brody tem amigos em todas as cidades e aldeias que se
estendem daqui ao Sudäo. Fala uma dúzia de línguas e conhece
todos os costumes regionais. Estará protegido. Nunca mais o
verá. Com um pouco de sorte, é bem provável que já tenha
encontrado o Cálice do Graal!
Henry sorriu.
- Muito interessante - murmurou. - Espero que estejas certo.
Donovan aproximou-se de Indy, e observou-o como se andasse à
procura de defeitos numa obra de arte.
- Dr. Jones, já é pouca sorte saber que näo väo estar vivos
para descobrir o que vai acontecer. Que nenhum dos dois estará
vivo.
A forma como olhava para ele fez que Indy sentisse que
Donovan sabia mais a seu respeito que aquilo que deixava
transparecer.
Talvez soubesse. Perguntou-se subitamente se ele tivera
alguma coisa a ver com a Cruz de Coronado. Lembrou-se de que o
homem do chapéu largo lhe dissera que o comprador o queria ver
morto.
Talvez que a razäo näo se tivesse ficado apenas a dever ao
facto de näo querer que ele encontrasse a cruz, mas também
para o impedir de procurar o pai. Entäo, quando as coisas
tinham dado para o torto, quando o díário desaparecera, e ele
aparecera vivo, tudo mudara de figura.
Contudo, nada disto passava de especulaçäo.
98
Tinha a certeza de que, se lhe perguntasse, Donovan negaria
tudo. O homem era demasiado arrogant para admitir que alguém
lhe levara a melhor.
- Está a pensar em alguma coisa, dr. Jones?
Indy devolveu-lhe o olhar e continuou silencioso.
Donovan voltou-se para os guardas.
- Levem-nos.
Indy e Henry foram amarrados de costas um para o outro
sentados em duas cadeiras, ficando dois enormes guardas nazis
a vigiá-los. Estavam agora num outro compartimento do castelo
apetrechado com enormes cortinas penduradas das janelas, as
quais chegavam até ao chäo e deixavam lá fora a noite húmida.
Tal como no quarto em que Donovan o condenara, uma das paredes
era dominada por uma enorme lareira. Mas, ao contrário do que
acontecia na outra sala, aqui näo crepitava lume nenhum. O
quarto estava escuro e frio.
Estavam já amarrados há algumas horas, quando Elsa e Donovan
entraram na sala. Donovan dirigiu-se aos guardas em alemäo,
perguntando-lhes se os prisioneiros se tinham portado bem.
- Temos de ficar assim amarrados? - queixou-se Henry, depois
de um dos guardas ter respondido que os prisioneiros näo
podiam ir a lado nenhum. - Somos cavalheiros, näo presos de
delito comum.
Donovan riu.
- Vi o trabalho do seu filho lá em cima e os guardas também.
Näo chamaria àquilo o comportamento próprio de um
cavalheiro.
E você, Henry?
- Tendo em conta os sócios que tem, eu näo falaria muito.
Donovan cruzou os braços.
- Já näo falta muito para que deixem de estar amarrados.
Entäo, estará tudo acabado.
Indy näo gostou do tom de voz do outro. Também näo gostou da
gargalhada alegre que este soltou, algo que revelava uma
exaltaçäo louca, facto que o fez compreender que, à sua
maneira, Donovan estava bem para os nazis. Näo lhe era difícil
imaginar este homem a conversar com Hitler sobre preciosidades
de obras antigas, os seus valores e utilizaçöes.
Concentrou-se em Elsa. Estava de lado, por entre as sombras.
Havia apenas luz suficiente para ver que ela tinha os olhos
fixos nele. Achou que tinha um ar triste, apagado,
introspectivo, mas talvez isto fosse apenas o que ele
desejava. Para além disso, que lhe interessava o que ela
sentia? Enganara-o. Usara-o. Traíra-o. E dormira com o pai.
"Talvez seja por isso que ela näo está muito satisfeita
consigo mesma."
99
Abriu-se uma porta e Indy ouviu a voz do coronel Vogel.
- Dr.a Schneider, uma mensagem de Berlim. Tem de voltar
imediatamente; amanhä há uma reuniäo no Instituto de Cultura
Ariana.
- E entäo?
- A mesa convocou a sua presença - aclarou a voz. - Ao mais
alto nível.
- Obrigada, Herr coronel.
Os seus olhos pousaram em Indy, depois afastaram-se de novo,
e ela dirigiu a palavra a Donovan.
- Vou ter consigo a Iskenderun assim que me for possível.
Ele entregou-lhe o diário do Graal.
- Leve consigo. Sem o mapa näo tem qualquer utilidade, mas
eles poderäo ver que estamos a fazer progressos. Leve-o para o
museu do Reich. Será uma óptima recordaçäo.
Vogel interpôs-se entre Donovan e os prisioneiros.
- Autorize-me a matá-los. Depois näo teremos mais acidentes
como o que aconteceu lá em cima.
- Näo - respondeu Elsa. - Se näo conseguirmos tirar as
páginas ao Brody, precisaremos deles vivos.
Inseguro, Donovan hesitou. Olhou para Indy e para o pai como
se eles fossem objectos interessantes, e, possivelmente,
valiosos. Virou-se para Vogel e disse:
- Faça sempre o que a sr.a doutora lhe diz. Ficaremos à
espera. Depois eles säo meus.
O coronel franziu a testa, fitou Indy com frieza, e depois,
sem qualquer comentário, acenou afirmativamente para Donovan.
Era óbvio que achava que eles deveriam ser mortos
imediatamente. Era provável que estivesse mais preocupado com
a puniçäo dos responsáveis pela morte dos seus homens que pela
demanda do Graal.
- Venham - disse Donovan, dirigindo-se para a lareira.
Entrou lá dentro e abriu uma porta secreta. Vogel e os guardas
seguiram-no. Donovan deixou-os ir à frente, e olhou na
direcçäo de Elsa. - Também vem?
- Tenho uma série de coisas a fazer antes de partir. Estarei
pronta dentro de minutos.
Donovan acenou, sorriu para Indy e para o pai como se estes
fossem apenas seus amigos ou sócios num qualquer negócio.
Quando desapareceu, Indy ficou a pensar que se tratava de um
doido.
Elsa ficou a olhar para a lareira até ter a certeza de que
os outros tinham desaparecido. Voltou-se para Indy, e ele
reparou que a sua expressäo era uma réplica perfeita da que
ostentara nos momentos mais íntimos que haviam passado em
Veneza. Que estaria ela a tramar?
100
Ele desviou os olhos.
- Indy, é verdade quando impedi o coronel de vos matar.
Levantou os olhos e sorriu.
- Sim? Deves entäo ser a tal nazi de bom coraçäo de que
tenho ouvido falar.
- Näo olhes para mim assim. Ambos queríamos o Cálice do
Graal. Eu faria tudo por isso, e tu terias feito o mesmo.
- É mau que pense assim, Doutora. - A sua voz era fria como
uma pedra de gelo.
Elsa passou-lhe uma mäo pelo rosto, mas Indy desviou a
cabeça. Ela inclinou-se para ele e falou-lhe devagar,
respirando contra o seu ouvido. A pele dela cheirava-lhe
vagamente a sabonete e a perfume, lembrando-lhe coisas que ele
preferia esquecer.
- Sei que estás zangado e eu lamento. Contudo, quero que
saibas que nunca esquecerei o bom que foi.
Henry, que näo podia ver o que ela estava a fazer mas que a
podia ouvir, respondeu-lhe como se ela estivesse a falar para
ele.
- Sim, foi maravilhoso, obrigado.
Ignorou.
- Indy, tens de compreender a minha situaçäo.
Ele queria cuspir-lhe no rosto, mas, em vez disso, acenou,
entrando no jogo na esperança de que ela lhes soltasse as
cordas e lhes desse uma oportunidade de fuga.
Elsa inclinou-se e beijou-o apaixonadamente, acariciando-lhe
a cabeça.
- Dr.a Schneider!
Ela levantou-se abruptamente e voltou-se para a lareira.
Vogel voltara através da passagem secreta.
- Sim, Herr coronel? - Voltara a cabeça, mas mantinha as
costas viradas para o nazi.
- O seu carro está à espera.
- Obrigado. - Sorriu para Indy e afastou alguns cabelos que
lhe tinham caído para o rosto. - É assim que os austríacos se
despedem.
Elsa encaminhou-se para Vogel.
- Estou pronta - disse, e desapareceu pela porta da lareira.
Desta vez o coronel ficou para trás. Marchou até junto de
Indy. Como bom soldado que era, o seu ritmo era perfeito.
Contorceu a boca num esgar.
- É assim que dizemos adeus na Alemanha, dr. Jones.
Levantou o braço e esmurrou-o no queixo. Com força. A sua
cabeça recuou, o sangue jorrou-lhe do canto da boca e do
nariz. Vogel voltou-se e desapareceu pela lareira.
Indy pestanejou, recuperando a lucidez.
- Gosto mais da maneira austríaca.
101
- Pára de palrar! - ralhou Henry. - Preciso de tempo para
pensar.
- ?ptimo! E enquanto vais pensando é melhor tentarmos
desfazer estes nós. Temos de encontrar o Marcus antes que os
nazis o façam.
- Julguei que tinhas dito que o Marcus levava dois dias de
avanço, e que, se fosse caso disso, poderia desaparecer.
- Estás a brincar? Inventei isso tudo.
conheces o Marcus.
Uma vez perdeu-se no seu próprio museu.
Henry praguejou entredentes.
- Fantástico! Já é bom termos o monstro do Vogel desejoso de
nos matar, mas ainda vamos deixar que matem o Marcus e que os
nazis fiquem com o Cálice do Graal.
- Dá bastante em que pensar, näo? - perguntou Indy,
atrapalhado com as cordas.
O pai também começou a puxar. Mas quanto mais puxavam mais
apertados ficavam os nós e mais a corda lhes cortava os
pulsos.
Acabaram por parar. Assim era melhor. No entanto, se
ficassem ali sentados como duas múmias, näo chegariam a lado
nenhum.
Caía-lhe sangue do nariz para o lábio superior, e da boca
para o queixo. Um dos lados do maxilar estava dormente. Sentia
comichäo no nariz, e os pulsos latejavam. Sentia uma enorme
dor de cabeça.
"Pensa. Pensa." Era bem provável que houvesse guardas nazis
do lado de fora da porta e para lá da lareira. No entanto,
isso agora näo interessava. Sabia que tinha de haver um modo
de se libertar das cordas.
O silêncio que reinava no quarto parecia näo ter fim.
Perguntou-se se o pai näo teria adormecido. Foi entäo que
Henry se endireitou na cadeira e inclinou a cabeça até esta
tocar na de Indy.
- Júnior, que aconteceu àquela cruz de que andavas à
procura?
A Cruz de Coronado constituía um dos grandes problemas entre
pai e filho desde que Indy era um garoto. Henry recusara-se a
acreditar na história que o filho lhe contara sobre a forma
como tirara a famosa cruz aos ladröes e a levara para casa,
voltando depois a perdê-la. Indy prometera ao pai que a
recuperaria, nem que para isso precisasse de toda a vida.
Durante todos aqueles anos o pai tratara do assunto como se
este fosse uma brincadeira. Se queria aborrecer o filho,
perguntava-lhe onde estava a cruz.
Indy costumava ficar irritado e dizer que nada daquilo era
mais engraçado que a demanda do Cálice do Graal. Porém, desta
vez tinha uma resposta para dar.
102
- Entreguei-a ao Museu do Marcus antes de deixarmos Nova
Iorque. Acabei por a recuperar. - E acrescentou: - Tal como te
tinha dito.
Henry ficou calado por um momento. Quando falou, a sua voz
tinha um tom conciliatório.
- O Marcus estava muito interessado nessa tua busca. Posso
imaginar como ele deve ter ficado feliz. Mas agora... agora se
o Donovan o apanha, nunca terá a oportunidade de a ver
exposta.
- Isso é o que menos o preocupa.
"E o que menos me preocupa a mim." Pensou em contar ao pai a
sua teoria sobre Donovan e a cruz. Mas isso podia esperar.
Agora precisava era de arranjar maneira de sair dali.
Donovan e o coronel Vogel estavam junto a uma passagem
situada num depósito subterrâneo situado na montanha que
estava por debaixo do castelo. Viram Elsa desaparecer,
instalada num carro nazi. Apareceu um segundo carro, e Donovan
estava prestes a entrar para o assento traseiro, quando parou
para trocar algumas palavras com Vogel.
- Acabaremos por encontrar o Brody. Näo há problema. Vá em
frente e mate-os.
103
CAPíTULO XIV
DESEJOS ArDENTES
In dy levantou a cabeça. Finalmente descobrira a maneira de
se libertar das cordas.
"Raios! Näo percebo porque näo pensei nisso antes."
Como fora possível ter sido täo estúpido? Se näo tivesse as
mäos amarradas teria dado umas boas palmadas na cabeça.
- Pai, consegues chegar ao bolso do meu casaco?
Henry ficou de sobreaviso.
- Para quê?
- Näo faças perguntas.
- Está bem. Está bem.
Indy torceu-se o mais que podia, de forma a fazer que o seu
bolso direito ficasse o mais perto possível do pai. Demorou
alguns minutos antes de Henry conseguir lá chegar. Finalmente,
depois de algumas contorsöes suplementares, deixou os dedos
escorregarem lá para dentro.
- De que ando à procura?
- Do meu amuleto.
103
- Parece-me ser um isqueiro.
Näo respondeu, à espera que o pai comprendesse qual era o
plano.
- É isso! Júnior, és levado da breca.
Indy sentia-se cada vez mais impaciente.
- Pai, tenta queimar as cordas, está bem?
Henry tentou abrir a tampa do isqueiro, praguejou quando näo
o conseguiu, e voltou a tentar.
Exasperado, Indy disse:
- Näo o deixes cair, pai. Por favor.
- Confia em mim, Júnior. Onde foi que arranjaste isto? Näo
fumas.
- É da Elsa. Esqueci-me de lho devolver depois de termos
saído das catacumbas.
A tampa abriu-se aquando da tentativa seguinte. O polegar de
Henry fez girar o propulsor. Indy sentiu que este faiscava,
mas o isqueiro näo produziu lume.
- Maldita coisa - resmungou o pai. - Acho que precisa de
gás.
"?ptimo."
- Vá lá, trabalha. - Henry abanou o isqueiro e voltou a
tentar. - Já está. Consegui.
Nesse mesmo instante, Indy sentiu a chama a queimar-lhe os
dedos.
- Pai queima a corda, näo os meus dedos.
Nos minutos que se seguiram, Henry manteve o isqueiro contra
a corda. Houve uma altura em que este se foi abaixo, e o pai
teve de voltar a acendê-lo. Indy sentia uma forte dor nas
costas por estar há tanto tempo naquela posiçäo. Rangeu os
dentes e tentou manter as mäos quietas. O ar estava saturado
com o cheiro a corda queimada, facto que lhe fazia arder o
nariz.
Quando a corda começou a derreter e a arder, ouviu o pai
praguejar.
- Que aconteceu? - perguntou.
- Deixei-o cair.
Ele torceu o pescoço, mas näo foi capaz de ver onde o
isqueiro caíra. Sabia que a única forma de o recuperarem era
virarem as cadeiras. Depois teriam de ficar deitados no chäo.
Foi isso que comunicou ao pai.
- Estás disposto a tentar?
Henry näo respondeu.
- Pai?
104
- Júnior, há uma coisa que tens de saber.
Indy interpretou mal o tom de quem pede desculpas usado pelo
pai.
- Deixa-te de sentimentalismos. Depois de sairmos daqui
falamos, está bem?
Sentiu um cheiro qualquer.
- Que raio estará a queimar?
- Era isso que eu ia dizer. O chäo, ah, o chäo está a arder.
- O quê?
Indy inclinou a cabeça o mais que podia e viu as línguas de
fogo.
- Está bem, vamos andando. Balança a cadeira. Faz o que eu
faço.
Devagar, começaram a avançar pelo quarto, afastando-se da
carpete em chamas. As cadeiras moviam-se com dificuldade, e
quase voltaram.
- Vamos para a lareira.
Balançavam na direcçäo do único lugar que era seguro. Atrás
dele, o lume parecia alimentar-se a si mesmo, alastrando a
grande velocidade, correndo pelo tapete.
Indy movia as mäos para cima e para baixo, tentando
libertá-las das cordas. æ medida que, quase virando as
cadeiras, se iam aproximando da lareira, Indy estendeu um pé,
e, inadvertidamente, atingiu a alavanca que abria a porta
secreta. O chäo da lareira começou a girar, foram parar numa
sala de comunicaçöes. Quatro radiotelegrafistas nazis, usando
auscultadores, estavam sentados à frente de um enorme painel
composto por discos, cavilhas, e contadores. Estavam de costas
para eles, e, durante alguns minutos, näo se aperceberam das
suas presenças.
- A nossa situaçäo näo melhorou em nada. - Henry exprimira
os seus sentimentos num murmúrio, mas, mesmo assim, falara
alto de mais.
Um dos radiotelegrafistas olhou por cima do ombro, e ficou
espantadíssimo por ver dois homens amarrados de costas um para
o outro, sentados nas suas respectivas cadeiras.Henry gemeu.
- E agora, Júnior? Tens mais alguma ideia brilhante?
Desesperado, Indy olhava para a alavanca que os poderia
levar ao ponto de partida. O homem já estava a levantar-se e a
avisar os companheiros. Descobriu uma alavanca mesmo à frente
deles, e estendeu uma perna. Contudo, aquela estava demasiado
elevada para lhe chegar com o pé. Restava apenas uma outra
maneira de a fazer funcionar.
- Faz força com os pés - gritou.
O mais depressa que podia, inclinou-se para a frente com
toda a força. Atingiu a alavanca com a cabeça, e o chäo voltou
a girar, precisamente na altura em que o radiotelegrafista
puxava de um revólver e disparava vários tiros.
As balas foram bater contra a porta que se fechava.
105
Indy e Henry saltaram da frigi deira e foram cair no fogo. A
carpete, as cortinas e a mobília, tudo isto ardia. As grossas
colunas de fumo que se elevavam faziam-lhe vir lágrimas aos
olhos. O fogo estendia-se para o tecto. Indy tossia. Mal podia
respirar.
- Estávamos melhor lá atrás - disse Henry, elevando a voz
por cima do barulho das chamas.
Ele näo perdeu tempo a responder-lhe. Estivera ocupado com
as cordas queimadas que lhe rodeavam os pulsos, e, de repente,
soltou-se. Levantou-se da cadeira e correu a soltar as cordas
que prendiam os pulsos do pai.
Olhou à sua volta. Descobriu que dentro da chaminé havia uma
grade, e testou-a com a mäo. A lareira voltou a girar.
- Depressa, aqui para cima. - Subiu para uma das cadeiras,
agarrou a grade e elevou-se através da abertura do centro.
Firmou-se entre as paredes, baixou-se, e pegou no pai por um
braço.
Puxou através da abertura, no momento preciso em que os
quatro operadores de rádio se precipitavam pelo quarto.
Tinham as pistolas baixas. Olharam para as cadeiras vazias,
e foi entäo que dois deles voltaram à sala de comunicaçöes. O
outro par protegeu os olhos, e avançou na direcçäo das chamas.
Indy sabia que näo seriam capazes de permanecer na chaminé
durante muito tempo.
Para além de estarem numa posiçäo incómoda, era para lá que
se dirigia o calor do local do incêndio. Passou um minuto, e
os outros dois homens voltaram da sala de comunicaçöes. Assim
que eles se aventuraram para longe da lareira, Indy e Henry
saltaram do seu esconderijo.
Naquele mesmo instante, Indy puxou a alavanca que fazia
girar a lareira. Assim que começaram a mover-se, viram que a
porta da sala se abria revelando o rosto espantado do coronel
Vogel. Quando o ar vindo do corredor invadiu o aposento, as
chamas moveram-se ao encontro do nazi. O coronel recuou,
escapando por pouco ao lume e ao fumo.
- Parem! - gritou um dos operadores de rádio quando viu Indy
e Henry desaparecerem por detrás da lareira.
- Eles väo voltar - avisou o pai assim que entraram na sala
de comunicaçöes.
- Eu sei. Eu sei.
Indy atirou com um banco de madeira de encontro ao chäo,
arrancando-lhe uma perna. A porta começava a abrir-se quando
ele levantou os braços acima da cabeça esmagando a perna da
madeira contra a aparelhagem que controlava os movimentos da
porta.
A porta parou depois de se ter aberto apenas algumas
polegadas.
Os radiotelegrafistas ficaram fechados no quarto em chamas.
Henry ficou a olhar para a porta, escutando os gritos dos
106
homens. Indy sabia que o pai estava horrorizado com aquilo que
ele acabara de fazer. No entanto, näo tivera outra hipótese.
A realidade era essa. Matar ou ser morto.
Deu meia volta e começou à procura de uma saída. Tinha de
haver outra saída, outra porta secreta, umajanela, qualquer
coisa. Correu as mäos pelas paredes, batendo-lhes ao de leve,
à procura de uma qualquer cavidade.
- Dessa maneira nunca hás-de encontrar a saída - disse-lhe o
pai. - É melhor sentarmo-nos e pensarmos em alguma coisa.
- Sentarmo-nos? - Indy esbugalhou os olhos. - Estás doido?
- Näo entres em pânico. Já descobri que, se me sentar
calmamente, acabo por descobrir uma soluçäo para os problemas.
Henry afundou-se num sofá cheio de coisas. Quando o fez,
este começou a mexer-se, inclinando-se para a frente à medida
que o chäo se abria.
Ao perceber que o pai encontrara a saída, Indy atirou-se
para o sofá.
- Já percebi o que querias dizer - gritou, enquanto desciam
uma rampa que se estendia por algumas centenas de metros, até
serem depositados numa espécie de doca. Estavam dentro de uma
enorme caverna que cobria uma passagem subterrânea. Era óbvio
que a caverna fora transformada num armazém nazi.
Precipitaram-se na direcçäo de uma enorme quantidade de
barcos.
- Devemos estar mesmo dentro da montanha, por debaixo do
castelo - murmurou Henry.
Indy observou aquela enorme quantidade de barcos a motor, de
barcos próprios para transportar armas, de barcos de
transporte de mercadorias.
- ?ptimo! Mais barcos!
Esperaram até que uma patrulha nazi se afastasse, e depois
atravessaram a doca, precipitando-se para um dos barcos. Indy
pôs o motor a funcionar no preciso momento em que Vogel
aparecia lá em baixo.
Quando o motor começou a fazer barulho, o coronel parou e
deu uma olhadela na direcçäo dos barcos. Junto com mais alguns
nazis, correu para o veículo mais próximo e subiu para bordo.
Um minuto mais tarde, o barco tripulado por Vogel abandonava a
doca, seguindo atrás dos dois Jones.
Indy e Henry já tinham abandonado o barco, apropriando-se de
uma mota com sidecar. Era Indy quem ia conduzir, seguindo o
pai no carrinho lateral.
- És capaz de dizer que este foi um dos teus típicos dias? -
gritou Henry à medida que saíam da doca.
- Melhor que a maioria - respondeu o filho, acelerando na
direcçäo de um círculo de luz que esperava representar a saída
107
da montanha. Se näo se tratasse de uma saída, entäo näo estava
certo de qual seria o próximo passo.
Talvez näo chegasse sequer a existir um próximo passo.
Subitamente, a estrada e apassagem aquática fundiram-se na
enseada. Vindo de um dos barcos, fez-se ouvir o som de
disparos de metralhadora.
- Abaixa-te! - gritou para o pai, que lhe obedeceu sem
protestar.
Indy inclinou-se sobre a mota, e no momento seguinte saíram
ao encontro da luz brilhante da manhä. A estrada inclinava-se
abruptamente para longe do canal, e, claro, do perigo imediato
que os aguardava.
Indy olhou para Henry, que espreitava por cima da viatura ,
certificando-se de que a costa estava livre.
- E acabámos agora de começar um novo dia.
Quando a mota se acercou de um cruzamento, a tabuleta de
sinalizaçäo indicava que Budapeste ficava para a direita e
Berlim para a esquerda. Indy abrandou e voltou para a direita.
- Pára! - gritou o pai. - Pára!
- Que se passa? - abrandou a mota e encarou o outro.
Este continuava a fazer sinais para que parasse, e ele
acabou por sair da estrada e por se ocultar entre os arbustos,
fora do alcance de olhares indiscretos.
Saiu da mota e espreguiçou-se. Henry seguiu-lhe o exemplo e
saltou do sidecar.
- Por que razäo é que estavas a abanar as mäos?
- Volta atrás. Temos de seguir para Berlim.
Indy apontou na outra direcçäo.
- Mas o Brody está daquele lado, pai.
- E o meu diário deste - respondeu Henry, apontando na
direcçäo oposta.
- Näo precisamos do teu diário.
- Ah, isso é que precisamos. Näo arrancaste páginas
suficientes, Júnior. - Deitou-Lhe um olhar de desafio.
- Está bem, conta-me. Que se passa?
- Aquele que encontrar o Cálice do Graal tem de enfrentar o
desafio final... uma provaçäo que pode mesmo ser fatal.
- Queres dizer que isso pode ser perigoso?
- Há oito anos que descobri as pistas que nos podem fazer
passar as armadilhas com segurança. Estavam nas Crónicas de
Säo Anselmo.
- Bom, näo te consegues lembrar delas?
108
- Escrevi-as no diário para näo ter de me lembrar.
Indy ouviu um barulho, e olhou para a estrada mesmo a tempo
de ver duas motos nazis dirigirem-se para Budapeste.
- Tanto a Gestapo como metade da Wehrmacht de Hitler andam a
perseguir-nos, e tu queres ir meter-te direitinho na boca do
lobo?
- Sim. A única coisa que me interessa é o Santo Graal.
- E quanto ao Marcus?
- Tenho a certeza de que o Marcus concordaria comigo.
Indy revirou os olhos. Ouvira este credo tantas vezes que já
o sabia de cor e salteado.
- Vocês os estudiosos! Orgulho e pilhagem! Meu Deus!
Henry esbofeteou o filho. O golpe näo foi forte mas
apanhou-o de surpresa. Näo falara a sério mas era mais que
evidente que o pai se ofendera. Levou uma das mäos ao rosto e
franziu o sobrolho.
- Foi o castigo pela tua blasfémia. Näo te lembras de nada
do que leste no Parcifal? Näo aprendeste nada com Richard
Wagner ou Wolfram Von Eschenbach? Nas mäos de Sir Perceval, o
Graal é um talismä sagrado que cura. Mas, debaixo do controlo
do malvado Klingsor, näo é mais que um instrumento de magia
negra.
Abanou a cabeça e olhou para o filho com ar de desprezo.
- A demanda pelo cálice näo pertence ao capítulo da
arqueologia. É uma corrida contra o mal. Se o Graal ficar na
posse dos nazis os exércitos do mal cobriräo a face da terra.
- Fitou-o, - Estás a compreender?
O mundo do pai comportava mito e realidade. Ambos os termos
eram inseparáveis. Vivia no mito.
- Nunca entendi esta tua obsessäo. Nem eu nem a mäe.
Ficou a olhar para o pai. O facto de ter mencionado a mäe
constituía um desafio. E, pela primeira vez em mais de trinta
anos o pai falou a seu respeito.
- Ela compreendia. Bem de mais. Foi por causa disso, porque
näo me queria preocupar, que me escondeu que estava doente e
eu näo pude fazer outra coisa senäo chorá-la.
Os seus olhos encontraram-se e, durante esses breves
segundos, Indy soube que eram iguais. Finalmente, o pai
falara-Lhe a respeito da morte da mäe, contara-Lhe os seus
sentimentos, admitira as suas culpas. O simples facto de a ter
mencionado sarou uma velha ferida que existia entre ambos.
Os seus dedos crisparam-se no ombro do pai.
- Vá lá, paizinho, vamos para Berlim.
109
CAPíTULO XV
OS FOGOS DE BERLIM
Bandeiras, pendöes e estandartes exibindo a suástica eram
agitados freneticamente para trás e para diante, num movimento
rítmico que reflectia a agitaçäo crescente de uma enorme
multidäo. No centro do ajuntamento estava uma fogueira
alimentada por uma tremenda montanha de livros. æ volta do
lume encontravam-se estudantes universitários e Camisas
Castanhas que atiravam cada vez mais livros para a fogueira.
Muitas das obras eram clássicos que os nazis e os seus
simpatizantes tinham considerado blasfemos ou antipatrióticos.
Indy atravessou a Praça ao mesmo tempo que apertava os
botöes de um uniforme alguns números acima do seu. Assim que
chegaram a Berlim, tinham andado por ali às voltas até
encontrarem um soldado que se havia separado da unidade a que
pertencia. Henry fingira que estava doente, indo cair a apenas
alguns passos do soldado. Quando o homem parara para ver o que
se passava, Indy pedira-lhe para levar o pai para um sítio
calmo.
Quando se encontravam no recanto de um edifício, Indy
atacara o nazi, roubando-lhe o uniforme.
Henry, ainda vestido à civil, seguia ao lado do filho,
pasmado com o caos que o rodeava.
- Meu rapaz, somos uma espécie de peregrinos em solo
demoníaco.
- Sim, e é pena que tudo isto seja real, e näo apenas um
filme - disse ele, apontando para o operador de câmara que
filmava a cena.
Foi entäo que parou como que fulminado por um raio e ficou a
olhar para a plataforma à sua frente.
- Que foi? - perguntou Henry.
Indy apontou com a cabeça na direcçäo do estrado. Este era
ocupado por oficiais de alta patente do Terceiro Reich, os
quais olhavam por sobre a multidäo como se fossem reis a
inspeccionar os súbditos.
Entre eles, encontravam-se dois rostos familiares: Adolph
Hitler e Elsa Schneider.
- Oh, meu Deus - gemeu Henry, abanando a cabeça. - Mesmo à
direita do próprio diabo. Acreditas agora que ela é nazi?
Ele nada respondeu. Continuou a abrir caminho através da
multidäo, e chegou-se o mais perto possível da plataforma.
Como se fosse uma sombra, Henry seguia a seu lado.
Junto do operador de câmara, que tentava conseguir um bom
110
plano de Hitler, Elsa, e dos outros oficiais, estava uma
mulher. Indy pensou tratar-se da directora, pois ela gritava
e abanava as mäos com vista a atrair as atençöes dos que se
encontravam na plataforma. O barulho e a confusäo eram täo
grandes, que ela estava a passar um mau bocado.
- Por favor, mein führer, dê um passo em frente - pediu ela
em alemäo.
Hitler deu um passo atrás.
- Pronto. Assim está bem. Agora os outros. Dêem todos um
passo atrás.
Em vez disso, todos deram um passo em frente e Hitler quase
nem se via.
A directora deitou as mäos à cabeça e abanou-a.
- Por favor, por favor! Estäo a bloquear o fúhrer.
Indy riu para consigo.
- Parece que compreendo alemäo melhor que o Alto Comando -
comentou ele com o pai, que o obrigara a aprender várias
línguas antes dos 18 anos, facto que na altura detestara mas
que agora apreciava. - E graças a ti - acrescentou,
acotovelando amigavelmente o flanco do pai.
Henry grunhiu.
- Mas é só agora que me agradeces. É só agora que me dás
ouvidos.
Indy soltou uma gargalhada.
A turba começava a debandar, e ele tentou abrir caminho
através da força de nazis que transportavam archotes. Os
zelotas repeliram-no, mas, e ao nível das aparências,
continuava a manter um ar indiferente. Deitou um olhar à
plataforma e meteu-se por entre os oficiais nazis e os seus
automóveis. Observou a multidäo que dispersava e viu Elsa
caminhando sozinha, o cabelo dourado e lustroso à luz do sol.
Henry seguia a uma determinada distância. Concordara em como
devia ser Indy a abordar Elsa, tendo ambos combinado
encontrarem-se dali a meia hora perto de um dos extremos da
plataforma.
Indy precipitou-se para ela, aproximando-se por detrás.
Abrandou quando já estava bastante perto esperando que ela
estivesse suficientemente distante de todos os que os pudessem
ouvir.
- Sr.a Doutora!
- Indy!
A voz dele era calma e dura, os olhos frios de quem näo
perdoa.
- Onde é que ele está?
- Seguiste-me.
Estas palavras foram pronunciadas de um modo tal, que o
fizeram perguntar-se se ela ainda se sentia atraída por ele.
111
Era como se as suas emoçöes a levassem numa determinada
direcçäo, ao passo que a lógica a fazia seguir outro curso -
um curso que poderia ser mortal para ele e para o pai. A sua
mäo tocou no rosto dele, a boca abriu-se ligeiramente e os
olhos pareciam brilhar de desejo.
- Tive muitas saudades tuas, Indy.
Ele afastou-lhe a mäo e começou a tactear-Lhe o corpo,
revistando-lhe os bolsos enquanto tentava encontrar o diário
do Graal.
- Quero-o de volta. Onde é que ele está?
A voz dele e a forma rude como conduzia a busca fizeram-na
voltar à realidade. Por breves instantes pensou que ela lhe ia
pedir para a perdoar. A sua boca tremia, e o rosto parecia ter
perdido a compostura. Foi entäo que algo mudou - podia mesmo
ver as coisas acontecerem -, como se dentro dela tudo tivesse
voltado ao lugar. A resposta que deu foi fria e ríspida.
- Nada mudou de sítio desde a última vez em que me viste.
Indy continuava a procurar, ignorando-a. Passou-lhe uma mäo
pelas pernas e parou quando sentiu qualquer coisa. Deu uma
olhadela à sua volta, e foi entäo que lhe levantou o vestido e
tirou o diário do Graal, que Elsa amarrara à perna.
- Peço-lhe desculpa pelo incómodo.
Ela abanou a cabeça, confundida com a busca urgente que Indy
levara a cabo.
- Näo compreendo. Voltaste atrás por causa do livro. Porquê?
- O meu pai näo quer que o queimem numa das vossas
festinhas.
Ela devolveu-lhe o olhar.
- É essa a ideia que fazes de mim? Que eu sou um desses
Camisas Castanhas?
- Näo sei porque hei-de pensar de outro modo - respondeu com
frieza.
- Acredito no Graal, näo na suástica.
- Claro. - Apontou para a plataforma. - Foi por isso que ali
estavas, junto com os inimigos de tudo o que o Graal
representa.
Quem é que está preocupado com aquilo em que acreditas?
112
- retorquiu.
Indy estendeu a mäo e apertou-lhe o pescoço.
- Só preciso de apertar.
- E eu só preciso de gritar.
Tratava-se de uma situaçäo de impasse e ele sabia-o. Uma
relaçäo de amor e ódio, uma espécie de braço-de-ferro. Ele era
incapaz de cumprir a ameaça e ela sabia, exactamente da mesma
maneira que ele sabia que Elsa näo gritaria. Apesar de tudo, a
presença e o fascínio que dela emanavam eram täo fortes como
sempre.
Indy soltou-a e recuou. Trocaram um olhar que dizia tudo,
que falava de amantes que se haviam encontrado e separado
devido a questöes que os transcendiam. Contudo, ao mesmo
tempo, algo nele dizia-lhe que se haviam aproximado porque o
tinham querido, e seria essa mesma vontade que os separaria.
- Indy - chamou ela.
Ele deu mais um passo atrás, depois deu meia volta e foi-se
embora. Encontrou o pai à sua espera, perto da plataforma.
- Vamos embora daqui.
- E entäo, conseguiste? - perguntou Henry assim que
começaram a andar.
- Sim, consegui.
- Fantástico. Como foste capaz de o tirar a essa pega nazi?
O comentário irritou-o. Por qualquer razäo desconhecida,
sentia-se tentado a defendê-la. Estava prestes a dar uma
resposta torta ao pai, quando se apercebeu de que a multidäo
com quem agora se cruzavam era composta por Hitler e a sua
comitiva. O Führer estava rodeado por cerca de cinquenta
miúdos que Lhe pediam para assinar os seus livros de
autógrafos.
Hitler parou para os assinar, e encarou com Indy que era
bastante mais alto que os garotos. Os seus olhos
encontraram-se. O contacto durou apenas alguns segundos, mas
foi o bastante para que Indy sentisse o apelo do carisma do
Führer. Pela primeira vez entendeu a atracçäo e a lealdade que
este homem despertava nos seus seguidores. Só que ele sabia
mais que isso. Sabia o horror que o regime de Hitler
representava, a devastaçäo e o sofrimento, näo esquecendo o
seu terrível potencial para gerar o caos à escala mundial.
Tudo isto fez que aquele apelo se tornasse ainda mais
assustador.
Hitler quebrou o encanto quando tirou o diário das mäos de
Indy para o autografar. Abriu-o antes que ele pudesse reagir,
mas o pai fez um ruído que se ouviu bastante bem. Hitler
autografou uma das páginas e devolveu-lhe o livro. Indy näo
demorou muito a recuperar o sangue frio. Juntou os calcanhares
e fez a saudaçäo nazi. Enquanto assim procedia, esconjurava
secretamente o seu acto de lealdade. Escondeu a outra mäo
atrás das costas e cruzou os dedos.
Quando desfez a saudaçäo e recuou, já Hitler fora conduzido
ao assento traseiro de uma limusina que ali estava à espera.
No entanto, o seu encontro com o Führer arranjara-lhe inimigos
entre os outros nazis que haviam presenciado o incidente. Um
deles, um oficial SS cuja obesidade se escondia por detrás de
sobretudo deixou-se ficar por ali para castigar aquele oficial
subalterno.
- Que estás aqui a fazer? - perguntou com maus modos. - Esta
área está reservada. Volta imediatamente para o teu posto.
Indy endireitou-se e levantou a mäo para uma saudaçäo "eil
Hitler". Vendo que näo estava mais ninguém ali perto encolheu
o braço, fechou a mäo e desferiu um potente soco no rosto do
oficial.
113
Henry voltou a resmungar qualquer coisa.
- A partir de agora vamos fazer as coisas à minha maneira -
anunciou ele ao pai.
- Que queres dizer com isso?
- Que vamos sair da Alemanha.
Indy chegou ao terminal mais importante do aeroporto de
Berlim, e estacionou a moto. Quando saltou de cima dela,
ajustou o sobretudo que tirara ao obeso oficial SS.
- Se vais continuar a roubar roupa às outras pessoas - disse
Henry quando entravam no terminal -, por que razäo näo
escolhes alguém do teu tamanho?
- Para a próxima, espero lembrar-me disso.
Colocaram-se na fila que se formara junto de um dos portöes
de embarque, e ficaram à espera de comprar os bilhetes.
- Com alguma sorte, estaremos fora deste país dentro de uma
hora, e amanhäjá teremos encontrado o Marcus - disse Indy com
con fiança.
- Oh, oh! - Henry acenou na direcçäo de uma área perto do
balcäo onde se vendiam os bilhetes. Todos os passageiros que
estavam a comprar bilhetes eram interrogados por agentes da
Gestapo.
Indy pegou no braço do pai e afastaram-se da fila. Tinham
dado apenas meia dúzia de passos quando pressentiram mais
complicaçöes. O coronel Vogel acabara de entrar no terminal.
- Olha só quem aqui está.
Ambos os homens levantaram as golas dos casacos e baixaram
as pálas dos bonés. Depois desviaram-se de Vogel. Indy olhou
para trás e viu mostrar uma fotografia a um dos agentes da
Gestapo.
- Näo deve ser um retrato de família - resmungou para si
mesmo quando saíram dali. O edifício adjacente era também um
terminal, mas mais pequeno, de construçäo mais recente,
decorada ao estilo Art Deco.
Dirigiram-se para o balcäo e colocaram-se atrás de uma série
de homens e mulheres muito bem vestidos. Indy calculou que se
devia tratar do balcäo destinado à primeira classe.
- Porquê esta linha?
- Porque näo está ninguém a inspeccioná-la.
A fila avançava devagar. Os minutos iam passando. Indy
continuava a olhar em volta, sentindo-se cada vez mais
ansioso. Detestava este tipo de coisas. Detestava ficar à
espera que as coisas acontecessem. Sentia-se melhor a
enfrentar o perigo e a vencê-lo.
Começou a achar que estava a dar nas vistas e obrigou-se a
olhar para baixo durante um bocado. Só depois levantou os
olhos e tornou a olhar à volta, desta vez mais devagar,
114
como se fosse um viajante aborrecido que pergunta a si mesmo
quando acabará por se sentar, depois de ver o voo con firmado.
Para se impedir de olhar em volta, começou a ler uma placa
que estava pendurada num pilar ali perto. Comemorava o voo do
dirigível de Hindenburg, que partira de Lakehurst, New Jersey
e chegara a Fiedrichshafen, na Alemanha, demorando quarenta e
duas horas e cinquenta e três minutos, facto que constituía um
record mundial. O acontecimento dera-se entre 9 e 11 de Agosto
de 1936.
Voltou a olhar para os sapatos, batendo o pé com
impaciência.
Decidiu que já näo aguentava mais e deixou os olhos
vaguearem pelo terminal, famintos, curiosos. Uma mulher
corpulenta que estava atrás dele olhou-o fixamente. Ele voltou
a olhar para a placa e leu a última linha: Certificado pela
Federaçäo Internacional de Aeronáutica.
- Que estás a fazer? - rugiu Henry.
Indy levantou a cabeça e viu que a fila avançara e que o pai
estava à espera perto dajanela. Compraram os bilhetes, pedindo
para seguir no próximo voo. Enquanto se dirigiam para a porta
do terminal, Indy perguntou ao pai se sabia qual era o destino
do voo.
Henry rolou os olhos como se achasse que aquela era uma
pergunta estúpida, mas, e para surpresa de Indy, disse:
- Por acaso näo, e tu?
Naquele momento näo lhes interessava muito saber para onde
iam, desde que saíssem da Alemanha. Mesmo assim consultou os
bilhetes.
- Atenas. Näo se pode dizer que esteja a um passo de
Iskenderun, mas vamos no caminho certo.
- Atenas, claro - repetiu o pai, acenando como para aprovar
o destino em que seguia. - As coisas estäo a melhorar.
Indy parou assim que viu o desenho que estava no bilhete, e
foi entäo que compreendeu que näo iam apanhar o aviäo para
Atenas.
- Pai, olha!
Henry continuara a andar, e näo ouviu. Indy correu ao seu
encontro. Saíram para a pista e viram aquilo que os ia levar
para Atenas estacionado mesmo à sua frente.
- Ora bem - disse Henry.
Um dirígível com uma altura superior a dez andares, e a
largura de dois campos de futebol estava estacionado na pista.
Näo se tinham limitado a ignorar para onde iam, mas também
nenhum deles se dera ao trabalho de descobrir que iam viajar
de dirigível.
Quando se aproximaram das escadas de embarque, pai e filho
entreolharam-se. Estavam ambos surpreendidos e excitados com a
reviravolta que se dera nos acontecimentos.
- Olha só para aquilo - disse Indy, apontando para um par de
bimotores que estavam suspensos por dois enormes ganchos.
115
colocados na parte inferior da viatura. -Gostavas de dar uma
volta ali dentro?
A resposta de Henry foi bastante curta.
- Näo, obrigado.
Descobriram um compartimento vazio e puseram-se à vontade,
esperando a largada do dirigível. Indy afundou-se no assento ,
cruzou os braços e respirou fundo.
- Conseguimos, pai.
Henry pegou num lenço e passou pela testa.
- Quando nos encontrarmos no ar e a Alemanha estiver longe,
entäo farei minhas as tuas palavras.
Indy espreitou pela janela.
- Relaxa. Dentro de algumas horas estaremos em Atenas
Prontos para seguir até Iskenderun e para encontrarmos o
Marcus. Chega-te para trás e desfruta o cenário.
Assim que acabou de falar, viu uma figura que se tornara
demasiado familiar, e que ia a atravessar a pista. Era Vogel,
seguido por um dos agentes da Gestapo que Indy vira no
aeroporto. O seu corpo ficou rígido quando viu que os dois
homens estavam a entrar no dirigível.
Teve a sensaçäo de que a viagem näo ia ser para
brincadeiras.
CAPíTULO XVI
ACROBACIAS AÉrEAS
- É aqui - disse ele ao pai.
Saiu do compartimento antes que Henry tivesse tempo de dizer
alguma coisa, pensando a toda a velocidade enquanto tentava
arranjar um plano. A sua única vantagem era saber que Vogel
estava a bordo. Näo fazia ideia de como usar este tipo de
informaçäo, mas tinha a certeza de que haveria de descobrir
alguma coisa antes que fosse tarde de mais. Sempre o fizera,
por que näo agora?
Era como os gatos, tinha sete vi das. "Sete vidas!" Será que
já näo as esgotei todas?
Mal acabou de sair do compartimento avistou Vogel avançando
pelo corredor. O homem vinha ao seu encontro. Entrou numa
porta que ostentava uma tabuleta indicando que era apenas
destinada aos membros da tripulaçäo. Quando o coronel nazi
passou em frente à porta, Indy ouviu um criado de bordo
dizer-lhe que o dirigível estava prestes a descolar e que
deveria arranjar um lugar
116
Abriu uma nesga da porta e viu Vogel atrás de dois outros
passageiros retardatários, dirigindo-se para o mesmíssimo
compartimento que acabara de deixar.
- Oh, meu Deus! - murmurou, interrogando-se sobre a forma
como o pai iria lidar com Vogel.
Antes de poder fazer alguma coisa, o criado de bordo
escancarou a porta e quase foi ao seu encontro.
- Que está a fazer? - perguntou o homem em voz alta, falando
alemäo. - Está na sala da tripulaçäo, näo sabia? Estamos
prestes a descolar. Por favor...
Indy apontou para o tecto e o homem levantou os olhos.
Quando isto aconteceu, Indy aplicou-Lhe um murro nos queixos.
Detestava atacar indivíduos inocentes, mas, com Vogel sentado
ali perto, sabia que tinha de tratar do homem o mais depressa
que podia.
Ao contrário do mordomo, o criado limitou-se a recuar um
pouco. Com a preocupaçäo de näo o magoar, näo lhe batera com
força suficiente. O homem endereçou-lhe um olhar esgazeado, e
depois esmurrou-o. Indy aparou o golpe, e desta vez deu-lhe um
murro poderoso no rosto. O indivíduo caiu no chäo,
inconsciente.
Alguns minutos mais tarde, quando o dirigível se elevou na
pista, Indy regressou ao compartimento onde o pai se
encontrava. Contudo, envergava o chapéu e o casaco do criado.
Para variar, as roupas emprestadas caíam-lhe a matar.
- Os bilhetes, por favor. Podem mostrar-me os vossos
bilhetes? - disse ele em alemäo.
Henry espreitou por cima da revista que estava a ler, e
esbugalhou os olhos quando viu quem era o revisor. Indy fez um
sinal com a cabeça quando o pai lhe entregou o bilhete.
- O seu bilhete, cavalheiro - disse para Vogel, ao mesmo
tempo que estendia a mäo.
O coronel olhou para cima, reconheceu-o e meteu a mäo no
bolso, procurando a pistola. No entanto, Indy agarrou-lhe o
braço, segurou-lhe os colarinhos e levantou-o do assento.
Tirou-lhe a pistola, e, ajudado pelo pai, atirou Vogel
dajanela. O coronel aterrou na pista.
Os outros passageiros que estavam no compartimento recuaram,
espantados e assustados com o comportamento agressivo do
revisor de pronúncia estranha.
Ele sorriu e encolheu os ombros.
- Näo tinha bilhete.
Nesse mesmo instante todos os que se encontravam no
compartimento puxaram dos bilhetes, e colocaram-nos debaixo do
nariz de Indy.
æ medida que os recolhia, olhou pela janela e viu Vogel de
gatas vendo o dirigível elevar-se.
- Para a próxima veja se arranja bilhetes antes -
gritou-lhe.
117
Saiu do compartimento e olhou para a sala da tripulaçäo.
Ainda näo sabia o que iria fazer a seguir. Vogel näo estava
sozinho.
Alguns minutos mais tarde, o agente da Gestapo precipitou-se
pelo corredor. Passou pela cabina da tripulaçäo e parou alguns
passos mais à frente. Parecia preocupado e de mau humor, e näo
era preciso ser-se um génio para descobrir porquê. Ao fim e ao
cabo, o pobre diabo näo fora capaz de o encontrar a ele e ao
pai e agora nem sequer conseguia encontrar Vogel.
Indy saiu de onde estava e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
Estava pronto a agredi-lo com o punho da Luger, quando um
dos passageiros que o vira atirar Vogel pela janela saiu do
compartimento vizinho. Indy pediu o bilhete ao agente da
Gestapo.
- Näo preciso de bilhete - resmungou ele.
O passageiro continuou a avançar, dirigindo-se para a casa
de banho.
- Vai arrepender-se - murmurou ele ao agente.
- Pode ter a certeza - disse Indy, atingindo o agente com a
Luger. O homem caiu. Indy arrastou-o para o compartimento da
tripulaçäo, tirou-Lhe a arma e abriu o armário. Lá dentro
estava o criado de bordo amarrado e amordaçado.
- Companhia. - Colocou o agente num dos cantos.
O criado estava completamente consciente e tentava gritar.
Indy abanou a pistola por cima da sua cabeça e ele acalmou
imediatamente.
Reparou no amontoado de fios que partiam de um transmissor
de rádio e arrancou-os. Foi entäo que viu um casaco de cabedal
pendurado num cabide. Näo conseguiu resistir e experimentou-o.
Assentava-lhe como uma luva.
No bar do dirigível, Indy entretinha-se a escutar as
façanhas de um ás da aviaçäo que combatera na primeira guerra
mundial.
Alguns ouvintes interessados iam-lhe fornecendo bebidas
atrás de bebidas, e as histórias tornavam-se cada vez mais
fantásticas.
O criado chegou, trazendo as bebidas para ele e para o pai,
que se encontrava a algumas mesas de distância do aviador,
agora já completamente bêbado. Ambos tinham optado por bebidas
näo alcoólicas. Nenhum deles tinha a certeza de terem
despachado os nazis. Se assim fosse, óptimo. Mas se tinham
ainda de enfrentar complicaçöes, queriam permanecer o mais
alerta possível.
Henry estava täo embrenhado no diário do Graal, que nem
reparou que as bebidasjá tinham chegado. Ocupava-se das
páginas que descreviam as armadilhas mortais que defendiam o
Graal. De vez em quando murmurava qualquer coisa para si
mesmo, e tudo isto fazia Indy lembrar-se da infância,
118
do pai encerrado no escritório, perdido num passado remoto.
Disse para consigo que havia coisas que nunca mudariam.
Olhou para fora dajanela e viu que vários farrapos de nuvens
brancas e brilhantes passavam pelo dirigível. Pensou em Elsa,
no que esta poderia estar a fazer, se se lembraria dele.
Apesar de a ter visto com Hitler, acreditava que o seu
interesse principal fosse o Graal, uma obsessäo que
compreendia perfeitamente, dado que era uma característica que
ela tinha em comum com o pai. No entanto, näo podia aceitar a
sua ligaçäo com o homem que, depois de Ghengis Khan, era o ser
humano mais odioso que pisava a face da terra.
Voltou-se, tentando esquecer os seus desejos secretos. Olhou
para o diário, e concentrou a sua atençäo na caligrafia
miúdinha do pai, a qual transcrevia olatim medieval. Estavam
ali representados três diagramas complexos que näo tinham
qualquer sentido para ele. As únicas coisas que entendia eram
os títulos. O primeiro chamava-se O Pêndulo, o segundo Os
Godos, e o terceiro A Ponte Invisível.
Estava prestes a pedir uma explicaçäo ao pai, quando este o
encarou.
- Partilhar as tuas aventuras é uma experiência
interessante.
- Näo säo tudo o que temos partilhado - retorquiu Indy, de
novo a pensar em Elsa. - A propósito, que foi que ela disse
durante o sono?
- Mein Führer.
- Dá para tirar conclusöes. - Voltou a pensar nos últimos
momentos que passara com ela em Berlim. Tinha a certeza de que
ela estava a ser sincera, e no entanto...
- Desiludido, näo? Bom, tratava-se de uma mulher muito bela,
e eu sou täo humano como qualquer um.
- Sim, e eu fui um "qualquer um" que se seguiu.
Henry sorriu como se estivesse a pensar na sua própria
experiência com ela.
- Amores passageiros. Será que podemos beber a isso?
Levantou o copo e Indy fez o mesmo. Encostaram os copos.
- Aos amores passageiros - repetiu Indy.
O pai pigarreou e endireitou os ombros.
- Bom, vamos voltar ao trabalho.
Inclinou-se sobre o diário e começou a ler. "Os desafios säo
três. Primeiro, o sopro de Deus, e só o penitente o passará.
Segundo, a palavra de Deus, e só aquele que seguir as pisadas
de Deus terá sucesso. Terceiro, o caminho de Deus, e só quem o
passar saltando da cabeça do leäo, provará o seu valor."
- Que quer isso dizer?
Henry bateu ao de leve na página.
- Acho que o descobriremos quando chegar a altura.
119
A luz do Sol filtrava-se pelas nuvens, lançando um raio
através dajanela, dividindo a mesa em partes iguais de sombra
e luz.
Quando Indy estendeu a mäo para agarrar uma bebida, reparou
que o raio se movia no sentido dos ponteiros do relógio.
Bastante intrigado, ficou a observar o fenómeno. Foi entäo
que, de repente, compreendeu o seu significado.
- Pai!
- O quê?
- Estamos a dar a volta. Estäo a levar-nos de novo para a
Alemanha.
Levantaram-se da mesa imediatamente e precipitaram-se para
os alojamentos da tripulaçäo. O armário fora arrombado , e
tanto o agente da Gestapo como o criado de bordo tinham
desaparecido. Olhou em volta e reparou que os fios eléctricos
haviam sido reparados.
- Merda.
- Ah... Júnior. Acho que temos um problema.
- Eu sei. Eu sei. Näo precisas de mo dizer - retorquiu,
tentando descobrir o que deveria fazer.
- Näo, näo estás a compreender. Deixei o diário no bar.
- o quê?
Henry fez um sorriso apagado e gaguejou.
- É verdade, receio bem que sim.
"Boa malha, pai."
- Está bem, deixa-te ficar aqui. Eu volto já. -
Precipitou-se pelo corredor, de volta ao bar. Começou a
empurrar a porta, mas ouviu vozes e parou. Olhou lá para
dentro e viu o agente e uma série de membros da tripulaçäo bem
no meio da sala, perto da mesa que ele e Henry haviam acabado
de abandonar. O diário estava lá em cima, mas ninguém parecia
reparar.
O agente pediu para todos prestarem atençäo.
- Temos espiöes a bordo! Aqueles que säo leais ao führer, ao
Reich e à Alemanha que me sigam imediatamente.
Alguns passageiros blazzé levantaram a cabeça, voltando
depois a ocupar-se das suas conversas e cocktails, ignorando
as ordens do agente. O único que respondeu ao apelo foi o
aviador da primeira guerra, que se levantou a custo do banco
que ocupava frente ao balcäo do bar, e seguiu em frente a
cambalear.
Indy sabia que tinha de agir rapidamente. Levantou a gola do
casaco de cabedal, e pegou num lenço. Quando entrou na sala,
fingiu ocultar um espirro no lenço, mantendo sempre a cabeça
baixa.
Ouviu o agente a dar ordens.
- É aí - apontou para Indy. - E vens connosco. Andamos à
procura de espiöes americanos.
Ele mantinha o lenço junto ao nariz.
- Estou constipado - respondeu, em alemäo. - Desculpem.
120
-Estendeu a mäo e enfiou o diário no bolso. Identificou o
homem que estava junto ao agente como sendo o criado de bordo
que agredira. Estava agora de camisola interior, e, à medida
que examinava Indy, o seu rosto tinha uma expressäo intrigada.
- Vou montar guarda no meu compartimento - disse, avançando
na direcçäo da porta.
- É ele - gritou o criado. - Façam-no parar!
Contudo, Indy já abandonara a sala e corria pelo corredor.
Voltou a entrar no compartimento da tripulaçäo, e olhou em
volta à procura de Henry.
- Pai, onde estás?
Henry pôs a cabeça de fora do armário.
- Conseguiste?
- Sim, mas acho que consegui muito mais que isso. - Indy
vasculhava à sua volta à procura de um esconderijo.
- Sarilhos, queres tu dizer?
- Näo mais que o costume.
Bastante depressa, pegou numa cadeira, subiu-lhe para cima,
e elevou-se através de uma escotilha. Voltou-se para trás com
vista a ajudar o pai.
- Mais outra chaminé näo - queixou-se este.
Indy elevou através da abertura, e depois trepou até ao cimo
da escotilha. Rastejaram através da parte superior desta, e
encontraram-se na "barriga" do dirigível. A sua pele estava
ligada a uma estrutura de metal bastante elaborada, e o hélio
era transportado através de estreitos canais que partiam de
enormes bilhas de gás.
Maravilhado, Henry parou por um instante. Indy espreitou
pela escotilha e viu o agente e o criado de bordo a olhar para
cima. Pegou no pai pelo braço e começaram a correr, seguindo
por um dos canais. Contudo, näo foram suficientemente rápidos.
O agente puxou de uma pequena arma que guardava presa ao
tornozelo e apontou-a a Indy. Estava prestes a disparar,
quando o criado de bordo lhe empurrou o braço.
- Nein! Nein!
Indy olhou por cima do ombro e viu o criado apontar para uma
bolsa de gás, fazendo depois um gesto com os braços:
- Kaboom!
O canal terminava junto a duas portas que davam para o
exterior do dirigível. Atrás deles ouvia-se o som de passos.
Abriu uma das portas e agarrou-se à ombreira assim que o vento
o atingiu. Estava frente a frente com um céu muito azul e
nuvens brancas.
A alguns pés mais abaixo viu os bimotores suspensos dos
ganchos, que, por seu turno, estavam agarrados a uma armaçäo
de metal. Indy apontou para o que estava mais próximo, o que
tinha na fuselagem a figura de um pelicano com as asas
abertas.
- Pai, é melhor desceres. Vamos dar uma volta.
121
Quando espreitou pela porta, Henry fez um ar horrorizado. -
Näo sabia que eras capaz de pilotar um aviäo.
"Pilotar, sim. Aterrar näo."
- Vamos andando.
Henry aventurou-se a sair do dirigível, e começou a descer
uma escada de metal que levava ao aparelho. Com o coraçäo nas
mäos, Indy ficou a observá-lo. Foi entäo que desviou os olhos.
Se o pai caísse, näo o poderia ajudar, e näo queria presenciar
a cena.
Olhou para trás e viu que o pai chegara ao bimotor säo e
salvo.
Estava prestes a segui-lo quando o agente da Gestapo o
agarrou por um braço e o tentou puxar para trás. Conseguiu
escapar-se e empurrou o homem. Estava prestes a concluir a
descida, quando o criado de bordo desceu as escadas e se
deixou cair em cima dele, enrolando-lhe o braço em torno do
pescoço.
Agarrou-se às escadas e, para sua surpresa, viu que o pai
subia ao seu encontro. Henry agarrou o outro pela parte de
trás do colarinho, e empurrou-o dali.
O criado perdeu o equilíbrio e precipitou-se no espaço, os
braços abertos, tentando encontrar algo que o impedisse de
cair.
Agarrou-se a um suporte que se elevara por cima do gancho
que segurava o aviäo. Ficou com as pernas suspensas no ar.
Espantado, Indy ficou a olhar para o pai.
- Olha só o que fi zeste - gritou.
Henry desceu até ao cockpit da retaguarda, e Indy deu um
salto que o fez aterrar no da frente. Encontrou a igniçäo e
ligou-a. O propulsor fez um ruído, gaguejou um pouco e começou
a trabalhar.
Enquanto Indy procurava a alavanca para se soltar do gancho,
o pai gritou-lhe qualquer coisa. Levantou a cabeça, e viu que
o agente estava junto à porta, apontando-Lhe a arma, ao mesmo
tempo que a tentava resguardar do vento. Disparou, mas o tiro
falhou. Indy encontrou a alavanca e puxou-a, soltando o
aparelho.
Subitamente, afastaram-se do dirigível, deixando atrás deles
o agente e o funcionário pendente.
Indy olhou à sua volta e viu o piloto da primeira grande
guerra mover-se na direcçäo de uma passagem colocada no
exterior do dirigível e descer para o segundo aviäo. Fez sinal
ao agente da Gestapo para que o seguisse.
O agente, tentando imitar Indy, saltou do canal para o
cockpit da retaguarda. Caiu com toda a força, e os seus pés
atravessaram o fundo da fuselagem, ficando ele com metade do
corpo suspenso no ar.
O ás da aviaçäo näo se apercebeu do que se passara e
libertou o aviäo dos ganchos. Estava täo bêbado que se
esqueceu de ligar o motor. Nesse mesmo instante, o aparelho
começou a descrever círculos na direcçäo do solo. Indy sabia
122
que, apesar de toda a sua experiência, o piloto näo seria
capaz de ligar o motor e recuperar daquele tombo. Em menos de
um minuto, o aviäo abateu-se contra a encosta de uma montanha,
soltando chamas e desperdícios.
O plano de Indy consistia em se afastarem da Alemanha o mais
depressa que o bimotor permitisse e aterrar o mais perto
possível de Iskenderun. Näo estava muito entusiasmado com a
aterragem. Decidira realizá-la num campo e näo num aeroporto,
pois queria evitar que lhe fizessem perguntas. A última coisa
que queria era chamar as atençöes e fazer que os nazis lhes
voltassem a seguir o rasto.
Ouviú o pai gritar-lhe qualquer coisa. Virou-se, e viu Henry
baixar e levantar o polegar. Indy sorriu e levantou o polegar,
pleno de confiança. Contudo, o outro abanou a cabeça.
Foi entäo que compreendeu. O pai estava a apontar para cima,
e a gritar qualquer coisa que ele näo compreendia. No entanto,
aquilo que lhe chegava aos ouvidos era tanto um rugido como um
gemido. Näo via nada à sua frente, mas o som era cada vez mais
forte. Voltou a inclinar a cabeça para trás.
Aparecéram dois bombardeiros de combate Messerschmitt,
vindos das nuvens, e riscaram o céu. Indy e Henry afundaram-se
nos assentos quando os pilotos passaram por eles a gritar.
- Dispara a metralhadora - gritou Indy.
Henry olhou para a arma, tentando descobrir como esta
funcionava.
Indy voltou-se e apontou para a metralhadora.
- Afasta essa patilha e puxa o gatilho.
O facto de o aparelho ser pequeno e lento, era algo que
funcionava a seu favor. Os dois Messerschmitt
ultrapassaram-nos e desapareceram nos ares. Indy sabia que ia
demorar algum tempo até eles estarem de volta. Mas também
sabia que os pilotos o voltariam a encontrar. æ segunda
passagem Henry fez pontaria a um dos bombardeiros. Carregou no
gatilho e disparou de encontro ao que passou em primeiro
lugar. A arma explodiu com uma força tal que quase o atirou
para fora do assento. O Messerschmitt inclinou-se para a
esquerda, e Henry rodou a metralhadora.
Continuou a disparar, falhou o alvo e, sem querer, destruiu
o estabilizador da retaguarda do seu próprio aviäo.
- Fomos atingidos? - gritou Indy.
- Mais ou menos.
Indy olhou por cima do ombro, e viu a parte que faltava na
cauda do aviäo. Depois encarou o pai. O coraçäo caiu-Lhe aos
pés, mas näo demorou muito a voltar ao lugar. "Más notícias,
pai. Mesmo más."
- Filho, desculpa. Apanharam-nos.
123
Indy tentava controlar o aviäo enquanto este ia descendo a
toda a velocidade.
- Aguenta-te. Ainda näo nos fomos abaixo.
Cerca de quinhentos pés mais abaixo, Indy viu uma estrada
pavimentada. Era a única esperança que tinham. Para falar com
franqueza, e dado que era para lá que o aviäo se dirigia, era
a sua única saída. Fez o melhor que podia para estabilizar o
aviäo, e aterraram de barriga para baixo. O aeroplano
descontrolou-se e foi esmagar-se no parque de estacionamento
de um restaurante.
Indy sentiu-se abanar devido ao impacte, mas mesmo assim
conseguiu rastejar para fora do aparelho. Ajudou o pai a fazer
o mesmo.
- Pai, estás bem?
- Acho que ainda estou inteiro - respondeu, enquanto se
afastava do aviäo.
Ele sabia que tinham de sair dali o mais depressa possível.
Avistou um cliente que estava prestes a partir, e acenou-lhe.
Quando o homem saiu do automóvel, saltou para trás do volante.
Contornou o parque, apanhou o pai, e carregou a fundo no
acelerador.
O homem perseguiu-os, a gritar e a abanar o punho. Minutos
mais tarde, apareceram os Messerschmitt, voando a baixa
altitude e a fazer fogo. Pelo retrovisor, Indy viu o dono do
carro mergulhar de cabeça na estrada, e deixar-se escorregar
para a berma, isto enquanto os pilotos alvejavam o parque,
cobrindo os carros de buracos.
Indy carregou no acelerador e agarrou-se ao volante com
ambas as mäos. Concentrou a sua atençäo na estrada, enquanto
Henry andava de um lado para o outro aos solavancos.
- Já estamos a salvo?
- Espero que sim.
Ouviu um zumbido característico dos Messerschrnitt, e deitou
uma olhadela ao retrovisor. Um dos pilotos dirigia-se ao seu
encontro.
- Merda!
- Que foi?
O carro foi copiosamente metralhado, mas eles escaparam
quase que por milagre. Quando o aviäo se afastou, os buracos
que as balas haviam deixado no telhado permitiam a entrada dos
raios de sol.
- Meu Deus - gemeu Henry. - Levem-me para Princeton.
Isto näo é forma de viver.
O ruído provocado pelo Messerschmitt fez que Indy ficasse
arrepiado.
- Lá vem o outro.
124
Foi entäo que viu um túnel que se estendia por uma das
encostas da montanha. Voltou a carregar no acelerador e
precipitou-se para ele. Contudo, os pilotos näo os largavam,
sempre a fazer fogo.
Entraram no túnel e saíram do alcance das armas.
- É melhor ficarmos aqui - disse Henry.
Mas nem mesmo o túnel era um local seguro. Minutos mais
tarde, ouviram um estrondo enorme. O aviäo näo conseguira
elevar-se a tempo. Fora de encontro à estrada do túnel,
perdendo as asas. A fuselagem entrou por ali dentro como se
fosse uma bala no cano de uma pistola. Elevaram-se chispas à
medida que o aparelho riscava o chäo e as paredes do túnel.
Depois afuselagem incendiou-se.
O retrovisor mostrava uma enorme bola de fogo que se
aproximava cada vez mais. O carro seguia à velocidade máxima,
näo era possível ir mais depressa. Indy atirou-se para a
frente, exactamente como se o peso do seu corpo pudesse
aumentar a velocidade da viatura. Apertava o volante com tanta
força que asjunçöes dos dedos estavam brancas.
No preciso momento em que a bola de fogo os ia atingir, o
carro saiu do túnel. Indy guinou para a berma da estrada, e
tentou a custo manter o controlo da viatura. A fuselagem em
chamas passou por eles a toda a velocidade, atingiu uma árvore
e explodiu.
Indy voltou a tomar a estrada e foi ao encontro de uma
coluna de chamas e fumo oleoso. Passou a toda a velocidade, e
chegou ao outro lado com os olhos esbugalhados e o coraçäo a
bater de encontro ao peito.
Henry estava com ar de quem ia ter um ataque.
- Já näo podem chegar mais perto.
- Näo contes muito com isso - respondeu-lhe o filho quando
viu o outro aviäo rugir ao encontro deles.
O piloto deixou cair uma bomba. Esta explodiu mesmo em
frente a eles, falhando apenas por alguns metros. Indy guinou
o volante para a direita. A viatura passou através de uma
cancela ferroviária e precipitou-se por um aterro abaixo.
Ficaram suspensos no ar durante uns segundos. Indy pensou que
tudo aquilo chegara ao fim, e fechou os olhos.
Quase no mesmo instante em que deixou a estrada, o carro
aterrou com um baque na areia macia de uma praia mediterrânica
deserta. Os dois homens saíram do veículo. Indy levou a mäo à
cabeça no local onde batera de encontro ao volante. Näo se via
ninguém numa extensäo de quilómetros e quilómetros. A praia
estava cheia de gaivotas que tinham transformado a areia num
campo de corpos brancos e cheios de penas.
Indy voltou a ouvir aquele som agoirento, e olhou para trás
mesmo a tempo de ver um Messerschmitt aproximar-se para mais
um reencontro. Pai e filho trocaram um olhar mudo. Nem sequer
125
pensaram em fugir. Näo havia ali local onde se pudessem
esconder.
Indy pegou na arma. Estava vazia.
O piloto começou a descer. Estava apenas a alguns metros da
zona de rebentaçäo das ondas.
De súbito, Henry correu para as gaivotas, agitando as mäos.
Parecia louco, gritando desalmadamente.
Assustadas, as aves elevaram-se em massa. Eram milhares
delas a bater as asas, e, nesse preciso momento, o aviäo
apareceu à frente deles. Os projécteis lançados pelas
metralhadoras levantavam colunas de areia.
Foi entäo que se deu o encontro entre o artilheiro e as
gaivotas. Registou-se um massacre. Centenas de aves foram
rasgadas pelas lâminas propulsoras do aparelho. Uma papa
composta por penas vermelhas e brancas colou-se ao vidro da
frente do aviäo, e entupiu o motor.
O Messerschmitt parou de disparar a apenas a alguns passos
de Indy e de Henry. Os motores pararam. O aparelho
despenhou-se para lá de um talude.
Momentos mais tarde, o silêncio foi abalado por uma
explosäo. æ distância, elevaram-se chamas e fumo.
Completamente esgotado, Indy deixou-se cair na areia. Henry
foi ter com ele e sentou-se ao seu lado.
- Lembrei-me de Carlos Magno. "Que o meu exército seja
composto por rochas, árvores, e também pelas aves do céu."
Ele olhou na direcçäo do bombardeiro em chamas.
- Já nessa altura era uma boa máxima. Hoje continua a sê-lo.
Hatay
CAPíTULO XVII
FORÇAS CONVERGENTES
No mesmo dia em que Indy e Henry fugiam da Alemanha, Marcus
Brody chegava de comboio a Iskenderun. Estava completamente
exausto, e o seu maior desejo era estar de novo em Nova
Iorque, na segurança do seu museu. Os problemas que enfrentava
no quotidiano näo eram nada quando comparados com as
frustraçöes por que passara. E quem poderia saber o que ainda
o esperava, a ele e a Sallah.
Isto se chegasse a encontrar Sallah.
Deveria ter chegado com pelo menos um dia de antecedência,
mas apanhara o comboio errado à saída de Veneza, e, antes de
poder dar-se conta do engano, estava em Budapeste. Aí, perdera
mais um dia antes de embarcar no comboio certo. Viajara sem
parar durante todo o dia e toda a noite, sem esquecer cerca de
metade do dia seguinte. Acabara por chegar ao seu destino, e,
assim que desembarcou, pressentiu que a afirmaçäo que fizera
de que iria encontrar o Graal fora precipitada e bastante
irrealista.
Os olhos ardiam-lhe à medida que caminhava ao longo da
plataforma, por entre uma multidäo de hatais e árabes. Corpos
vestidos com roupas flamejantes misturavam-se numa massa
compacta. Pareciam estar empenhados numa qualquer actividade
misteriosa, e apenas ele, Marcus Brody, estava de fora,
confundido e deslocado. Esfregou os olhos. Aquilo que lhe
apetecia mesmo era um duche quente, uma boa refeiçäo, e cerca
de vinte horas de sono.
Sentia-se enervado e deprimido por ter deixado Indy e Henry
ficarem mal. Já deveria ter encontrado o Graal, ou pelo menos
ter chegado perto. Em vez disso, näo conseguia sequer
encontrar Sallah. Mas ele era um estudioso que dirigia um
museu, e näo um geógrafo. Nem sequer era um explorador. E, de
maneira nenhuma, um aventureiro.
Precisava de um guia.
- Mr. Brody! Marcus Brody!
Levantou os olhos, espantado por ver Sallah atravessar a
multidäo e dirigir-se ao seu encontro.
126 127
Ficou täo aliviado por ver um rosto familiar, que quase se
atirou de braços abertos para o outro. Aqui estava algo que
nunca faria nem em Nova Iorque, nem na sua Londres natal.
- Meu bom amigo, gosto tanto de te voltar a ver. - "Nem
calculas quanto, Sallah."
Apertaram as mäos e depois Sallah abraçou-o. Brody deu-lhe
uma palmada nas costas. Os braços mal rodeavam as costas do
outro. Corou e sorriu estupidamente, embaraçado com aquela
demonstraçäo pública de afecto.
- Marcus, por onde tens andado? - O outro afastou-se
ligeiramente e observou-o de alto a baixo. - Tenho estado à
tua espera. Tenho estado preocupado.
Sallah era um homem enorme, de olhos e cabelos pretos e com
feiçöes nitidamente mediterrânicas. A sua voz de barítono e as
gargalhadas profundas que o caracterizavam, junto com a sua
reputaçäo de lealdade, fizeram Brody sentir-se melhor.
Tratava-se de um homem conhecido pela feroz dedicaçäo que
nutria pelos amigos, e por ser um inimigo declarado de todos
os que se Lhes opunham.
- Atrasei-me. O Indy já chegou?
Sallah abanou a cabeça.
- Näo, achei que viria contigo.
Brodyjá näo se sentiu täo mal. Mesmo assim, conseguira
chegar antes de Indy.
- Atrasou-se.
- Ah, sim. Atrasou-se. - Riu. Pegou nabagagem do outro com
uma facilidade tal que poderia pensar-se que as malas estavam
vazias.
- Tipicamente britânico - acrescentou, sorrindo.
Deixaram a estaçäo e encontraram-se num mercado ao ar livre.
As bancas dos vendedores estavam por toda a parte, e as
pessoas gritavam e abanavam os seus produtos. O cheiro a fruta
madura e a vegetais a cozer ao sol elevou-se em torno de
Brody, o que o fez sentir-se enjoado e tonto. Sentia-se como
se tivesse chegado a outro planeta, e fazia-lhe falta o seu
museu, o silêncio frio das peças que lhe estavam confiadas. O
mundo em que estavam näo era o seu. Nada tinha a ver consigo.
Sallah informou-o de que tudo o que tinham discutido quando
Brody lhe telefonara do Cairo estava pronto, e que se
encontrava desejoso de que a viagem começasse.
- Assim... - Parou a meio da frase. Dois matulöes de casacos
canelados estavam a bloquear-lhes o caminho.
- Os papéis, por favor - disse um deles num tom ameaçador,
128
e estendeu a mäo.
- Os papéis? - Sallah acenou. - Claro. Tenho alguns mesmo
aqui. Acabei agora de os ler.
Tirou o jornal de debaixo do braço, e exibiu-o frente à cara
dos agentes.
- Corre - murmurou para Brody.
Voltou-se para os homens, sorriu, e abanou o jornal.
- O Cairo Express. A ediçäo da manhä. Traz montanhas de
notícias interessantes.
Brody franziu o sobrolho.
- Importas-te de repetir?
- Corre! - desta vez, foi obrigado a gritar.
Brody voltou-se, mas näo chegara a dar um passo quando um
dos homens o agarrou pelo colarinho e o puxou para trás.
Sallah atirou-se aos rufiöes, esmurrando-os com força. Os
transeuntes dispersaram-se, e assim que a escaramuça se
estendeu pelo mercado, as bancadas dos vendedores começaram a
voltar-se. Rolos de seda bastante cara e de algodäo colorido
espalhavam-se na lama.
Brody abriu caminho através da multidäo excitada e faladora.
Tentava descobrir uma forma de ajudar Sallah, mas näo se
conseguia lembrar de nada. Näo tinha força suficiente para
enfrentar ambos os homens, e, para mais, o outro dissera-Lhe
para fugir. Avançara através de tendas e vendedores, e acabou
por se refugiar no patamar de uma escada.
Continuava a poder observar aluta, e acabou por descobrir
Sallah no preciso momento em que ia chocar de encontro a um
camelo. O impacte pô-lo fora de combate o tempo suficiente
para que os outros o alcançassem. No entanto, näo demorou
muito para recuperar do choque, e esmurrou o camelo no nariz.
O animal inclinou a cabeça para trás e cuspiu uma enorme bola
de saliva. Esta atingiu um dos rufiöes no rosto. Sallah
afastou-se a correr, e Brody abanou um dos braços, na
esperança de ser notado.
Sallah levantou a mäo como para dizer que o reconhecera, e
avançou ao seu encontro, apontando com o dedo para uma porta
escura situada ao cimo de uma rampa. A entrada estava tapada
por uma cortina.
- Afasta-te, depressa! Sai daí!
Brody näo se sentia particularmente disposto a esconder-se
ali, mas o outro continuava a gritar. Assim, ele deixou o
esconderijo, e subiu a rampa a correr. Ocultou-se atrás da
cortina, e pós a cabeça de fora. Sallah deixara de prestar
atençäo aos homens que o seguiam, e estes acabaram por o
apanhar. Caíram sobre ele como se de animais se tratassem,
batendo-lhe com os punhos e pequenos tacos de madeira.
Contudo, Sallah näo oferecia qualquer resistência. Continuava
a agitar as mäos freneticamente,e a gritar qualquer coisa que
Brody näo compreendia.
Um grupo de soldados nazis que ali estava perto foi socorrer
os rufiöes. Brody sabia que o amigo näo tinha hipóteses.
129
Hesitou, desejando fazer alguma coisa por ele, mas sabia que
era escusado. Näo quis continuar a olhar para aquilo.
Escondeu-se atrás da cortina, e deu meia volta. Antes de poder
compreender onde estava, ouviu uma porta fechar-se atrás de
si. Estava dentro de um camiäo, e na parede podia ver-se um
estandarte nazi, vermelho e preto.
Sallah levantou a cabeça. Doía-lhe o corpo todo. Sangrava.
As narinas estavam cheias de pó. Os matulöes tinham-se ido
embora, mas haviam capturado a sua presa. Brody compreendera-o
mal, correndo direitinho para as mäos dos nazis, ao invés de
se afastar. O camiäo acabara por desaparecer, e Marcus Brody
estava lá dentro.
No outro dia, no centro de um pátio a várias milhas de
Iskenderun, o sultäo da regiäo estava sentado no trono. Este
era vermelho e de espaldar alto, facto que conferia uma enorme
imponência ao sultäo, um homem reservado cujos olhos definiam
de certa forma o seu sangue real. Tinha uma enorme barba
branca que lhe descia até ao peito. Vestia um casaco
vermelho-escuro bordado a ouro nas mangas e na frente, e
dragonas nos ombros. æ cintura, tinha uma faixa vermelha e
dourada, e usava um chapéu cilíndrico que condizia com o
casaco.
Estava rodeado pelas escravas do harém, e à sua frente
estava um americano com quem já se encontrara por mais de uma
vez durante as suas viagens.
- Que posso fazer por si, Mr. Donovan? Conforme lhe disse da
última vez que conversámos, näo estou interessado em vender
objectos de arte.
Donovan acenou.
- Compreendo. Majestade, tenho aqui algo que gostaria de lhe
mostrar.
Entregou-lhe as páginas que faltavam do diário do Graal.
- Estas páginas foram tiradas do diário do professor Henry
Jones. Incluem um mapa que dá a localizaçäo precisa do Cálice
do Graal.
O sultäo observou o mapa com um interesse superficial. O
facto de o cálice se encontrar no seu território näo o
surpreendia Para falar com franqueza, desde que, em criança,
descobrira que nascera no seio de uma família rica e poderosa,
numa terra em que a maior parte das pessoas nasciam em
famílias com muito pouco ou mesmo nada, nada mais o
surpreendera. Era um privilegiado e aceitava esse facto.
Enrolou o mapa e devolveu-o. - E onde foi que o obteve?
130
Donovan virou-se e acenou na direcçäo do grupo que estava
junto à entrada do pátio. Encontravam-se ali várias pessoas,
entre as quais Elsa Schneider, vários guardas nazis, e Marcus
Brody. Era evidente que este último estava a ser guardado.
- O homem que está no meio é um emissário do dr. Jones. Foi
Indiana Jones, o filho do dr. Jones, quem Lhe deu as páginas.
- E que estava ele a fazer com elas?
- Capturámo-lo em Iskenderun. Estava prestes a roubar a taça
do Graal do seu território.
- Estou a ver.
O cálice näo significava muito para si. Claro que já ouvira
falar dele, e sabia de uma história antiga que dizia que este
tinha poderes especiais. Contudo, näo acreditava em
superstiçöes. Tratava-se apenas de mais uma taça de ouro
destinada a um museu ou a uma colecçäo particular. Ele era um
homem moderno, muito mais interessado em coisas novas e
actualizadas, objectos com um poder real e imediato.
No entanto, estava igualmente consciente das leis da oferta
e da procura. Era óbvio que Donovan estava interessado no
Cálice do Graal. Dado que mais de um grupo mostrava interesse
pelo cálice, o valor deste era maior do que o seria se apenas
um grupo o quisesse. Sabia exactamente qual a posiçäo que
ocupava no assunto - estava mesmo no centro - e se Walter
Donovan queria ir para o deserto e encontrar o velho cálice, o
facto ia sair-lhe caro. Näo tinha quaisquer dúvidas a este
respeito.
- E que pretende fazer? - perguntou, como se já näo
soubesse.
O outro pigarreou.
- Tal como pode ver, o Graal näo está na nossa posse.
Contudo, Majestade, näo seríamos capazes de entrar no vosso
território sem que nos désseis autorizaçäo, nem levaríamos o
cálice das vossas fronteiras sem vos recompensarmos
devidamente.
O sultäo olhou para lá de Donovan.
- Que foi que me trouxeram?
O americano voltou-se e fez sinal aos soldados nazis.
- O baú, por favor.
Dois dos homens transportaram um enorme baú até aos pés do
sultäo. Donovan fez-Lhes sinal para abrirem o fecho.
Os guardas seguiram as suas ordens e levantaram a tampa.
Dado que o sultäo näo fez qualquer movimento para
inspeccionar o que este continha, o americano pediu aos
soldados que o esvaziassem. Nos minutos que se seguiram, os
homens movimentaram uma grande quantidade de objectos de ouro
e prata. Havia taças e candelabros, tijelas, pratos, chávenas,
caixas preciosas dos mais variados tamanhos, bem assim como
espadas e facas.
- Todos estes bens, Majestade, foram doados por algumas das
melhores famílias da Alemanha.
O sultäo levantou-se do trono e passou pelo baú e pelas
doaçöes. Dirigiu-se directamente para um carro nazi que estava
131
estacionado numa das esquinas do pátio, e começou a
inspeccionar.
- Daimler Benz 320 L. - Levantou a capota e observou o
motor. - Ah, 3,4 litros, cento e vinte cavalos, seis
cilindros. Passa de zero a cem quilómetros em apenas quinze
segundos.
Voltou-se para Donovan, que o seguira, e sorriu.
- Até da cor gosto.
O americano compreendeu tudo imediatamente. Era evidente que
o sultäo näo se ia contentar com o ouro e a prata, e, dado que
precisava da sua ajuda, a escolha era apenas uma. Contudo,
ainda podia regatear o preço.
- As chaves, Majestade, estäo na igniçäo, e à vossa
disposiçäo também. É vosso, juntamente com os outros tesouros.
Só vos peço que nos empresteis algvns dos vossos homens e
equipamento.
O sultäo sorriu apreciativamente.
- Arranjar-vos-ei camelos, cavalos, uma escolta armada,
provisöes, veículos próprios para o deserto, e até mesmo um
tanque.
ignoradas por um outro grupo interessado no Cálice do Graal.
contara a Indy o local onde o pai estava prisioneiro.
Donovan acenou, satisfeito com o acordo.
Elsa correu para junto do nazi americano.
- Näo temos tempo a perder. Estou certa de que o Indiana
Jones e o pai estäo a caminho.
As negociaçöes ocorridas na corte do sultäo näo haviam sido
Um pouco desviado, por debaixo de uma arcada, estava o homem
que estivera prestes amatar Indy e Elsa em Veneza, o homem que
Kazim colocou uma mäo dentro da túnica, e passou o dedo por
sobre a Espada cruciforme que tinha tatuada no peito. Enquanto
estivesse vivo, ninguém tiraria o cálice do seu esconderijo.
O comboio chegou a Iskenderun ao amanhecer. Apesar da hora
matinal, a plataforma estava cheia de passageiros que iam e
vinham. Indy olhou em volta. Esperava encontrar Marcus à sua
espera, mas sabia que era pouco provável. Mesmo que estivesse
em Iskenderun, näo faria ideia de que tinham chegado àquela
hora.
Aparentemente, Henry estava a pensar o mesmo.
- Será que vamos encontrar o Marcus?
- Näo há sinais dele... Olha!
Indy apontou para uma enorme figura barbada que avançava ao
encontro de ambos.
- Indy - gritou Sallah. - Senti a tua falta. - Abraçou-o,
levantando do chäo. Pousou e voltou-se para Henry. - É o pai
de Indy?
- Ah... Sim.
132
- Muito bem, cavalheiro! O seu filho iluminou a minha vida.
É um homem maravilhoso. - Pôs os braços em torno de Henry, que
aparentava näo saber o que fazer no que tocava a Sallah. -
Estou muito satisfeito por o conhecer.
Indy reparou nos arranhöes e nas escoriaçöes do rosto de
Sallah.
- Que aconteceu? Parece que um camelo te pisou a cara.
- Foi parecido. Näo falta muito para ficares a saber tudo.
Indy franziu o sobrolho, e quase desejou näo ter de
perguntar onde estava Marcus Brody.
- Aqui näo podemos falar, Indy - murmurou, chegando-se mais
para eles. - Depressa. Vamos para o carro. - Sallah apontou
para um velho coupé que se encontrava estacionado num dos
extremos do mercado.
Depois de terem entrado, o dono da viatura ligou o motor e o
carro disparou em frente. Momentos mais tarde, corriam através
de ruas estreitas e cheias de gente, avançando por cima de
animais e viaturas, bicicletas, carroças e magotes de gente.
Sallah businava, acelerava, abrandava, e guinava o carro.
Henry estava mudo de terror. Agarrou-se a uma das pegas do
acento traseiro, certo de que em qualquer segundo Sallah se
iria esmagar de encontro a uma carroça, ou passar mesmo no
meio de um ajuntamento, matando tudo e todos.
Acabou por recuperar a fala e inclinou-se para a frente.
- Por favor abrande. Já tive de aguentar uma conduçäo
completamente louca até chegar aqui.
- Desculpe, pai do Indy.
Agitou a mäo com frenesim, e enfi ou a cabeça de fora da
janela.
- Tire daí essa cabra - gritou ele para uma qualquer pessoa
que ali se encontrava.
A cabra foi-se embora, eles avançaram a toda a velocidade, e
Sallah olhou para Indy.
- A propósito do Marcus. Eram de mais e näo cheguei para
todos.
- Cuidado? - gritou Henry lá do acento de trás.
Sallah meteu travöes a fundo, e praguejou quando viu um
homem atravessar-se no seu caminho com uma carroça.
- Arranja um camelo! - gritou, enfiando a cabeça pela
janela.
O homem ignorou, e ele ultrapassou a carroça, voltando a
ganhar velocidade, e a ocupar-se do assunto que respeitava
Brody.
- A minha cara dir-te-á que fiz o que pude com aquilo que
tinha. - Levantou um punho aleijado. - Näo sou o único que näo
se está a sentir bem.
- E quanto ao Brody?
- Partiram esta tarde para o deserto, depois de um qualquer
sultäo lhes ter fornecido soldados e provisöes. Receio bem que
tenham levado o Brody com eles.
133
Henry endireitou-se, inclinando-se sobre o banco da frente.
- Isso quer dizer que têm o mapa, e que já väo a caminho.
Väo encontrar o cálice antes de nós.
respeito da conduçäo de Sallah, e tocou-lhe no ombro. - Mais
Sallah sorriu, carregou na busina, e voltou a pôr a cabeça
fora da janela.
- Acalma-te, pai. Nós vamos encontrá-los - assegurou-lhe
Indy. Simultaneamente, interrogou-se sobre se näo teriam
chegado demasiado tarde, tanto pelo que tocava a Marcus como
pelo Graal.
- Nesta corrida, o segundo classificado näo ganha qualquer
medalha, meu rapaz. - Henry mudara subitamente de ideias a
depressa, por favor. Vá mais depressa.
- Eh, meu vendedor de tapetes cego, sai do caminho.
Henry desceu a sua janela, e começou também a chamar nomes.
- Toca a andar vagabundo.
Indy estava pensativo. Sabia que assim que Donovan e o seu
bando de nazis tivessem a certeza de estar no caminho certo, a
vida de Marcus deixaria de ter valor.
- Será que os podemos alcançar?
Sallah dirigiu-lhe um sorriso conhecedor.
- Bom, sempre existem os atalhos.
Encostou a mäo à buzina, abanou a cabeça, e começou a
praguejar em três idiomas.
- Vais ver.
CAPíTULO XVIII
CONFRONTOS
Marcus Brody enfiou a cabeça através da escotilha do tanque
da primeira guerra, e deu uma olhadela àquele sol escaldante.
Limpou a testa com um lenço, e murmurou:
- Raios e coriscos!
Estavam a atravessar o desfiladeiro deserto, idêntico ao que
o antecedera. Para Brody, que sempre vivera em ambientes
urbanos, aquilo era o fim do mundo - estéril, duro, e quente,
muito quente. A ironia da situaçäo näo lhe passara ao lado:
havia uma forte possibilidade de que aquela terra fantasma e
abandonada fosse o fim do seu mundo.
- Queres molhar o bico, Marcus?
134
Brody voltou-se quando ouviu o som da voz de Donovan. O
tanque era seguido por um descapotável. Sentados ao lado de
Donovan estavam Elsa Schneider, a traidora, e um nazi a quem
Elsa chamava coronel Vogel. O resto da caravana seguia atrás
do automóvel -camelos transportando soldados do exército
particular do sultäo, cada um deles armado com um sabre e uma
carabina, cavalos de reserva, um camiäo carregando provisöes,
um Sedan alemäo, um jipe, e um par de camiöes de carga cheios
de soldados nazis.
Donovan atirou-Lhe o cantil e sorriu. Brody teve vontade de
lhe cuspir no rosto em vez de aceitar a sua oferta. Mas, dado
que näo tinha saliva, pegou no cantil e deu uma golada. Há
cerca de quatro horas tinham parado num oásis, mas ele já se
encontrava preso. O sol transformara o interior do tanque num
forno, e estar lá dentro era como estar a assar.
A água correu-lhe pela garganta abaixo, e ele lembrou-se de
que já há muito tempo näo saboreava algo täo bom. Respirou
fundo, voltou a levar o cantil à boca, e bebeu com gosto.
Donovan estendeu a mäo para o cantil, evidentemente
preocupado com o facto de Brody o poder esvaziar.
- De acordo com o teu mapa, Marcus, estamos apenas a três ou
quatro milhas de distância da maior descoberta da história.
Brody limpou a boca com a mäo, e pensou em atirar o cantil à
cara daquele filho da mäe. Contudo, sabia que isso tornaria
mais escassas as suas possibilidades de sobrevivência. Em vez
disso, limitou-se a entregar-lhe o objecto.
- Estás a meter-te com poderes que näo poderás controlar,
Walter.
Donovan começou a dizer qualquer coisa a respeito do poder,
mas parou.
Brody seguiu-Lhe o olhar. æ distância, algures nas colinas,
avistou um reflexo. Sabia bem do que se tratava, e calculou
que o outro também o soubesse.
æ medida que Indy espiava a caravana que se movia pelo sopé
do desfiladeiro, os seus binóculos emitiam reflexos. Sallah e
Henry estavam ao seu lado, e o carro que continha as suas
provisöes estava estacionado ao lado de uma excrescência de
rocha situada a cerca de trinta jardas atrás deles.
- Têm um tanque... e um canhäo de seis libras. Estou a ver o
Brody. Está com bom aspecto.
Henry protegeu os olhos com as mäos e semicerrou-os.
- Tem cuidado para que näo te vejam.
- Estamos fora do alcance deles.
Nesse mesmo instante, viram um claräo precipitar-se ao seu
encontro. O canhäo disparara um morteiro contra eles. Indy
atirou-se para o chäo e cobriu a cabeça.
135
Os outros fizeram o mesmo. O morteiro passou por eles a
assobiar, e explodiu a apenas alguns metros de distância.
Foram atingidos por pequenos pedaços do carro de Sallah, que
fora destruído.
Este gemeu.
- O automóvel era do meu cunhado.
- Mesmo em cheio - gritou Vogel. - Vamos buscar os corpos.
Elsa pegou nos binóculos e pôs-se a observar por si própria.
Uma parte de si mesma sentia vontade de chorar só de pensar
que Indy poderia estar morto. Mas a outra parte sentia-se
aliviada: se ele estivesse morto, o seu conflito interno
terminaria. Poderia continuar a procurar o Graal sem estar
constantemente a debater-se consigo mesma. Desde o momento em
que conhecera Indy que se encontrava envolvida num dilema
emocional. Num dado momento odiava-o, no mnmento seguinte näo
queria viver sem ele. Tanto melhor se Indy tivesse morrido.
Recordou-se de que o Graal era a sua única paixäo. Os homens
e a política eram apenas meios para atingir o que queria.
Andava com Donovan, mas só até determinado ponto. Precisava
dele para que a levasse até ao Graal, mas tinha de afastar o
cálice das suas mäos. As maravilhas que o Graal prometia eram
demasiado fantásticas para delas abdicar. Teriam de ser suas,
ou entäo morreria ao tentar conquistá-las.
Quando chegaram ao local onde a viatura explodira, Elsa viu
que näo havia ali qualquer cadáver. Por muito estranho que
parecesse, sentiu-se melhor. Indy estava vivo.
Enquanto Vogel organizava os soldados para darem início a
uma busca, Donovan foi até junto dela.
- Bom, talvez nem fosse o Jones.
- Näo. Era ele, sim senhor. Ele está aqui. - Deu uma
olhadela à sua volta, sentindo que estava a ser observada. -
Está aí algures. Tenho a certeza.
O outro devia sentir o mesmo. Olhou em redor com alguma
ansiedade, e depois disse a um dos soldados para pôr Brody no
tanque. Voltou-se para Elsa.
- No meio deste calor, sem qualquer meio de transporte, é o
mesmo que estar morto.
De repente, uma bala fez ricochete numa pedra que estava ali
perto, e o estampido do disparo encheu o ar. Esquecendo-se de
Elsa, Donovan correu para um abrigo. Ela seguiu- aos tombos,
mais irritada com a possibilidade de Indy estar a disparar
contra ela que com o facto de Donovan estar apenas preocupado
em salvar a pele.
136
- É o Jones - gritou o americano. - Está armado.
Quando o tiroteio começou, Indy estava escondido atrás de
uma enorme rocha. Viu Elsa e Donovan procurarem abrigo, e os
soldados abrirem fogo.
Seguiu-se uma troca de olhares intrigados entre ele, o pai e
Sallah. Quem poderia estar a disparar contra eles?
- Vamos. É melhor irmos ver.
Desceram do esconderijo, e, alguns minutos mais tarde,
chegaram a uma rocha a partir da qual se podia ver uma cena
caótica, na qual os nazis e os soldados do sultäo trocavam
tiros com o inimigo invisível, posicionado nas grutas
existentes nas paredes do desfiladeiro. Sallah pegou nos
binóculos e espreitou, depois entregou-os a Indy.
Uma das figuras emergiu da entrada escura de uma gruta, e In
dy reparou que o homem tinha um símbolo na camisa, uma espécie
de espada. O homem lançou-se ousadamente no descampado,
desafiando a morte. Indy fitou-lhe o rosto e reconheceu. Era
Kazim.
Sendo assim, a Irmandade da Espada Cruciforme era mais que
apenas o fanatismo de um homem.
Voltou a passar os binóculos a Sallah, e depois pôs-se a
conferenciar com o pai. Os três homens chegaram a um acordo
quanto ao plano a seguir, e Henry afastou-se na direcçäo do
tanque onde Brody estava preso. Entretanto, Indy e Sallah
rastejaram atéjunto dos limites do caótico acampamento de
Donovan.
Do ponto onde se encontravam podiam ver os cavalos e Indy
descobriu aquele que queria. Ficaram à espera do momento
oportuno para começarem a correr através daquele espaço vazio.
- Olha - disse Sallah, apontando para a parede do
desfiladeiro.
Kazim descia a superfície rochosa, e, à medida que ia
saltando de uma pedra para a outra, continuava a disparar.
- Agora - disse Indy, fazendo-lhe um sinal.
Estavam a meio caminho entre as rochas e os cavalos, quando
um dos soldados nazis que estivera a disparar se voltou para
recarregar a arma. Viu-os, e estava prestes a lançar o alerta
quando Kazim correu para a frente e disparou, matando o
soldado. Depois disto, Kazim começou a andar à roda,
disparando como um louco, até que uma chuva de balas o
atingiu.
Indy e Sallah agacharam-se entre os cavalos. Donovan correu
de encontro ao ferido. Este estava apenas a alguns passos.
- Quem é você? - perguntou, enquanto Kazim sangrava até à
morte.
- Um mensageiro de Deus. Para os que näo säo justos, o
Cálice do Graal representa uma maldiçäo eterna.
137
Estas foram as últimas palavras que pronunciou.
De repente, foram disparados mais tiros a partir das grutas,
e Donovan correu a refugiar-se à medida que os projécteis
levantavam nuvens de pó näo muito longe dele.
Indy e Sallah subiram para cima de dois cavalos e saíram
dali sem que ninguém desse por eles.
Brody sufocava no interior do tanque. Tinham-no deixado
sozinho, e ele estava à procura de uma chave. Näo estava certo
de saber como manobrar o tanque, mas sabia que precisava de
uma chave antes de poder fazer qualquer coisa. Ouviu a
escotilha abrir-se, e afastou-se rapidamente da porta da
frente do tanque.
- Marcus!
Tratava-se de uma voz familiar. Surpreendido, levantou os
olhos para a escotilha, e, antes de poder responder Henry
deixou-se cair ao seu lado.
Sorriu-lhe, e recitou uma velha saudaçäo universitária:
- Génios da Restauraçäo...
... ajudem a nossa ressurreiçäo! - terminou Brody.
Caíram nos braços um do outro.
- Espero que näo te importes por ter caído aqui desta
maneira, sem ter avisado - disse Henry, soltando uma
gargalhada.
- De maneira nenhuma. É um prazer ver-te vivo, meu velho.
Que estás aqui a fazer?
- Vim numa missäo de salvamento, meu bom homem. Pensaste que
vinha tomar chá?
- Chegaste tarde de mais.
Sem aviso prévio, um nazi deixou-se escorregar pela
escotilha, e apontou uma Luger aos dois homens.
Juntaram-se-lhe mais dois nazis, seguidos por Vogel.
- Revistem-no - ordenou o coronel.
Um dos homens ocupou-se de Henry, mas näo encontrou nem
armas nem o diário do Graal. Vogel ficou furioso. Esbofeteou
Henry.
- Onde está o livro? Esse livrinho miserável, que tem ele?
Como o outro näo respondeu, a mäo do coronel voltou a
abater-se sobre o seu rosto.
- Temos o mapa. O livro é inútil. E, contudo, vocês foram
até Berlim para o reaver. Diga-me porquê, dr. Jones.
Henry permaneceu mudo, e Vogel agrediu-o no rosto uma
terceira vez.
- Que está a esconder? Que coisas Lhe diz o diário que näo
nos diz a nós?
138
O olhar do outro estava carregado de desprezo.
- Diz-me que indivíduos täo estúpidos como você deviam
tentar ler os livros antes de os queimar.
Vogel voltou a bater-lhe, desta vez com mais força, e,
devido ao impacte, Henry recuou.
- Apanharam o teu pai no tanque - disse Sallah, passando os
binóculos a Indy. - Vi os soldados segui-lo.
Indy amaldiçoou-se. "Näo devia ter dado ouvidos ao pai.
Deveria ter ido ao encontro de Brody, e só depois preocupar-me
com os cavalos."
Olhou para o tanque, depois desviou os olhos na direcçäo de
Donovan e dos outros soldados. Viu que ainda estavam ocupados
a combater os membros que restavam do grupo de Kazim.
- Vamos buscá-los antes que seja tarde de mais.
- Herr coronel!
Um dos soldados, o que se colocara no lugar do condutor, fez
sinal a Vogel para que fosse espreitar à viseira.
Este olhou lá para fora e viu Indy e Sallah carregarem de
encontro ao tanque, montados em cavalos envoltos numa nuvem de
pó. Voltou-se para o homem que estava de guarda a Henry e a
Brody.
- Mata-os se se mexerem.
Tomou posse do canhäo do tanque.
- Cuidado, Indy. Os canhöes!
Indy viu a arma de seis libras girar e ficar apontada na sua
direcçäo. Compreendeu subitamente que atacar o tanque näo era
uma ideia assim täo boa. Puxou as rédeas com força, e
voltou-se para uma outra direcçäo - desta vez longe do tanque.
Sallah seguia imediatamente atrás, gritando o mais alto que
podia.
- Boa manobra, Indy. Cavalos contra tanques näo säo grande
coisa. Concordo plenamente.
Ziguezaguearam através do deserto, sempre perseguidos pelo
tanque que continuava a disparar. Dado que os tiros falharam,
Indy e Sallah conseguiram sair da nuvem de poeira que se
formara.
Indy virou a cabeça. O tanque estava a ganhar terreno. Foi
entäo que reparou que tinha companhia. Um pequeno carro alemäo
dirigia-se ao encontro de ambos. Contudo, eram precisos
bastantes mais homens que aqueles dois para o impedir. Tinha a
certeza disso.
Dispararam um outro morteiro, e Indy quase foi atingido.
139
- Raios!
- Foi por pouco, Indy. Foge.
Sallah seguia à frente, mas o outro estava a fi car
irritado. Franziu o sobrolho, olhou para trás, e apercebeu-se
de que a arma que disparava contra eles só era eficaz àquela
distância. Isso deu-lhe uma ideia. I Puxou as rédeas e voltou
o cavalo. O tanque virou-se e seguiu-o, só que agora estava em
rota de colisäo com a viatura que transportava os dois
soldados nazis. O condutor do automóvel tentou evi tar o
tanque, mas Vogel näo o vira e estava preocupado em manter
Indy ao alcance do canhäo.
Com um chiar metálico, o carro foi atingido de lado, indo
alojar-se entre as rodas da frente. A colisäo näo se limitou a
provocar a paragem do tanque. A viatura mais pequena bloqueara
a viseira da frente e amolgara a torre do canhäo de seis
libras. i Entretanto, Indy fez parar o cavalo. Baixou-se,
apanhou um braçado de pedras de uma parede que existia ali
perto, e só depois esporeou o animal. Galopou até junto do
canhäo posterior, e enfiou algumas das pedras no cano da arma.
Depois deu uma volta ao cavalo para que este ficasse mesmo em
frente do canhäo, suficientemente perto para constituir um
alvo fácil.
- Estou a vê-lo. - Henry levantou a cabeça quando ouviu o
grito excitado do artilheiro.
Sabia que o nazi estava a falar do filho.
- Bom, abate-o - ordenou Vogel.
- Näo - gritou Henry, precipitando-se para o soldado. No
entanto, o guarda bloqueou-lhe o caminho, empurrando com
força. Apontou a Luger entre os olhos de Henry, no preciso
momento em que o artilheiro fazia pontaria e disparava contra
Indy.
O tiro saiu pela culatra, mesmo contra o rosto do homem que
disparara. Este caiu para trás, o rosto completamente desfeito
devido à explosäo. Estava morto antes de ter chegado ao chäo.
O tanque ficou cheio de fumo. Henry e os outros
engasgaram-se e começaram a tossir. Vogel passou por cima do
cadáver do soldado, elevou-se e abriu a escotilha para deixar
sair o fumo.
- Disparem a arma da torre - gritou ele ao condutor,
preferindo näo se arriscar.
Henry agarrou o braço de Brody e rastejaram ambos até se
encontrarem por debaixo da escotilha. Henry estava prestes a
elevar-se e a sair dali para fora, quando foi de encontro ao
guarda, que também se encontrava no fundo do tanque. O homem
levantou a Luger e pressionou-a contra a testa de Henry.
O condutor da pequena viatura tivera morte instantânea
aquando do choque com o tanque, mas o passageiro sobrevivera e
estava a tentar sair através do tejadilho de lona. Conseguiu
cortar uma aba, e puxou-a. Enfiou a cabeça no buraco, e ficou
frente a frente com o canhäo de seis libras.
Nesse mesmo instante, este disparou, rebentando com tudo o
que estava no caminho, cuspindo pedaços de automóvel numa
distância de vários metros.
Indy estava atrás do tanque e acabara de ver Sallah a galopar
ao seu encontro, quando o canhäo fizera ir o carro pelos ares.
Vários pedaços da viatura aterraram perto de Sallah. O cavalo
empinou-se e o homem caiu.
Voltou a montar, olhou na direcçäo do tanque e afastou-se na
direcçäo oposta.
Indy ficou com a sensaçäo de que Sallah näo o ia ajudar
muito.
Livre do automóvel, o tanque voltou a avançar.
Vogel ocupou-se do canhäo da torre e fê-lo girar, sempre à
procura de Indy. Contudo, a arma só podia descrever um arco de
noventa graus. Tinha a certeza de que Indy estava atrás do
tanque, e se o outro cavaleiro se lhe juntasse eram bem
capazes de tentar a abordagem.
Se o fi zessem, ele mataria o Jones pai mesmo em frente ao
filho.
No entanto, precisava de reforços. Pegou no microfone do
rádio e chamou Donovan.
- Esqueça esses doidos das colinas - disse, com dureza. -
Preciso de reforços.
Seguiu-se um momento de silêncio, depois do que Donovan
ladrou:
- Está a querer dizer-me que näo conseguiu tratar do Jones?
Nem mesmo com o canhäo?
Vogel ficou vermelho de cólera, e falou por entre dentes.
- Ainda näo.
Espreitou por cima do canhäo da torre, voltando a procurar
Indy. Viu um desfiladeiro estreito e teve uma ideia. Sorriu
para si mesmo, e ordenou ao condutor do tanque para se dirigir
na direcçäo do desfiladeiro.
Voltou a ligar o rádio.
- Quando aqui chegar, já terei tratado do Jones.
Quando entraram no desfiladeiro, girou a arma o mais que
podia. Apontou contra a parede daquele, e esperou pela altura
certa. Descobriu uma rocha projectada por sobre a parede e
ajustou o canhäo. Disparou um projéctil mesmo contra ela,
140 141
e, subitamente, deu-se uma grande avalancha.
Vogel sorriu. Aquilo devia tratar dele.
142
CAPíTULO XIX
UM CONTRA MUITOS
Momentos antes da avalancha, Indy andava atrás do tanque, de
novo à procura de pedras. O seu plano era entupir o cano do
outro canhäo, na esperança de que lhe acontecesse o mesmo que
ao outro. Desta vez, quando a escotilha se abrisse para deixar
sair o fumo, dominaria Vogel passando a controlar a viatura.
Um plano bastante simples. Contudo, o primeiro passo era fazer
que o alemäo caísse.
Mas o tanque dirigira-se para um desfiladeiro estreito, e
ele näo conseguia encontrar as pedras apropriadas. Havia ali
seixos e pedregulhos, muitos deles com cerca de metade do
tamanho do tanque inteiro, ou talvez até mais. E este näo era
o único problema. O desfiladeiro afastara-o de Sallah, que
galopara para longe do alcance dos canhöes existentes na
viatura. Era bastante provável que näo soubesse o que
acontecera a ele e ao tanque.
Concentrou-se no solo. "Pedras. Preciso de pedras."
Foi entäo que o canhäo disparou de encontro ao rochedo, e,
de repente, viu uma enorme quantidade de pedras, muitas mais
que as que precisava. Todas elas vinham ao seu encontro. Puxou
as rédeas com força, deu meia volta e afastou-se a galope da
avalancha.
As pedras caíam à sua volta, e pouco faltou para que o
atingissem.
Mas conseguiu escapar ileso.
Näo teria tido tanta sorte se seguisse demasiado perto do
tanque. Näo tinha qualquer dúvida de que estaria morto.
Contudo, tinha de enfrentar um outro problema. O caminho
através do desfiladeiro estreito ficara cortado. Se quisesse
alcançar o tanque, teria de voltar atrás e contornar o
desfiladeiro, facto que levaria muito tempo, talvez horas.
Ele näo dispunha de horas.
Foi entäo que viu um caminho alternativo. A avalancha
trabalhara em seu proveito, criando um trilho rochoso que se
estendia pela parede da elevaçäo. "Está na hora de seguir pela
estrada principal."
Começou a subida o mais depressa que podia, conduzindo o
cavalo por entre o cascalho. Descobriu que esta näo só lhe
permitia atravessar o desfiladeiro, mas que também se tratava
142
de um atalho. Näo levou muito tempo a aproximar-se do tanque a
partir de cima. Ultrapassou-o, e estava a interrogar-se sobre
o modo como poderia chegar à base da montanha, quando, sem que
disso estivesse à espera, a sua sorte acabou. O trilho
terminava numa parede de pedra.
Olhou para baixo à medida que o tanque passava por si. Teria
de voltar a trás ou... Deixou-se cair da sela, e, antes de
poder mudar de ideias, correu até à beira do rochedo e saltou.
Aterrou de pé em cima do tanque, e depois deixou-se ficar de
gatas. Conseguira, mas... e agora?
O veículo saiu do desfiladeiro, e à direita encontrava-se de
passava através daquela luz brilhante. Um jipe aproximava-se a
novo o deserto. Indy olhou para trás e viu uma nuvem de pó que
se elevava no deserto. Fez os possíveis para ver o que se
toda a velocidade. Atrás dele, e a alguma distância, viam-se
dois camiöes cheios de soldados nazis.
Estava a chegar companhia.
- Seja bem-vindo, Jones.
Voltou-se e viu o rosto de Vogel a espreitar pela escotilha.
Os seus olhos pequenos e brilhantes fulminavam-no. Indy
devolveu-lhe o olhar. Sentia um ódio sem limites pela
criatura, mas recusava-se a desviar o olhar e a deixá-lo
ganhar este jogo.
Subitamente, sentiu umas picadas familiares na nuca - um
aviso. Voltou-se e viu um soldado rastejar atrás de si.
Percebeu que Vogel o estava a tentar distrair, enquanto o
soldado vindo do jipe passava para o tanque. O homem deu um
salto semelhante ao dos sapos, e ficou em cima dele,
prendendo-o de encontro ao tanque.
Tentou libertar-se, mas tinha o rosto colado ao metal
quente.
A posiçäo em que se encontrava permitia-lhe ver um dos
camiöes a avançar junto à viatura onde seguia. Tal como se
fossem piratas a abalroar um galeäo, um punhado de soldados
saltou para o tanque. As coisas näo estavam com bom aspecto.
Indy empurrou o soldado e tentou apoderar-se da Luger.
Começaram a rebolar, e encostou o outro ao tanque, com a
arma posicionada entre ambos. Voltaram a rolar, e o cano da
Luger aproximou-se da sua cabeça. Agarrou-se à alavanca do
tanque e forçou a pistola a afastar-se de si, até se encontrar
virada para o soldado.
Fez toda a força que podia, e obrigou o homem a disparar
contra si mesmo. Abala atravessou-lhe o pescoço, e seguiu
através do estômago de um outro soldado e da virilha de um
terceiro. Os três corpos caíram, tombando para fora do tanque.
"Já lá väo três. Faltam ainda muitos."
Viu que Vogel tinha subido a escotilha, e se juntara aos
nazis que o rodeavam.
- É mesmo assim, filho, dá-lhes!
143
Indy ouviu a voz do pai, e viu-o a espreitar pela escotilha.
Levou a mäo ao chicote que trazia à cintura, mas apercebeu-se
de que ali havia gente a mais. No entanto, a falta de espaço
favorecia. Os soldados atacavam-no vindos de todos os lados,
empunhando facas e pistolas, mas ele era um alvo difícil de
agarrar. Escapou-se à lâmina de uma faca que näo lhe acertou
no flanco e se foi cravar na coxa de um outro nazi. Um murro
atingiu-o no queixo, e ele girou sobre si mesmo, acabando por
dar um pontapé na mäo de outro soldado, arrancando-lhe a arma
e atirando para fora do tanque. Um outro nazi disparou contra
ele, falhou, e atingiu um seu camarada. "Mais um que se foi."
- Dá-lhes, Júnior - gritou o pai.
De repente, Indy ficou completamente fora de si. Ferveu de
raiva, e toda a fúria que sentia subiu por ele como se fosse
uma injecçäo de adrenalina. Desfechou o punho contra o queixo
do soldado mais próximo. O homem caiu de costas para cima de
outro soldado, e ambos foram projectados para fora da viatura.
Deu um pontapé ao que se encontrava a seguir, que se
precipitou para o trilho do tanque, arrastando um outro
consigo. Os dois rebolaram em frente, chegaram ao chäo, e
foram automaticamente esmagados pelas rodas.
Ainda enraivecido, Indy olhou para a escotilha.
- Nunca mais voltes a chamar-me Júnior!
Palavras näo eram ditas, e já Vogel arremessara uma corrente
contra ele, a qual deu duas voltas em torno dos seus ombros.
Sentiu-se dominado por uma enorme dor. Deixou-se cair de
joelhos, a gemer. Ainda assim, conseguiu näo perder a
consciência. Viu a Luger que o primeiro soldado deixara cair,
e pontapeou-a na direcçäo da escotilha. Tratou-se de um remate
que faria as delícias de um campeäo de futebol. A arma
atravessou o tanque, e caiu no colo de Henry.
Indy levantou-se, pronto a enfrentar Vogel e o soldado que
ainda ali estava. A corrente continuava a envolver-lhe os
ombros, mas conseguia mexer os braços, e nenhum dos seus
adversários estava armado. Sorriu para Vogel com um ar
matreiro. Depois de ter vencido todos os outros, tinha a
certeza de poder tratar destes dois.
Mas o alemäo devolveu-lhe o sorriso, e foi entäo que Indy
viu o motivo que levava o outro a estar confiante. Um segundo
camiäo estava prestes ajuntar-se ao tanque, trazendo consigo
mais reforços, bastantes mais que aqueles que poderia
aguentar. "Raios, para falar verdade, estavam ali mais homens
que aqueles que uma dúzia de duplos seus seria capaz de
combater."
Quando a arma lhe caiu no colo, Henry agarrou-a pelo cano
mesmo no momento preciso.
144
Brody gritou-Lhe para ter cuidado. Ouviu um som abafado que
significava que o amigo tinha caído ao chäo. O guarda passou
os braços em torno da cintura de Henry, tirando-o da
escotilha.
- Largue-me - gritou ele.
Dado que o outro näo lhe deu ouvidos, Henry foi forçado a
agir.
- Eu avisei-te.
Atingiu na cabeça com o cano da pistola, e o guarda caiu no
chäo, mesmo ao lado de Brody. Voltou a subir a escotilha, e
estava prestes a juntar-se ao filho quando viu o camiäo. Nunca
conseguiria vencer aquela horda de nazis! Precisava de ajuda,
de muita ajuda.
Voltou atrás, e correu para a canhoneira da torre, no
preciso instante em que o guarda se punha de pé. Henry apontou
o canhäo ao camiäo carregado de soldados, e começou a procurar
o gatilho. Acabara de o descobrir quando o alemäo levantou o
braço e o puxou para longe da torre.
Brody começou a gatinhar, e o guarda foi ao seu encontro.
Henry conseguiu libertar-se, e voltou a precipitar-se para
junto do canhäo. Fez pontaria de novo, e apertou o gatilho.
Teve a sorte de todos os principiantes: o tiro atingiu o
depósito de gasolina e a viatura explodiu, lançando soldados e
desperdícios no ar aquecido.
A explosäo atirou Indy, Vogel, e o último soldado para fora
do tanque. O soldado caiu directamente no solo, mas Indy e o
coronel aterraram na lagarta. Começaram a avançar rapidamente,
e estavam prestes a ser esmagados quando rebolaram na direcçäo
do suporte do canhäo.
Os pés de Vogel abateram-se sobre Indy, obrigando-o a
agarrar-se a uma pega de metal, e a voltar para a lagarta.
Indy estendeu uma mäo para o canhäo, e depois passou obraço à
suavolta. Enquanto tentava evitar a queda, os pés balouçavam
muito perto da borda da lagarta.
Entretanto, Vogel foi ao seu encontro e deu-lhe um pontapé
nas mäos.
Dentro do tanque, o guarda pegara em Brody e empurrara-o de
encontro ao tabique, batendo-lhe com a cabeça de encontro a
este. Brody caiu redondo no chäo, ficando naquele estado em
que se está prestes a perder os sentidos, ao mesmo tempo que
lutava para afastar a escuridäo que subia por si, como se de
um pesadelo se tratasse. Tinha a vaga sensaçäo de que o guarda
estava a apontar-Lhe a Luger. Fechou os olhos, incapaz de ver
mais. Ficou à espera da explosäo e da morte.
Henry saltou sobre o guarda, afastando-lhe o braço. A arma
disparou, e a bala fez ricochete por mais de uma vez.
145
De súbito, quando o condutor, mortalmente atingido, se deixou
cair sobre o volante, o tanque descontrolou-se.
Henry continuava a lutar. Estava sem fôlego. O poderoso
braço do guarda estava enrolado ao seu pescoço, e ele começava
a fraquejar. Agarrava o braço do soldado com ambas as mäos,
tentando manter a arma afastada. Tentava manter-se consciente
a todo o custo. Se desmaiasse era um homem morto.
Quando o tanque passou por cima de uma pedra bastante grande,
Brody ficou completamente desperto. Sentia-se como se tivesse
despertado da morte. O corpo doía-lhe numa dúzia de sítios e
sentia a cabeça a latejar como se lhe tivessem espetado uma
lança. Mas, apesar da dor, conseguiu pôr-se em pé, e viu Henry
lutar com o guarda pela posse da arma. Deu um pontapé na mäo
do homem, e a pistola escorregou pelo chäo da viatura.
O tanque voltou a passar por cima de outra rocha, e Brody
caiu.
- Quem será que está a conduzir isto? - murmurou.
Quando Brody pontapeou a arma, Henry meteu a mäo ao bolso. Os
seus dedos estavam lá dentro, movendo-se, à procura de uma
caneta de tinta permanente. O outro braço continuava agarrado
ao guarda, que tentava agora a todo o custo recuperar a Luger.
Puxou da caneta e agrediu o guarda por mais de uma vez, mas o
homem parecia näo dar por isso. Conseguiu tirar-lhe a tampa,
levantou o braço, e espremeu a borracha. O guarda foi atingido
nos olhos por uma chuva de tinta.
Levando as mäos à vista, o homem recuou e soltou um grito.
Henry inspirou, encheu o peito de ar, e depois esmurrou o
nazi em pleno rosto. Este deixou cair a cabeça para trás,
atingindo o tabique. A força da pancada trouxe-o ao ponto de
partida, mas agora estava morto.
"A caneta tem mais poder que a espada". Henry baixou-se e
ajudou Brody a levantar-se. Todo este disparate estava a
milhas de distância do estudo das línguas e dos objectos
antigos. Contudo, começava a sentir a adrenalina correr-lhe
pelas veias.
Ambos os homens subiram a escotilha, e encontraram-se em
cima do tanque. Näo se via vivalma, nem Indy, nem qualquer
soldado. Foi entäo que Henry espreitou para fora da viatura.
Vogel e o filho estavam em cima do suporte do canhäo, ligados
pela corrente do nazi num abraço mortal.
A cabeça de Indy estava apenas a alguns centímetros da
lagarta. Com toda a cautela, deixou-se escorregar pelo lado do
tanque, disposto a ajudar o filho de um modo que nunca sonhara
146
ser possível. Ia compensar todas as falhas que tivera enquanto
pai. E quando tudo isto terminasse, ficaria em frente ao
filho, e pedir-lhe-ia desculpa pelos seus erros, tal como
deveria ter feito há muitos anos.
"Sou um velho teimoso cuja maneira de ser nunca fez bem a
ninguém. Era isto que iria dizer-lhe", pensou. Já estava mais
que na altura de o admitir.
Sallah afastara-se do tanque depois de os destroços do carro
destruído quase o terem morto. Dissera vezes sem conta para si
mesmo que um cavalo näo estava em condiçöes de enfrentar um
tanque. Mas onde é que estava Indy? Tanto ele como a viatura
haviam desaparecido. Voltara atrás e descobrira o desfiladeiro
estreito, mas a avalancha deixara-o sem palavras. Receando que
Indy ali estivesse enterrado, começou a vasculhar por entre as
pedras.
Por fim, certo de que o amigo näo poderia ser encontrado,
voltara a recuar e vira o tanque à distância. Quando se
aproximou, soube que ali estava qualquer coisa errada. O
tanque seguia directamente para uma escarpa situada a pouco
mais de cem metros, e continuava sem ver Indy. Esporeou o
cavalo e precipitou-se para a viatura. Quando já estava a
galopar ao seu lado, viu que Brody estava lá em cima.
- Salta! - gritou. - Salta, homem!
Brody ouviu Sallah gritar. Virou a cabeça e viu a escarpa
pela primeira vez. Deixou-se escorregar para o canhäo mais
perto do local onde o outro galopava.
- Salta - rugiu Sallah.
Apercebeu-se de que ia morrer e acabou por saltar. Aterrou
em cima do cavalo, metade dentro, metade fora, e agarrou-se ao
pescoço do outro. Este esticou-se para trás e puxou-lhe o
tornozelo.
- Aguenta-te, Marcus.
- Do outro lado - gritou Brody. - Eles estäo do outro lado.
Em pleno impasse, Indy e Vogel continuavam presos à
corrente. Se qualquer um deles empurrasse o outro, ambos
cairiam do tanque.
Foi entäo que Indy viu a escarpa. Esta estava apenas a cerca
de cem metros. "Quem é que está a conduzir o tanque?"
Tentou afastar a corrente do peito no preciso momento em que
Vogel, que também vira a escarpa, tentava saltar. Mas, para
sua surpresa, o pai aparecera vindo näo se sabe de onde, e
agarrou uma das pernas do alemäo. Vogel virou-se, e depois deu
um pontapé no rosto de Henry, atirando-o para a lagarta. Indy
viu o pai rebolar na direcçäo da parte dianteira do tanque
147
e reagiu de pronto. Desenrolou o chicote e atirou-o de
encontro ao pai. O chicote enrolou-se com força no tornozelo
de Henry, no preciso momento em que este estava prestes a ser
esmagado.
Indy puxou o chicote com todas as forças que ainda lhe
restavam, e Henry arrastava-se atrás da lagarta, como se de um
enorme peixe pendurado na linha se tratasse.
Sallah encostou o cavalo ao tanque.
- Despacha-te, Indy. Sai daí.
Indy olhou-o.
- Dá-me uma mäozinha. - Passou-lhe o chicote.
O outro agarrou, puxou as rédeas da montada e afastou-se da
viatura.
Henry caiu e rebolou no pó. Sallah estava prestes a
desmontar para o ajudar, quando levantou a cabeça e viu Indy e
Vogel correrem para a parte de trás do tanque. Continuavam
presos na corrente, e ambos saltaram ao mesmo tempo. Tudo
indicava que iam ser bem sucedidos. Contudo, uma das pontas da
corrente ficou presa no tanque, e os dois homens foram
arrastados na direcçäo da rocha.
- Oh, näo! Indy! - gritou Sallah.
Num último acto de desespero, Indy tentou libertar-se da
corrente. Mas esta agora estava presa à sua perna. Desabotoou
as calças e começou a despi-las. Sentia-se uma espécie de
mágico que executa um truque sensacional com vista a escapar à
morte. No entanto, isto näo era um truque, pelo menos nunca
antes o realizara.
A seu lado, Vogel gritava, desesperado, tentando libertar-se
da corrente.
Indy já quase despira as calças quando o tanque atingiu a
escarpa, capotou, e mergulhou no desfiladeiro profundo.
æ distância, Elsa viu uma nuvem de fumo negro elevar-se do
precipício. Baixou os binóculos, e ordenou ao motorista que
ligasse o motor.
- O tanque está arrumado - disse, dirigindo-se a Donovan.
- Todos estäo arrumados.
- E quanto ao Vogel?
- E quanto a ele, Herr Donovan? - A sua voz era dura e
incrivelmente fria. Conseguira ocultar as suas preocupaçöes
emocionais. Despira-se delas. O Graal era tudo o que lhe
148
interessava. Näo esperava que Indy estivesse vivo, mas, e se
assim fosse? Que coisas poderia isso mudar?
Nada.
Donovan acenou e juntou-se a ela no carro.
- Acho que estava escrito que seríamos só nós dois
aencontrar o Graal.
Elsa continuava em silêncio, a olhar em frente, vendo o
calor ondular sobre o solo do deserto. "Morto. O Indy está
morto. Já nada interessa a näo ser o Graal."
- Certifique-se que o camiäo das provisöes e os outros estäo
a postos - acabou por dizer. - Temos trabalho pela frente.
Henry näo desviava os olhos dos destroços em chamas do
tanque, lutando contra uma vaga de emoçäo que ameaçava
submergi-lo. Estava ferido, arranhado, amassado, mas nada
disso interessava. Perdera o seu único filho, perdera antes de
ter tido a oportunidade de endireitar as coisas, de o
compensar por todos aqueles anos de mal entendidos.
- Tenho de ir procurá-lo - disse Sallah. - É meu amigo. -
Começou a correr na direcçäo do rochedo, mas Brody agarrou-lhe
um braço, impedindo-o de partir.
- Näo serve de nada, Sallah.
Aquele homem enorme afastou-se de Brody, deixou-se cair de
joelhos e enterrou o rosto nas mäos. Henry olhava para os dois
homens, ora para um ora para outro, e näo sabia o que dizer,
incapaz de racionalizar o desgosto que sentia, quanto mais o
dos outros.
Brody tentou confortá-lo. Passou-lhe um braço em torno dos
ombros e deu-lhe os pêsames. Os olhos de Henry ardiam devido
às lágrimas. O sol continuava a escaldar.
"Nunca o abracei", pensou ele, sentindo-se pessimamente.
"Nunca lhe disse que gostava dele."
Atordoado e confundido, Indy apareceu a cambalear vindo de
trás de uma pilha de rochas. Levava as calças nas mäos, pois
estas haviam sido rasgadas. Podiam ver-se pedaços delas
agarrados às botas.
Juntou-se aos outros e olhou para a escarpa, na direcçäo dos
destroços. Um por um, eles foram-se apercebendo da sua
presença. Primeiro Brody, depois Sallah, e por último Henry.
Indy abanou a cabeça e assobiou baixinho.
- Foi por pouco.
- Júnior! - gritou Henry. Passou os olhos à volta do filho,
abraçando-o com força. - Pensei que te tinha perdido - repetia
vezes sem conta, dizendo baixinho que gostava muito dele.
149
Demorou um bocado até que Indy se apercebesse de que o pai o
estava a abraçar e a dizer que gostava dele. Tratava-se de
algo que já näo ouvia há muito. Para falar com franqueza, näo
se lembrava de alguma vez o ter ouvido, nem de o pai o
abraçar.
Também se abraçou a ele, abraçou-se com força, tal como se
fosse um rapazinho pequeno arrastado numa vaga de ternura para
com o pai.
- Também pensei que te tinha perdido - murmurou.
Brody estava comovido com esta súbita reconciliaçäo, mas
Sallah estava confuso.
- Júnior? És tu o Júnior?
Indy fez uma cara feia. Näo tinha vontade de falar sobre
esse assunto. Recuou, e fez o melhor que podia para improvisar
uma forma de vestir as calças.
Foi Henry quem respondeu à pergunta.
- O nome dele é esse... Henry Jones Júnior.
- Gosto mais de Indiana - disse ele com firmeza.
- Indiana era o nome do cäo! - ripostou o pai. - A ti
chamamos-te Henry, Júnior.
Brody sorriu e Sallah soltou uma gargalhada.
- O cäo? - exclamou este.
Até mesmo Indy foi forçado a sorrir.
- Tenho óptimas recordaçöes desse cäo.
Sallah riu ainda mais alto, e deu-lhe uma palmada nas
costas, fazendo que as calças lhe caíssem aos pés.
CAPíTULO XX
O TRILHO DO GRAAl
, O Sol do meio da tarde queimava as rochas estéreis que os
rodeavam. Elsa fechou os olhos por um momento, tentando
acalmar a raiva que sentia. Fazia o melhor que podia para
ignorar o calor, mas Donovan era outra história. Já lidara com
homens arrogantes e prepotentes que preferiam tratá-la como
uma espécie de adorno ao invés de cientista, mas Donovan era o
pior de todos. Até mesmo o führer, apesar de todas as suas
excentricidades, acabara por reconhecer as suas capacidades
intelectuais.
- Devia estar aqui - disse ela, apontando para a parede de
rocha que se elevava à sua frente.
- Aqui näo há nada - respondeu Donovan num tom de voz
desinteressado e condescendente.
150
- Confirmei os marcos por mais de uma vez, Walter - disse. -
Se o mapa está certo, o desfiladeiro escondido está mesmo
atrás dessa parede. E é lá que o iremos encontrar.
Donovan encolheu os ombros.
- Já tentámos todos os caminhos possíveis. Näo há qualquer
entrada. Trata-se de rocha sólida.
Para alguém täo conivente como ele, Donovan näo dava uma
grande ajuda quando se tratava de questöes práticas. Elsa
pensou que talvez fósse melhor ele deixar que os outros
encontrassem o Cálice do Graal e depois roubá-lo.
- Sendo assim, acho que devemos criar a nossa entrada.
- Qual é a sua proposta nesse sentido?
- Nunca trabalhou com explosivos?
Ele fitou-a por alguns instantes com um olhar täo gelado que
nem mesmo o calor do deserto era capaz de derreter.
- Acho que näo.
"Já sabia.", Elsa virou-se e encaminhou-se para o camiäo de
apoio. Sentiu os olhos dele na sua nuca. "Ele que se
preocupasse", pensou. Levá-lo-ia até ao Graal, depois ficaria
a vigiar, e, na altura certa, passaria à acçäo. O Graal seria
seu ou entäo morreria. Näo tinha outra alternativa.
Indy, tal como os seus três companheiros, usava um chapéu
enrolado num pano branco e tentava habituar-se ao modo como o
camelo andava. Näo se parecia nada com o andar a cavalo ou
andar de elefante. Era algo completamente único - ia-se
abaixo, acima, outra vez abaixo, e outra vez acima, mas os
balanços do camelo nunca eram iguais. Näo conseguia apanhar o
ritmo, e suspeitava que se devia ter de nascer nómada e viver
sempre no deserto para sentir algum conforto em cima dessas
criaturas.
O pano branco dos chapéus ajudava a afastar o calor, mas näo
lhe mitigava a sede. Pensou em água, garrafas de água, rios de
água, fresca e sem fim. Imaginava-se a mergulhar numa piscina,
a empapar os pés em lama fresca e húmida.
Sallah recuperara o cavalo de Indy, e os quatro - dois em
cada cavalo - tinham voltado atrás, até ao local onde haviam
visto a caravana de Donovan pela última vez. Näo havia sinais
nem de Donovan nem de Elsa. Contudo, encontraram vários pneus,
vários camelos abandonados, e até mesmo um par de cantis de
água.
Indy insistira para que o pai e Brody ficassem para trás, à
espera, enquanto ele e Sallah perseguiam os inimigos montados
nos cavalos. Mas nenhum deles lhe deu ouvidos. Ambos
insistiram em dizer que estavam bem, e que podiam continuar.
Henry sugerira que podiam ir todos nos camelos.
Descansaram apenas durante um curto espaço de tempo,
tratando dos seus golpes, arranhöes e moléstias. Indy
encontrou um par de calças entre as coisas que haviam sido
151
deixadas para trás, e tinham fabricado os seus chapéus. Por
fim, subiram para os camelos, e lançaram-se através do
deserto.
Indy pensou que, sem o mapa, nunca seriam capazes de
localizar o sítio onde o Graal estava escondido. No entanto,
os veículos da caravana haviam deixado marcas na estrada. Indy
calculou que tanto Elsa como Donovan deviam achar que ele e o
seu grupo deviam estar mortos, caso contrário näo teriam sido
täo descuidados no que tocava aos rastos. Deixá-los pensar
assim. O facto só Lhe trazia vantagens.
Uma explosäo distante ecoou através do desfiladeiro,
chamando a atençäo de Indy.
- Que foi isto? - perguntou Brody.
- O desfiladeiro secreto! - exclamou Henry. -
Encontraram-no.
Indy lembrou-se das palavras da placa do Graal. "Através do
deserto e da montanha até ao Desfiladeiro da Lua em Quarto
Crescente, que tem espaço apenas para um homem. Até ao Templo
do Sol, suficientemente sagrado para todos os homens.",
Instigou o camelo a estugar o passo.
- Vamos continuar a avançar.
Quando chegaram ao local da explosäo, havia rochas por todo
o lado, e um enorme buraco existente na escarpa dava acesso a
um desfiladeiro estreito. As paredes deste eram altas e
íngremes, e tinham uma cor ocre.
Indy passou o cantil aos outros. Estavam todos cansados,
encalorados e magoados, mas sabiam que näo havia tempo a
perder.
Henry, em mangas de camisa, conduziu-os até ao desfiladeiro.
Tinha o colarinho desapertado, e a aba do chapéu caía-lhe para
os olhos. Indy achou que, naquele momento, o pai tinha ar de
tudo menos de estudioso medieval. Parecia-se mais com um
aventureiro idoso que vivia a maior aventura da sua vida,
procurando alcançar com galhardia o objectivo de toda uma
vida.
Quando Henry entrou no desfiladeiro, o camelo em que seguia
parou, resfolegou, e tentou recuar. Ele amaldiçoou o animal,
deu-lhe uma palmada na garupa, e acabou por convencê-lo a
avançar.
Todos experimentaram o mesmo tipo de resistência pela parte
dos camelos à medida que seguiam em fila indiana atrás de
Henry.
Amontada de Brody revelou-se como sendo a mais teimosa, e
Indy acabou por ter de ser obrigado a desmontar e a puxar o
animal.
Uma vez dentro do desfiladeiro, os camelos acalmaram. Eram
os seres humanos que se sentiam estranhos, fora do seu
elemento.
æ medida que avançavam, as paredes tornavam-se mais
estreitas e íngremes. Tratava-se de um local estranho,
demasiado silencioso, demasiado apertado, demasiado quente. Os
cascos dos camelos ecoavam pelas paredes, e Indy achou que
152
este som tinha uma qualidade estranha, muito embora näo
soubesse dizer exactamente qual.
O ar era mais rarefeito, como se estivessem a uma maior
altitude. Indy sentia a cabeça muito leve, e também o martelar
de uma dor aguda nas têmporas. A luz também era diferente,
menos dura, conferindo reflexos dourados às paredes que os
rodeavam.
Näo gostava de estar ali. Näo gostava da sensaçäo que
emanava do local. Nenhum deles gostava. A näo ser Henry,
claro. Era o optimista do grupo, e näo tinha razöes para
deixar de ser. O projecto que dominara a sua vida estava
prestes a tornar-se realidade. O Graal ainda näo estava nas
suas mäos, mas estava muito perto, e ele podia partir do
princípio de que já o segurava. Dava a sensaçäo de que se
estava a divertir bastante.
- Marcus - disse ele -, somos como os quatro heróis da lenda
do Graal. Tu és Perceval, o santo inocente. Sallah é Bors, o
homem comum. O meu filho é Galahad, o valente cavaleiro. E o
pai dele... o velho cruzado, Lancelote, rejeitado por näo ser
suficientemente digno, como talvez eu também näo o seja.
- Sou apenas um velho tonto que preferiria estar em casa com
um copo de uísque na mäo, em segurança - retorquiu Brody.
Agarrava-se com força à sela, tentando equilibrar-se, e todas
as suas rugas revelavam um sentimento de incerteza. Indy achou
que a expressäo preocupada que o caracterizava estava de
volta.
Mas Henry parecia näo ter ouvido. Acenou para si mesmo,
pensando nas comparaçöes que acabara de fazer. Depois virou-se
para o filho.
- Mas lembra-te, foi Galahad que conseguiu o que o pai näo
foi capaz.
"?ptimo", pensou. Tratava-se do tipo de responsabilidade que
näo queria.
- Nem mesmo sei qual o aspecto do Graal, pai.
- Ninguém sabe - retorquiu Henry. - Aquele que o merecer,
reconhecerá o Graal.
"Tal como o rei Artur e Excalibur." Como se isto fosse uma
demanda gloriosa e näo uma situaçäo perigosa. O facto
aborreceu-o.
Na idade do pai, tinham passado à situaçäo de cruzados.
Enquanto que, na expectativa, Henry olhava em frente, Indy
olhava para baixo, para o solo. Já näo precisavam dos trilhos
deixados pelos veículos, mas o facto de ali estarem, a
escassos centímetros da parede, näo o deixava esquecer que näo
estavam sós.
- Olhem! - exclamou Sallah, e estendeu um dedo.
Pararam.. e olharam. O desfiladeiro estreito levava-os até
uma enorme área a descoberto, uma espécie de arena, e,
esculpida numa das rochas situadas no extremo estava uma
fachada grego-romana. Uma série de degraus largos levava a uma
espécie de átrio povoado de colunas maciças, e, para lá
destas, encontrava-se a entrada de uma câmara escura.
153
Indy calculou tratar-se do Templo do Sol.
- Vamos - disse Henry, ansioso.
Os camelos voltaram a protestar, mas os homens
esporearam-nos e eles lá avançaram, atravessando a área a
descoberto, acabando por parar em frente dos degraus do
templo. Indy dirigiu um olhar furtivo ao pai: a sua expressäo
era de êxtase, mais ou menos como uma criança maravilhada. Até
mesmo ele estava deslumbrado com a visäo, se bem que näo tanto
como o pai. A admiraçäo de Henry emanava dele em ondas, tal
como um perfume era contagiante.
- Monumental - disse Brody.
- Construído pelos deuses - tartamudeou Sallah.
Indy compreendeu tudo. Na presença de uma estrutura täo
grandiosa era fácil concluir-se que fora construída por seres
imortais, com duas vezes o seu tamanho e força.
Ninguém se mexeu durante muito tempo. O templo tinha esse
tipo de magia. Mas Indy acabou por quebrar o encanto. Voltou a
olhar para o solo, e viu que os rastos se entrecruzavam atrás
deles.
Que teria acontecido aos veículos?
Desviou o olhar para oeste, onde o Sol se projectava nas
paredes da arena. Entre as sombras, distinguiu as formas de um
carro de transporte de tropas, de um camiäo de apoio, de um
automóvel, e de vários cavalos.
Fez um sinal na direcçäo do templo.
- Vá lá. Vamos espreitar. Mas näo podemos fazer barulho.
Colocou-se à frente, seguido por Henry, Sallah e Brody.
Devagar, subiram os degraus que levavam à entrada escura.
Quando chegaram lá acima Indy olhou para trás, certificando-se
de que os outros continuavam a segui-lo. Depois dirigiu-se
para o templo.
Os olhos demoraram algum tempo a habituarem-se à escuridäo.
Foi entäo que viu que estava alguém mesmo à sua frente - um
cavaleiro vestido com uma armadura, uma figura hercúlea, cerca
de duas, três vezes maior que ele.
Indy parou, recuou, e quando compreendeu o que se passava
sorriu. O cavaleiro estava gravado num enorme bloco de pedra.
O interior do templo estava cheio de cópias precisas do
sentinela de pedra, e, para lá deles estava um anel de pilares
maciços.
Indy relaxou e apontou para os cavaleiros. Depois ouviu
qualquer coisa, um som vindo do interior do templo, e de
imediato os seus sentidos se puseram alerta. Os músculos
ficaram tensos. O nervoso fê lo estremecer. A fascinaçäo que
sentira pelo templo fizera esquecer o facto de que Donovan e
Elsa estavam algures à sua frente.
Fez sinal aos outros para que o seguissem e continuassem o
mais silenciosos possível.
154
Foram-se escondendo atrás dos pilares até se aproximarem o
suficiente para ver o que estava a passar-se no centro do
templo.
Um dos soldados do exército do sultäo, empunhando uma
espada, subia cuidadosamente uma escadaria que levava a uma
abertura abobadada existente na parede posterior do templo. Na
base dos degraus, a observar o soldado, estavam Donovan e
Elsa. Atrás deles encontravam-se mais nazis, e vários homens
do sultäo.
"Elsa.", Indy ficou a olhá-la.
Reparou no modo como ela se concentrava na progressäo do
soldado. Calculou que ela partisse do princípio de que ele se
encontrava morto. Era apenas mais um homem no seu passado.
Usado, esquecido. Apesar de tudo o que ela lhe dissera, era
óbvio que o único romance que mantinha era com o Graal, com as
suas histórias e lendas. Os homens representavam apenas meios
para atingir um fim.
Mas isso näo bastava. Havia mais qualquer coisa. Tinha de
haver. "Algo que eu näo conseguia ver." Depois concluiu que
talvez fosse mais simples que aquilo que parecia. Talvez ela
acreditasse nas lendas. Talvez se tivesse convencido de que o
Cálice do Graal era mesmo uma fonte de imortalidade.
E quanto a Donovan? Este conversara com Indy a respeito do
mito. Mas será que acreditava mesmo nele? Tinha de acreditar.
Ao cabo e ao resto, ele näo precisava de pôr a vida em perigo
para obter uma peça. Claro que trabalhava em conjunto com
Elsa, mas näo a deixaria ficar com o Graal. Tinha a certeza
disso.
Levantou os olhos para o soldado que estava a aproximar-se
do cimo dos degraus, e viu algo diferente. Apenas a alguns
passos do homem, estava outro dos soldados do sultäo, e, perto
do cadáver, havia outra coisa. Tentando descobrir o que seria,
Indy inclinou-se.
"Meu Deus!", Tratava-se da cabeça do soldado.
- Continua a avançar. - Era Donovan quem encorajava o homem.
- Continua a avançar. Estás quase lá.
Elsa abanou a cabeça.
- Näo é possível.
O soldado parou apenas a um passo do cadáver.
- Continua a avançar - gritou Donovan.
O homem deu um passo na direcçäo do arco, e foi o último que
deu. Um som sibilante, parecido com uma rajada de vento,
varreu o templo, e, sem mais nem menos, a cabeça do turco
foi-lhe arrancada do pescoço. Caiu para junto dos degraus,
começou a baloiçar, e caiu por eles abaixo, rolando ao
encontro de Elsa e Donovan.
Este fez sinal a um dos soldados, que se apressou a apanhar
a cabeça. Atirou-a na direcçäo onde Indy e os outros estavam
escondidos.
155
A cabeça ficou apenas a uns escassos centímetros deles.
Tinha a boca aberta e uma expressäo de horror gravada no
rosto.
Indy desviou os olhos.
- O sopro de Deus - disse Henry, devagar.
A princípio, näo entendeu o que o pai queria dizer. Depois
lembrou-se dos três desafios descritos no diário do Graal. O
sopro de Deus... Quais eram os outros dois? De momento näo
conseguia raciocinar com clareza. Levou a mäo ao bolso onde o
diário se encontrava. Ainda lá estava. Precisaria dele para
conseguir o Graal. Contudo, e parajá, precisava de arranjar
maneira de passar por Donovan e o seu séquito.
Foi entäo que ouviu o americano ordenar a um dos guardas
nazis para arranjar mais um dos soldados do sultäo.
- Helmut, traz um voluntário.
O nazi apontou para um dos soldados, mas o homem abanou a
cabeça e recuou. Dois dos nazis pegaram nele e arrastaram-no.
- Näo... Näo... Näo! - gritava, lutando para se libertar.
Empurraram-no, e ele foi forçado a subir os primeiros
degraus. Voltou-se: os seus olhos mostravam todo o terror que
sentia. O guarda que dava pelo nome de Helmut puxou da Luzger
e apontou-a ao soldado.
Relutante, este voltou-se e deu início à escalada mortal até
ao topo.
Pelo canto do olho, Indy viu Brody desviar os olhos, incapaz
de presenciar mais uma decapitaçäo. Quanto a ele, estava täo
interessado em testemunhar a chacina como o próprio Brody o
estava.
Sentia-se como um dos espectadores de um circo romano, mas
näo sabia o que havia de fazer. Precisava de um plano de
ataque, mas...
Brody deu-lhe uma pancadinha no ombro.
- Indy!
Os vincos do rosto do homem eram täo profundos que mais
pareciam sombras. Indy levou um dedo aos lábios, mas foi entäo
que viu o que o outro vira. Aalguns metros de distância, um
soldado nazi apontava-Lhes um revólver.
- Raus! Raus! - gritou, acenando freneticamente com a arma,
dando a entender que se deviam mexer.
Nesse momento, foram rodeados por mais três soldados nazis,
todos eles armados. Indy compreendeu que era provável que
tivessem estado escondidos perto da entrada, a observá-los
desde o momento em que tinham entrado no templo. O nazi com a
pistola revistou-os à procura de armas e confiscou as que
estavam com Indy e Sallah.
Empurraram-nos até ficarem à vista de todos, com as mäos
levantadas acima das cabeças. Os soldados do sultäo
voltaram-se, apontando-lhes as espingardas. Indy viu Elsa
girar os calcanhares e encará-lo.
156
Abriu a boca e pareceu tremer ligeiramente. Donovan
dirigiu-se ao seu encontro, escondendo a surpresa que sentia
por detrás de um sorriso rasgado. Dava a sensaçäo de que
tinham chegado alguns amigos seus, convidados para o jantar. E
que ele era o anfitriäo.
- Ah, os Jones... E mesmo na hora. Sejam bem-vindos. Podemos
fazer uso dos vossos conhecimentos. Estou muito feliz por
ainda estarem vivos.
- Nunca conseguiräo o Graal - explodiu Henry. - Está para lá
do vosso entendimento e capacidade.
- Näo tenha tanto a certeza, dr. Jones. - Donovan falava por
entre dentes. - O senhor näo é o único perito do Graal que
existe no mundo.
Fez sinal aos guardas para que os levassem até aos degraus.
Empurraram-nos para a frente, e alinharam-nos no lado oposto
ao dos soldados do sultäo. Indy pensou que se pareciam com
alvos numa carreira de tiro.
Elsa saiu de detrás dos soldados e dirigiu-se para Indy.
- Näo esperava voltar a ver-te.
- Erva ruim nunca morre.
Donovan colocou uma mäo em cima do ombro de Elsa.
- Venha para trás, dr.a Schneider. - A sua voz era
desdenhosa, como se estivesse a questionar a lealdade dela. -
Deixe o Indiana respirar.
Ela ignorou por um momento, näo se mexendo. Os seus olhos
estavam presos em Indy, como se näo acreditasse no que estava
na sua frente.
Indy desviou o olhar. Näo era altura para renovar velhos
conhecimentos, especialmente com ela.
- O dr. Jones vai trazer-nos o Graal - declarou Donovan.
Indy virou a cabeça na direcçäo dos cadáveres decapitados e
soltou uma gargalhada. O terceiro soldado parara a meio dos
degraus, e começara a descer devagar, procedendo como se
ninguém o estivesse a ver.
- Achou graça? Esta é a sua oportunidade de passar para a
história no caso de ser bem sucedido. Que diz a isto, Indiana
Jones?
- Passar para a história como, Donovan? Um esbirro nazi como
você?
O outro olhou durante instantes, e Indy näo foi capaz de
dizer se este estava zangado ou divertido. Foi entäo que
Donovan sorriu e abanou a cabeça, tal como se ele fosse uma
criança que acabara de dizer uma estupidez.
- Os nazis - cuspiu. - Näo consegue ir além disso?
Indy näo se incomodou a responder.
- Os nazis querem fazer parte da lenda do Graal, e
conquistar o mundo - continuou. - Säo bem-vindos. Eu e a dr.a
Schneider queremos o próprio Graal, o cálice que garante a
157
vida eterna. Hitler pode conquistar o mundo, mas näo o pode
levar consigo.
Aproximou-se de Indy, esticando o queixo quadrado.
- Continuarei a beber à minha saúde, mesmo depois de ele ter
ido desta para melhor.
Tirou a pistola do bolso e apontou-a entre os olhos de Indy.
Recuou um passo.
- O Graal é meu, e é você quem o vai buscar.
Indy sorriu, fingindo indiferença.
- Näo se está a esquecer da dr.a Schneider?
Donovan sorriu.
- Ela vem junto com o Graal. Azar o seu.
Os olhos dele desviaram-se para Elsa, que se encontrava
alguns passos atrás do americano. O seu rosto era uma máscara
suave e meiga -, uma charada.
Donovan destravou a arma.
- Avance.
Indy apontou para a pistola.
- Näo vai conseguir nada com ameaças.
O outro sabia que ele falara verdade. Por instantes, näo Lhe
deu resposta. Foi entäo que desviou os olhos para Henry, e
depois de novo para Indy. Um sorriso velhaco iluminou-lhe o
rosto.
- Sabe uma coisa, dr. Jones? Concordo plenamente. Tem toda a
razäo.
Voltou-se para Henry e apontou-lhe a arma.
- Näo - gritaram Elsa e Indy ao mesmo tempo.
Contudo, Donovan disparou, atingindo-o no estômago à
queima-roupa.
Henry cobriu o estômago com as mäos. Cambaleou, e virou-se
para o filho.
- Pai!
Elsa correu para ele. Donovan agarrou-a e atirou-a para
trás.
- Näo se meta nisto.
Henry desmaiou nos braços do filho. Enquanto Indy o colocava
suavemente no chäo, Brody e Sallah corriam para ele. Sallah
começou a embalar a cabeça de Henry, e Brody ajoelhou-se a seu
lado.
Indy rasgou a camisa do pai. A ferida quase o fez soltar um
grito. Brody passou-lhe um lenço para a mäo, e ele pressionou
contra a ferida, tentando fazer parar o sangue. Foi entäo que
reparou que a bala saíra pelo flanco, onde havia mais sangue.
Falava-Lhe devagar, dizendo que tudo ia ficar bem, e pedia a
Deus para que a sua voz fosse convincente.
- Levante-se, Jones - ordenou o nazi americano.
158
Indy virou a cabeça, os olhos a faiscar de raiva, e
levantou-se, deixando Brody a cuidar do pai. Estava prestes a
atirar-se ao pescoço do outro, mas hesitou quando este
destravou a arma.
- Se estiver morto näo o poderá salvar - disse,
apontando-lhe a pistola ao coraçäo. - O poder do Graal é a
única coisa que pode salvar o seu pai. - Parou por um momento.
- Duvida? Está na hora de perguntar a si mesmo em quem é que
acredita.
Henry gemeu e tossiu.
- Indy - chamou Sallah. - Ele näo está nada bem.
Deu meia volta, e voltou a ajoelhar-se ao lado do pai. Brody
segredou-lhe que Henry estava muito ferido. Acenou. Ele sabia.
Sabia muito bem. Tinha olhos na cara.
- O Graal é a única hipótese que lhe resta - disse Donovan a
sorrir, pois tinha a certeza de que o outro aceitaria o
desafio. Näo tinha outra alternativa.
Indy olhou para Brody.
- Ele tem razäo. O Graal pode salvá-lo. Eu acredito que sim.
também deves acreditar.
Se as circunstâncias fossem outras, é provável que a ideia o
tivesse feito rir a bandeiras despregadas. Mas tratava-se do
pai, e o pai estava a morrer. Fez um sinal a Brody, e depois
levou a mäo à bolsa, à procura do diário. Estava prestes a
levantar-se, quando a mäo de Henry lhe tocou o punho.
- Lembra-te... o Sopro de Deus.
- Claro, pai. E hei-de trazer-te o Graal.
CAPíTULO XXI
OS TRëS DESAFIOS
Indy agarrou o diário e olhou para a escada. Lá no cimo
havia um arco, bem assim como uma passagem escura. Respirou
fundo, e começou a subir devagar na direcçäo dos dois corpos
sem cabeça.
Parou a meio caminho.
O silêncio foi quebrado pelo som feito pelos soldados do
sultäo quando carregaram as armas. O ruído ecoou através do
templo. Donovan ordenara aos soldados que disparassem, caso
ele tentasse fugir. Era evidente que estavam a cumprir as
ordens recebidas.
Abriu o diário do Graal, e olhou para as páginas. A luz era
fraca, a caligrafia mal se via. Contudo, tinha de poder passar
o arco - o sopro de Deus. O pai estava deitado no chäo a
esvair-se em sangue. Tinha de o ajudar. Tinha de conseguir
chegar ao cálice, e trazê-lo de volta o mais depressa
possível.
159
Em termos racionais, sabia que nenhum cálice antigo podia
curar uma ferida provocada por uma bala, mas isso näo
interessava. Já passara por várias experiências estranhas ao
longo da vida, e sabia que por vezes acontecem coisas que à
partida säo impossíveis. Talvez que nunca se pudessem provar
os poderes curativos do Graal, talvez que estes nunca pudessem
ser produzidos de um modo científico, mas ele estava disposto
a tentar. Tudo o que o Graal tinha a fazer era resultar. Nem
que fosse só por uma vez.
Deu mais dois passos. Podia ouvir o pai chamá-lo. Voltou-se,
e viu que os olhos mortiços do pai o fitavam. Procurou ouvir.
Henry repetia sempre a mesma frase.
- Só o penitente passará. Só o penitente passará. Só o
penitente passará.
Indy repetiu-a para si, e subiu os últimos degraus com todo
o cuidado. Os corpos estavam apenas a alguns passos. Os
degraus de cima estavam cheios de sangue.
Deu um passo na direcçäo do arco, e depois mais um. Podia
ver a passagem que estava para lá do arco. Parou, sentindo que
estava na eminência de ser decapitado.
- O penitente... Só o penitente passará - murmurou. - Só o
penitente passará. Só o penitente passará.
Repetia-a como se fosse um mantra, uma oraçäo, e, de cada
vez que a dizia, sentia-se cada vez mais consciente daquilo
que o rodeava. Consciente de que aquilo que procurava näo era
um objecto normal. Consciente de que a demanda do pai näo era
a sua.
Lembrou-se das palavras que este pronunciara quando passara
o desfiladeiro. "Foi Galahad que conseguiu o que o pai näo foi
capaz.", Reparou numa enorme teia de aranha que se estendia
pelo arco, apenas alguns passos à sua frente. Por que razäo
näo a tinha visto antes? Nenhum dos homens conseguira lá
chegar. Sabia que fosse o que fosse que dava pelo nome de O
Sopro de Deus, isso estava entre ele e a teia.
- Só o penitente passará. O penitente... penitente. Um
penitente.
Começou a dar mais um passo, mas ficou com o pé parado no
ar, mais ou menos como uma ave a descansar. "O penitente é
humilde perante Deus. O penitente ajoelha-se perante Deus.
Ajoelha!"
Voltou a baixar o pé, e deixou-se cair de joelhos. Quando o
fez, ouviu um enorme ruído sobre a sua cabeça e atirou-se para
o chäo instintivamente. Deixou-se ficar deitado de barriga
para baixo durante um bocado, e depois rebolou devagar,
virando-se. Levantou os olhos e viu o que estava por cima - um
pêndulo tríplice com uma lâmina afiada, que continuava a girar
a apenas alguns centímetros da sua cabeça. O pêndulo estava
ligado a duas roldanas de madeira, que, por sua vez, tinham
ligaçäo com o interior do arco de pedra.
160
Era bastante provável que fosse activado pela mais pequena
deslocaçäo de ar provocada pela presença de uma pessoa,
parando depois de atingir o alvo.
O pêndulo estava ali há vários séculos, e mesmo assim
funcionava na perfeiçäo como se debaixo de um encantamento.
Mas pelo menos compreendia esta parte. Sabia que eram precisos
milénios para que alguma coisa se desintegrasse naquele
deserto. Já vira cadáveres com centenas de anos que haviam
sido descobertos nas areias. A pele continuava agarrada aos
ossos, as roupas estavam intactas, e os fios davam a sensaçäo
de terem sido tecidos há pouco.
Indy viu uma corda pendurada numa das roldanas, e passou
para o outro lado do arco. Pegou na corda e passou uma das
pontas por cima de um dos raios da roldanamais próxima. Nesse
mesmo instante, o mecanismo parou e as lâminas ficaram
bloqueadas. Conseguira passar. Deixou-se ficar à entrada do
arco, com a teia de aranha agarrada às roupas. Fez sinal a
Brody e a Sallah de que tudo estava bem. Viu Elsa sorrir-Lhe.
Parecia satisfeita. Quanto mais tempo vivesse, mais perto ela
estaria do Graal.
- A isto chama-se um amor verdadeiro -, a sua voz estava
carregada de ironia.
Por um instante, os seus olhos cruzaram-se com os de
Donovan. Coçou o pescoço e deu meia volta.
Brody tocou no ombro de Henry.
- Ele conseguiu, meu velho. O Indy conseguiu.
Henry acenou, dando a entender que tinha compreendido, mas
Brody pôde ver o quanto lhe custara fazer um movimento täo
pequeno. Foi entäo que o ouviu murmurar qualquer coisa.
Olhou para Sallah, que continuava a segurar-lhe a cabeça.
- Que foi que ele disse?
Preocupado, o outro abanou a cabeça.
- As dores e o sangue que perdeu estäo a fazê-lo delirar.
Henry voltou a falar, e desta vez Brody compreendeu algumas
palavras.
- No alfabeto latino, começa...
- O quê? - inclinou-se para ouvir melhor.
- ... Com um "I".
- No alfabeto latino começa com um I - repetiu. - Está bem,
mas o quê? - confuso, abanou a cabeça e reconheceu que Sallah
tinha razäo. Henry estava a delirar.
Levantou a cabeça na direcçäo da passagem, desejando boa
sorte a Indy. Só depois reparou que Donovan, seguido de Elsa,
ia a subir os degraus. Os desgraçados.
- É perfeitamente revoltante - murmurou.
De repente, Henry ergueu-se ligeiramente, com uma voz rouca.
- A Palavra de Deus... A Palavra de Deus...
161
- Näo, Henry. Vê se näo falas - disse-lhe Brody.
O corpo do outro foi percorrido por um espasmo doloroso, e
Brody receou que estivessem prestes a perdê-lo.
- O nome de Deus - repetiu. Descontraiu-se um pouco quando a
dor aliviou. - Jeová -, murmurou. - Contudo, no alfabeto
latino, Jeová começa com "I".
O corpo contorceu-se devido a outro espasmo.
- Oh, Meu Deus - arquejou, tentando respirar.
Sallah pôs-lhe uma mäo no ombro e deitou uma olhadela à
passagem.
- Está tudo bem, Henry.
Indy acendeu um fósforo, colocou-o por sobre o diário e
traduziu as frases em latim.
- O segundo desafio. A palavra de Deus, só seguindo os
passos de Deus ele conseguirá.
O fósforo apagou-se.
Indy ficou às escuras e olhou em frente, interrogando-se
sobre o significado das palavras. Esperava descobri-lo a tempo
de salvar a vida quando tivesse de enfrentar o desafio. Pelo
menos no que respeitava ao primeiro, o pêndulo, beneficiara da
vantagem das duas tentativas falhadas que o tinham antecedido.
- Só seguindo os passos de Deus ele conseguirá - repetiu,
decorando as palavras. - A palavra de Deus... a palavra de
Deus.
"Que quererá isto dizer?"
Acendeu outro fósforo e leu o resto da secçäo.
- Conseguirá, seguindo os passos da palavra. No nome de Deus
- Jeová.
Ouviu um ruído e voltou-se, encarando com Donovan e Elsa.
Estavam ambos para lá da entrada da passagem, à espera que
ele desse o próximo passo.
"Parasitas", pensou.
- Näo pare agora, dr. Jones - disse Donovan ironicamente. -
Acabou mesmo agora de começar.
Indy lembrou-se de que a única razäo que tinha para estar
ali era o pai. Nada tinha a ver com Donovan. Nem com Elsa.
Virou-se e continuou a avançar através da passagem até
chegar a um tabuleiro composto por pedras arredondadas.
- Godos. - Lembrou-se da palavra que estava no diário.
Encontrava-se na página dos diagramas. O pêndulo. Os Godos.
Havia também qualquer coisa a respeito de uma ponte.
Acendeu outro fósforo e voltou a página do livro. Acabou por
compreender que o tabuleiro era constituído pelos próprios
Godos.
Levantou o fósforo para poder ver melhor o padräo das
pedras.
162
Tal como no diagrama, cada uma delas estava marcada com uma
letra.
- A palavra de Deus. Avança segundo os passos da palavra de
Deus. Jeová.
æ laia de tentativa, pôs o pé na letra "J". Subitamente,
enfiou o pé num buraco, e quase que se desequilibrou. Voltou a
endireitar-se, e puxou a perna para fora. Quando o fez, sentiu
algo a rastejar pelo tornozelo. Sacudiu o pé, e depois enxotou
uma enorme aranha peluda. Esta, algo gordo e horrendo,
rastejou pela passagem e näo demorou muito para que Elsa
soltasse um grito.
"portou-se melhor com os ratos da biblioteca."
Voltou a olhar para o diagrama e abanou a cabeça, desgostoso
com o erro que cometera. "Está bem. Acorda. Presta atençäo,
näo estamos a trabalhar em inglês. o Jeová latino começa com
"I".
Acendeu um outro fósforo e deu uma rápida vista de olhos aos
godos. Entäo, dizendo as letras em voz alta, começou a saltar
de pedra em pedra. Quando aterrou no "O" o pé escorregou para
a pedra que tinha a letra "P". Nesse mesmo instante, esta
caiu. Ele vacilou, recuperou o equilíbrio, e passou pelas
letras que faltavam. Conseguira.
Olhou para trás e viu que Donovan e Elsa se aproximavam do
tabuleiro. Näo estava disposto a fornecer-lhes quaisquer
pistas, mas, a partir do que ouvira dizer a respeito das
entradas do diário, e pelo que o vira fazer em relaçäo às
pedras, Elsa já compreendera tudo.
Enviou-lhe um sorriso, e avançou como se estivesse a jogar à
macaca. - I-E-H-O-V-A Jeová.
Indy arrancou algumas teias de aranha do chapéu, virou-se, e
continuou a andar. Atrás de si, ouviu Donovan gritar para Elsa
para que continuasse, que o mantivesse debaixo de olho, que
ele seguia mesmo atrás dela.
Sallah sabia que Henry se apagava lentamente. Já nem sequer
se movia nem delirava. A sua respiraçäo era täo fraca que mal
se ouvia.
Levou a mäo ao pescoço do amigo, tentando medir-lhe as
pulsaçöes, depois olhou para Brody e abanou a cabeça.
- Receio bem que ele...
- Näo. Ele näo pode morrer - retorquiu o outro. Olhou para
os degraus. - Vou à procura do Indy. Ele tem de se apressar.
Näo há tempo a perder.
Sallah ficou a vê-lo subir as escadas, achando que este
estava a delirar tanto como Henry.
- Pai do Indy. Fique connosco um pouco mais. O seu filho
chegará em breve. O seu filho chegará.
Levantou os olhos para o céu e murmurou uma oraçäo.
163
Quando acabou, ouviu uma voz. Era Henry. Inclinou-se,
satisfeito por Deus 1he ter respondido täo depressa.
- Pai do Indy. Que está a dizer?
- Tens de acreditar, filho... Tens de acreditar. Tens de
acreditar... Acredita... Tens de o fazer.
Indy encontrava-se à beira do abismo, agarrado a uma rocha
que Lhe servia de ponto de apoio. A passagem terminara
abruptamente. Do lado de lá do golfo estava uma abertura
triangular, e, na superfície rochosa que se elevava a partir
dali, estava gravada a cabeça de um leäo.
- O caminho de Deus.
Olhou para o alto, viu uma cabeça de leäo igual à outra, e
depois voltou a olhar para o diário.
- Saltando da cabeça do leäo poderá ele provar o seu valor.
Espreitou para o abismo, depois para a superficie rochosa.
Näo, estava longe de mais para saltar. Ninguém o conseguiria.
Foi entäo que se lembrou da página dos diagramas, e
procurou-a no diário. O Pêndulo. Os Godos. A Ponte Invisível.
O terceiro diagrama tinha a forma de uma cunha com uma série
de linhas a tracejado que se estendiam até à parte superior da
cunha. Analisou-o durante um momento, depois fechou o livro.
É inútil. Nada fazia sentido. Näo acreditava em pontes
invisíveis.
- Indy?
Voltou-se quando ouviu avoz de Brody elevar-se do interior
da passagem.
- Marcus? - respondeu.
- Indy, tens de te apressar.
Voltou a estender a cabeça na direcçäo da parede rochosa e
fechou os olhos. Podia voltar atrás e assistir à morte do pai.
Ou entäo, podia saltar e esperar... Isto muito embora näo
houvesse esperança. Lembrou-se de repente de algo que se
passara quando tinha 10 anos, e perguntou-se como era possível
poder assistir à sua vida passada, quando nem sequer tinha
saltado ainda.
Quando fizera 10 anos, o pai oferecera-lhe um arco e
colocara um alvo no pátio das traseiras.
- Fica atrás desta linha, Júnior, e pratica. Quando tiveres
acertado na mouche, chama-me. Mas näo faças batota. Mantém-te
atrás desta linha.
- Sim senhor. - Estava feliz e excitado, e, acima de tudo,
queria agradar ao pai. Praticou o resto da tarde, mas nunca
conseguiu acertar mesmo no meio do alvo. A maior parte das
vezes, falhou por completo o alvo e foi obrigado a ir procurar
as setas no meio dos arbustos que se encontravam no outro
extremo do quintal.
164
O Sol já estava a pôr-se, quando o pai voltou a sair de
casa.
- Entäo, Júnior?
- Näo consigo, pai. - Os seus olhos estavam rasos de água.
Estava zangado e frustrado. - Näo consigo acertar na mouche.
Estou demasiado longe.
- Näo, näo estás, Júnior. Näo estás longe de mais. O teu
problema é que näo acreditas. Quando acreditares que o
conseguirás fazer, entäo sim, serás capaz. Acredita, Júnior.
Acredita.
Fizera-lhe notar que o facto de acreditar näo o iria tornar
melhor. O pai apontava-lhe o dedo.
- Näo te transformes num cínico quando cresceres, Indy. O
cínico é uma pessoa assustada que nada consegue realizar.
Baixara o arco e ficara a olhar para o centro do alvo,
repetindo vezes sem conta que tinha de acreditar que o podia
atingir. Levantou o arco, mas sentiu que as suas dúvidas
voltavam. Voltou a baixá-lo.
"Eu acredito. Eu acredito. Acredito que o posso atingir. Vou
ser capaz. Sou capaz de atingir o alvo. Acredito. Vou
conseguir."
E conseguira-o. Indy abriu os olhos. A recordaçäo fora täo
real que quase se sentira outra vez com 10 anos. Voltou a
olhar para o outro lado do abismo. Quando crescera, achara que
aquilo tudo näo passara de coincidência. Contudo, agora näo
era o momento para questionar os poderes da fé. "Tenho de
acreditar. É a única saída. Posso conseguir. Tenho de
acreditar nisso."
Enfiou o diário na bolsa, e concentrou as suas atençöes na
parede de rocha que se erguia do outro lado, repetindo sempre
que acreditava. "Se näo acreditar, näo salto. Salto só se
acreditar."
Afastou as dúvidas, concentrando-se e repetindo a sua
crença, até que sentiu que isso começava a ser verdade.
Respirou fundo.
"Posso fazê-lo, pai. Posso fazê-lo e fá-lo-ei."
Agachou-se à beira do abismo. Com todas as forças que tinha,
tomou balanço e saltou como um leäo.
Foi um salto forte, o melhor que podia fazer. Mas é evidente
que näo foi suficiente. O fosso era demasiado largo.
Estava prestes a morrer. Contudo, sabia que nada disso se
passaria. Nesse preciso momento aterrou em qualquer coisa, e
caiu para a frente, apoiado nas mäos e nos joelhos.
Olhou para baixo e viu que estava num parapeito de pedra que
começava a alguns metros abaixo da passagem. Mas por que razäo
näo o tinha visto antes? Era óbvio que sempre ali estivera.
Inclinou-se para trás ligeiramente, tentando ver o parapeito
a partir da parede oposta. Só entäo reparou que as pedras
tinham algo de estranho. Tratava-se de uma coisa engenhosa. O
parapeito fora pintado para se confundir com as rochas que se
encontravam no fundo do canal. Tendo como ponto de partida a
parede oposta, parecia näo existir qualquer parapeito.
165
Até à altura em que saltara, a camuflagem era perfeita.
Riu-se em voz alta. Acreditara, e tinha descoberto o
impossível. A Ponte Invisível. Se näo tivesse acreditado que
podia sobreviver nunca teria saltado, e nunca teria encontrado
a ponte.
Pôs-se em pé, oscilou um pouco e olhou para trás, para o
lado do abismo. Viu que Elsa e Donovan o olhavam, espantados.
Voltou a rir, sabendo que a partir do ponto em que estavam,
ele dava a impressäo de estar a pairar no ar.
Alegremente, avançou pelo parapeito à medida que este subia,
formando uma rampa suave que terminava ao lado da cabeça do
leäo. Estava mesmo por debaixo da abertura existente na parede
de pedra.
Foi entäo que se lembrou de uma coisa. O leäo era um dos
símbolos da demanda do Graal -quinto nível de consciência.
Representava a liderança, a conquista e a realizaçäo dos
objectivos elevados.
Vencera os três desafios. Alcançara um objectivo elevado.
Agora estava pronto a avançar e a descobrir o cálice. Apesar
disso, tinha a sensaçäo de que o desafio mais duro de todos
ainda estava à sua frente.
166
CAPíTULO XXII
O TERCEIRO CAVALEIRO
Antes de prosseguir, olhou para trás e viu Elsa atirar
pedras e poeira de encontro ao abismo e à ponte invisível.
"É uma mulher inteligente. Inteligente e perigosa."
æ medida que ia avançando, a passagem tornava-se mais
estreita, e o tecto estava cada vez mais baixo. Já batia com a
cabeça no tecto, e os ombros roçavam as paredes. Foi obrigado
a rastejar, mas o facto näo adiantou muito: a cabeça
continuava a bater lá em cima.
"Por amor de Deus, se isto se tornar mais apertado terei de
começar a acreditar que sou um coelho."
A escuridäo envolvia-o como uma capa espessa. Abria caminho
com os dedos, penetrando na escuridäo que se estendia à sua
frente. Preocupava-se com o facto de poder chegar ao fim e
encontrar uma parede de rocha. "E depois?" Näo ultrapassara
todos os desafios para constatar que o Graal näo existia, era
apenas um beco sem saída. Näo era altura para piadas cómicas.
Bateu com a testa em qualquer coisa, e, receando o pior,
estendeu o braço e bateu na parede com as mäos, tentando
definir os contornos do túnel. Apercebeu-se de que este
descrevia uma curva, e que näo chegara ao fim. Avançou
devagar, e reparou que agora existia ali uma luz desmaiada.
Avançou mais alguns metros. Lá à frente estava uma luz.
Começou a andar mais depressa. Aluz tornava-se mais forte,
mais brilhante. Pestanejou quando um raio de sol entrou pelo
túnel. Entäo, abrindo caminho à força pela abertura estreita,
chegou ao fim. Sentiu-se envolvido por uma lufada de ar fresco
e doce. Os seus olhos näo demoraram muito a habituar-se à luz
do dia. Levantou-se, sacudiu o pó dos ombros, e estendeu os
braços e as pernas. Estava dentro de um outro templo, se bem
que mais pequeno que o primeiro. A sua atençäo foi de imediato
atraída para um altar que estava no centro. Estava envolvido
em linho violeta, e em cima dele estavam dúzias de cálices de
vários tamanhos. Alguns eram de ouro, outros de prata, uns
estavam decorados com pedras preciosas, outros eram mais
simples. Mas todos eles brilhavam e faiscavam, e Indy ficou
paralisado com o espectáculo.
Sabia que tinha chegado ao seu destino.
Aproximou-se para os observar melhor, e foi entäo que viu um
outro altar, mais pequeno, e também qualquer coisa mais. Uma
figura envergando uma túnica e um toucado de malha estava
ajoelhada em frente a este altar, com as costas voltadas para
ele. Indy chegou-se mais perto. As mäos magras e ossudas do
homem estavam unidas, e tinha a cabeça baixa, como que em
oraçäo. A pele dos seus dedos era muito fina, quase
transparente, contornando o desenho dos ossos. Avançou um
pouco mais, e viu que um raio de luz iluminava a cruz que
estava bordada na túnica do homem.
Acabou por compreender quem era aquele para quem estava a
olhar: tratava-se do Terceiro Cavaleiro do Graal, o irmäo que
ficara para trás para guardar o cálice.
Baixou-se e espreitou para o rosto do Cavaleiro. Este tinha
os olhos fechados. Os lábios ressequidos estavam ligeiramente
entreabertos, tal como se estivesse prestes a dizer qualquer
coisa. O rosto apresentava umas enormes sobrancelhas brancas e
um nariz comprido. O tempo e o deserto haviam tornado o corpo
seco e quebradiço, mas muito bem conservado, em muito melhores
condiçöes que os restos macabros do irmäo, que estavam nas
catacumbas de Veneza.
Inclinou-se e franziu a testa. Por instantes, pensou ver o
cavaleiro pestanejar. Sorriu e abanou a cabeça. No altar em
frente estava uma vela, e a luz que dela emanava estava a
pregar partidas aos seus olhos.
Indy levantou a cabeça. "Uma vela. Quem a terá acendido?"
Levantou os olhos e examinou o templo à sua volta,
perguntando-se se näo estaria a ser vigiado.
- Vá lá, velhote, quem é que acendeu a vela?
167
Sem que o esperasse, o cavaleiro levantou a cabeça.
Espantado, Indy recuou.
- Que é isto?
Sem poder acreditar no que via, observou o cavaleiro
levantar-se e agarrar numa enorme espada com ambas as mäos.
Antes de ter tempo para compreender o que se passava, a espada
faiscou no ar. O cavaleiro esgrimiu a arma com destreza e
velocidade, e a ponta desta rasgou a parte da frente da camisa
de Indy e cortou a correia da sua bolsa, a qual caiu para o
chäo. Quando viu o Cavaleiro levantar de novo a espada e
apontá-la contra si, deu um salto para trás. Contudo, desta
vez o peso da arma foi demasiado, e o homem desequilibrou-se.
Recuou até bater de encontro ao altar , e ouviu-se um ruído
quando a espada caiu de encontro à pedra.
Indy foi ao encontro do cavaleiro e ajudou-o a levantar-se.
Apesar de velho, este possuía uma vitalidade enorme, que Lhe
fazia os olhos brilhar. Abriu a boca, mas näo saiu qualquer
palavra. Era como se ele já näo soubesse falar. Por fim,
acabou por o fazer em voz baixa.
- Sabia que ias chegar - disse, olhando-o de cima a baixo,
enquanto o comparava com uma qualquer imagem existente no seu
espírito. - Mas a força abandonou-me. Canso-me facilmente.
- Quem és tu? - perguntou Indy devagar.
- Tu sabes quem sou. O último dos três irmäos que juraram
encontrar e proteger o Graal.
- Mas isso foi há mais de oitocentos anos.
- Uma espera bastante longa.
Indy sorriu. O velhote estava senil.
- Quando foi a primeira cruzada?
A princípio, pensou que o velhote näo tivesse ouvido. Depois
seguiu-se a resposta.
- No ano do Senhor de 1095, no Concílio de Clermonte.
Proclamada pelo papa Urbano II.
- E quando foi que as cruzadas terminaram?
O cavaleiro mimoseou-o com um olhar de desprezo que lhe fez
lembrar o pai.
- Ainda näo acabaram. A última cruzada está diante dos teus
olhos.
Indy acenou. Apesar de tudo, näo tinha tempo para o
interrogar. Precisava de agir. Se este sujeito era real, e
ainda estava vivo, entäo o Cálice do Graal poderia salvar o
pai.
Ouviu vozes vindas do túnel, e começou a virar-se, mas o
velho cavaleiro agarrou na aba do seu chapéu.
- Estás vestido de uma forma muito estranha... para
cavaleiro. - Passou os dedos pelo chicote que o outro trazia.
- Bem, näo sou exactamente... um cavaleiro.
168
- Eu acho que és.
Indy encolheu os ombros.
- Fui escolhido por ser o mais corajoso e o mais digno. A
honra de guardar o Graal seria minha até que um outro
cavaleiro valoroso me desafiasse para o combate. - Levantou o
punho da espada. - Entrego-ta a ti que me venceste.
- Deixa-me explicar. Preciso que me emprestes o Cálice do
Graal. O meu pai...
- Quieto, Jones.
Indy voltou-se a tempo de ver Donovan sair do túnel e
apontar-lhe a pistola.
- Näo se mexa. - Donovan olhou à sua volta, viu o altar dos
cálices, e dirigiu-se para lá. Elsa saiu do túnel e näo
demorou muito a juntar-se-lhe.
Ainda com a pistola apontada para Indy, o homem encarou o
cavaleiro, e perguntou-lhe:
- Vamos lá, qual deles é o certo?
O cavaleiro deu um passo à frente, e, enquanto fitava
Donovan, empertigou-se todo.
- Já näo sou mais o guardiäo do Graal. - Apontou com a
cabeça na direcçäo de Indy. - É ele quem deverá responder ao
desafio. Eu näo ajudarei em nada, nem dificultarei em nada.
O outro sorriu para Indy.
- Näo é ele quem me vai impedir.
- Entäo escolhe acertadamente - aconselhou o cavaleiro. -
Porque, tal como o verdadeiro Graal te dará a vida, o falso
Graal a levará.
Indy fez um sorriso de esguelha.
- Escolha, Donovan. Boa sorte.
Elsa aproximou-se do altar.
- Está a vê-lo? - perguntou-lhe ele em voz baixa.
- Sim.
- Qual é?
Ela tirou o chapéu, e, com todo o cuidado, pegou num cálice
brilhante, cravejado de pedras preciosas. Donovan tirou-lho
imediatamente das mäos e estendeu-o para a luz.
- Ah, sim. É muito mais belo que aquilo que eu imaginava. E
é meu.
Indy ficou à espera de que ela protestasse, mas Elsa ficou
silenciosa. O rosto do cavaleiro nada revelava.
Donovan olhou para uma fonte, e levou o cálice até junto
dela. Elsa seguiu-o.
Indy sabia que, de acordo com a lenda, quem bebesse água do
cálice atingiria a imortalidade.
O nazi americano voltou a admirar o cálice.
- De certeza que este é um cálice digno do rei dos reis. E
agora é meu. - Encheu-o de água e elevou-o bem alto.
169
Deitou um olhar de triunfo a Indy e ao cavaleiro. Continuava a
segurar a pistola, mas, devido à excitaçäo que sentia, já näo
a apontava para Indy.
- A vida eterna. - Deu uma golada bastante profunda. Baixou
o cálice à altura do peito. Tinha os olhos fechados, e um
sorriso de beatitude espalhava-se-lhe pelo rosto.
Naquele momento, Indy poderia tê-lo empurrado e poderia
ter-lhe tirado o objecto das mäos. Mas algo em si dizia-lhe
para esperar e ver o que se passaria a seguir. Näo teve de
esperar muito.
Subitamente, Donovan esgaziou os olhos. A mäo que segurava o
cálice começou a tremer. Voltou-se, e dobrou-se para a frente.
O rosto estava contorcido com dores. O corpo tremia. Deixou
cair a arma.
Com um esforço enorme, afastou-se da fonte e foi aos
tropeçöes até ao altar. Parou a apenas alguns centímetros de
distância, incapaz de dar um passo.
- Que... me... está... a... acontecer? - perguntou,
ofegante.
As feiçöes contorceram-se numa máscara medonha. As maçäs do
rosto projectaram-se para a frente. A pele começou a
encarquelhar. Quando se voltou para Elsa, ainda agarrado à
taça, parecia muito velho e frágil. Os olhos pareciam ter-se
afundado nas faces e tinha um aspecto de velhas pedras, bem lá
no fundo das órbitas.
Só depois avançou para Elsa, enterrando-Lhe as mäos no
ombro.
- Que... está... a.... acontecer?
Ela gritou e tentou afastá-lo, à medida que o outro ia
repetindo a pergunta, a voz cada vez mais fraca, o corpo a
deteriorar-se rapidamente. O cabelo estava mais comprido,
cinzento e crespo.
O rosto afundava-se, e a pele começava a cair.
- Näo. Näo. Näo. Näo. Näo. Näo - murmurou. Abanou a cabeça,
ao que se seguiu uma chuva de pele a cair.
Aterrorizada, Elsa gritou.
As unhas de Donovan encaracolaram. Os olhos estavam cheios
de cataratas leitosas. A pele que ainda lhe restava ficou
castanha e dura, e esticou-se sobre o rosto até rebentar e
ficar em tiras.
Só entäo caiu ao chäo, um esqueleto muito, muito antigo, que
o tempo escurecera.
Indy passou rapidamente para o lado de Elsa, e afastou-a
daqueles restos que continuavam a encolher. Deu um pontapé num
monte de ossos e pó, e os braços esqueléticos de Donovan
voaram , caíram, e transformaram-se em pó.
Elsa agarrou-se a Indy com o rosto escondido na sua camisa ,
soluçando. Enquanto isso, o templo era percorrido por uma
rajada de vento frio, que desapareceu lentamente. Ele
espreitou por cima do ombro de Elsa, fitando o monte de pó que
fora Donovan. Quando ela se acalmou um pouco, largou-a, e
voltou-se para o cavaleiro com uma expressäo interrogativa.
- Escolheu mal - disse o velho homem, ao mesmo tempo que
encolhia os ombros, tal como se a morte de Donovan o näo
tivesse afectado. Ele avisara.
Indy olhou para Elsa e apanhou a arma que o outro deixara
cair, enfiando-a no cinto. Depois correu para o altar. Estava
a pensar no pai, no pai que estava moribundo, no pai que
sangrava e sentia dores.
Deixou-se ficar em frente aos cálices, respirou fundo várias
vezes e desfocou o olhar. Sentia-se dominado por um
sentimento, uma estranha percepçäo. Começou a ficar tonto.
Fechou os olhos por um momento, concentrando-se, dizendo a si
próprio que seria capaz, que seria capaz de escolher o
verdadeiro Graal, aquele que haveria de salvar o pai.
Abriu os olhos e deitou uma olhadela rápida a todas aquelas
filas de cálices enfeitados de jóias. Foi entäo que os seus
olhos pousaram num que era diferente de todos. Era um cálice
simples, e, quando comparado com os outros, pouco bonito. Näo
sabia porquê, mas parecia-lhe ser aquele. Pegou nele e olhou-o
com cuidado. Näo sabia o que esperava encontrar. Sabia que
este näo teria qualquer marca comprovativa de autenticidade.
- É esse? - perguntou Elsa.
- Acho que só há uma maneira de o sabermos.
Dirigiu-se para a fonte e encheu-o de água. Respirou fundo,
deu uma golada, e ficou à espera, perguntando se iria
acontecer alguma coisa, se iria enfrentar os últimos segundos
da sua vida. Näo se sentia diferente, nem para melhor nem para
pior.
Depois viu tudo enevoado. Estava tonto. Pestanejou, e fechou
os olhos. Pelo amor de Deus, teria escolhido mal?
Por muito estranho que parecesse, sabia que continuava a
ver. Contudo, era uma outra forma de ver. O cálice que estava
nas suas mäos era maior e diferente. Tinha asas, uma cabeça e
um bico. Era uma águia, estendendo as suas enormes asas,
tentando voar. Era a águia da sua demanda pessoal, e a águia
que assinalava o sexto, e o último, nível de consciência na
busca do Graal.
- Indy?
Ao ouvir a voz de Elsa, pestanejou e abanou a cabeça.
Continuava a segurar o cálice. Olhou-a. Pela expressäo do seu
rosto, sabia que ela näo partilhara a experiência que tivera.
Olhou para o cavaleiro, que lhe sorriu.
- Escolheste bem.
Era esta a confirmaçäo de que precisava. Näo esperou nem
mais um segundo. Dirigiu-se para o túnel e rastejou através
dele. Avançava o mais depressa que podia, ao mesmo tempo que
tentava equilibrar o cálice cheio de água. Preocupava-o o
facto de poder bater com ele no tecto ou nas paredes,
170 171
mas também o preocupava saber que podia ir demasiado devagar,
e encontrar o pai morto quando chegasse junto dele. Mas quando
o túnel alargou, levantou-se e começou a correr, primeiro de
cócoras, depois, e de modo gradual, até se poder endireitar
completamente.
Abrandou quando chegou ao parapeito que se estendia sobre o
abismo. Este estava agora salpicado de terra, e podia ver-se
bem. Compreendeu que se tratava mesmo de uma ponte que ligava
as duas cabeças de leäo. Agora era fácil. Avançava pela ponte
o mais depressa que podia, segurando o cálice à sua frente.
Estava com pressa, a pensar no pai, e näo prestava a devida
atençäo ao que fazia. Ia a meio do caminho quando o pé direito
escorregou nos seixos e na areia. Uma das pernas deslocou-se,
ele começou a baloiçar para a frente e para trás, e o Cálice
do Graal a abanar por cima do abismo. Quando já recuperara o
equilíbrio, foi a vez de o outro pé escorregar, e, sem
qualquer cerimónia, caiu de costas. Milagrosamente, apenas
algumas gotas saltaram do cálice. Levantou-se com todo o
cuidado, e seguiu até ao outro lado com todas as cautelas.
Brody estava ao cimo das escadas, repartindo o olhar entre
Sallah e Henry de um lado, e a passagem escura do outro.
Continuava a näo haver sinais de Indy, e Henry näo iria
aguentar muito mais.
- Marcus!
Levantou os olhos, espreitou pela passagem, e viu Indy
caminhar ao seu encontro, apertando o Graal com ambas as mäos.
Abriu muito os olhos, e o rosto iluminou-se-lhe. Desviou-se
quando Indy passou por ele a correr e se precipitou pelas
escadas abaixo.
Deu um passo à frente e estava prestes a seguir Indy, quando
quase chocou com Elsa, que vinha a sair da passagem. Quando
chegou ao fundo dos degraus, Indy estava ajoelhado ao lado do
pai, rodeado pelos soldados do sultäo. Abriu caminho por entre
eles. Estes agora estavam sem chefe, e observavam tudo aquilo
por pura curiosidade.
Brody ajoelhou-se e ajudou Sallah a levantar a cabeça de
Henry. Indy chegou o cálice aos lábios do pai. Henry estava
demasiado fraco para abrir os olhos. Ele inclinou o
recipiente, mas a água limitou-se a rolar pela boca do doente.
- Vá lá, pai. Por favor bebe.
Brody olhou para Indy com ansiedade, e viu que este tinha
uma expressäo preocupada. Tinha de fazer alguma coisa.
Inclinou-se, e ajudou a abrir a boca de Henry. Sentiu que a
garganta deste se mexia. Estava a beber. Engolira parte da
água. Tinha a certeza.
Depois disso, Indy tirou o penso improvisado de cima da
ferida de Henry e atirou-lhe água para cima. Voltou a colocar
o Cálice do Graal junto aos lábios do pai, e deu-Lhe mais água
a beber.
Ficaram à espera.
, Indy estava certo de que o pai respirava com mais força.
Inclinou-se por sobre ele e escutou-lhe o coraçäo. A batida
era firme e regular. Quase que podia ver que o pai ia voltar a
si.
De súbito, Henry abriu os olhos. Focaram-se primeiro em
Sallah, depois em Brody, e em seguida no filho. Por fim,
pousaram no Cálice do Graal.
Indy sorriu, certo de que o pai estava livre de perigo. Era
bem provável que nunca conseguisse convencer os seus colegas
cépticos de que a água proveniente de um velho cálice curara o
pai, e haveria uma enorme controvérsia a respeito de saber se
este era, ou näo, o verdadeiro cálice sagrado.
Mas e depois? Ele sabia. Era isso que interessava. Vira e
experimentara a beleza e o poder do Graal. Ao fazê-lo, e na
sua demanda pessoal, passara do cinismo à dúvida, e da dúvida
ao conhecimento. Cumprira-se a demanda, e a ûltima Cruzada
estava a aproximar-se do fim.
- Pai, vais ficar bom. Acredito. Sei.
CAPíTULO XXIII
O FIM DA DEMANDA
æ medida que Henry estendia as mäos na direcçäo do cálice,
estas tremiam, só que desta feita de excitaçäo e näo de
fraqueza. O rosto voltara a ganhar cor, os olhos estavam bem
abertos, claros, lúcidos. A ferida voltara a ser coberta, mas
já deixara de sangrar e parecia que näo lhe provocava muitas
dores. Com a ajuda de Sallah, fora capaz de se levantar
apoiado no cotovelo.
Quando, orgulhoso, Indylhe passou o cálice, ouviu um barulho
atrás de si. Virou a cabeça e viu que os soldados do sultäo
deixavam cair as armas e recuavam, assustados. A sua
curiosidade transformara-se em medo. Já näo queriam guardar os
feiticeiros que haviam praticado uma cura milagrosa, e, de
repente, todos eles fugiram do templo. æ excepçäo de dois,
todos os guardas nazis que ali se encontravam foram atrás
deles, aos gritos, ameaçando matá-los a todos. Mas eles
continuaram a fugir. Sallah aproveitou a situaçäo ao máximo.
172 173
Quando os dois homens que tinham ficado para trás chamaram
os companheiros, ele abriu caminho até à espingarda mais
próxima. Levantou-a, deu meia volta e ordenou aos nazis que
ali estavam para largarem as armas.
- Die Gewehr herunter - repetiu depois de os ter visto
hesitar.
- Façam o que ele diz - ordenou-lhes Elsa.
Hesitaram, mas näo por muito tempo.
Contudo, Sallah näo se apercebera de que um outro nazi tinha
ficado para trás, e que estava apenas a alguns passos de Elsa.
Quando ele levou a mäo à pistola, Indy mergulhou na direcçäo
das suas pernas, fazendo-o cair. O nazi rebolou e apontou a
arma ao outro. Estava prestes a disparar quando Elsa lhe deu
um pontapé na mäo, afastando a arma.
Indy levantou-se apoiado num joelho. Era incapaz de desviar
os olhos da rapariga, surpreendido pelo que ela fizera. O nazi
aproveitou-se disso e deu-lhe um murro. Indy levou a mäo ao
queixo, franziu o sobrolho, agarrou o outro pelo colarinho e
aplicou-lhe um soco forte e directo. O soldado caiu ao chäo e
rebolou umas quantas vezes. Indy pôs-se de pé e sorriu para
Elsa. Näo sabia o que fazer com ela. Por um lado, tinha provas
suficientes de que ela o enganara, contudo, acabara de lhe
salvar a vida. Subitamente, a expressäo complacente dela
transformou-se numa expressäo horrorizada. Abriu a boca e
estremeceu durante um segundo.
- Cuidado! Atrás de ti!
Indy voltou-se mesmo a tempo de segurar o braço do nazi,
enquanto este carregava sobre ele segurando uma enorme faca.
Sallah ordenou-lhe que a largasse. O homem olhou para o cano
da espingarda, lançou um olhar ameaçador a Sallah, e depois
largou a faca.
Indy agarrou-a e fez o nazi girar.
- Vai ter com os teus amiguinhos - disse, empurrando-o na
direcçäo dos outros dois guardas.
Olhou para o pai, e compreendeu que quando Sallah o deixara
ele continuara sentado apertando o cálice de encontro ao
estômago. Ia para Lhe perguntar como se sentia, mas viu que
Henry olhava para além dele, com os olhos vítreos e a
expressäo estática.
"Que se passa?"
Devagar, voltou-se e viu que o cavaleiro do Graal se
encontrava ao cimo das escadas.
- Eu conheço-te - disse Henry para o cavaleiro. - Sim,
conheço-te.
- Teremos sido camaradas de armas?
- Näo, pelos livros. És o terceiro cavaleiro, o que ficou
para trás. Mas, näo compreendo. Tinhas o Cálice do Graal. Por
que razäo és täo velho?
174
O homem desceu os degraus.
- Por vezes o meu espírito vacila e näo consigo beber do
cálice. É por isso que envelheço um ano por cada que näo bebo.
Mas agora estou livre e posso morrer honrado, pois este
valente cavaleiro andante veio ter comigo.
Indy olhou para o pai, e começou a näo se sentir muito à
vontade.
- Pai, há aqui um mal entendido qualquer. Eu näo...
- Ele näo é um cavaleiro andante - troçou Henry -, é apenas
o meu filho que tem levado uma vida impura. Indigno da honra
que lhe concedes.
Indy acenou.
- Sim, uma vida impura.
- Totalmente indigna. Filho, faz alguma coisa de valor e
ajuda o teu pai a levantar-se.
Henry colocou o cálice no chäo, e passou um braço por cima
do ombro de Indy.
- Tens a certeza de que queres experimentar, pai?
- Claro. Já me sinto bastante bem.
Brody colocou-se do outro lado, e ambos levantaram Henry com
cuidado. Indy esperava que as melhoras do pai näo fossem
temporárias, provocadas pela visäo do cálice e pela crença de
que este o poderia curar. Queria que a cura fosse real.
- Vês? - O pai encolheu-se por um instante. Depois, com toda
a coragem, endireitou-se. - Näo foi assim täo mau.
- Pai, estás mesmo curado?
Henry franziu o sobrolho como se o filho fosse uma criança
que fizesse perguntas tolas. Retirou os braços de cima de
Henry e Brody.
- Quantas vezes já te disse, Júnior, que a crença cria a
realidade? Eu acreditava, eu sabia, que o Cálice do Graal
podia curar, e ele fê-lo. Fê-lo.
Depois de tudo o que lhe acontecera, Indy näo vira qualquer
razäo para duvidar. Voltou a lembrar-se do que o velho índio
lhe dissera depois de ter descido da mesa e lhe contar que
vira uma águia. "Agora já sabes que tens dentro de ti o poder
que te permitirá atingir tudo o que procurares, por muito
difícil que seja o desafio.", As águias e o Cálice do Graal. O
cavaleiro e o índio. Era tudo uma grande trapalhada. Mas o pai
estava vivo, e agora conheciam-se como nunca o haviam feito.
Viu que o cavaleiro se aproximava e perscrutava o rosto de
Henry.
- Entäo és tu, irmäo? És tu o cavaleiro que me vem libertar?
- Näo. Sou apenas um estudioso.
O homem fez um gesto na direcçäo de Brody.
- És tu, irmäo?
- Eu? Eu sou inglês.
175
O cavaleiro parecia admirado e encaminhou-se para Sallah,
que levara o nazi para longe dos outros, e continuava a
vigiá-lo. Colocou-lhe a mäo no ombro, aparentemente confiante
de que encontrara o substituto.
- Ah, bom cavaleiro!
Sallah näo compreendeu. Olhou para Indy.
- Ele disse "Bom cavaleiro." - Sallah acenou para o velho.
- Sim sim. Gosto muito de andar a cavalo.
Indy baixou-se e pegou no chapéu, nas luvas, e no relógio de
Henry. Ficou gelado quando, pelo canto dos olhos, viu que Elsa
se aproximava devagarinho do cálice. De repente, deu dois
passos apressados, pegou no objecto com ambas as mäos e
levantou-o.
Olhava como se estivesse em transe. Os olhos fixavam-se nele
com tamanha intensidade, que Indy acabou por compreender que
nada mais lhe interessava verdadeiramente. Nem ele. Nem
oFührer. Nem ninguém. Estava obcecada com o Graal.
Colocando-se à sua frente, o velho cavaleiro distraiu-o.
- Por que razöes estes estranhos cavaleiros aqui vieram -
murmurou -, se näo foi para me desafiar? - Abanou a cabeça,
admirado, e levantou-se quando Indy se pôs de pé.
- Por isto, velho tonto - respondeu Elsa. Apertou o Graal de
encontro ao peito, e precipitou-se para a entrada.
Indy estava prestes a segui-la quando ela parou e se virou.
Estava apenas a alguns passos da entrada, e a luz do fim da
tarde projectava-lhe a sombra nas paredes. Ficou com a
sensaçäo de que ele se apercebera de que, sozinha ali no
deserto, näo chegaria muito longe.
- Já o temos connosco. Vamos.
- Näo! - gritou o cavaleiro. - O Graal nunca poderá sair
deste sítio! Nunca!
Olhava ora para Henry ora para Indy.
- O preço da imortalidade é ter de aqui permanecer.
Indy encarou-a.
- Ouve o que ele diz. Ele sábe. Se o levares para longe do
templo, o Graal passará a ser mais uma taça velha.
- Näo acredito nele.
- Näo pode passar para lá da marca - avisou o cavaleiro,
apontando para um ponto para lá dela.
Elsa deu meia volta e ensaiou alguns passos desafiadores na
direcçäo da entrada.
- Vai pagar caro por isso - disse o cavaleiro.
- Espera - gritou Indy, precipitando-se atrás dela. Ainda se
lembrara bem do que acontecera a Donovan.
- Elsa, espera. Näo te mexas.
Ela aproximou-se de um enorme selo de metal que estava
cravado no chäo, mas näo lhe prestou atençäo. Näo se limitava
a estar impressionada com o Graal. Estava extasiada, e näo
conseguia desviar os olhos dele.
- Elsa! - chegou junto a ela mesmo a tempo, e agarrou-lhe
por um braço. Ela fitou-o com aqueles olhos incrivelmente
azuis e ele sentiu que algo se mexia no seu peito.
- Isto é nosso, Indy - disse ela suavemente. - Nosso. Näo
compreendes? É teu e meu. Já mais ninguém interessa. Donovan
está morto. Havemos de arranjar maneira de o manter longe do
Führer.
Ele abanou a cabeça.
- Isto tem de ficar aqui.
Com um puxäo forte e inesperado, ela libertou-se. Agarrou-se
ao Graal como se fosse uma criança agarrada a um boneco de
peluche, e, em jeito de desafio, pôs os pés em cima do selo.
Depois passou-lhe por cima e saiu do templo.
Passaram dois ou três minutos, depois ouviu-se um som
semelhante a um troväo que se elevou vindo debaixo do templo.
As paredes do desfiladeiro começaram a tremer. æ medida que as
paredes se começaram a desfazer, elevou-se uma nuvem de pó.
Elsa voltou-se, aterrorizada, e deu alguns passos na direcçäo
do templo. Quando o chäo abriu uma fenda aos seus pés, Indy
foi obrigado a afastar-se dela. Virou-se, e viu que um dos
enormes cavaleiros de pedra estava a abanar. Os pilares
balouçavam. Quando um capitel se soltou e quase caiu sobre
ele, foi obrigado a afastar-se.
Henry mantinha um braço por cima da cabeça, tentando
proteger-se das pedras que caíam. Dado que o chäo continuava a
tremer, Brody caiu apoiado numjoelho, e acabou por se
desequilibrar. Sallah pegou em ambos os homens pelos braços, e
afastou-os dos lugares onde se encontravam, no preciso momento
em que um dos pilares ali se abateu. Entretanto, o cavaleiro
subiu as escadas a correr, dirigindo-se para a passagem, para
o seu santuário interior.
Indy fez sinal aos outros para que corressem para a entrada.
Deu meia volta e encarou com Elsa. Esta estava a olhar para
uma das colunas de pedra que näo paravam de abanar, e tinha os
olhos abertos devido ao medo. A terra voltou a deslocar-se, e
ela desequilibrou-se. Deu um salto para a frente, e o Cálice
do Graal caiu lhe das mäos. æ medida que este se afastava
dela, uma enorme fenda dividiu o solo em dois e espalhou-se
pelo templo. Elsa tentava a todo o custo manter-se em pé.
Tinha um pé em cada um dos lados da fenda, a qual aumentava de
largura aos poucos.
A fenda dividiu os degraus que levavam à passagem, e fez que
o cavaleiro caísse. Caiu de costas, e desceu a escada a
rebolar. Uma outra fenda, perpendicular à primeira,
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espalhou-se pelo chäo do templo. Henry balançou como se fosse
um dos pilares, e Brody, que estava ao seu lado, cambaleou
como um bêbado. Sem saber para onde haviam de ir, Sallah e
Indy estavam petrificados. Atrás deles, o cavaleiro subiu os
degraus de rastos.
Os nazis correram para a entrada e saltaram por cima da
fenda onde Elsa tentava equilibrar-se. Nesse mesmo instante,
ela levantou um pé, mas, quando o fez, o solo elevou-se no
preciso local que ela escolhera para se pousar. Desesperada,
estendeu as mäos à procura de um ponto de apoio.
Os nazis estavam na mesma situaçäo. Já quase tinham subido a
inclinaçäo, quando escorregaram e caíram no abismo. Muito
depois de terem encontrado a morte no fundo do precipício, as
paredes ainda ecoavam os seus gritos.
Elsa agarrou-se a uma pedra que saía de um dos lados da
abertura. Por debaixo de si podia ver o Graal, pousado numa
rocha que se destacava da parede da fenda. Em vez de subir e
se afastar do abismo, baixou-se e tentou agarrar o cálice.
Indy compreendeu o perigo em que ela se encontrava, e
atirou-se ao encontro dela. Rastejou alguns metros e estendeu
os braços, gritando-lhe para que se agarrasse às suas mäos. Os
dedos de ambos tocaram-se, depois ele avançou um pouco mais e
agarrou-lhe as mäos, que continuavam a usar luvas. Puxou com
toda a força que tinha,.mas esta näo era suficiente e ele
começou também a ser arrastado.
- Júnior, Júnior - gritou Henry.
- Indy - gritou Sallah.
Enquanto ele a puxava, Elsa soltou uma das mäos. Estendeu-a
na direcçäo do Graal que andava de cá para lá apenas a alguns
centímetros do abismo. Os seus dedos tocaram-no ao de leve,
mas foi incapaz de o agarrar.
- Elsa! - gritou ele. Com a mäo que estava livre, agarrou-se
a uma rocha.
- Posso chegar-lhe - arquejou ela. - Posso.
A mäo que a agarrava começou a escorregar. Ela estendeu-se
mais na direcçäo do cálice e estava prestes a agarrá-lo quando
a luva se soltou da sua mäo. Ficaram ambos agarrados à luva
sem que as suas mäos se tocassem. A luva esticou. Começou a
rasgar-se.
- Indy! - A voz dela era alarmada. - Näo me largues. Por
favor! - A luva rasgou-se um pouco mais.
- Elsa!
Largou a rocha, e tentou agarrar-lhe o pulso. Contudo,
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era tarde de mais. Os dedos dela escorregaram e ela caiu para
trás, para o abismo, para aquele buraco negro que existia no
solo. Os seus gritos ecoaram através do templo.
Indy escorregou, enterrando as mäos na terra numa tentativa
desesperada de näo cair atrás dela. Estava prestes a
despenhar-se na escuridäo quando sentiu que lhe agarravam os
tornozelos.
- Indy ! - gritou Sallah. - Apanhei-te. Vou tirar-te daí
para fora...
- espera. - Esticou-se na direcçäo do Graal, mas ainda
faltava um pouco para lá chegar. - Baixa mais um bocadinho.
- Näo sejas doido, Indy - grunhiu Sallah, fazendo os
possíveis para näo o deixar fugir. Sentia que estava a
avançar, e näo era porque estivesse a descer o amigo para
junto do cálice.
- Só mais um bocadinho - arfou.
- Näo, Indy, por favor!
- Júnior, volta para cima. - A voz de Henry vinha atrás de
Sallah.
- Posso agarrá-lo. Posso lá chegar.
- Indiana.
- Pai? - Era a primeira vez que o pai lhe chamava por aquele
nome.
- Deixa-o cair - disse ele, calmamente.
Indy abandonou o cálice e foi-se apoiando à parede à medida
que Sallah o puxava pelos tornozelos. A terra que ia soltando
caía em cima do Graal. Olhou para ele mais uma vez, mesmo a
tempo de ver o cálice escorregar e cair no abismo junto com
Elsa.
Sallah deu um grunhido final, gemendo em voz alta à medida
que puxava Indy para a borda da fenda. Indy deixou-se ficar de
barriga para baixo, a olhar para aquele buraco escuro que
engolira Elsa e o Graal. A expressäo horrorizada que ela
ostentara ao cair, ficara-lhe gravada na mente. Se tivesse
abismo.
- Estou aqui - respondeu uma voz vinda de ali perto.
feito o mesmo que o pai, se lhe tivesse dito para esquecer o
cálice, era bem capaz de a ter salvo.
Henry colocou-lhe a mäo no ombro. A sua voz revelava que
estava apressado.
- Vamos! Temos de sair daqui.
Indy acenou, pegou no chapéu e olhou mais uma vez para o
Sallah guiou.
- Onde está o Marcus? - gritou Henry, alarmado.
æ sua volta caía cada vez mais lixo. Indy tentou afastar o
sentimento de culpa que o atormentava, a certeza de que a
poderia ter salvo se tivesse tentado um pouco mais, se tivesse
agido de modo diferente. Ao fim e ao cabo, devia-lhe a vida.
Ela salvara-o, dando um pontapé na pistola do soldado,
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e também o avisara de que o homem se preparava para atacar. E
ele tinha falhado.
Contudo, sabia que, pelo menos em parte, ela era culpada da
sua própria morte. Näo se teria ido embora sem o Graal. Nada
mais podia fazer a näo ser atirar a culpa para trás das
costas, e salvar a sua vida. Sabia que era assim que ela teria
querido.
Seguiu os outros, e reparou que o pai parara e estava a
olhar para os degraus. Ele seguiu-Lhe o olhar e viu o
cavaleiro do Graal, impassível, de pé em cima das escadas, a
apenas alguns passos da fenda. A seu lado caíam pedras e
poeira, mas ele parecia näo dar por isso.
O cavaleiro levantou a mäo. Tratava-se de uma despedida. Era
como se estivesse a dizer que a ûltima Cruzada estava no fim,
e que o Graal estava a salvo. Tudo isto fazia sentido para
Indy. Acabara por compreender que o Graal era muito mais que
um cálice antigo e sagrado. Era mesmo mais que um meio para
atingir a imortalidade, e muito mais que uma forma de efectuar
curas milagrosas.
Bebera as águas de ambrósia do Cálice, e sabia o que o Graal
representava. Era a essência de um estado de consciência mais
elevado que existia em si, e em todos aqueles que se dessem ao
trabalho de o procurar. Prometeu a si mesmo que, de ali em
diante, faria o melhor que pudesse com a compreensäo e os
sentimentos que adquirira.
Henry sorriu para o cavaleiro, e acenou.
- Pai.
Indy puxou-lhe o braço e conduziu-o para longe daquelas
enormes pedras que caíam à sua volta, e dos pilares que
estavam no chäo. As paredes estavam a desmoronar-se, e das
fendas elevavam-se jactos de vapor. No entanto, Indy sabia que
conseguiriam escapar. Haviam-no feito até ali. Conseguiriam
dar os últimos passos.
Minutos depois estavam no topo da escadaria exterior. Indy
olhou mais uma vez para dentro do templo e julgou ver ainda o
cavaleiro no cimo dos degraus.
- Henry, Indy. Despachem-se - gritou Brody, já de fora do
templo e montado num cavalo. - Conheço o caminho. Agarrem num
cavalo e sigam-me.
Esporeou a montada. O animal disparou e deu uma volta em
torno deles, quase atropelando Sallah. Brody tentou näo se
desequilibrar, mas acabou por dominar o animal, e partiu a
galope rumo ao des filadeiro.
Henry abanou a cabeça e passou a perna por cima da garupa de
um cavalo.
- É melhor irmos atrás dele. Uma vez perdeu-se no seu
próprio museu.
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- Eu sei.
Henry fez um sinal ao filho.
- Depois de ti, Júnior.
- Sim, senhor - respondeu ele com um sorriso. Já näo se
importava com o que o pai lhe chamasse. A demanda chegara ao
fim.
Näo só para Henry, mas principalmente para Indy.
Bateu no cavalo com as rédeas, e galopou atrás de Brody.
FIM
Quando a leitura se transforma numa aventura
inesgotáve!!
A Caverna do Terror
A Montanha dos Espelhos,
O feiticeiro tem estado a usar o seu poder malévolo para
destruir e aprisionar outros seres. Com a ajuda de Laurus, um
tímido duende, tu e os teus amigos väo ter de viajar através
de perigosas cavernas e túneis para o enfrentarem num combate
sem tréguas.
Vais ser um jovem guerreiro elfo, e tentas desesperadamente
impedir a tua vila de morrer à fome. Terás por isso de
penetrar na misteriosa "Montanha dos Espelhos", onde irás
enfrentar os terríveis monstros que assaltaram as caravanas
que transportavam os mantimentos destinados à tua aldeia.
As Colunas de Pentegarn
Tu e os teus amigos, Fox e Owl, väo viajar até às ruinas do
Castelo de Pentegarn, e aí encontraräo os três aventureiros
que andam no encalce da poderosa Vara dos Reis.
Regresso a Brookmere
Vais ser um príncipe elfo, e terás de regressar às ruínas do
castelo de teu pai para descobrir que forças obscuras o
dominam. Só através da coragem e da inteligêncía poderás
vencer.
Experimenta os diversos caminhos para a aventura com os
livros da Colecçäo Dungeons E Dragons/TM - Aventura sem
Fim/TM.
Cada livro Dungeons Dragons/TM é um convite para uma
inesquecível viagem através do mundo da fantasia ...
15 de Junho de 1998

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